quarta-feira, 20 de maio de 2009

FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA

FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA[i]


PROF. MS. ROGER MOKO YABIKU
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INTRODUÇÃO


Este pequeno texto visa facilitar e sistematizar o estudo da disciplina de Filosofia, sob o enfoque da modernidade e da contemporaneidade, numa tentativa de se trazer o conteúdo mais próximo do cotidiano, associando-o com questões relativas ao modo de pensar ocidental, extremamente influenciado pelas diversas correntes filosóficas. Não há maiores pretensões acadêmicas ou para fins de publicação com este trabalho, portanto, não há o rigor exigido em termos de metodologia científica. Trata-se apenas de um mero recurso auxiliar às aulas proferidas em sala. O curso foi dividido em quatro unidades: I - teoria do conhecimento, II - ciência e método, III - trabalho e alienação e IV - cultura e mass media. Ressalta-se que para o melhor aproveitamento dos estudos universitários – em qualquer disciplina – a primeira opção é a leitura dos livros e os estudos realizados intra e extra-classe.


I. TEORIA DO CONHECIMENTO


A parte da Filosofia que investiga as condições do conhecimento verdadeiro chama-se teoria do conhecimento. Como disciplina autônoma, surgiu na Idade Moderna, com autores como René Descartes, John Locke e David Hume, que estavam preocupados em explicar de maneira explícita e sistemática a origem, a essência e a certeza do conhecimento humano. (ARANHA & MARTINS, 2003, p. 118) Por isso, discorrer-se-á sobre a jornada da separação entre fé e razão, a partir do Renascimento, passando pelos prismas do racionalismo, do empirismo, do iluminismo (Immanuel Kant), do positivismo, do hegelianismo, do marxismo e da Escola de Frankfurt, de modo suscinto, sem maiores aprofundamentos.
Durante o Renascimento (século XIV ao XVI), foram descobertas algumas obras de Platão, desconhecidas durante a Idade Média, e de novas obras de Aristóteles. Essas obras eram lidas, segundo Marilena Chauí (2006, p. 48), em grego, recebendo, posteriormente, traduções em latim, a língua culta da época, como o inglês o é hoje. Nessa época, houve um distanciamento entre fé e razão. Na Idade Média, predominava a fé sobre a razão, pois predominava o domínio cultural da Igreja Católica, que era muito poderosa, chegando mesmo a coroar reis, fundar universidades e organizar Cruzadas à Terra Santa.
Na Idade Média, a visão do mundo era teocêntrica, ou seja, Deus era o centro de todas as coisas. E tudo deveria ser compreendido pela razão. O Renascimento representou uma mudança de visão de mundo. Do teocentrismo, passou-se ao antropocentrismo (o homem como centro das coisas). Retomaram-se os padrões gregos e romanos, seja na filosofia, literatura quanto na arte. O humanismo é a característica, portanto, do Renascimento.
Além da efervescência intelectual, durante o Renascimento ocorreram as grandes navegações, que levaram à descoberta de novas terras, novos povos, permitindo que os europeus pudessem dar um outro olhar para suas próprias vidas. Isso levou a algumas crises, contra a própria Igreja Católica, inclusive, que culminou na Reforma Protestante. A Igreja Católica, por sua vez, contra-acatou a reforma, dando maiores poderes à Inquisição.
Na Idade Moderna (século XVII ao começo do XVIII), procurou-se vencer o pessimismo teórico. Para tal, a filosofia moderna (também conhecida como Grande Racionalismo) propôs algumas mudanças. Em vez de se tentar compreender a natureza e os seus objetos, a Filosofia deveria se preocupar com a reflexão, ou seja com o sujeito do conhecimento. Há também a noção de que a natureza, a sociedade e a política podem ser inteiramente conhecidas pelo sujeito do conhecimento. E, por fim, a realidade seria racional, um sistema ordenado de causalidades físico-matemáticas perfeitas e plenamente conhecíveis pela razão humana. (CHAUÍ, p. 48-49)
A razão, para os filósofos modernos, pode ser utilizada pelo sujeito do conhecimento para não só conhecer a realidade, mas também alterá-la. O homem poderia controlar a natureza, por meio de máquinas, para a satisfação das suas necessidades. Na Filosofia Moderna, destacam-se duas correntes filosóficas: o racionalismo e o empirismo.


1.1 Racionalismo


René Descartes (1596-1650), francês, é considerado por muitos o pai da filosofia moderna. Suas principais obras foram Discurso do Método e Meditações Metafísicas. Descartes constatou que tudo era passível de dúvida, por isso converteu a dúvida em método, passando a questionar o senso comum, os discursos das autoridades, das sensações, dos sentidos, entre outros. Vejam o raciocínio de Descartes: se duvido, penso; se penso, existo. Daí, sua célebre frase “Cogito ergo sum” (Penso, logo existo), que fundamentou toda sua filosofia.
A partir dessa intuição primeira, do ser que pensa, Descartes difirencia outros tipos de idéias, já que algumas são duvidosas, confusas e outras são mais claras. Daí, classificou as idéias em três tipos: a-) idéias adventícias – originam-se das sensações, percepções e lembranças, ou seja idéias de qualidades sensoriais (cor, sabor, odor, som, textura, tamanho, lugar, etc) ou de idéias percebidas por meio dessas qualidades. Geralmente, essas idéias são falsas; b-) idéias fictícias – criadas pela fantasia e pela imaginação. Nunca são verdadeiras; c-) idéias inatas – não derivam da experiência sensorial, nem da fantasia, pois são inteiramente racionais e os seres humanos já nascem com elas. (CHAUÍ, p. 70)
As idéias inatas não são sujeitas a erro, pois são independentes das idéias que vêm de fora, aquelas formadas pela ação dos sentidos, e pela imaginação. Portanto, para o racionalismo cartesiano, a razão e o conhecimento surgem de dentro do indivíduo, e não de fora. Há uma separação entre o material e o “espiritual”. Aquilo que deve ser confiável é somente o que pode ser captado pelo espírito, as idéias inatas.
Qual a importância do racionalismo cartesiano? Ele acentuou o caráter absoluto e universal da razão, que descobre todas as verdades possíveis. A partir do século XVII, buscou-se um ideal matemático, uma matemática universal, uma maneira de se tentar compreender o mundo, as idéias, as coisas totalmente pela inteligência, com ordem e medida. A matemática, então, para o racionalismo, é o modelo perfeito de conhecimento verdadeiro.
A resposta dos britânicos ao racionalismo cartesiano, foi o empirismo, representado principalmente por Francis Bacon, John Locke e David Hume.


1.2 Empirismo


Enquanto o racionalismo rejeita as experiências sensíveis, o empirismo valoriza o experimento no processo do conhecimento. Para os empiristas, a experiência sensível é responsável existência de idéias na razão, controlando o seu próprio trabalho (da razão), pios o valor e o sentido da atividade racional dependem do que é determinado pela experiência sensível. “Para os empiristas, o modelo de conhecimento verdadeiro é dado pelas ciências naturais ou ciências experimentais, como a física e a química.” (CHAUÍ, p. 130)
Para os empiristas, a razão e o conhecimento se formam de fora para dentro do ser humano, por meio da experiência sensível, cujas formas principais são a sensação e a percepção.
A sensação fornece ao ser humano as qualidades exteriores e interiores dos objetos e as qualidades que exercem sobre as pessoas. “Na sensação vemos, tocamos, sentimos, ouvimos qualidades puras e diretas das coisas: cores, odores, sabores, texturas, sons, temperaturas. Sentimos o quente e o frio, o doce e o amargo, o liso e o rugoso, o vermelho e o verde, etc. Sentimos também qualidades internas, isto é, que passam em nosso corpo ou em nossa mente pelo contato com as coisas sensíveis: prazer, desprazer, dor, agrado, desagrado. (...) A percepção seria, pois, uma síntese de sensações simultâneas.” (CHAUÍ, p. 132-133)
Entre os empiristas, vale destacar Francis Bacon (1561-1626), John Locke (1632-1704) e David Hume (1711-1776). Bacon tinha como lema “saber é poder” e sua principal obra foi “Novum Organum”, na qual denuncia os preconceitos e noções falsas, que dificultam a compreensão da realidade. Ele denomina esses preconceitos e noções falsas de “ídolos”, que podem ser de quatro tipos: a-) ídolos da tribo – são da própria espécie humana, quando as percepções fazem analogia com a mente humana e não com o universo; b-) ídolos da caverna – oriundos dos homens como indivíduos, cada um tem uma maneira particular de entender as coisas, o que pode corromper a verdade; c-) ídolos do foro – das relações comerciais e sociais, nas quais os homens se deixam levar mais pela conversa que pelo intelecto; d-) ídolos do teatro – chegam ao homem por meio de doutrinas filosóficas e regras viciosas.” (ARANHA & MARTINS, p. 132-133)
John Locke, em “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, preferiu o caminho psicológico para investigar a origem das idéias, que tem como fontes a sensação e a reflexão. “Sensação é o resultado da modificação feita na mente por meio dos sentidos. A reflexão é a percepção que a alma tem daquilo que nela ocorre. Portanto, a reflexão se reduz apenas à experiência interna do resultado da experiência externa produzida pela sensação.” (ARANHA & MARTINS, p. 133)
Para Locke, a produção de uma idéia simples na mente depende da qualidade do objeto, que provoca algumas percepções sensíveis. Essas qualidades podem ser primárias – que possuem caráter objetivo por existirem realmente nas coisas (solidez, extensão, configuração, movimento, repouso, número) - ou secundárias – que variam sujeito para sujeito (cor, som, odor, sabor). Já as idéias complexas são atadas e desatadas das idéias simples. As idéias complexas são formadas pelo intelecto, assim não tem validade objetiva. São mais como nomes para denominar e ordenar as coisas. “Locke critica a doutrina das idéias inatas de Descartes, afirmando que a alma é como uma tábula rasa (tábua sem inscrições), como uma cera em que não há qualquer impressão, e o conhecimento só começa após a experiência sensível.” (ARANHA & MARTINS, p. 133)
Segundo o escocês David Hume, só se pode observar os fenômenos, pois o mecanismo íntimo do real não é passível de experiência. “O que observamos é a sucessão dos fatos ou a sequência de eventos e não o nexo causal entre esses mesmos fatos ou eventos. É o hábito criado pela observação de casos semelhantes que nos faz ultrapassar o dado e afirmar mais do que a experiência pode alcançar. (ARANHA & MARTINS, p. 134)


1.3 Iluminismo


Na onda do movimento iluminista, o filósofo alemão Immanuel Kant tentou superar a dicotomia entre o racionalismo e o empirismo. Antes, cabe falar do iluminismo em si, um movimento surgido no século XVIII, também conhecido como século das luzes, ou ilustração. O nome é alusivo à capacidade das luzes da razão reorganizarem o mundo, libertando-o da obscuridadade. A revolução científica de Galileu, que também deu substrato ao Renascimento, influenciou a filosofia do iluminismo. “O método experimental recém-descoberto tem a técnica como aliada, fazendo surgir novas ciências, as quais, por sua vez, aperfeiçoam ainda mais a tecnologia. Com o seu poder aumentando, o ser humano não mais se contenta em contemplar a harmonia da natureza: quer conhecer para dominá-la. Por fim, a natureza passa a ser vista de forma dessacralizada, isto é, desvinculada da religião. Tornando-se livre de qualquer tutela, sabendo-se capaz de procurar soluções com base em princípios racionais, o ser humano estende o uso da razão a todos os domínios: político, econômico, moral e religioso.” (ARANHA & MARTINS, p. 134)
Para Kant, essa segurança do poder humano decorre da afirmação da burguesia como classe social dominante. Nesse momento, consolidou-se o sistema capitalista, expresso principalmente pela Revolução Industrial, pelo surgimento da máquina a vapor, que auxiliou a mecanização das indústrias. O iluminismo se alastrou e influenciou toda a Europa, principalmente Inglaterra, França e Alemanha.
Apesar de haver inúmeros filósofos que marcam esse período da história, para fins deste estudo, escrever-se-á brevemente sobre Kant. Em sua obra “Crítica da Razão Pura”, Kant questiona se é possível existir uma razão pura, independente da experiência. Seu método ficou conhecido como criticismo. Para ele, o conhecimento é formado por matéria e forma. “A matéria dos nossos conhecimentos são as próprias coisas, e a forma somos nós mesmos. (...) Para conhecer as coisas, temos de organizá-las a partir da forma a priori do tempo e do espaço. Segundo Kant, o tempo e o espaço não existem como realidade externa, são antes formas que o sujeito põe nas coisas. (...)” (ARANHA & MARTINS, p. 136) De acordo com Kant, não há como se conhecer a coisa-em-si (noumenon), mas somente as suas manifestações, os fenômenos.


1.4 Positivismo


O iluminismo e as obras de Kant influenciaram tremendamente a filosofia da Idade Contemporânea, que se iniciou no século XIX. Numa ponta, surgiram os filósofos materialistas, como alemão Ludwig Fuerbach, e os positivistas, capitaneados pelo francês Augusto Comte. Na outra, os idealistas, como Georg Wilhelm Hegel. Por ora, falar-se-á de Augusto Comte (1798-1857) e o positivismo. No século XVIII, a Revolução Industrial demonstrou que a nova classe social no poder era a burguesia. Ciência e técnica, frutos da razão humana para compreender e transformar a natureza, provocaram também mudanças nos ambientes humanos. Antes da máquina à vapor, por exemplo, o trabalho era predominantemente braçal, ou por tração animal ou eólica. Esse poder-saber – do cientificismo – destacou a ciência como “único método da natureza válido, devendo, portanto, ser estendido a todos os campos da indagação e atividade humanas.” (ARANHA & MARTINS, p. 140)
Diante do cenário cientificista, surgiu o positivismo, cujo principal espoente foi Comte. Para o francês o espírito humano passou por três estados diferentes e consecutivos (lei dos três estados): a-) estado teológico – as explicações para tudo são sobrenaturais, derivam, por exemplo, dos deuses; b-) estado metafísico – forças abstratas, noções absolutas explicam a origem e o destino do universo; c-) estado positivo – devido às ciências, as “ilusões são superadas pelo conhecimento das relações invariáveis dos fatos, por meio de observações do raciocínio que visam alcançar as leis efetivas.” (ARANHA & MARTINS, p. 140)
O estado positivo, portanto, representaria a maturidade do espírito humano. O positivo – aquilo que é posto – mostra aquilo que é real, dá uma certeza, não encontrada jamais, principalmente nas explicações teológicas e metafísicas de mundo. O positivismo tem como modelo a fisica e suas leis invariáveis, que são transpostas dos fenômenos físicos para as relações humanas. Na física, não há liberdade. Por exemplo, todos os corpos são atraídos para o centro da Terra por causa da lei da gravidade. E ninguém está livre disso. Essas leis invariáveis junto aos fenômenos humanos introduz no positivismo o determinismo, quer dizer, o reino da necessidade, no qual se perde a liberdade, sendo o homem determinado pelo meio, pela raça e pela época, como desenvolveria posteriormente Taine, um seguidor de Comte.
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Comte classifica as ciências pela ordem de importância e também cronológica: astronomia, física, química, biologia e física social (sociologia). Ele é tido como o pai da sociologia. No seu entendimento, a sociologia é dominante com relação aos outros saberes científicos. A sociologia de Comte aproveita os modelos da biologia para explicar a sociedade como um imenso corpo. Porém, só algumas pessoas – uma elite como a parte frontal do cérebro mais desenvolvida, capaz de ter maior inteligência e sentimentos morais – dirigiria o restante da sociedade – que deveria ser dominada por não saber controlar sua afetividade, o que causaria desordem. Essa ordem, para Comte, de uma elite dominar os demais era essencial para a efetivação do progresso da humanidade.
O positivismo exerceu grande influência no Brasil, principalmente por meio de Luís Pereira Barreto e do militar Benjamin Constant (um dos articuladores da proclamação da república). Não é à toa que o lema da bandeira brasileira é “ordem e progresso”.


1.5 Hegelianismo


O alemão Georg Wilhelm Hegel (1770-1831) diz que a razão é histórica. Há todo um devir, um vir a ser, um movimento, pois nada seria estático. Usa o princípio da contradição para desenvolver a sua dialética. “Hegel desenvolve novo conceito de história, também dialético: o presente é engendrado por longo e dramático processo; a história não é simples acumulação e justaposição de fatos acontecidos no tempo, mas resulta de um processo cujo motor interno é a contradição dialética.” (ARANHA & MARTINS, p. 143) Cada época, segundo Hegel, era regida por um “Espírito do Tempo” (Zeitgeist). Quer dizer, cada época tinha uma característica peculiar, que a diferenciava das demais.
Partiu do pressuposto de que todo ser já contém em si a semente da sua própria destruição. Há três etapas na dialética: 1 – tese (afirmação), 2 – antítese (negação) e 3 – síntese (negação da negação). O mundo, para Hegel, seria a manifestação da própria Idéia, sendo a história universal a manifestação da razão. O ponto de partida é a Idéia pura (tese). Mas para que a Idéia possa se desenvolver, necessita criar algo que lhe é oposto, a Natureza (antítese) – matéria alienada, ou seja, privada de consciência. Desse conflito, entre a Idéia (tese) e a Natureza (antítese), nasce o Espírito, que é, ao mesmo tempo, pensamento e matéria. A Idéia, então, toma consciência de si por meio da Natureza. Esse movimento dialético se desenrola sucessivamente até atingir o Espírito Absoluto, a síntese final, cuja maior representação estaria na Filosofia.


1.6 Marxismo

Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) utilizaram-se da filosofia hegeliana para formularem sua própria teoria. Para eles, Hegel não conseguiu explicar, com o seu “Espírito”, a vida social da época (século XIX). Houve avanços com o maior controle da técnica e com o maior domínio da natureza e o maior enriquecimento, no entanto, houve escravização maior da classe operária, cada vez mais empobrecida. Marx e Hegel inverteram a dialética de Hegel. E criaram o materialismo dialético. Segundo eles, em vez da Idéia, o movimento é a propriedade fundamental da matéria e existe independentemente da consciência. De acordo com o materialismo dialético a infraestrutura (política e economia) determina a superestrutura (cultura, religião, moral, etc). Quer dizer, as condições materiais cotidianas (relações econômicas) são fundamentais para que se formulem como as relações sociais se desenrolam numa certa sociedade. Assim, quando se mudava a infraestrutura da sociedade, automaticamente o mesmo ocorria com a superestrutura.
Ao se aplicar o materialismo dialético à história, se tem o materialismo histórico, uma explicação histórica por meio dos fatores materiais (economia e política). Na dialética marxista, não se fala da Idéia, mas de fatos materias. Em vez de heróis, está a luta de classes. “Na sociedade contemporânea, baseada no modo de produção capitalista, com emergência da industrialização em grande escala, surge a necessidade do consumo dar vazão aos produtos fabricados: mais ainda, o consumismo resulta do desejo artificialmente produzido de ter muitas coisas para se sentir humano e aceito pelos outros. Portanto, segundo Marx, para estudar a sociedade não se deve partir do que os indivíduos dizem, imaginam ou pensam, mas da forma como produzem os bens materiais necessários a sua vida. Analisando o contato que estabelecem com a natureza para transformá-la por meio do trabalho e as relações criadas entre eles, é que se descobre como produzem sua vida e suas idéias. (ARANHA & MARTINS, p. 145) Marx começa a criticar os rumos tomados pelo iluminismo, prenunciando a crise da razão.


1.7 Escola de Frankfurt

Profundamente influencidos pelos estudos de Marx, Sigmund Freud, Martin Heidegger e Friedrich Nietzsche, pensadores como Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse e Walter Benjamin ampliaram a crítica à razão. Alinharam-se em torno do Instituto para Pesquisa Social, conhecido como Escola de Frankfurt.[iv] Para os frankfurtianos, a crença na ciência e na técnica, de um lado ajudou o ser humano a transformar a natureza com maior facilidade, dominando-a, no entanto, de outro lado, o preço foi muito caro: a liberdade humana. A razão que deveria libertar o homem da obscuridade deixou-o cada vez mais dependente e cego pela indústria cultural e da sociedade de massa. Criticam a racionalidade instrumental. “Trata-se do exercício da racionalidade científica, típica do positivismo, que visa a dominação da natureza para fins lucrativos e coloca a ciência e a técnica a serviço do capital.” (ARANHA & MARTINS, p. 150)
A era da racionalidade inagurada por Descartes sofisticou-se até chegar a Marx (que teve sua versão de “iluminismo”), crendo na força da razão para controle da natureza, e evitar a obscuridão na moral e na política. O ser humano ao ser tratado como parte da massa, em parte devido à separação da racionalidade entre sujeito e objeto, entre corpo e alma, entre eu e mundo, entre natureza e cultura, perdeu a sua individualidade. A emancipação só poderá ocorrer se o indivíduo autônomo, consciente dos seus fins, recupere sua consciência, tornando-se cada vez mais crítico com relação ao mundo e as relações de força que o cercam. O principal representante da Escola de Frankfurt, atualmente, é Jürgen Habermas, autor da “teoria da ação comunicativa”.


II - CIÊNCIA E MÉTODO


2.1 Senso comum x ciência


Num ambiente acadêmico, principalmente, há preocução especial com o conhecimento. Não se aceita qualquer tipo de conhecimento, há primazia do conhecimento científico. A mera opinião, desvinculada de teorias ou embasamento mais rigorosos, é duvidosa, portanto, quase sempre é rejeitada. A opinião pura e simples, via de regra, é associada com o senso comum. O conhecimento mais embasado com o conhecimento científico.
Muitas vezes, o senso comum é adquirido pela vivência, pela tradição oral. É relacionado ao cotidiano, numa tentativa de compreendê-lo, para que se possa atuar no mesmo. O senso comum é constituído de crenças, pois é espontâneo e não crítico.
Não raro, a ciência confronta o senso comum, no intuito de desmistificar preconceitos. Antes da revolução científica do século XVII, o senso comum ajudou a sistematizar o conhecimento. Porém, isso não era o suficiente. Havia uma necessidade de maior certeza que só poderia ser trazida pela ciência.
A ciência é um corpo de conhecimentos organizados e que permite fazer classificações. Necessita de investigações sistemáticas, bem fundamentadas. Geralmente, as explicações científicas baseiam-se em enunciados gerais, os princípios, que explicam diversos fenômenos. Já o senso comum resulta de conhecimento particular, de uma amostra da realidade, que é generalizado, às pressas, gerando imprecisão. A seleção dos dados, nesse caso, não é rigorosa.
O conhecimento científico é geral, pois suas conclusões não valem só para determinados casos observados, mas para todos os que são semelhantes. Já no senso comum, o conhecimento é fragmentário, pois explica somente o caso observado, sem se preocupar com enunciados gerais.
O senso comum é subjetivo, já a ciência é objetiva. Por exemplo, pela pela se pode sentir calor ou frio, cujas sensações variam de pessoa para pessoa. Com um termômetro mede-se objetivamente a temperatura. Assim sendo, as conclusões da ciência, dotadas de objetividade, podem ser verificadas por outros membros da comunidade científica, porque, na medida do possível, há impessoalidade.
A linguagem científica é rigorosa, seus termos são claramente definidos para evitar problemas de interpretação. Quanto mais se utiliza da matemática para transformar qualidades em quantidades, mais precisa é a linguagem.


2.2. Método científico


Galileu Galilei revolucionou a física no século XVII, ao afirmar que a terra girava em torno do Sol e não o contrário. A ciência, tal como se conhece hoje, é algo recente, que tem em torno de 400 anos. Moderna e contemporaneamente, a ciência determina seu método de investigação e cria um método confiável para fazer o controle desse conhecimento. Com isso, se atinge um conhecimento sistemático, com precisão e objetividade, que possa permitir a elaboração de enunciados gerais acerca dos fenômenos.
Como se sabe, há várias ciências. “Cada ciência se torna então uma ciência particular, no sentido de delimitar um campo de pesquisa e procedimentos específicos. As ciências são particulares na medida em que cada uma privilegia setores distintos da realidade: a física trata do movimento dos corpos; a biologia, do ser vivo etc. Recentemente, a partir do século XX, surgem as ciências híbridas, tais como a bioquímica, a biofísica, a mecatrônica, a fim de melhor resolver problemas que exigem, ao mesmo tempo, concurso de mais de uma delas.” (ARANHA & MARTINS, p. 158)
A ciência pretende conhecer as causas do mundo, a sua estrutura causal. Tende à imparcialidade, à autonomia e à neutralidade. Por imparcialidade, entende-se que não se toma partido, pois os dados concluídos foram obtidos por meio de padrões rigorosos de avaliação, por meio de um método preciso e objetivo. Com relação à neutralidade, pode-se dizer que, na ciência, não há valoração moral ou social. Seria neutro por não atender a algum valor em particular, sem servir a interesse específico algum. A autonomia, por sua vez, se refere ao fato de que as instituições científicas deveriam estar isentas de qualquer tipo de influência externa, seja do mercado ou do governo, para produzirem teorias imparciais e neutras.


2.3 Responsabilidade social do cientista


A ciência deveria ser neutra, imparcial e autônoma. Porém, para se produzir ciência são necessários grandes investimentos, principalmente se as pesquisas são desenvolvidas no âmbito empresarial. Essas práticas de controle da natureza, via conhecimento científico, estão nas mãos dos empresários capitalistas. Então, as pesquisas e descobertas científicas servem mais ao individualismo e à propriedade particular que à solidariedade e aos bens sociais. O mercado parece também, com sua mão invisível, manipular a ciência, tornando os homens cada vez mais desiguais.
A neutralidade da ciência então se coloca em cheque-mate diante de tal cenário. O cientista se encontra envolvido numa teia social, política e econômica, na qual dificilmente não será influenciado. “Essas observações nos levam a refletir sobre a formação do cientista, que não deveria se restringir apenas aos conteúdos desse conhecimento, às suas metodologias e práticas de pesquisa. Mais do que isso, é preciso que o futuro cientista tenha condições de examinar os pressupostos desse conhecimento e de sua atividade, de se perceber como pertencendo a uma comunidade e identificar os valores subjacentes à sua prática.” (ARANHA & MARTINS, p. 161)


2.4 Razão instrumental


Como já escrito no tópico relacionado à Escola de Frankfurt, o cientificismo típico do positivismo causou uma intrusão das ciências modernas na vida humana, globalizando e priorizando a razão instrumental, com justificativa de roupagem “técnico-científica”. A dominação da “teoria da ciência” e o seu império determinam a exclusão do ético, já que a “validação intersubjetiva de argumentos limita-se ao campo das ciências formais, lógico-matemáticas, e ao campo das ciências factuais, as empírico-analíticas, da realidade”. Declarado este monopólio do campo do saber objetivo, com validade intersubjetiva, as normas morais estão fora de qualquer consideração. As únicas com pretensão de validade, neste aspecto, são aquelas deduzidas de fatos observáveis. O homem tem de desejar submeter a seu domínio a natureza, por meio de metidos geralmente calcados nas ciências experimentais e na tecnologia, numa relação de controle, previsão e recriação artificial.
Por sua vez, o interesse prático consiste naquele organizar os relacionamentos entre os humanos, implicando numa repressão à sua natureza interna, com normas para regular seus processos de vida em sociedade. “E qual é o papel da filosofia com relação à ciência e suas aplicações? Lembremos dos filósofos da Escola de Frankfurt, que criticaram os mitos da ciência, ao mostrarem que o Iluminismo nos acenou com as luzes da razão e co o progresso delas derivado, nos deixou também as sombras dessas promessas. A ciência e a tecnologia, mesmo que sejam expressões da racionalidade, podem produzir contraditoriamente efeitos irracionais, perversos, já que a razão pode ser posta a serviço da destruição da natureza, da alienação humana, da dominação ou do desprezo pelo sofrimento de grande parte da população.” (ARANHA & MARTINS, p. 161)


III – TRABALHO E ALIENAÇÃO


3.1 Revolução Industrial


A palavra trabalho vem do latim tripalium, um antigo instrumento de tortura. Daí, a associação do trabalho com sofrimento. Trabalho era para os escravos, aos senhores cabia o ócio digno, ou seja, tempo para melhorar o corpo e o espírito. O mesmo se deu em Roma, tanto que a palavra negócio significa negação do ócio.
O ditado popular “todos os trabalhos são dignos” remonta a São Tomás de Aquino. Contudo, como sua doutrina se baseava no greco-macedônico Aristóteles, o doutor angélico valorizou mais o trabalho intelectual que o trabalho braçal.
Com a ascenção dos burgueses, na Idade Moderna, a situação começou a mudar. Muitos dos burgueses foram servos dos senhores feudais. Eram acostumados com o trabalho braçal. Com isso conseguiam acumular certas quantias que lhes permitiam comprar sua liberdade para que, depois, se tornassem comerciantes.
As fábricas surgiram no começo da Idade Moderna, fazendo surgir uma nova classe, o proletariado. As antigas corporações de ofício, nas quais os mestres artesões ensinavam uma profissão aos seus discípulos, sucumbiram ante à nova organização burguesa do mundo, não conseguindo competir com os então novos produtos industrializados.
Muitos desses mestres e seus discípulos, assim como grande parte dos camponeses e demais classes sociais – incluindo nobres empobrecidos, passaram a ser mão-de-obra barata das fábricas. Os proletários (funcionários) vendiam sua força de trabalho em troca de salário. O fruto do trabalho não era mais dos trabalhadores, mas do empresário (o capitalista), que comprava a força de trabalho, vendia a produção e ficava com os lucros.
A revolução industrial acelerou muito a exploração do trabalhador. No século XVIII, com a máquina a vapor, a indústria têxtil, tendo como maior expoente a Inglaterra, aumentou a produção. Fato semelhante ocorreu no campo, que também deixou de ser extremamente rude e artesanal, sendo abarcado igual e paulatinamente pela mecanização.
O homem, no Iluminismo, tinha na razão a salvação contra a obscuridade seja no conhecimento considerado como culto, na política e na moral. Mas o trabalho que deveria ser para transformar a natureza, subjugando-a, no intuito, de favorecer a humanidade, teve consequências nefastas. Essa situação de domínio também serviu para que as pessoas passassem a controlar outras pessoas, sofisticando o sistema de servidão anterior.
No século XIX, houve progresso econômico, científico e tecnológico, causando certa abundância e crença num futuro melhor. Por outro lado, não houve melhorias nas condições de vida, já que a exploração dos trabalhadores pela burguesia foi levada quase que ao extremo, já que naquela época, por exemplo, não existiam direitos trabalhistas. Com resposta a esta situação, surgiram os movimentos socialistas e anarquistas.


3.2. Taylorismo e Fordismo


Antes da supremacia da fábricas, o trabalhador conhecia todas as etapas da produção, sendo senhor por completo desse processo. Com o advento da industrialização em massa, isso se modificou. A divisão do trabalho era cada vez mais complexa. Uma pequena parte do pessoal inventava o produto e o seu processo de produção, outra parte gerenciava a produção. E a maioria dividida em grupos produzia. Ou seja, cada grupo produzia uma parte, assim, dificilmente uma pessoa saberia dizer como funcionaria cada etapa da produção.
O norte-americano Frederick Taylor (1856-1915), com seu livro “Princípios de administração científica”, estabeleceu parâmetros científicos para racionalizar a produção. Esse método, o “taylorismo”, pregava a maior produtividade no menor tempo possível, subtraindo os gastos desnecessários do processo produtivo, maximizando a utilização da máquina e dos movimentos humanos.
Com base na linha de montagem de automóveis que criou, Henry Ford (1863-1947) dividiu ainda mais o trabalho, inaugurando o “fordismo”. O sistema teve sucesso no século XX nos Estados Unidos e não se restringiu ao ambiente industrial. Esse jeito de pensar e conceber o mundo – como uma imensa linha de montagem – se expandiu e abarcou empresas, os esportes, a medicina, as escolas e até mesmo a seara doméstica. Por exemplo, os eletrodomésticos são feitos para economizar o tempo e maximizar o trabalho da dona-de-casa.
Para Taylor, o trabalhador era “preguiçoso” por natureza. Assim, fazia movimentos inadequados no trabalho e se “desligava” facilmente. Analisou como trabalhavam, modificou seus movimentos de modo a otimizar a produção. Observou que se dividisse e parcelasse o processo produtivo, haveria maior rapidez no trabalho. Os novos chefes, os gerentes, substituíam os feitores das fazendas de escravos e os capatazes do sistema de servidão. Os gerentes eram encarregados de treinar os trabalhadores e vigiá-los. Os bons funcionários eram recompensados. Os indolentes, punidos. Ao se ver a expressão “funcionário do mês”, ou algo do tipo, há de se fazer conexões com o pensamento de Taylor: usar o sistema de recompensa e punição, respectivamente, para quem otimiza a produção e para quem a prejudica.


3.3 Alienação


Marx escreveu que, com a divisão do trabalho e a acentuação da propriedade privada dos meios de produção, o produto do trabalho deixou de pertencer a quem o produziu. Há alienação, pois o trabalhador transfere para outrem (o empresário) aquilo que é seu. Nesse ínterim, o trabalhador perde o centro de si mesmo, sendo controlado em todo o processo produtivo.
Ocorre, segundo Marx, o fetichismo da mercadoria e a reificação do trabalhador. Fetichismo da mercadoria ocorre ao se dar demasiado valor ao produto. O valor da mercadoria (valor de troca) no mercado se torna maior que os valores de uso (o que vale pela sua utilidade), influenciando sobremaneira as relações humanas.
A mercadoria passa a valer mais que as pessoas. Vale o que a pessoa tem e não o que a pessoa é. A mercadoria é “humanizada” e a pessoa é “desumanizada”. A pessoa vira mercadoria e a mercadoria adquire o status de pessoa.
[v]
Na alienação na produção, a intensa burocratização das organizações dá a todo o processo e ao sistema uma imagem de neutralidade e de eficácia, como se estivessem fundamentados num saber objetivo, neutro, desinteressado. Mas, na verdade, é uma técnica de controle social. O homem é formatado, coisificado, como se fosse mais uma peça da imensa engrenagem da fábrica.
O taylorismo, em vez de usar a violência física, utiliza formas de domesticação sofisticadas, deixando o trabalhador dócil e submisso. “É um sistema que impessoaliza a ordem, que não aparece mais com a face de um chefe que oprime, diluindo-a nas ordens de serviço vindas do setor de planejamento. Retira toda a iniciativa do operário, que cumpre ordens, modela seu corpo segundo critérios exteriores, científicos, e cria a possibilidade da interiorização da norma, cuja figura exemplar é a do operário-padrão, até um certo tempo atrás objeto de prêmios e modelo a ser seguido por todos. Ainda hoje o recurso a gratificações e promoções para se obter índices cada vez maiores de produção gera a caça aos postos mais elevados na empresa e estimula a competição em vez da solidariedade. A fragmentação dos grupos e do próprio operário facilita ao dono da empresa o controle do produto final.” (ARANHA & MARTINS, p. 46)
A alienação na produção se deu tanto no capitalismo quanto no socialismo real. Na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), Vladimir Ilitch Ulianov, o Lênin, também racionalizou a produção, sob a o pretexto de que os frutos da produção não iriam para o capitalista, mas para o Estado, já que a propriedade privada foi eliminada em 1917, com a Revolução Russa. O resultado foi a burocratização do próprio Estado e, tal como no capitalismo, houve a “coisificação” do trabalhador.
Mesmo sob o manto da objetividade científica, entre aspas, a racionalização do trabalho tinha em si uma irracionalidade, pois deixou o homem vazio, relegando a segundo plano seus sentimentos, emoções e desejos. “As pessoas que aparecem nas fichas do setor pessoal são vistas de modo impessoal, sem amor nem ódio. O burocrata-diretor torna-se um profissional que as manipula como se fossem cifras ou coisas.” (ARANHA & MARTINS, p. 47)
Com a ampliação do setor de serviços, aumentou-se a chamada classe média. Novas profissões surgiram, abrigando mais executivos e burocratas. Acentuou-se o individualismo e a competição predatória, deixando o ser humano mais fechado em sua dimensão privada, já que não se importava mais com as questões públicas, pois estas não estariam afeitas ao seu trabalho. Os indivíduos buscavam cada vez mais a satisfação imediata, personificada no hedonismo, ou seja uma cultura focada no prazer e no lazer, já que no trabalho essa alegria seria impossível. Agora, a alienação se dá no nível do consumo.
Na alienação no consumo, os trabalhadores ao conseguirem algum progresso material partilham o espírito capitalista. O consumo é uma atividade humana natural para a satisfação das suas necessidades. Porém, no capitalismo, por diversas vezes, o ser humano é induzido a comprar coisas ou serviços que nem sempre compraria se estivesse mais consciente. “A produção em massa tem por corolário o consumo de massa. O problema da sociedade de consumo é que as necessidades são artificialmente estimuladas, sobretudo pelos meios de comunicação de massa, levando os indivíduos a consumirem de maneira alienada. (...) O consumo se torna alienado quando passa a ser um fim em si e não um meio, criando dessa forma desejos nunca satisfeitos, um sempre querer mais, um poço sem fundo. A ânsia do consumo perde toda relação com as necessidades reais, o que faz com que as pessoas gastem sempre mais o que tem.” (ARANHA & MARTINS, p. 47-48)
O que ocorre com a população de menor poder aquisitivo? Como ela não se revolta porque não consegue comprar aquilo que vê na televisão e outros meios de comunicação? O capitalismo proporciona ilusões de mobilidade social, pelo trabalho e pelo estudo. Caso isso não ocorra, foi por falta de sorte, incompetência ou algo do tipo. As telenovelas participam de modo marcante nesse tipo de alienação. Outra fantasia comum é a de ganhar na loteria. Outro meio de se tentar suprir a ânsia de consumo por produtos caros é a manufatura de produtos de menor preço e qualidade, semelhantes ao utilizado pela “madame” ou artista de telenovela, que possam ser comprados pela camada menos favorecida. O ser humano fica preso na dimensão do consumo, de que o consumo lhe trará a felicidade. E se perde a liberdade.
Se a produção e o consumo são alienados, também é o lazer. As pessoas vivem estressadas, pois seus trabalhos são mecânicos e repetivivos. Suas mentes estão tão “pesada”, que buscam tipos de diversões estimulantes ou mesmo violentas, para tentarem “sentir” alguma coisa, já que, em vida, parecem quase mortos, zumbis das linhas de produção ou das cadeias de prestação de serviço. Na alienação do lazer, a publicidade é decisiva na direção das escolhas, modismos e programas.
Quem tem mais dinheiro, gasta com boliche, patinação, danceterias, restaurantes, barzinhos específicos, conforme o modismo da época. Mas e quem não dispõe desses recursos financeiros? “Resta lembrar, ainda, que as cidades não oferecem infra-estrutura que garanta aos mais pobres a ocupação do seu escasso tempo livre em atividades gratuitas: lugares onde ouvir música, praças para passeios, várzeas para o joguinho de futebol, clubes populares, locais de integração social espontânea. Essa restrição torna muito reduzida a possibilidade do lazer ativo, não-alienado, ainda mais se lembrarmos que as pessoas se encontram submetidas a várias formas de massificação pelos meios de comunicação.” (ARANHA & MARTINS, p. 49)
Se a pessoa não tem possibilidade econômica de escolher o seu lazer, não há como se participar ativamente na construção do seu lazer. Não há reformulação da experiência, nada se acrescenta, pois se reforçam comportamentos mecanizados.


3.4 Sociedade pós-industrial


No século XX, surgiu a sociedade pós-industrial, caracterizada pela ampliação do setor de serviços (terciário). Muda-se o enfoque da produção para a informação e para o consumo. Muita gente trabalha no escritórios, em vez das fábricas, ou dos campos. Há necessidade de um tipo de comunicação mais veloz e mais eficiente, como os telefones celulares e a internet, por exemplo. Com isso, se permite que algumas pessoas possam trabalhar em casa (teletrabalho). Esses trabalhadores dispõem de maior flexiblidade de horárioe maior autonomia, não precisam bater cartão ou ficarem em locais fixos. Podem fazer seu serviço na própria residência.
Algumas empresas passam a se preocupar com formas mais saudáveis de relacionamento, visando ética, compromisso e qualidade de vida. Mas essas preocupações estão alinhadas com o capitalismo, com intuito sempre de lucro. Ampliam-se também a quantidade de organizações não governamentais (ONGs), que não são nem do governo, nem empresas privadas, mas uma forma de uma entidade privada atuar com funções públicas. As ONGs sobrevivem de doações e, geralmente, abraçam causas públicas e coletivas.


IV – CULTURA E MASS MEDIA


Com o Romantismo, a partir do século XVIII, houve uma onda de nacionalismo nos países para reforçar o sentimento de unidade dos países. Falava-se em em tradições populares, em cultura de um povo, ou como diria Georg W. Hegel, em “volksgeist” (espírito do povo). Daí, a idéia de um folclore, uma cultura e uma arte popular, decorrentes das tradições de um povo. Na época, muitos Estados Nacionais começaram a se firmar, principalmente, pela unidade territórial e política e de idioma. O nacionalismo servia para expressar essa “febre do momento”, porém, esse movimento também trouxe em si a fragmentação das classes sociais típicas do capitalismo.


4.1 Cultura popular x cultura de massa


Na época do Romantismo, houve a ascenção da burguesia como classe social predominante, constituída de pequenos e grandes proprietários, funcionários públicos e intelectuais, tendo como massa o proletariado (trabalhadores das indústrias e do campo). Essa divisão em duas principais grandes classes sociais trouxe algumas características importantes, segundo Marilena Chauí (2006, p. 289): “1. a cultura e as artes foram distinguidas em dois tipos principais: a erudita (ou de elite), própria dos intelectuais e artistas da classe dominante da sociedade, e a popular (ou ingênua), própria dos trabalhadores urbanos e rurais; 2. quando pensadas como produções ou criações coletivas vindas do passado nacional, formando a tradição nacional, a cultura e arte populares receberam o nome de folclore, constituído de mitos, lendas e ritos populares, danças regionais populares, artesanatos, etc; 3. a arte erudita ou de elite passou a ser o conjunto das belas artes produzidas ou criadas no presente por artistas individuais, que se dirigiam a um público majoritariamente burguês, isto é, escolarizado, instruído e endinheirado, consumidor de obras de arte.”
Embora houvesse uma nítida divisão de classes sócio-econômicas para distinguir cultura popular e cultura erudita, a distinção levou em conta o processo de elaboração de cada uma delas, assim como a sua qualidade. Dizia-se que a arte popular era mais simples e menos complexa que a arte erudita, mais sofisticada quanto à forma e conteúdo. A popular era mais repetitiva e tradicional, já a erudita, de vanguarda e futurista. Quanto ao público, a autoria geralmente é desconhecida e artista e audiência são praticamente os mesmos, com relação à erudita, há sempre distinção entre o artista (criador) e a audiência (consumidores). O artista popular busca inspiração no seu ambiente, na sua vida, que é o mesmo do seu público, o que facilita a compreensão da sua obra. Na erudita, o artista não tem sua obra compreendida de imediato porque só entendidos no assunto a entendem, pois é carregada de novos meios de expressão.
Com o desenvolvimento da sociedade industrial, cada vez mais os trabalhadores saíram do campo para se fixarem nas cidades. Começaram a morar nas periferias, deixando para trás sua cultura e arte, originais das suas terras de origem. Mas nos seus bairros e locais de trabalho, junto aos familiares, novos vizinhos e colegas de serviço, construíram uma cultura própria, também conhecida como cultura popular. Mas também viraram consumidores de produtos industriais produzidos em larga escala, réplicas de qualidade e preço inferior das criações da cultura e da arte de alite, a cultura e a arte de massa.
Hoje, as artes podem ser classificadas em: “folclore (as tradições coletivas nacionais populares), popular (as criações dos artistas que pertencem à classe trabalhadora, erudita ou de elite (as criações complexas e de vanguarda de artistas individuais que se dirigem a um público restrito) e de massa (financiada por empresas que fazem tanto as reproduções simplificadas das obras da arte erudita como também compram para produção em escala industrial as obras de artistas individuais e as destinam ao mercado de consumo em larga escala).” (CHAUÍ, p. 289)


4.2 Indústria cultural e cultura de massa


A sociedade industrial permitiu a reprodução em larga escala de diversos itens da cultura e arte. De um lado, segundo o filósofo frankfurtiano Walter Benjamin, isso permitiria que mais pessoas tivessem acesso aos bens culturais e artísticos. Isso seria uma democratização cultural e artística, pelo potencial de divulgação, principalmente, dos livros, artes gráficas, fotografia, rádio e cinema. Um dos exemplos do potencial libertador da cultura foi a impressão da Bíblia traduzida para o alemão por Martinho Lutero, impressa por Gutenberg, que inspirou outras impressões do livro sagrado para diversos idiomas. Democratizou-se a leitura da Bíblia, com isso, os camponeses alemães e holandeses passaram a questionar seus governantes, pois verificavam, por si mesmos, que estes não seguiam fielmente o que estava nas escrituras.
No entanto, outro grupo de pensadores da Escola de Frankfurt, especialmente Max Horkheimer e Walter Benjamin, examinaram uma questão até então ignorada. Com a inauguração da sociedade pós-industrial, as artes e a cultura se libertaram da religião, mas eram profundamente influenciadas pelo mercado capitalista e pela ideologia da indústria cultural. “A expressão indústria cultural significa que as obras de arte são mercadorias, como tudo o que existe no capitalismo. (...) Sob o poderio das empresas capitalistas, as obras de arte verdadeiramente criadoras, críticas e radicais foram esvaziadas para se tornarem entretenimento; e outras obras passaram a ser produzidas para celebrar o existente, em lugar de compreendê-lo, criticá-lo e propor um outro futuro para a humanidade. A força de conhecimento, crítica e invenção das artes ficou reduzida a algumas produções da arte erudita, enquanto o restante da produção artística foi destinado a um consumo rápido, transformando-se em sinal de status social e prestígio político para artistas e seus consumidores e em meio de controle cultural por parte dos empresários e proprietários dos meios de comunicação de massa.” (CHAUÍ, p. 290-291)
A ação da indústria cultural é devastadora e opera silenciosamente nas consciências. Ela vulgariza as informações, fazendo com que as pessoas percam a perspectiva crítica. Há uma diferença muito grande entre democratização da cultura e a massificação cultural. Na democratização cultural, a cultura e a arte são direito de todos e não privilégios de alguns. Na massificação da indústria cultural, separa-se os bens em obras caras e obras baratas. Os bens caros são os acessíveis à elite. Os baratos, os dirigidos à massa dos trabalhadores. Divide-se a população entre a que tem maior poder aquisitivo, elite culta, e a de menor poder aquisitivo, a massa inculta. Há uma ilusão de que todos os bens culturais estão disponíveis para todas as classes sociais, tal como num supermercado. Ora, sabe-se que os bens num supermercado estão à venda para todos, mas nem todos podem comprá-los. “A indústria cultural vende cultura. Para vendê-la, deve seduzir e agradar o consumidor. Para seduzi-lo e agradá-lo, não pode chocá-lo, provocá-lo, fazê-lo pensar, fazê-lo ter informações novas que o perturbem, mas deve devolver-lhe, com nova aparência, o que ele já sabe, já viu, já fez. A ‘média’ é o senso comum cristalizado que a indústria cultural devolve com cara de coisa nova.” (CHAUÍ, p. 292)


4.3 Os mass media e a informática


Os meios de comunicação de massa (mass media) como o rádio, a televisão, os jornais, as revistas e, hoje, a internet exercem função primordial na difusão de informações. Se de um lado favorecem a divulgação cultural, de outro suas potencialidades são utilizadas pela indústria cultural. Há invasões culturais, nas quais a cultura de um País pode sobrepujar a dos demais, num exemplo gritante de imperialismo cultural. A publicidade (alguns dizem propaganda comercial) dirigida ao público consumidor fornece explicações simplificadas e elogios exagerados sobre os produtos, com mensagens curtas e facilmente recordáveis (slogans), garantindo que o comprador terá igualdade com os demais pares se cmoprar o produto e, ao mesmo tempo, se diferenciará dos demais.
A publicidade reforça os valores de uma comunidade e ainda desperta desejos do consumidor. Com o maior desenvolvimento científico e tecnológico, os produtos, assim como as pessoas, passaram a ser cada vez mais descartáveis. Portanto, criam-se novos produtos e novos serviços, divulgados pela publicidade nos meios de comunicação, como superiores aos seus modelos anteriores e aos dos seus concorrentes. Com a concorrência acirrada, a publicidade atingiu novos patamares, de maior requinte, vendendo, além dos produtos, as ilusões de sucesso, prosperidade, segurança, beleza, juventude, sex appeal e felicidade.
Além disso, apresenta produtos ou serviços como maneira de o consumidor realizar desejos que não pode realizar na vida cotidiana, como uma viagem ao exterior, experiências sexuais com mulheres exóticas, liberação feminina, etc. “De fato, como todos os indivíduos são mercadorias que consomem mercadorias, a propaganda passa a estimular imagens de indivíduos vencedores na competição instituída pelo mercado de trabalho: roupas, calçados, bolsas e pastas de grife, sabonetes, perfumes e desodorantes que sugerem requinte e glamour, cosméticos de marcas famosas, etc., passam a constituir o próprio corpo do indivíduo, formam sua imagem como uma espécie de segunda natureza ou de máscara colada em sua pele.” (CHAUÍ, p. 295-296)
Os meios de comunicação que mais se destacam, na indústria cultural, são o rádio e a televisão, pois vendem entretenimento e lazer em forma de informação. Com estudos mercadológicos, a programação é divida em públicos A, B, C e D, segundo o poder de consumo, e as ocupações (dona-de-casa, operário, executivos, etc), para que os anunciantes possam escolher os melhores horários para veicularem suas mensagens publicitárias, de acordo com públicos-alvo específicos. Essa regra, porém, não é absoluta. Empresas podem anunciar produtos em programas não relacionados num primeiro momento com seu público-alvo, na intenção de captar uma clientela de modo indireto. No entanto, percebe-se que pode haver influência do anunciante no conteúdo dos programas, como nos jornalísticos. O poder do anunciante pode também ser verificado nas telenovelas e programas de auditório, em geral.
Os programas jornalísticos oferecem uma avalanche de informações como se fossem todas reais, verdadeiras e legítimas. As informações são ligeiras e acabam, em vez de informar, por desinformar o público. A simplificação demasiada proporciona a dispersão da atenção e a infantilização das pessoas. Atividades que exigem maior atenção não são mais atrativas, pois o público já se acostumou com a formatação proporcionada pelas telenovelas e demais programas de televisão. Uma aula, por exemplo, que exige maior atenção não chama tanto atenção quanto um espetáculo. E os intervalos das aulas são como se fossem os intervalos comerciais, tornados tão necessários para que as pessoas voltem a recobrar a capacidade de atenção.
A informática proporcionou maior aproveitamento das capacidades intelectuais do ser humano, economizando-lhe tempo e demais tipos de esforço. Na primeira revolução industrial, o trabalho do corpo era otimizado por meio das máquinas. Hoje, com a informática, é o trabalho intelectual que é otimizado. Essa facilidade comunicativa aumentou a velocidade das transformações e das transações econômicas. O ditado “tempo é dinheiro” nunca foi tão verdadeiro quanto agora. Quem se imagina sem internet ou e-mail hoje?
Há, ademais, alguns comentários acerca do potencial difusor de informações proporcionados pelos computadores e pela internet. Ao mesmo tempo que ela inclui as pessoas e as torna mais próximas, ela distancia as que não tem conhecimento de informática, por mínimo que seja, deixando-as mais alienadas e longe do mercado de trabalho e de outros relacionamentos mais qualificados. Verifica-se, atualmente, o fenômeno do analfabetismo digital. Ou seja, daqueles que não sabem se comunicar ou utilizar computadores ou aparelhos mais sofisticados. São esses alguns dos paradoxos da tecnologia.

V – BIBLIOGRAFIA


ARANHA, M. L. de A.; MARTINS, M. H. Filosofando. 3. ed. rev. São Paulo: Moderna, 2003.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2006.

[i] Material elaborado para a disciplina de Filosofia.
[ii] Bacharel em Comunicação Social - Jornalismo, bacharel em Direito, formado pelo Programa Especial de Formação Pedagógica de Professores de Filosofia, especialista (MBA) em Comércio Exterior, especialista em Direito Penal e Direito Processual Penal e mestre em Filosofia Ética.
[iii] Alguns autores, inclusive, utilizaram o determinismo para justificar teorias racistas que influciaram sobremaneira o modo de pensar ocidental, dando-lhe ares de cientificismo. No Brasil, por exemplo, pregou-se o estímulo da imigração européia nos séculos XVIII e XIX para se “branquear” a população brasileira, evitando-se a sua degeneração. À época, a população era em sua maioria de mestiços. O modelo ideal de raça superior era a européia. Um dos principais artífices dessa ideologia foi o baiano Raimundo Nina Rodrigues, profundamente influenciado pelas teorias do Conde de Gobineau.
[iv] As teorias dos frankfurtianos eram avançadas para a época, tanto que muitos dos autores (também de origem judaica) foram perseguidos pelo regime nazista de Adolf Hitler. Durante algum tempo, os autores se refugiaram em outros países. Por um período a Escola de Frankfurt teve de se alojar nos Estados Unidos. Atualmente, sua sede retornou a Frankfurt, na Alemanha.

sábado, 29 de novembro de 2008

Aos estudantes de Direito

O escritor italiano Dante Alighieri, uma vez, escreveu: “Jus est reallis ac proporcionalis hominis ad hominem proportio, quae servanta servat societatem, corrupta, corrumpit.” Ou seja: “Direito é uma proporção real e pessoal de homem para homem, que conservada conserva a sociedade, corrompida, corrompe-a.”
Pois bem. Estamos a todo momento diante de uma encruzilhada, na qual escolhemos caminhos. Nós escolhemos passar cinco anos nos bancos de uma faculdade para melhorarmos de vida. Não resta dúvida disso. Mas creio que isso não é um fim por si mesmo. Por que escolhemos estudar Direito? Porque, de certa forma, somos inconformados com a injustiça que permeia nossa realidade. Quem de nós nunca sofreu uma injustiça? Creio que todos nós, neste salão, já nos sentimos violados uma vez ou outra. Acredito também que optamos estudar Direito porque desejamos transformar essa realidade, pois não concordamos com a perversidade do sistema que faz com que poucos tenham muito e muitos tenham quase nada. Todos nós já engolimos sapos. E vamos engolir muito mais sapos ainda. Por que isso ocorre?
A Constituição pode validar todo o ordenamento jurídico, mas enquanto seus princípios, objetivos e fundamentos permanecerem só no papel – como requisitos meramente formais de um regime democrático – sem quaisquer indícios de transformação ou contenção da desigualdade social, podemos falar somente de legalidade, em termos de Direito, mas não de justiça.
O símbolo da justiça é uma senhora vendada, com uma balança diante de si. Isso simboliza a imparcialidade que deve guiar a justiça. Porém, nós não devemos nos portar como cegos diante do que vemos e do que sentimos. Se fecharmos os olhos para o que a realidade nos apresenta, não estaremos nos valendo da imparcialidade. Estaremos sendo covardes, pois seremos omissos com relação a causas maiores que dizem respeito a toda humanidade.
Aprendemos também que o Direito é uma técnica de controle social. E a técnica na era da razão instrumental, que trata a tudo e a todos como meios para atingir seus objetivos, não leva em consideração necessariamente a ética. Portanto, senhoras e senhores, o Direito não deve ser utilizado somente como uma técnica insensível aos clamores populares e à realidade material. Se assim o for, o Direito que deveria nos proteger nos fustigará com um grau de violência tão sofisticada, que a apatia que aprisiona nossos corações nos congelará por completo. E seremos nada mais do que peões a serviço de um sistema perverso que se perpetua com o uso do Direito para a manutenção do “status quo” e da ordem social tal como ela se apresenta, pela proteção exacerbada da propriedade privada.
É injusto dizer a outro homem (nascido na pobreza, que não teve acesso a um bom sistema educacional, a um sistema de saúde de qualidade, a oportunidades de empregos melhores remunerados, que recebe rendimentos praticamente suficientes somente para a sua subsistência e dos seus familiares) que siga estritamente os trâmites legais, porque não estaríamos dialogando como seres livres e iguais. Estaríamos fomentando uma injustiça. Não fazemos apologia de uma revolução ou de uma desobediência aos institutos de Direito, que isto fique bem claro. Apenas contextualizamos que, antes de tudo, o homem precisa sobreviver fisicamente, não passar necessidades e se desenvolver intelectual e moralmente para não ser escravo das contingências. Os milhares de cidadãos carentes têm assegurados constitucionalmente suas liberdades e direitos básicos, mas não há condições do seu exercício efetivo. De que adianta?
Somente poderemos falar de justiça quando nenhum homem continuar escravo das necessidades sociais e econômicas, alheias à sua vontade, que violam a dignidade intrínseca do seu ser. Quando todos tiverem um mínimo social que lhes permita o exercício efetivo dos seus direitos e liberdades básicas, amparados por um conjunto de instituições justas in concreto, poderemos dialogar e deliberar como seres livres e iguais, com o mesmo peso nas mesas de negociações políticas. Por enquanto, numa sociedade como a brasileira, a justiça é tida como uma ordem que serve para manter uma certa estrutura social, que segura os pedaços da sociedade, para que o todo não desmorone, em vez de se repensar e se implementar um novo esquema institucional que resolva os problemas em suas raízes. A justiça é algo muito mais do que isso, como pudemos comprovar.
Então, senhoras e senhores. Aqui da Tribuna, vejo suas cicatrizes interiores e exteriores, assim como as minhas, nos seus rostos castigados pelas saraivadas do tempo e pelas emboscadas da vida. Mesmo assim, continuamos a vagar, apesar de sabermos que boa parte dos nossos não será realizada. A maturidade nos faz ter uma noção mais verossímil da realidade, de tal maneira que deixamos para trás nossa ansiedade juvenil de querer abraçar o mundo.
Estamos vivos, no meio do turbilhão de vozes discordantes, e imersos no estado de natureza, paulatinamente domesticados pelo que chamamos de civilização ordenada pelo Direito. Nossa natureza é selvagem, instintiva e, por vezes, cruel. Sem os cerceamentos da moral, somos indolentes como bestas insaciáveis. A ética só passa a existir quando entra em cena o outro e o respeito que adquirimos pelo semelhante – via cultura e educação, transmitidas pelas formas simbólicas da linguagem.
As nuances de uma infinita luta – entre corpo e alma, matéria e sublime, amargo e doce, entre os fragmentos da essência e da existência – influenciam nossas decisões. Nesta dissonância, ponderamos sobre como vamos acertar nossas vidas, ao longo das contradições. Mas nem sempre fazemos aquilo que é mais adequado. Este é o preço do nosso livre-arbítrio: a incerteza e a responsabilidade da escolha.
Quando tomamos um caminho indesejado, sem que haja recursos para anular a partilha, temos que aprender a ser felizes assim mesmo, pois o retorno é muito mais doloroso. Um contínuo crescente das conseqüências dos nossos atos nos faz ter a sensação de que tudo se repete, como um eterno retorno. Estaremos presos, ou apenas agoniados com o retumbar daquilo que nos desagrada?
Quantas vezes pisamos nas nossas convicções pela força coercitiva da coletividade, personificada na opinião pública ou no Estado, e pelo medo do que pensariam de nós? Se nos sentimos traídos pelas instituições e pelos representantes que deveriam nos proteger é porque, no fundo e em certo ponto, traímos a nós mesmos e nos tornamos escravos do comodismo do nosso fanatismo ou do fanatismo do nosso comodismo.
As instituições hão de ser remodeladas, ou reconstruídas, para que voltem a servir novamente a humanidade, em vez de serem de camisas de força empregadas pelos partidos políticos para aprisionar os que não têm noção do seu poder. Por estes motivos, o poder que emanou do povo deve retornar ao povo, sem porta-vozes ou intermediários, para que o Direito recupere sua dimensão democrática de fato e não meramente formal.
Se todos nós tivermos um mínimo de noção de que nossos atos conjuntos podem transformar o mundo, as coisas seriam muito diferentes e os falatórios evasivos perderiam sua força. Sem as ditaduras – do discurso, da burguesia ou do proletariado -, a dialética seguiria seu fluxo contínuo, pois tudo evolui e nada é estático: chega de fronteiras retóricas vangloriando um ou outro grupo.
Esforços reunidos em torno de um acordo geral de vontades nos garantirão meios para que tenhamos uma estrutura básica, incluindo no seu bojo instituições justas, com igualdade de oportunidades para todos. O filho do lixeiro e o filho do presidente da República terão acesso igual a um sistema educacional eficiente e a uma série de bens básicos, que lhes permitirão escolher um plano racional de vida.
Cada qual escolherá a carreira mais adequada, conforme sua vontade e não por imposição da necessidade, porque a sociedade e suas instituições serão pautadas pela justiça. Ninguém – os imbecis coletivos, as elites ou os discordantes – usará as outras pessoas como meios para seus objetivos de conquista do poder, pois as pessoas serão reconhecidas, em princípios estruturais, como fins nelas mesmas e, portanto, suas autonomias serão respeitadas desde o nascimento até a sua morte.
A mentira e a manipulação da opinião pública serão banidas por serem assassinas da inviolabilidade da dignidade intrínseca de cada ser humano, que é estruturada nas liberdades de consciência e de pensamento; não haverá mais lugar para alienação – de direita ou esquerda – nesta sociedade bem organizada. Por isso, senhoras e senhores, quando sairmos por aquela porta, devemos ter em mente que nosso aprendizado e nossa missão não se completaram nestes cinco anos de academia. Caso contrário, meus amigos, todos esse conhecimento adquirido terá sido em vão. Portanto, esta missão de buscar e implementar uma sociedade mais justa e igualitária continuará por todos os dias das nossas vidas. Quando este dia chegar, em que o Direito coincidir em definição e práticas com a Justiça, seremos todos livres. E isso não será somente mais um discurso.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Araucaria angustilofolia

Quando o asfalto da rodovia atinge o Estado do Paraná e o clima ganha um gosto temperado parecido com o da Europa, começam a surgir algumas árvores de uma espécie típica daquela região. São conhecidas popularmente como pinheiros de araucária. Nome científico: Araucaria angustilofolia. Parecem chapéus de folículos espinhosos. São sui generis, não existem por incidência natural em qualquer outro lugar do planeta. Um frio cortante atravessa os orifícios da blusa de lã e me acaricia como se fosse a lâmina de uma navalha afiada que percorre a superfície do músculo peitoral num ensaio anatômico que antecede a brutalidade que viola a integridade física. A mesmice dos quilômetros transforma-se em ansiedade, eliminando o entusiasmo da jornada que se iniciou às 14 horas. Percorri mais da metade do caminho, sem ninguém para me atormentar com perguntas cretinas e óbvias com a função fática de manter-me acordado. Tédio. Penso em desistir. Lembro-me de quem sou e do que devo fazer enquanto o carro segue pelas estradas engolidas pelo escuro, num compasso mecânico.
Convencionei parar num posto de gasolina, a cada dois mil quilômetros, para urinar. Meço de cabo a rabo os tipos locais. Não é algum tipo de perversão de conotação sexual, apenas força do hábito. Um trapo em tom de vermelho fosco, que traz reminiscências de um vestido, é a única peça que cobre a figura caquética de um ser feminino. Ao mesmo tempo em que acondiciona a xícara de café, a mulher junta as mãos em forma de cuia tal qual um instrumento de captação de energia para sua carcaça. Seus olhos de azul desbotado, o preto que fica branco quando chega perto das raízes e a flacidez de seu rosto, disfarçada por toneladas de maquiagem de terceira linha, denunciam o peso de sua idade. Sorve o líquido provocando um ruído irritante de sucção e deixa sua marca venérea de cor lilás na borda da xícara.
A mulher tem vergonha de mostrar a boca. É banguela. Deixa uma moeda no balcão e, como entrou, deixa o estabelecimento: calada. O balconista vira a aba do boné para trás e me explica, apesar de eu não ter perguntado coisa alguma: - É mais uma puta velha que ninguém mais tem coragem de pagar para comer.
Ouço, mas não respondo. Termino a minha xícara de café e volto para a estrada. Algum tempo depois, a rodovia ganha cores mais fortes. Os postes de luzes amareladas começam a aparecer, seguidos dos seus comparsas de luzes fluorescentes. No momento em que já não agüentava mais chego ao meu destino, Curitiba. Diante do desconhecido, surge a curiosidade aguçada pela minha melhor propriedade naquela ocasião, o anonimato. “Araucaria angustilofolia”, murmuro tentando não pensar em nada.
Chego ao hotel, um quatro estrelas, bem no centro da cidade. Freio. O atendente confirma a reserva e me entrega a chave do apartamento. Um rapaz pega bagagem e toma a frente, ensinando-me o caminho. Nestas circunstâncias, sou anônimo, sem conhecidos. Posso ser quem quiser com as chances de ninguém saber quem realmente sou. A mente pede por um entretenimento. Luxúria regada a álcool é uma boa opção. Pergunto, já no elevador, onde fica uma casa de espetáculos adultos. Ele pondera e diz que vai perguntar a um outro companheiro, mais familiarizado com esse aspecto do turismo.
- La Vita. - revela-me o outro, quando desço à recepção, na saída de encontro ao espectro clandestino da noite. - Qualquer coisa, o senhor volta e me pergunta, que eu conto quais são as outras casas do tipo, fico aqui até as 23 horas.
Garoto atencioso, até me prepara um mapa e me ensina o caminho. Em tempos passados, diria que foi uma cordialidade corporativista a um companheiro de gênero que procura diversão vulgar. Todavia, toda sua atenção visa uma boa e gorda gorjeta. Deixo umas moedas em sua mão e é tudo. Se falar ou pensar besteira apago ele aqui mesmo. Dirijo até o centro de espetáculos perto dali. Estacionamento horizontal e piso límpido.
Entro no elevador e ensaio passos mortos abafados pela música afro-baiana que estimula os corpos se sacudirem a cintura num ato quase inconsciente de tentar manter a temperatura que vagarosamente lhes foge pelas frestas do teto. Teto ao ar livre por motivos estéticos, genial. Passo frio por causa dos arquitetos. Filhos da puta.
Os passos se desperdiçam naquele local, enquanto imagino o que terei para jantar. Ando por todo o piso e entro num restaurante de comida chinesa, tipo self-service. Sashimi de salmão, wasabi e shoyu. Yakisoba, carne com legumes, frango xadrez e camarão ao molho especial. Bolinho de camarão e dois rolinhos primavera regados com molho agridoce. Chope escuro.
Deixo os talheres ocidentais metálicos, manifestando minha preferência aos dois pauzinhos. Eles são malfeitos, têm farpas. Foda-se, não sou uma princesinha. Ingiro um naco de carne, que desliza suave pelo esôfago. O garçom me entrega a bebida. Pela janela transparente, vejo dois chineses preparando a comida. Transparência, em todos os sentidos. Sem sacanagens na cozinha. A mulher, que não sabe pronunciar os “erres” direito, pesa a quantidade de comida nos pratos. Comida por quilo. O primeiro gole do chope leva um quarto do conteúdo do copo. Fecho os olhos e sinto o líquido gelado e levemente amargo correr pelo tubo digestivo. A comida entra aos poucos, satisfazendo-me. Pago a conta e vou ao banheiro despejar alguns fluidos em excesso. O frio só é uma bosta por causa disso.

Araucaria angustilofolia é aquela moça bailando pelo salão barulhento.
É a imagem daquela menina que usa a solidão como armadilha.
Com a solidez de uma árvore pré-histórica e genuína, ampara minhas
Mãos e sorri forçosamente ao primeiro contato, numa tentativa de forjar
Um programa que pode não sair muito barato.

Rodas no asfalto úmido e gelado. Silêncio, o toca-fitas está desligado. Mãos no volante rumo ao estabelecimento indicado pelo rapaz do hotel. Não é difícil de encontrar. Estaciono. Ando pelo estacionamento e esbarro com um brutamontes na entrada. É o porteiro, que me dá um boleto de consumação. No puteiro de luxo, velhos e executivos com copos de uísque importado. Putas, com trajes bem recortados, fazem o tipo: “Sou garota universitária.” Quero outra mijada. Vou ao banheiro e dou de cara com a porta. Ocupado. Uma senhora, com pinta de proprietária da casa, fala:
- Aí sempre tem fila, não tem jeito. Tem um outro lá em cima.
Espero. Urino, levanto o zíper, lavo as mãos e as enxugo nas calças. Essa merda de banheiro não tem toalha. Saio. Quero algo mais autêntico, onde as coisas e as relações sejam mais explícitas. Pergunto ao porteiro. Tem um, sim. E é bem no centro, pertinho do hotel em que estou hospedado.
Pé no acelerador, que também castiga os pedais da embreagem e do freio. Numa cidade desconhecida, a possibilidade de se perder é óbvia, em todos os sentidos. Na esquina, um bando de taxistas em seus carros cor de laranja, cada qual com um número de telefone estampado na porta. - Onde fica a Metrô ? - É só pegar a terceira rua à direita e depois virar à primeira direita. Então, espera chegar a um outro ponto de taxi, entra à direita e o senhor vai enxergar os letreiros do lugar. - Obrigado.
Encontro uma vaga entre dois carros, como se estivesse à espera. Alguns passos na boate e sou recepcionado por um garçom que me guia uma mesa, postado à frente do palco quadrado, um jazigo no centro geométrico do estabelecimento, um tipo de jaula, sem grades, um pouco acima do nível do chão. A mesa é circular, de madeira carcomida e desgastada pela erosão dos toques sujos e mundanos dos que já passaram por ali. O relógio indica 22h30. Já passou a hora de criança dormir. Começam as atividades ocultas, longe da luz solar e da falsidade dos restaurantes grã-finos da metrópole.
O garçom, de volta com um cardápio na mão, pergunta-me o que desejo beber. Uísque. O preço é salgado. Opto pela tequila, mais barata e eficaz aos meus propósitos. Olho os corpos que desfilam no palco iluminado de chão negro e erodido pelos sapatos das mulheres que espalham seu perfume, tentando usar a arma biológica mais perfeita que existe para atrair um macho ignorante, como sempre. Postam-se à frente das mesas e exibem seus órgãos baixos, ainda que dentro das poucas roupas. Barangas.
A casa está com pouca freguesia. Uma ou outra mais ousada senta-se num banquinho ao lado do seu pretendente. Predominam os homens com mais de 25 anos, com situação financeira definida, conforme indicam os trajes e os rótulos das embalagens de bebidas em cima de suas mesas. À minha frente, rapagotes entre 18 e 20 anos derramam cerveja garganta abaixo e assistem, simultaneamente, o princípio do show. Passados 15 minutos, uma delas chega. Agacha-se e dá-me um abraço por trás. Puxa aquele simulacro de banquinho - um objeto cilíndrico, acolchoado nos locais que acomodam as costas e as nádegas - e se acondiciona logisticamente, sem desgrudar os braços no entorno do meu corpo, sem desperdícios. Sinto seus seios muchos nas minhas costas.
O toque é suave, porém mecânico. Seus dedos frios enrolam-se nos meus e as mãos ficam atadas, num laço tenso e receoso. Ela puxa conversa e conta que seu nome é Cátia, sem especificar se é com “cê” ou com “ká”. Veste uma calça jeans e um treco com alças brancas. Não sei o nome de roupas, muito menos das feminas. Está um pouco rouca. - É de tanto gritar e torcer pelo Brasil. - justifica. Pode até ser verdade. Não ligo e, na verdade, nem quero saber.
- Qual é o seu nome ?
- Roberto. - minto.
Olha minhas unhas. As da mão esquerda são compridas. E as da direita, curtas. Uma exploração táctil e uma declaração: - Que unhas, hein ? - Toco guitarra nas horas vagas. Cátia dá um sorrisinho, meio amarelo. Uma prostituta drogada, para variar.
- Fui casada com um japonês. Larguei dele, há um mês. Peguei-o na cama com outra. Nem sempre fiz isso, sabe. Estou nessa vida uns três meses. Meu marido me batia muito, mas dessa vez fui eu quem sentei o cacete nele. Desgraçado. - Gargalhadas.
- Por que você não deu queixa na polícia ?
- Pensei nisso. Não éramos casados no papel. Vivíamos juntos. Ele tinha vergonha de mim. A família dele não gostava de mim porque eu era da noite. Mas a família dele era complicada. Um irmão dele foi pego fazendo coisas com uma sobrinha. Ele se escondeu dentro do guarda-roupas.
Mentira, eu sei. Gente como ela tem costume de mentir ou inventar estórias, encenadas num mundo alternativo - um jeito de camuflar a realidade não quista, da qual nem sempre se consegue escapar. Acho que a sobrinha devia ser ela, que se deixou levar por um tio filho da puta. Seus dedos se movimentam na palma das minhas mãos, numa tentativa desesperada de arrebatar-me para o ninho de negócios. Sou homem e macho, mas não sinto coisa alguma. Coitada, está perdendo tempo.

Araucaria angustilofolia é ela quando eu a encanto com papo-furado,
Aquele mesmo com que muitas meninas - ditas como decentes - me acusam de otário. As palavras vêm com sinceridade e um pouco de ingenuidade.
Mas quem diria que aquelas sereias de sentimentos calejados ainda têm
Um pouco de sensibilidade?

Cátia me revela sua idade: 26 anos. Parece mais nova. Ela fica contente. Invento que tenho 24 anos. Diz que é de uma cidadezinha muito pequena, no litoral do Paraná, cujo nome não é guardado com exatidão. Se for Antonina, é verdade. Anápolis ? Erra feio. Esse município fica no interior de Goiás. Cátia diz que já esteve em São Paulo, na cidade de Bastos, durante algumas festinhas infantis para adultos.
- Nojentos, esses homens de meia-idade que saem com meninas de 12 ou 13 anos. - digo.
- Homens velhos gostam de meninas novas. Meninas novas gostam de homens mais velhos. Gosto de garotões, de 16 a 20 anos.
- Com menores de 18 anos você pode ser presa.
Cátia ri e me dá o primeiro beijo. Empatia ou esforço de levar-me para baixo dos lençóis. O toque de nossos lábios é seco. Não há carga emocional alguma.
- Você é quem tem que tomar cuidado para não ser preso.
- Não faço coisas desse tipo.
Ela me abraça. As apresentações continuam. Perco a conta do número de garotas que descascam suas vestes para a platéia. Cátia continua a me envolver. Não me surte efeito. Desgrudo uma das mãos, pego meu copo de bebida e levo-o aos meus lábios, acariciando o sal em sua borda. A bebida desce, seguida pelo sumo do limão que acabo de morder. O garçom vem à mesa e peço-lhe outra dose de tequila.
- Às vezes me faço de boba. Sei chegar e sei sair.
- Parabéns. E emprego, é fácil de arranjar por aqui?
- Se estivesse, eu não estaria aqui, né.
Silêncio. Fico sem graça e ela começa a colocar a língua no meu ouvido direito. Estou bem vestido. Acha que sou rico. Vaca.
- Seu corpo está quente. Vamos dar uma saída? - insinua.
- Não dá. Tenho que acordar cedo. Se atrasar, me fodo todo.
Cátia massageia meus ombros duros. Pensa que estou tenso. É o meu estado natural. Tiro a caneta do bolso da camisa, rasgo um pedaço de guardanapo e peço-lhe para anotar o seu telefone para que chamá-la na próxima vez em que estiver na cidade. Ela o faz. Em seguida, lembro-me do cartão do hotel, de material mais durável, e peço-lhe que escreva então nele. Obedece e ordena-me a rasgar o guardanapo com seu manuscrito. É a minha vez de obedecer.
Outra garota entra no palco para o show de strip-tease. É o quarto da noite. Conheço a música. Love Hurts, do grupo escocês Nazareth. Cátia conhece a canção e já fala o nome do conjunto. Ofereço-lhe uma bala por causa de sua garganta irritada. Ela aceita e me pergunta se está com mau-hálito. Não está. Cátia aceita e me diz obrigado. A moça que dança no palco tem pele negra. Desfila suas carnes magras em cima do palco. Performance demorada, sem tipo algum de ensaio. O fundo musical é apenas motivo de fundo para ficar inteiramente nua aos berros dos bêbados que se esquecem dos empecilhos da civilização e assumem seus instintos mais primais. Magrela, sem tetas e sem bunda. Não gosto. Parece uma tábua de passar roupas.
- Estão repetindo a música.
- É que ela não terminou de tirar a roupa. - esclarece-me Cátia, que reforça seu abraço em meu corpo.
- Você está quente.
- Nem tanto, impressão sua.
Ficamos juntos por mais alguns instantes. Ninguém vive de companhia. A moça sai em busca de um cliente e me abandona na mesa. Não sinto rejeição. Tais relações são meramente comerciais. Adeus, mocréia. Pausa nas apresentações de strip-tease. Tipos peculiares parecem ter sido escarrados nas mesas. Ao meu lado direito, um bando de garotos de periferia em seus jeans desbotados. Mais para frente, na lateral direta do palco, um casal de libertinos. A loira, excitada com as meninas, esquece de tirar o crachá de identificação da empresa em que trabalha. Seu marido fica quietinho na mesa, bebendo cerveja. Ela as acaricia e guarda algumas notas de R$ 10,00 nos trajes sumários delas. Só falta lambê-las. Em outras ocasiões, ficaria com muito tesão. Não estou com o humor necessário para isso. Pervertida.
- Garçom, outra tequila.
Pagode é o ritmo que marca os cortejos remunerados. Uma outra moça passa por detrás de minha banqueta e pede-me para tomar conta de sua cigarreira - um artefato de plástico envolto de metal. Sou abordado pela segunda vez. Mais outra que pensa que sou rico. Desgraçada.
Ela sobe no palco e dança. A discoteca é variada. Tem até a música do tricampeonato brasileiro. “80 milhões em ação, prá frente Brasil, do meu coração !” A desconhecida dança com uma colega. Rock ‘n’ roll clássico. Um gole largo para a música. Elvis Presley canta Rock Around The Clock. Um rapaz, mais novo que eu, sobe ao palco e a toma para dançar. Tequila. Dança muito bem e sabe o que faz. Veste um traje tipicamente country, adornado com um colete preto e um laço branco no pescoço. Muito bonita, podia ser disputada a tapas. Olhos claros, pele morena bem clara e cabelos castanhos encaracolados até os ombros, com corpo bem torneado e rígido dentro de suas vestimentas, não tão vulgares assim. São bregas.
A moça dispensa o moleque da dança e vem para minha mesa. Alguns passos. Nervosismo. Pede para se sentar. Levanto-me do banco à esquerda e sento-me no da direita. Senta-se onde eu estava.
- Muito prazer, meu nome é Malú. - e me dá um aperto de mão.
- Roberto. - insisto no pseudônimo de ocasião.
Malú pede permissão para pedir uma bebida. Como a maioria das meninas que circula pela casa, a escolha é um Keep Cooler. Pede o de cor vermelha, sabor pêssego. Deve ter um gosto de bosta. O garçom deixa o pedido na mesa. Com voz firme, ela me agradece. É a primeira vez na noite que alguém me agradece.

Araucaria angustilofolia são os nomes inventados, por uma questão estratégica de esconder uma outra privacidade, muito além dos afagos e do
Contato dos orifícios e dos órgãos baixos. Nome verdadeiro, elas não dizem não. Embora nomes próprios, são genéricos, com um toque misto de égua e tesão.

- Deu para perceber que você era um cara simpático.
- Simpático? Tenho cara de demônio.
- Nada disso.
- Gentileza sua.
- Por quê?
- Geralmente, sou muito grosso.
- Algumas vezes temos que ser. - confirma Malú.
Os improvisos de strip prosseguem e Malú continua tensa. O silêncio intercala os diálogos. Suas mãos finalizadas em unhas de esmalte vermelho metálico repousam em cima das minhas na tentativa de encontrar um pouco de segurança. Seu corpo está mais próximo ao meu. Suas mãos, suadas. O som está em alto volume. Encosto minha boca em seu ouvido direito, esbarrando meus lábios em seus cabelos, quase berrando para que me ouça. Ela gosta do meu jeito e da minha conversa, eu acho. Homem é uma besta. Pelo menos não segura nas minhas bolas pensando em dinheiro, por enquanto.
Mais garotas entram no palco, uma após a outra. O ápice das gritarias é quando duas delas, uma loira e outra morena, são anunciadas pelo locutor. Com roupas de cowboy, ao som caipira norte-americano, são recepcionadas aos gritos. A primeira, a de cabelos negros e compridos, aproveita todo o espaço destinado a sua performance e percorre as mesas, subindo nas cadeiras, permitindo os toques de mãos iradas e desconhecidas. Não fica inteiramente nua. A música pára e sua colega, a loira, entra. O espetáculo prossegue com a dupla das peladas. Numa mesa lateral esquerda, quatro homens entre 25 e 30 anos se divertem de maneira pouco usual. A morena chega perto de sua mesa e dobra as pernas. Eles despejam o líquido de uma garrafa de cerveja entre suas pernas. Apesar do frio, ela demonstra satisfação. Fingimento certo. Olho para o meu copo vazio. Ao meu gesto, o garçom me traz outra dose. Gritos e histeria.
A loira está quase nua. O casal de libertinos prega a atenção nela. A mulher chama-a ao lado e a segura pela cintura. As duas dançam animadamente naquele canto, sem perder o compasso da música. Seu companheiro apenas observa. A loira tem uma tatuagem na nádega esquerda, próxima ao orifício anal. Não consigo identificar com nitidez o formato por causa da escuridão do ambiente em contraste com as luzes pregadas no teto. Ambas continuam com os chapéus na cabeça. Os urros continuam. A morena chega perto de minha mesa e sobe numa cadeira. Inclina-se e movimenta suas nádegas bem na frente da minha cara. Sinto o cheiro de boceta melada.
Malú parece sedada. Suas vestes brancas e justas salientam os dotes de seu corpo. Seu rosto é perfeito e sua boca, carnuda. Procura algum tipo de proteção. Tem medo. Dá para notar pela expressão de suas faces.

Araucaria angustilofolia, elas ocultam seus nomes de batismo, porque no fundo mesmo, ninguém quer saber o nome de ninguém. Ir à zona é a
Chance que alguns peludos encontram de escarrar suas frustrações da
Vida cotidiana, inferiorizando um ser humano, com tratamento quase
Animal de uma figura sempre sagrada de mulher.

- Está toda de branco. É para simbolizar a paz?
- Gosto muito desta cor e das roupas tipo country.
- Seus olhos verdes são muito bonitos. É descendente de alemães?
- De alemães e poloneses. Quer dizer, de alemães e holandeses. São azuis-esverdeados.
- O quê? - Ela mente.
- Os meus olhos. Não são verdes. São azuis-esverdeados.
- Não enxergo direito com essa luz. Mas são muito bonitos.
- Para uma “moça de família” acho que está bom. - ironiza sua própria condição, numa risadinha fingida e triste.
Malú diz que morou cinco anos no Paraguai. Foi para Asunción, a capital, quando tinha 20 anos. Não conta muito o que fazia por lá, apenas que conseguiu o seu primeiro diploma por aquelas bandas. Fala de um namorado italiano. De tanto ouvi-lo conversar com seus amigos, acabou aprendendo sozinha o idioma. Quanto ao inglês, diz que está fazendo um curso básico. Mais abobrinha. Malú sorri pela primeira vez na noite. Nosso diálogo se abre um pouco e sai do automático. O assunto é música. Sua boca se move sempre que um novo som rola. Fico espantado com a quantidade de músicas que ela acompanha, de cor e salteado. Malú diz que é de tanto freqüentar o lugar.
Conta que seu pai foi músico. Tentou ensinar-lhe os primeiros acordes, mas não quis saber. Acabou a tequila. Seguro o copo e olho o fundo. Refração maldita da luz de cabaré na lente asquerosa de um copo profano. Chega de bebida por esta noite.
- Se ouvisse o que ele falava, não estaria aqui hoje. Já me convidaram para fazer segunda voz numa banda que hoje toca axé no Japão. Desisti. Não gosto muito de axé. Mas o que faço mesmo são dublagens. Tudo bem com você?
- Estou cansado.
- Tive te observando antes. Gostei de você. Quietinho... não chegou junto de ninguém.
- E você, tudo bem?
- Já disse que sim. É que eu estava ali no fundo, numa mesa. Um cara veio passando as mãos nos meus seios. Mandei parar. Não gostei daquilo. Tem coisas que a gente faz dentro do quarto mas não faz num bar, com todo mundo olhando. Assim como você veio aqui e não é obrigado a sair com ninguém, se não quiser...
- Certo.
Na mesma mesa dos babacas embriagados, uma loira de cabelos lisos e curtos é o objeto de delírio. Um balde de gelo, utilizado originalmente para acondicionar uma garrafa de champanhe, jaz em cima da mesa. Um deles pega uma pedra de água solidificada e a joga calça adentro da moça. Está muito frio, mas ela agüenta o fio gelado que escorre em seu órgão reprodutor, molhando suas calças marrom desbotadas. Pega outra pedra de gelo e a chupa, passando eventualmente nos seios. Senta de frente no colo de um rapaz. O outro chega por trás. Ao som de um samba, simulam uma dupla penetração na frente de todos. Mais um chega pela frente e faz com que ela abaixe sua cabeça até a sua genitália. Agora são três homens e uma moça, todos com roupas, sem vergonha de passar vergonha, num lugar esquecido pela lei inventada pelos burocratas e por Deus. Brinquedinho. Naquele local tudo é permitido. Patéticos.
Um bando de gringos altos, de olhos e cabelos claros, levemente grisalhos, entra na casa. Ela me abraça com mais força. Quase 1 hora. Dou-me conta do horário e do compromisso que tenho logo pela madrugada.
- Os franceses chegaram.
- Franceses, quem?
- Aqueles ali, bem em frente. Não gosto daquele de óculos.
O ódio resguardado de Malú pelos franceses brilha em seus olhos azulados e distantes. Não perdem por esperar, desgraçados. Sua vingança vem com a vitória da seleção canarinho na Copa do Mundo, contra os anfitriões franceses, interioriza. Vestir a alma de torcedora é, também, a única forma para ela ser cidadã. Garotas de programa não são reconhecidas, oficialmente, no estratagema moral da sociedade mundial. Pelo menos na massa da torcida, Malú está junto do resto do Brasil, sem distinção, com coração uno, sem pensar muito nos carnês vencidos, esquecendo-se dos clientes com desejos doentios - respeitáveis durante o dia, mas porcos e sádicos com desconhecidas com que ninguém se importa.
- Você é casado? Tem uma namorada?
- Sou solteiríssimo e não tenho namorada.
- Simpático desse jeito e bonitinho assim...
- Coisas da vida.
Tenho que ir embora. Despeço-me pela primeira vez. Curvo-me levemente e levanto sua mão esquerda para beijá-la. Fica tocada com o gesto e me dá um beijo no rosto. O garçom diz que vai trazer a conta até a mesa.
Ele volta e diz que tenho que me dirigir à portaria para acertar a conta. Levanto-me do banquinho. Malú me dá um olhar molhado e dirige seus lábios ao canto esquerdo do meu rosto. Seu beijo deixa uma marca de batom. Ela insiste em limpar o vestígio, pensa que sou casado ou alguma coisa do tipo, não sei o motivo.
- Quando você volta para cá?
- Quando puder. Talvez num feriado prolongado em que não esteja a serviço. Onde posso te encontrar? Aqui mesmo?
- É.
Malú se despede com o silêncio e se retira da mesa, logo depois de mim. Até que é decente para uma puta. O garçom pensa que vou dar o calote. Pago em dinheiro. Tenho vontade de esfregar as notas na bunda dele até arrancar sangue. Ele me entrega o “convite” da casa. Seu nome é Fon Fon, apelido esquisito para um homem. Deve ser uma bichola. A noite é polar. No meu quarto, tiro minhas roupas e deito na cama para sentir o contato da pele com o cobertor macio. Adormeço, pensando nas duas moças que conheci. Tudo gira. Efeito tequila. Pau no cu da crise do México.
São 3 horas. Aos pulos, vou para baixo do chuveiro. Não quero chegar atrasado. Água fria. Merda. Arrumo minha maleta e saio do quarto. Ainda é escuro quando dou baixa no hotel.
O executivo é pontual. Europeu típico, no físico e nos costumes, sua face é rígida. Os olhos claros são distantes assim como seus passos, que parecem esmagar o solo ao menor contato. Preparo-me para recebê-lo. Suor na testa. Lenço na pele. Não devia ter dormido tão tarde. É hora de sua corrida matinal, antes do início do expediente. Rotina. Ninguém dá mais bola. Espero que me receba.
Esteja sempre bem-vestido, recomenda o figurino. Meu terno preto se camufla com a aurora boreal que anuncia o despertar do dia. O silêncio só é interrompido pelos pássaros vira-latas que rondam os arredores da montadora, em meio a uma mata reflorestada com eucaliptos. Nosso encontro está próximo, numa fração de minutos.
A negociação deve sair perfeita, sem falhas, ou estou fodido. O brasileiro é
hospitaleiro por natureza. Ainda mais quando é subornado. Por isso, o industrial conseguiu terreno, financiamento, obras de infra-estrutura e isenção fiscal. Negociador hábil, tem deputados, senadores, vereadores e prefeitos em seu círculo de influência. Cabem todos em seu bolso, como marionetes. Caminha lentamente. Gosta de olhar tudo, antes mesmo de todo mundo chegar. Ele tem confiança demais em si mesmo. Cantarola algo em alemão. Coral da Cantata 147, de Johann Sebastian Bach, “Jesus, A alegria dos homens”, reconheço. Fico mais nervoso.
Ego acentuado e aparente invulnerabilidade. Você perdeu, desgraçado. Por trás, meus braços são fios de aço ao redor do pescoço da minha mercadoria. A música pára abruptamente, interrompida pela obstrução da passagem de ar pela traquéia. Tenta reagir. É obvio, como faria qualquer ser vivo. Seu conjunto de moleton cinza está empapado de suor. Sinto nojo da umidade e do calor que seu corpo emana. Seu grito de desespero é mudo e suas mãos tentam livrar-lhe do incômodo. 30 segundos. O filho da puta tem boa forma. Vai dar um pouco de trabalho. Já está ofegante e fraco pela falta de oxigenação. Tiro a seringa com sedativo do bolso e enterro em seu braço.
Deve ter doído para burro. Um golpe de palma da mão, seco, no queixo tira-lhe de vez a consciência. Amordaçado e drogado, está dentro do bagageiro. Carro com porta-malas grande. Fiz bem.
Dirijo até Castro, uma cidadezinha sede de uma companhia de origem holandesa. Matagais. Ainda é escuro e eu me aproveito dessa chance. Tiro o gringo do carro e o obrigo a ajoelhar-se em cima de um tapete que trouxe especialmente para a ocasião. Tenta gritar, mas não consegue. Os olhos traduzem o desespero que sua boca não enuncia. Ele mija nas calças. Porco, deve ser punido. Seguro meu saco, em gesto de indignação e aperto o gatilho. Um estampido quase surdo, acalmado por um silenciador. O projétil da pistola PT-380 atravessa-lhe o crânio e a torrente de sangue inunda o tapete. Sabia que isso ia ocorrer. Vou ao veículo e tiro a espada que estava embaixo do banco traseiro. Reflexo pós-morte. O corpo treme.
Visto luvas e uma touca ridícula. Não quero ser traído por digitais ou testes de DNA dos fios do meu cabelo. Lembro-me que estou no Brasil. Dou risada. O aço sai da bainha, com o sussurro de um atrito seco. As duas mãos se levantam e a espada corta o ar em sentido descendente. Fraco demais. Dou outro golpe e arranco a cabeça por completo. Seus olhos, de pupilas azuis, estão abertos. Envolvo o crânio em três sacos plásticos pretos e jogo-o numa caixa térmica recheada com gelo, num compartimento escondido no bagageiro. Sem sujeira. Picoto o resto do corpo em pedaços menores, em cima do tapete. Junto aos restos, espalhados nos buracos, jogo sementes de plantas nativas. “Araucaria angustilofolia”, remungo.
Tiro a roupa. Esfrego o álcool pelo corpo, acompanhado de um pedaço de pano, até que não haja mínimo sinal de sangue. Despejo o resto em cima do tapete junto com minhas vestes, luvas e touca. Jogo gasolina, do tambor extra do carro, naqueles objetos. Está frio. Peladão, por enquanto. Merda. Acendo um isqueiro metálico e o arremesso no meio do amontoado de porcarias. O fogo assobia forte. Sua fúria é minha cúmplice. Entro no carro e fecho as janelas para não permitir que meu corpo fique com cheiro de fumaça.

Araucaria angustilofolia eu digo quando ouço os gritos de prazer
Comprado, em dissonância com os gritos de amor fingido. É o sentimento de humilhação remoído dentro do coração de mulheres com o orgulho
partido. É o encontro desentrosado de dois desconhecidos.

Exagero no perfume e coloco outra roupa. Tento esquecer o que fiz. Para mim, é mais difícil matar um cachorro paralítico e sarnento. A humanidade não tem mais salvação. Está mergulhada na individualidade e cega para a razão. O imediatismo está incorporado em sua alma, encharcada de mediocridade e infâmia sem precedentes. Um bando de bostas são os humanos. Piso em cima e limpo o sapato na grama. Até uma lombriga é mais autêntica.
No caminho de volta para casa, vejo novamente os pinheiros de araucária. - Araucaria angustilofolia. - balbucio associando a imagem das duas garotas à árvore. Viagem tranqüila. Deixo a bagagem em casa e vou à videolocadora. Brigo com o dono, um imbecil movido à ignorância, por bobagem. Estragou o meu final de semana. Tenho quatro fitas para assistir. Não vou devolvê-las. Vou cagar em cima delas, tacar fogo e dançar ao redor delas, sentindo o cheiro de plástico queimado, num ritual selvagem. Louco é a mãe, filho da puta. É melhor que arrancar suas tripas e pendurar no poste.
Domingo. Final da Copa do Mundo. Sozinho, na sala da minha casa, estou embaixo de um cobertor, deitado lateralmente no sofá. Numa banqueta de madeira, deixo uma lata de cerveja. Entre os goles, a partida tem início. Algo não dá certo. Os deuses não estão do nosso lado. A bola escapule com as falhas dos peritos brasileiros e corre para os pés dos franceses. Nem de longe, assemelha-se àquele time que causava temor aos bárbaros além das fronteiras. A defesa se desencontra e Zidani, com sua carequinha de frei franciscano, mete a cabeça. Com duas escoradas, enterra em partes o sonho do pentacampeonato. O Brasil ataca, mas os franceses têm soldados bem treinados na defesa. Aponto minha PT-380 para a televisão, como se pudesse alvejar realmente o atleta, e, em seguida, encosto o cano na minha cabeça. Metal frio. Coloco a pistola em cima da mesinha. Prudência.
O técnico Mário Jorge Lobo Zagalo enfia dois atacantes. Denílson e, depois, Edmundo. Velho esclerosado. Nem com isso, um milagre reativa as pernas de Ronaldinho. Cagão. O ânimo vai se esmorecendo e os jogadores brasileiros, paulatinamente, entregam-se. Covardes e bundas moles. Logo no final, com todo mundo no ataque, os gauleses dão o tiro de misericórdia. Um chute de Petit. Não tem mais jeito, fodeu de vez. O que seria o penta brasileiro é o primeiro título dessa magnitude para os franceses. O novo herói de sua pátria, Zinadi, tem descendência argelina, denunciada pela pele morena e o nariz alongado. De cagada em cagada, o purgante surtiu efeito e o penta foi sumindo, devagarinho.
Levanto-me do sofá e, sem saber direito o motivo, pego a pistola. Esvazio a minha lata, num gole, e vou em direção a geladeira, em busca de mais bebida. Não dou muita importância para a perda do título. Nocauteio a mente. Penso em Curitiba, nas palavras de Malú e seu asco pelos franceses. Acabou a cerveja. A PT-380 fica esquecida ao lado do saco plástico com a cabeça do gringo, lá no refrigerador. Olhos azuis. Troféu. Muita gente sentiria nojo. Nem ligo. É menos nojento que comer merda direto do cu.
Vou ao armário e encontro uma garrafa de vinho branco. Abro a garrafa, despejo o líquido até a boca do copo e levanto-o para o nada, por alguns segundos. Um zumbido passa. Procuro a arma, mas não a encontro. Deve estar em algum canto, escondida num monte de jornais espalhados pela casa. Droga. Paro de procurar a semi-automática. Num solo interminável de pensamentos, quebro a apreciação ao silêncio e resmungo algo antes de derramar o vinho pela garganta, antes de cair num sono etílico: - Araucaria angustilofolia. Este é trago é para você, morena. Depois percebo como sou idiota. Não é Araucária angustilofolia, é Araucararia angustifolia. Bom, agora já foi. Deixa para lá.