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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Arteterapia e felicidade



Minha amiga Adriana Elias Josende, gaúcha (bah tchê) com origens libanesas (aí, quibe!), colaborou com o nosso blog, após algumas insistências. Ela compartilha a sua experiência como profissional de arteterapia. Para quem não conhece, é uma ótima oportunidade de ficar por dentro, no bom sentido, é claro e sempre.


Abaixo, o artigo de Adriana.


Essa tão sonhada Felicidade


Por Adriana Elias Josende (essenciacriativa@terra.com.br)



A sagaz corrida cotidiana, a busca desenfreada pelo bem-estar social, a competitividade profissional, a degradação do planeta enquanto bem coletivo, entre tantos outros fatores, contribuem para a desestruturação psíquica e emocional do ser humano.
Ao deparar-se, diariamente, com os avanços tecnológicos e a efemeridade das relações, o homem entra em conflito consigo mesmo.
Por tratar-se de um ser sociável e social, o homem necessita estar em harmonia com o seu próprio eu, construindo uma imagem positiva daquilo que ele deseja ser, bem como, necessita construir relações que o possibilitem viver em sociedade, cujas regras, valores e normas firmadas, por vezes, o colocam em conflitos imensuráveis.
Historicamente, a humanidade alicerçou projetos, construiu e destruiu conceitos, buscou soluções para inúmeras e distintas perguntas acerca do mundo e da interação humana. Nessa busca alucinada, o homem evoluiu tecnológica e materialmente.


Deixando de ser apenas coadjuvante, o homem sai, como seus antepassados, à caça. Deseja, ardentemente firmar-se pessoal e profissionalmente, esquecendo-se que não é um ser sozinho no universo. Concebe-se assim, em meio à globalização , reflexo de uma tendência inerente ao ser humano que é de sobressair-se e dominar os seus semelhantes.
A flexibilidade e transitoriedade em busca de melhores condições de trabalho, o impacto causado pela globalização, faz com que o homem viva em um constante transformação, seja em busca de trabalho, seja em busca de qualidade de vida. Se por um lado, isto estimula a sua criatividade e a busca pela realização pessoal e profissional, por outro lado, o homem nunca esteve tão só. Rodeado de gente, sente-se solitário em seus projetos e suas ambições.
O conceito de inter-relação, vê-se esmagado pela individualidade e a eliminação da concorrência. Hoje, um homem que, para evoluir emocionalmente, necessitaria da referência do grupo, é sozinho num mundo concorrido e voraz. Vê-se acuado, solitário, em meio ao caos das grandes cidades. É, agora, um número, uma parte da engrenagem que, desgastada, ainda precisa funcionar. Vive e convive com as máquinas, maquinizando-se também.
Sob esse foco, surgem então, os conflitos. O homem é um ser dotado de sentimentos: razão e emoção o distingue dos demais animais. Sua capacidade e necessidade de conviver com o outro apresenta-se esmagada no cotidiano das máquinas e da competitividade coletiva.
A satisfação é efêmera, uma vez que se firma em projetos mutáveis, que tornam-se obsoletos ainda antes de serem desenvolvidos, dado à voracidade do fator tempo.A busca pela felicidade é vendida pela mídia, pela cultura, pelo crescimento econômico e pela possível aquisição de bens materiais. Muitas pessoas buscam a felicidade consumindo, outras se anestesiam através dos vícios e compulsões,outras ainda, sustentam a idéia de que felicidade é enquadrar-se nos padrões de beleza e estética. Há os que se prendem às lembranças do passado; outras gastam tanto tempo planejando o futuro que se esquecem de estar presente no presente.
A vida tem se tornado cada vez mais superficial. A busca constante pelo mito da felicidade têm tornado e formado seres vazios. A fugacidade mostra que a felicidade é algo que precisa firmar-se no transcendente.
Em meio ao conflito interno instaurado, o homem vê-se insatisfeito e questionador. Nesse momento, começa a reencontrar-se, rebuscar-se, almejando uma reestruturação pessoal e social.
Questões profundas e fundamentais da existência humana lhe permeiam o ser:. Será que existe felicidade? Como ser feliz ? Onde está a felicidade verdadeira? A cultura em que vivemos hoje prima por uma utópica felicidade baseado em fantasias inatingíveis.Nesse vagar filosófico e existencial, o homem compreende a necessidade de visitar as profundezas da sua própria alma.Cada qual com seu questionamento, encontrará diferentes respostas para suprir-se. É nesse momento que, em profunda introspecção, o homem vê-se diante do óbvio: a felicidade está naquilo que não passa; naquilo cuja efemeridade e o materialismo não corrompe; nas conquistas internas que se alicerçam; no respeito ao eu e ao outro. A felicidade está no crescer e auxiliar o crescimento daqueles que nos rodeiam.
Karl Marx, em seu livro “O Manifesto Comunista”,fez uma colocação interessante e que se remete ao atual momento em que vivemos. Ao afirmar que “a família havia sido coberta pelo véu do capitalismo, reduzindo assim, os laços afetivos, limitando-a a relações de interesses”, o filósofo mostra que as relações de posse e de opressão podem começar ainda no âmago da existência humana. Essa lacuna emocional, aliada à desenfreada busca pelo individualismo social, tornam o ser humano infeliz e perdido no imenso universo comum que é a sociedade.
A era tecnológica com toda a sua parafernália do progresso e a mercantilização da vida fez com que o homem/mulher fossem se afastando cada vez mais de si próprios e dos outros. Sob a ótica da modernidade ser-mais é ter mais. Saber-se importante é ocupar o primeiro lugar, é usufruir do poder e do outro, manipulando-o, numa cegueira que impossibilita ver no outro a si mesmo, convivendo numa sociedade que ignora a alteridade e os valores comuns ao crescimento coletivo; somente o individual é que conta.
Urge, então, que o ser humano reveja conceitos, atitudes, olhe para sua própria condição humana. E há todo um cenário propício para isso. A virada do milênio; a insatisfação do homem/mulher com um sistema que nos iguala e ao mesmo tempo dilata o abismo entre os diferentes grupos sociais; a subjetividade pós-moderna, diferente do individualismo moderno, leva o sujeito a resgatar sentimentos da essência humana. É tempo de olhar para dentro de si próprio em direção a uma transcendência que resulta na emersão consciente de uma nova condição humana, envolta em princípios, que caracterizam um novo ser. Princípio esses, como a solidariedade, respeito às diferenças e a busca pelo não efêmero, alicerçam o desejo do homem voltar-se ao transcendente, numa espécie de regresso ao berço, ao colo do Pai.Assim, em meio a tanta tecnologia, competitividade, materialidade, desapego aos valores éticos e morais, o homem busca, exaustivamente, reencontrar-se.
O momento é oportuno para o resgate das relações humanas. Profissões relacionadas à saúde, ao desenvolvimento humano e social ganham espaço e força , num desejo imenso de resgatar a identidade humana, seus anseios e interrogações, apontando-lhes um novo horizonte a ser desvendado.
A percepção de que, para ser feliz, o homem necessita crescer e integrar-se, passa a ser vista como alavanca essencial de um trabalho que surge como complemento às ciências humanas. A Arteterapia transita por entre esse universo da psicologia, da psiquiatria, da educação, das relações humanas e encontra respaldo na sua essência primeira: o homem e seus sentimentos.
Assim, através de mecanismos como a dança, a pintura, o teatro, a modelagem, a arte na sua forma expressiva, oferece um canal para que o indivíduo se (re) encontre e encontre o outro. Esse processo, marca o retorno do homem à sua essência, que é compreender-se como parte do universo que está inserido, respeitando o espaço do outro e vendo nele, o outro, alguém que faz parte das minhas relações.
Um grande leque se abre para profissionais desejosos de “ajudar” àqueles que estão nessa jornada de volta ao seu ser. O arteterapeuta encontra na ânsia do outro em resolver seus conflitos, o seu foco de auxílio. De forma sutil ,desacomodadora, propõe atividades que resgatam o ser humano da sua clausura existencial, trazendo-o à reflexão de conflitos, apontando-lhes um novo olhar, um novo foco e redimensionando seus conflitos internos na busca da estrutura interior.
Chico Xavier, costumava dizer que: “ A verdadeira caridade alenta e liberta aquele que ajuda, não o ajudado.” Assim, ao deparar-me com o maravilhoso universo da Arteterapia, sua proposta centrada na Arte como essência, sua faceta social, não pude recusar ao chamado interior de segui-la.
Quisera fazer da Arteterapia, mais que uma profissão. Quisera concebê-la como forma de auxiliar àqueles que buscam reencontrar-se, regressar, rever seus conflitos e poder estar em sintonia consigo mesmo, com o outro e com o transcendente.
Aí, quem sabe um dia, possamos aceitar nossa condição única e singular; serem livres das convenções sociais, buscando em nós mesmos a verdade, a luz e a essência. Então, libertar-nos-emos das amarras; não mais vagaremos sem sentido pela trajetória da vida; seremos capazes de percebermos o fundamental, o singelo e assim entenderemos a sensação de completude e de totalidade, numa transcendência que nos orienta e nos faz renascer, todos os dias.
Que eu possa pelo menos sonhar, e, nesse sonho, encontrar-me feliz por ajudar alguém. Talvez, ousarei dizer que é provável que a felicidade exista, que momentos felizes não passam e que as lembranças podem ser menos dolorosas quando reportar a recordações e saudades. Aí sim, teremos encontrado a tão sonhada felicidade, e quiçá, possamos continuar constantemente buscando-a nos momentos mais simples do cotidiano.


* Adriana Elias Josende é professora de Literatura, Teatro e Expressão Corporal, pós- graduanda do curso de Arteterapia pelo Centro de Estudos em Arteterapia, Psicologia e Educação (Centrarte), da Faculdade Cenecista Bento Gonçalves (Facebeg), em Bento Gonçalves (RS).
* Trabalhado apresentado originalmente para apreciação da professora Edna Pereira.

terça-feira, 16 de junho de 2009

O papel do indizível


A filosofia é um exorcista da esperança, diz o professor de filosofia Luis Alberto Peluso, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Ela vasculha os campos mais recônditos da mente, numa aventura maravilhosa pelo conhecimento humano, porém, não plenamente confiável. Pois nos ensina a conviver com a desesperança. Em sua última encíclica, o papa João Paulo II diz que os filósofos tiram a "esperança" das pessoas. Em certo aspecto, está certo. Mas, então, o que nos daria novamente a esperança?


A música, talvez, seria uma das respostas, já que a linguagem tem suas limitações. As palavras, por mais coerentes e verossímeis que sejam, não captam a totalidade de certas coisas, as mais importantes, inclusive. Ludwig Witttgenstein (ver foto) dizia que as coisas mais importantes são aqueles sobre as quais não podemos falar. O essencial, dessa forma, estaria além das limitações da linguagem, restando-nos como alternativa apenas o silêncio.

Essas coisas, que não podem ser expressas por palavras, podem ser mais gratificantes para o espírito. Que dizer da música? Podemos nem saber direito as letras, mas, de uma forma ou outra, a melodia fica gravada na memória e nos desencadeia uma séria de reações, desde a indiferença ao chachoalhar das cabeças.

Seria a música, portanto, a linguagem ideal, que transmitiria sem ruídos as coisas que realmente importam? É uma hipótese admirável, embora não tenha um método para afirmar cientificamente. É apenas uma opinião, como tantas outras.

Alguns sons, entretanto, parecem surtir um efeito de conexão de nosso ser com algo mais perfeito, que nos traz um sentimento de conjunção com o universo. Ludwig Van Beethoven, um dos maiores gênios da humanidade, compôs a sua 9ª Sinfonia completamente surdo. O quarto movimento, a Ode à Alegria, é deveras contagiante. Sua melodia, harmonia e ritmo formam um discurso quase perfeito, que foge às imperfeições da nossa linguagem, que nos evoca imagens e sons, numa paisagem de um mundo perfeito.






Portanto, a música seria uma dimensão mística, além do falar, que nos mostra uma das reais significações do mundo. Johann Sebastian Bach, considerado o maior organista da sua época, podia ter sentido a inspiração divina ao compor "Jesus, A Alegria dos Homens". Como traduzi-la em palavras? Impossível.




O mesmo se pode dizer de solos de guitarra, com "Always With You, Always With Me", de Joe Satriani, ou a belicosa "Eruption", de Edward Van Halen, só para citar alguns exemplos.






Por incrível que pareça, as músicas sem vocal são pouco apreciadas pela maioria. É claro, exigem um grau de abstração maior por parte do ouvinte, maior cultura musical e maior discernimento crítico. Os padrões das canções exploradas vorazmente pelas FMs são facilmente assimiláveis, consumíveis e descartáveis, tal qual apregoava Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, sobre a "Indústria Cultural", em suas considerações sobre "música ligeira".

Se chegamos a este ponto, é porque nosso capitalismo soube manipular e tornar um produto aquilo que considerávamos importante, que nos tocava diretamente a alma. Então, seriam estes sentimentos oriundos de bens de consumo? Sim e não, ao mesmo tempo, já que viver - neste começo de milênio - coincide com o ato de consumir.

A retomada das origens daquilo que é mais importante estaria, assim, fora deste sistema de compra-venda-troca. Seria uma utopia. Um sonho que ainda não conseguiríamos atingir, já que a música - neste aspecto - também falharia na tarefa de comunicar as coisas importantes, pois seria uma ponte cognitiva para "internalizarmos um produto musical".

Embora esteja escrevendo este artigo ouvindo "Land of the Free", do CD homônio, do grupo alemão Gamma Ray, creio que, apesar da desesperança e das armadilhas do consumo, não estou livre das minhas necessidades. Uma delas é a de ouvir música, mesmo para o simples intuito de espantar o vácuo do silêncio.




É uma presença, sobretudo, pois nos liga a algo (mesmo que não seja ao "mundo perfeito") que nos faz sentir juntos de alguém. Se não temos meios totalmente eficazes de transmitir e compreender as coisas importantes, dane-se. Temos ainda a música, que, para mim, ainda é muito importante.

Mais ainda: se o discurso é falível, que sentido terão estas linhas que acabo de escrever? Nenhum. Estamos dando voltas ao redor de nós mesmos para descobrimos a essência do universo. Olhamos nossos próprios umbigos como ponto de referência para tudo. Não estamos certos, porém, realizamos aquilo que está mais próximo da nossa realidade concreta.


Por enquanto, celebremos a nossa debilidade em encontrar o que importa de fato, com os nossas imperfeições e falhas cognitivas. De preferência, que a festa tenha muita gente a fim de um papo-louco e, com churrasco, muita música, de todas as qualidades.