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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Eu acuso

(Eu acuso !)



(Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes)



« Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice. (Émile Zola)


Meu dever é falar, não quero ser cúmplice. (...) (Émile Zola)




Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que... estudar!).
A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.
O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.
Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática.
No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando...
E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”
Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente...
Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.
Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.
Ao assassino, corretamente , deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:
EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;
EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos”e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;
EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;
EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;
EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;
EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;
EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;
EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;
EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;
EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;
EU ACUSO os “cabeça – boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito,
EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;
EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição.
EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;
EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;
Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos -clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.
Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.
A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”
Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.



Igor Pantuzza Wildmann
Advogado – Doutor em Direito. Professor universitário


Fonte: http://www.wildmannadv.com.br/artigos/artigo08.html

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Educação e desenvolvimento



Não é de hoje que se critica o sistema de ensino brasileiro. Joga-se pedra na qualidade de ensino, no conteúdo ministrado e na pretensa má-formação dos professores. Porém, não se pensa no reverso da moeda, os alunos. Adianta ter ensino público de qualidade se não houver aplicação e estudo?

Por que um País de dimensões continentais como o Brasil não valoriza os profissionais da área de educação, principalmente os professores?

Talvez não haja uma noção de planejamento e estratégias a longo prazo. Vive-se num esquema de imediatismo tal como as relações de consumo, em que tudo é descartável, quando não se tem mais utilidade para se atingir fins egoístas.

Às vezes, os professores servem de saco de pancadas para aliviar os recalques da dura vida cotidiana das outras pessoas. No entanto, não se leva em conta que as vidas dos professores também não são contos de fadas.

A maioria dos professores, principalmente do ensino básico, não ganha salários condizentes com a importância da sua profissão. É na escola, seja no ensino básico ou no ensino superior, que se forma a mão-de-obra especializada e, mais, se formam os cidadãos, que conduzirão os destinos de um País.




Ao se promover o vandalismo educacional, a depredação intelectual, se perde muito, se deixa de ganhar e ainda se dá risada. É o elogio do absurdo. Para se ter educação de qualidade é preciso que os alunos efetivamente estudem e que os professores sejam respeitados, não só em termos salariais, mas como profissionais dignos que pensam nas próximas gerações.

A atividade do magistério não pode ser encarada como mera fonte suplementar de renda, mas como um ofício de dedicação máxima (não necessariamente exclusiva), para que se possa aprimorar cada vez mais os conteúdos e as práticas pedagógicas. Como se disse recentemente numa palestra: "Ser professor é profissão, não é bico."

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A DIDÁTICA NO CONTEXTO EDUCACIONAL ATUAL


Este texto pretende explorar, de maneira breve, o conceito de Didática e sua aplicação no contexto educacional atual. Como lidar com os novos paradigmas que surgem a cada momento e com as situações de disparidade social, na qual os menos favorecidos cada vez têm menos acesso e menos preparo para o processo de aprendizado? Tenta-se articular o pensamento de autores na área de educação com o do economista Amartya Sen , principalmente com relação à sua idéia de desenvolvimento como liberdade, tanto do meio social quanto do indivíduo.

Contudo, cabe antes fazer realizar algumas conceituações, para posteriores associações com a realidade material. Pois bem, eis o primeiro conceito: “A Didática é uma seção ou ramo específico da pedagogia e se refere aos conteúdos do ensino e aos processos próprios para a construção do conhecimento. Enquanto a Pedagogia pode ser conceituada como a ciência e a arte da educação, a Didática é definida como a ciência e a arte do ensino.” (HAIDT, 2006, p. 13)

A partir do conceito, pode-se dizer que a Didática tem um caráter mais instrumental, que material, tal como se diferencia o Direito Processual do Direito Material. A Didática tem como objeto de estudo o ensino. E o ensino pode ser aplicado a diversas áreas do conhecimento. Então, a Didática se ocupa das formas ou maneiras de se ensinar. Entretanto, o ensinar não pode ser considerado em separado do aprender. Ensino e aprendizado, então, são duas faces da mesma moeda. Caso fosse focada somente no ensino, haveria um viés autoritário, tendo o professor como diretor de todo o processo de transmissão de conhecimento.

Ao se dar também enfoque na aprendizagem, abre-se uma perspectiva para que o educando também participe do processo educacional, que não se resumirá, inclusive, à simples transmissão do conhecimento, mas também à construção colaborativa do conhecimento. Nesse sentido, para Regina Célia Cazaux Haidt (2003, p. 13), “podemos afirmar que Didática é o estudo da situação instrucional, isto é, do processo de ensino e aprendizagem, e nesse sentido ela enfatiza a relação professor aluno”.

Num primeiro momento, a Didática tinha no aluno um sujeito a ser modelado, ou seja, a ser preenchido com informações, que seria submetido a baterias de exercícios e memorização de fórmulas e conceitos. Posteriormente, a Didática teve no aluno um ser a ser capacitado para ser livre. A mudança de enfoque é fundamental já que a Educação pode ser utilizada tanto para o controle social (PILETTI, 2006, p. 139-150) quanto para a transformação social ((Idem, 153-161).

Atualmente, no cenário de mudanças tecnológicas muito rápidas, o indivíduo deve aprender a aprender para não ficar ultrapassado e perdido diante da avalanche informacional que se lhe apresenta a cada fração de segundo. E ainda uma pessoa capaz de lidar com paradoxos tais como a fantástica qualidade de vida e de capacitação proporcionada pela acumulação de renda e por novos meios de comunicação como a internet e a exclusão social, a fome e a falta de oportunidades de emprego e ensino vistas nos países de terceiro mundo, como o Brasil. (MORAES, 2003, p. 113-116)

Há de se preparar o indivíduo para as transformações e para lidar com as contradições apresentadas pela contemporaneidade. De qualquer maneira, mesmo que se critique a realidade, os alunos deverão ser formados para lidar com ela, por mais que a critiquem. E os seus professores não estão isentos de uma formação num ambiente que leva em conta uma escolha ideológica. “Conforme o modelo de sociedade e de ser humano que defendemos, não atribuiremos as mesmas finalidades à escola e, portanto, não definiremos da mesma maneira o papel dos professores. (PERRENOUD, 2002, p. 12)

Uma vertente poderia defender que a educação deveria ser voltada para preparar indivíduos para o mercado de trabalho, então, a Didática assumiria a ideologia das corporações, como uma linha de montagem em massa de automóveis. Outra vertente poderia, por sua vez, salientar que o ser humano não pode ser tratado como um objeto, uma peça da engrenagem e que, por isso mesmo, deveria ser capaz de se mobilizar, por meio de uma educação libertadora, que requereria uma Didática que quebrasse o esquema das relações meio-fim das corporações, para que esse sujeito se veja como um fim em si mesmo.

Diante da realidade, obviamente não se poderia optar somente pela segunda vertente, pois contos de fadas não existem. Há de se tentar conjugar ambas para que o indivíduo seja eficiente para o mundo profissional e também seja crítico ao que vê em seu redor, para que não seja um mero repetidor de rotinas. Caso assim o seja, não terá como enfrentar as mudanças repentinas de paradigmas a que se submeterá em sua vida.

É notória a falta de conhecimento que assola o País. A quinta edição do Indicador Nacional de Analfabetismo (Inaf), divulgada pelo Instituto Paulo Montenegro e pela Ação Educativa, contém números assoladores:

“No Brasil, 75% das pessoas na faixa etária dos 15 aos 64 anos não conseguem ler e escrever plenamente. O número inclui os analfabetos absolutos – sem qualquer habilidade de leitura e escrita – e os 68% considerados analfabetos funcionais. Estes identificam letras e palavras, mas não conseguem utilizá-las no cotidiano e têm dificuldades para compreender e interpretar textos. Apenas um em cada quatro brasileiros consegue ler, escrever e utilizar essas habilidades para continuar aprendendo.” (LOIOLA, 2006, grifos nossos)

O educador brasileiro contemporâneo deve ter uma Didática que leve em conta esses dados, só assim poderá elaborar estratégias que possam “resgatar” o sujeito preso pela apatia e por anos de falta de exercício mental. Para a compreensão desse quadro, a doutrina de Amartya Sen tem muito a colaborar. Como diz Sen (2000, p. 53): “O processo de desenvolvimento, quando julgado pela ampliação da liberdade humana, precisa incluir a eliminação da privação dessa pessoa.”




Para Sen, a falta de liberdade substantiva relaciona-se diretamente com a pobreza econômica, que priva “as pessoas de saciar a forme, de obter uma nutrição satisfatória ou remédios para doenças tratáveis, a oportunidade de vestir-se ou morar de modo apropriado, de ter acesso a água tratada ou saneamento básico“. E ainda: “Em outros casos, a privação de liberdade vincula-se estreitamente à carência de serviços públicos e assistência social, como, por exemplo, a ausência de programas epidemiológicos, de um sistema bem planejado de assistência médica e educação ou de instituições eficazes para a manutenção da paz e da ordem locais. Em outros casos, a violação da liberdade resulta diretamente de uma negação de liberdades políticas e civis por regimes autoritários e de restrições impostas à liberdade de participar da vida social, política e econômica da comunidade.” (SEN, 2000, p. 18).

Com relação ao conceito de liberdade substantiva, Sen afirma que são aquelas liberdades exigidas para o indivíduo ter uma “vida que tenha razão de valorizar” (2000, p. 94). Leva em conta as oportunidades reais de os indivíduos atingirem seus objetivos, que exige, além dos bens primários, uma série de “características pessoais relevantes que governam a conversão de bens primários na capacidade de a pessoa promover seus objetivos”. (SEN, 2000, p. 95)

Na doutrina de Sen, as pessoas são dotadas de funcionamentos , que contêm estados (beings) e ações (doings) que influenciam no modo em que vivem. “Os funcionamentos relevantes podem variar desde coisas elementares como estar nutrido adequadamente, estar em boa saúde, livre de doenças que podem ser evitadas e da morte prematura, etc., até realizações mais complexas, tais como ser feliz, ter respeito próprio, tomar parte na vida da comunidade, e assim por diante.” (SEN, 2001, p. 79)

A combinação dos funcionamentos – não necessariamente todos ao mesmo tempo – é chamada de capacidade (capability). Ademais, não se trata de qualquer combinação de funcionamentos. São combinações alternativas de funcionamentos cuja realização seja possível para a pessoa. Para Sen (2000, p. 95), a capacidade é a “liberdade substantiva de realizar combinações alternativas de funcionamentos”. Um adendo para expormos um exemplo no intuito de apresentar o conceito de “conjunto capacitário” .

Assim, “conjunto capacitário” consiste nos “vetores de funcionamentos alternativos dentre os quais a pessoa pode escolher”. (SEN, 2000, 96) O conjunto capacitário seria a liberdade que uma pessoa teria para escolher as combinações alternativas dentre funcionamentos. Tomando como base o exemplo anterior, o conjunto capacitário do primeiro sujeito é maior que o do segundo sujeito. No primeiro, há possibilidade de escolher as combinações de funcionamentos, na segunda, não. Esta empreitada tem vital importância, pois as combinações de funcionamentos, segundo Sen, refletem as suas realizações efetivas (o que a pessoa realmente faz), enquanto o conjunto capacitário aponta as alternativas que se tem (oportunidades reais para obter bem-estar). Com relação às capacidades, na realização do bem-estar, Sen explica:

“A relevância da capacidade de uma pessoa pra seu bem-estar surge de duas considerações distintas porém inter-relacionadas. Primeiro, se os funcionamentos realizados constituem o bem-estar de uma pessoa, então a capacidade para realizar funcionamentos (quer dizer, todas as combinações alternativas de funcionamentos que uma pessoa pode escolher ter) constituirá a liberdade da pessoa – as oportunidades reais – para ter bem-estar. Essa liberdade de bem-estar (well-being freedom) pode ter relevância direta na análise ética e política. (...) A segunda conexão entre bem-estar e capacidade consiste diretamente em fazer o próprio bem-estar realizado depender da capacidade para realizar funcionamentos. Escolher pode em si ter uma parte valiosa do viver, e uma vida de escolha genuína com opções representativas pode ser concebida – por essa razão – como mais rica. Nesta concepção, pelo menos alguns tipos de capacidade contribuem diretamente para o bem-estar, tornando a vida da pessoa mais rica de oportunidades de escolha refletida. Mas mesmo quando a liberdade na forma de capacidade é valorada apenas instrumentalmente (e o nível de bem-estar não é visto como dependente da extensão da liberdade de escola como tal), a capacidade para realizar funcionamentos deve ser, ainda assim, uma parte importante da avaliação social. O conjunto capacitário fornece informação sobre os vários vetores de funcionamentos que estão ao alcance de uma pessoa, e esta informação é importante independentemente de como exatamente o bem-estar é caracterizado.” (SEN, 2001, p. 80-81)

Numa conclusão preliminar, portanto, dir-se-ia que a Didática no contexto atual deve conjugar a preparação do indivíduo para o mercado de trabalho e, ao mesmo, tempo para ter consciência crítica sobre o que se passa em seu redor. A doutrina de Amartya Sen claramente explica que o indivíduo, no contexto contemporâneo, sem se capacitar e sem ter o mínimo de educação não é livre. No entanto, há de se fazer a devida adaptação da sua doutrina, assim como as demais advindas do exterior, para abarcar a realidade brasileira. E tudo isso deve ser feito levando em consideração o educando não como um objeto, mas um ser pensante que precisa desenvolver suas capacidades, e continue a desenvolvê-las por si mesmo.


BIBLIOGRAFIA

HAIDT, Regina Cèlia Cazaux. Curso de Didática Geral. 7. ed. 8. reimp. São Paulo: Ática, 2006.
LOIOLA, Mariana. Longo Aprendizado. Ajuda Brasil. Rio de Janeiro, 30 de setembro de 2006. Disponível em: http://www.ajudabrasil.org/noticias.asp?idNoticia=772. Acesso em 15 de novembro de 2006. 15h38’.
MORAES, Maria Cândida. O Paradigma Educacional Emergente. 9. ed. Campinas: Papirus, 2003.
PERRENOUD, Philippe. 10 Novas Competências para Ensinar. Porto Alegre: Artmed, 2000.
____; THURLER, Mônica Gather; MACEDO, Lino de; MACHADO, Nilson José & ALESANDRINI, Cristina Dias. As Competências para Ensinar no Século XXI: a formação dos professores e o desafio da avaliação. Porto Alegre: Artmed, 2002.
PILETTI, Nelson. Sociologia da Educação. 18. ed. 7. reimp. São Paulo: Ática, 2006.
SEN, Amartya Kumar. Desenvolvimento como Liberdade. 5ª reimp. Tradução Laura Teixeira Motta. Revisão técnica Ricardo Donimelli Mendes. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. Traduzido de: Development as Freedom.
____. Desigualdade Reexaminada. Tradução por Ricardo Donimelli Mendes. Rio de Janeiro: Record, 2001. Traduzido de: Inequality Reexaminated.

domingo, 16 de agosto de 2009

Modelos de educação homérica, socrática-platônica e sofista


I - INTRODUÇÃO

Este texto versa suscintamente sobre a questão da educação nos modelos homérico, socrático-platônico e sofista, estabelecendo suas características e contribuições para a educação contemporânea. Não se trata de uma obra de maior fôlego, pois demandaria maios tempo de pesquisa e reflexão acerca dos dados coletados. Apenas, tenta-se trazer à tona discussões acerca dos papéis historicamente desempenhados por esses pensadores no contexto da educação, tentando realizar um liame entre as suas doutrinas para que se possa realizar o debate num nível academicamente aceitável e coerente com a realidade contemporânea.
No primeiro tópico, discorre-se sobre o problema da educação no poeta Homero, que era utilizada pelos gregos para fins didáticos, principalmente a partir das suas obras “Ilíada” e “Odisséia”. Há uma tentativa de explicar o mundo e os acontecimentos a partir de relatos históricos, desvencilhando-se, porém, não totalmente do mito. O homem guerreiro e valoroso que dominava o cenário através de feitos heróicos era um modelo de excelência a ser atingido, em prol não só de si mesmo (pelo reconhecimento dos seus feitos), mas para toda a “pólis” em si.
Em seguida, disserta-se sobre o modelo educacional socrático-platônico. Sócrates não deixou produção escrita, sendo retratado por seus discípulos, em especial Platão. Daí, a dificuldade em se diferenciar o que era do ensinamento original de Sócrates e o que foi difundido pelo Sócrates de Platão. Em vez do domínio do mundo exterior, o modelo socrático-platônico tem como objetivo a conquista do mundo interior, pelo descobrimento de si mesmo, mesmo que isso signifique ignorar a realidade material e as convenções tradicionalmente estabelecidas.
Posteriormente, se escreve sobre a importância dos sofistas na educação, da sua influência na concepção científica desse processo e da sua influência até os dias atuais. Não se pretendeu abordar aspectos do conflito entre Sócrates e os sofistas, mesmo porque muitas das concepões a respeito destes últimos são carregadas de preconceitos.


II - A EDUCAÇÃO HOMÉRICA



Homero tido historicamente como o primeiro grande poeta grego teria vivido em no século IX a. C., concomitantemente ao surgimento da escrita na Grécia antiga. Suas principais obras são “Ilíada” e “Odisséia”, a primeira sobre a guerra entre grego e troianos e a segunda, sobre o retorno do rei Odisseu da guerra de Tróia para Ítaca. No entendimento de Werner Jaeger (2003, p. 43), a poesia de Homero posicionou-o como o primeiro grande modelador da humanidade grega. A primordial preocupação com a poesia, no entanto, era a estética, a questão ética era acidental, subseqüente. “É claro que essa frivolidade artística deliberada tem por sua vez efeitos ‘éticos’, pois desmascara sem qualquer consideração os valores falsos e convencionais, e atua como uma crítica purificadora.” (JAEGER, 2003, p. 44)
Ensina Jaeger que Homero se utilizava do mito para exemplificar e explicar situações inúmeras do cotidiano da época, principalmente na considerações de ordem moral. Em Homero, a ética é aristocrática
[i], tendo em vista que exalta os feitos dos guerreiros – geralmente oriundos da nobreza –, mesmo que implique num auto-sacrifício, mas realizado em nome de um ideal maior, a soberania da polis, numa comunidade de cidadãos comuns entre si, mas que, de certa maneira, ignoravam o outro, o bárbaro, o não civilizado. Como se explica isso? “A expressão-chave aqui é ‘homens de outras terras’. As leis da comunidade civilizada só se aplicam dentro dela. Fora de seus domínios, outras terras podem ser livremente saqueadas. O que foi a guerra de Tróia senão uma gigantesca operação de saque? Na verdade, a lei e a ordem dentro da comunidade podem ter o efeito de intensificar a selvageria reprimida dessa comunidade. A guerra talvez seja uma maneira positiva de liberar os impulsos selvagens fora da comunidade, como especulou Freud após a carnificina da Primeira Guerra Mundial em seu ensaio O mal-estar na civilização. Freud acreditava que os impulsos anárquicos que os homens reprimem para possibilitar a vida em comunidade encontram válvula de escape na mortandade em massa da guerra.” (STONE, 2005. p. 47)
O objetivo da educação era o bem de todos e não apenas a glória pessoal, como ser verificava inclusive nos jogos e competições. “Desde a infância, cada grego percebia em si o desejo ardente de, na competição entre cidades, ser um instrumento para a consagração da sua cidade: isso acendia o seu egoísmo, mas, ao mesmo tempo, o refreava e limitava. Por isso, os indivíduos da Antigüidade eram mais livres, porque seus objetivos eram mais próximos e alcançáveis. O homem moderno, ao contrário, tem a infinidade cruzando o seu caminho em toda parte, como o veloz Aquiles na parábola do eleata Zenão: a infinidade o obstrui, ele nunca alcança a tartaruga.” (NIETZSCHE, 2005, p. 73)
Importante notar que Homero tem um pensamento “filosófico” acerca da natureza humana e das leis eternas que governam o mundo, tentando abarcar tudo que é essencial à vida humana, pois, de acordo com Jaeger (2003, p. 76-77), “contempla todo o conhecimento particular à luz do seu conhecimento geral das coisas”. Preliminarmente, pode-se dizer que a educação, em Homero, visa moldar a comunidade segundo as qualidades de destreza e heroísmo cunhadas na aristocracia. A “arete” homérica visa a ética acidentalmente, mas essencialmente busca o belo, a realização do cidadão pela integração ao ideal da “pólis”, de se fundir com o “télos” vigente pelas conquistas provadas em batalha ou algum outro feito heróico.


III - A EDUCAÇÃO SOCRÁTICO-PLATÔNICA



A educação do homem grego pelo seu próprio esforço foi a tônica do pensamento educacional de Sócrates. Os ensinamentos de Sócrates que escoam nas academias contemporâneamente foram imortalizados nos seus escritos, principalmente pelo mais célebres deles: Platão. Por isso, muitas vezes, há de se falar de um modelo socrático-platônico. Sócrates não deixou produção escrita, sendo retratado pela ótica de Platão
[ii], o qual, por sua vez, pode ter “colocado palavras” na boca do seu mestre. No entanto, esta problemática não faz parte deste estudo, apenas a questão educacional no prisma socrático-platônico. “Sócrates é o mais espantoso fenômeno pedagógico da história do Ocidente.” (JAEGER, 2003, p. 512)
A ação educativa de Sócrates, ensina Jaeger (2003, p. 538), é explicada por Platão e Xenofonte através dos seus confrontos com os sofistas. Sócrates não tinha tatno interesse na filosofia da natureza, mas nos problemas dos homens, com se pode ver: “Assim, pois, a redobrada atenção que Sócrates dedica às coisas humanas atua como princípio seletivo no reino dos valores culturais vigentes até então.” (JAEGER, 2003, p. 539) Pretende, então, restruturar uma conexão entre a cultura espiritual com a cultura moral. Sua ação educação política era eminentemente política, pois seus maiores rivais – os sofistas – eram educadores da elite e dos círculos de poder. Caso não houvesse intenção política nos seus ensinamentos, Sócrates não teria chamado atenção na Atenas da época. “A grande novidade que Sócrates trazia era buscar na personalidade, no caráter moral, a medula da existência humana, em geral, e a da vida coletiva, em particular.” (JAEGER, 2003, p. 540)
A partir da ênfase na personalidade, da busca interior dos conhecimentos encravados, porém, adormecidos, Sócrates pretende dar uma noção, aos alunos, de que é necessário autodomínio, para que possam desempenhar suas tarefas com propriedade. Não se trata somente de se submeter às leis, mas de ter algo dentro de si que lhe permita diferenciar o certo do errado, não de maneira mecânica, imposta, mas reflexiva, notadamente filosófica. “Foi graças a Sócrates que o conceito de autodomínio se converteu numa idéia central da nossa cultura ética. Essa idéia concebe a conduta moral como algo que brota do interiro do próprio indivíduo e não como a mera submissão exterior à lei, tal qual a exigia o conceito tradicional de justiça.” (JAEGER, 2003, p. 548)
Despontou a partir de Sócrates um novo conceito de liberdade, que consistia no domínio interior. Em Platão, a versão é a do domínio do espírito sobre o instintos, o que reflete na sua obra política, já que seu Estado tem um conceito puramente interior de justiça, tal como a coincidência do ser humano com a lei que habita dentro de si mesmo, explica Jaeger (2003, p. 549) Assim, em vez da força exterior e da coragem em batalha do modelo homérico, o modelo socrático-platônico salienta a necessidade de uma força interior, somente atingível quando o homem limita seus desejos à esfera do possível, do que ele pode alcançar. “Só o sábio, que sabe dominar os monstros selvagens dos instintos, dentro de si próprio, é verdadeiramente autárquico. É ele quem mais se aproxima da divindade, a qual não tem necessidade.” (JAEGER, 2003, p. 552)
Há uma separação entre o corpo e a alma na consideração socrático-platônica
[iii], sendo que o culto ao corpo e ao belo – visto na doutrina homérica – é separado do desenvolvimento do caráter, algo mais atinente à alma. Sócrates tenta esclarecer e elucidar os preconceitos vigentes, mesmo aqueles arraigados pela tradição. O caráter, então, deve ser tratado com esmero

“Sócrates está convencido de que, se eles fosse dada a educação adequada, eles atingiriam por eles próprios as maiores alturas e fariam felizes, ao mesmo tempo, os outros homens. Àqueles que desprezam o saber e tudo confiam às suas qualidades naturais faz compreender que são estas as que mais precisam ser cultivadas, tal como os cavalos e cães de melhor qualidade, que a natureza dotou de raça mais apurada e de melhor temperamento, precisam ser amestrados e disciplinados com o maior rigor desde a nascença; é que se não fossem treinados e disciplinados acabariam por se tornar piores que os outros. São precisamente as naturezas mais bem-dotadas que precisam desenvolver o seu discernimento e o seu juízo crítico, para poderem dar os frutos correspondentes aoseu talento. E aos ricos, que julgam poder desprezar a cultura, abre os olhos para que vejam a inutilidade de uma riqueza que não se sabe empregar ou se emprega para mau fim.” (JAEGER, 2003, p. 558)

Há necessidade premente de se ter, primeiro, noção da própria ignorância, para a partir daí galgar os passos do conhecimento de si próprio, das próprias forças. “Mas, com a prova convincente da ignorância do homem que julga saber, abre o caminho para um conceito do saber fiel ao seu postulado e que constitui realmente a mais profunda força de caráter do homem. A existência desse saber é para Sócrates uma verdade de firmeza absoluta, pois se demonstra ser ela a base de todo o pensamento e de toda a conduta moral, assim que indagamos as premissas destes.” (JAEGER, 2003, p. 565)
A educação desde a mais tenra idade deveria direcionar os novos para o conhecimento de si mesmo e da verdade, sem que houvesse influência e das fábulas baseadas nos mitos, como na etapa homérica, justamente para que pudessem diferenciar a mentira da verdade, a realidade da fantasia. Nas palavras de Platão (2007, p. 67), em A República, Sócrates explica: “É que quem é novo não é capaz de distinguir o que é alegórico do que o não é. Mas a doutrina que aprendeu em tal idade costuma ser indelével e inalterável. Por causa disso, talvez, é que devemos procurar acima de tudo que as primeiras histórias que ouvirem sejam compostas com a maior nobreza possível, orientadas no sentido da virtude.”


IV - OS SOFISTAS E SUA INFLUÊNCIA EDUCACIONAL

Apesar da importância de Sócrates e Platão para a educação, foram os sofistas considerados os fundadores da ciência da educação, estabelecendo os fundamentos da pedagogia. Converteram a educação numa técnica, salienta Jaeger (2003, p. 349), assim como as demais artes, no intuito de serem utilizadas nos diversos compartimentos separados das facetas das vidas dos cidadãos. Os sofistas, segundo Protágoras, eram especialistas na techne política, a ser cultivada e difundida como a verdadeira educação “e o vínculo que conserva unidas a comunidade e a civilização humanas”, nos dizeres de Jaeger. (2003, p. 350) No entanto, nem todos sofistas obtinham posição de destaque na educação de governantes ou algo do tipo. Dessa forma, muitos se satisfaziam em transmitir sua sabedoria. Isso contribuiu deveras para que grande parte dos cidadãos de Atenas fossem, à época, alfabetizados.

“Desde cedo Atenas conseguiu proporcionar educação elementar a todos os cidadãos – ao menos, desde um século antes de Sócrates – e tudo indica que a maioria era alfabetizada. Isso era reflexo da ascensão da democracia. Mas a instrução superior continuava sendo monopólio da aristocracia, até que apareceram os sofistas. Eles provocaram o antagonismo das classes superiores ao ensinarem as artes da retórica – pois a capacidade de falar bem em público era fundamental para a participação política da classe média nos debates da assembléia e na sua ascenção aos cargos mais elevados da administração pública da cidade. Além disso, a retórica era necessária também – talvez mais ainda – para o cidadão defender-se nos tribunais.” (STONE, 2005, p. 64)

Os sofistas plantaram os fundamentos do humanismo, separando poder e o saber técnico e a cultura propriamente dita. A educação humana é ordenada sobre o reino da técnica, ou seja, num sentido mais contemporâneo, da civilização. (JAEGER, 2003, p. 350) A cisão entre religião e cultura se dá na época dos sofistas, que contribuíram, inclusive, para uma idéia mais consistente e consciente de educação, já que a crença nos mitos e divindades começa a se desmoronar. Aí, se faz premente a convicção de uma nova certeza, a consciência da formação humana, cuja tarefa lhe era cabida historicamente. “O ideal da educação humana é para ele a culminação da cultura, no seu sentido mais amplo. Tudo se engloba nela, desde os primeiros esforços do homem para dominar a natureza física até o grau supremo da autoformação do espírito jumano. Nesta profunda e ampla fundamentação do fenômeno educacional, mais uma vez se manifesta a natureza do espírito grego, orientado par aquilo que de universal e total há no ser.” (JAEGER, 2003, p. 365)
Os sofistas estruturaram o sistema de educação superior grego que até hoje exerce influência, como, por exemplo, nos liceus franceses. Essa influência se dá por causa da sua versatilidade e da não exigência de se conhecer o idioma grego. Durante muito tempo a gramática, a dialética e a retórica eram fundamentos da educação formal ocidental. Eram o “trivium”, dos sofistas, que junto ao “quadrivium”
[iv], constituiam as sete artes liberais.



V – CONSIDERAÇÕES FINAIS

O modelo homérico de educação enfatiza o desenvolvimento de pessoas voltadas para o heroísmo, para a glória da pátria na qual estavam inseridos. A busca do belo, do honrado e da reputação eram mais essenciais que o mundo interior socrático-platônico. Este, por sua vez, pretende que o indivíduo conheça o seu interior, suas fraquezas, de modo a descobrir o conhecimento e poder enfrentar a realidade exterior.
O primeiro modelo é mais cívico que o segundo, no entanto, há de se ressaltar que naquele há um contexto de guerras e inimigo externo, no segundo, o de uma estabilidade política exterior que permite maior reflexão acerca das questões cotidianas, que não os feitios heróicos na guerra. No modelo socrático-platônico, fomenta-se o autodomínio, uma nova visão do conceito de liberdade que passa a ser também uma liberdade de se desvencilhar dos dogmas e preconceitos tradicionais. Antes, a liberdade, em Homero, era a de não ser submetido a outro povo pela conquista.
O modelo sofista, por sua vez, contempla a necessidade de se vislumbrar a educação de um modo profissional, não ao acaso e formulado com base em premissas, de certa maneira, científicas, de modo sistemático e organizado para que os alunos possam enfrentar o cotidiano na “pólis”. Sua particular preocupação em preparar os alunos para a política, como se vê em Protágoras, foi essencial para que as classes médias pudessem disputar os melhores cargos poíticos com a nobreza aristocrática.
Cada modelo, então, possui características posivitas que podem sem ser condensadas e aplicadas na contemporaneidade. Do modelo homérico, se pode falar da necessidade de os alunos sentirem-se parte de algo que seja maior que eles mesmos, a pátria. A pátria seria algo intrínseco à sua personalidade e também uma coação exterior, que lhe servisse de estímulo para o desenvolvimento da sua cidadania.
Com relação ao modelo socrático-platônico, os alunos teriam a possibilidade de analisar criticamente a realidade em seu redor a partir de um posicionamento interior. Não bastaria, somente servir à pátria, mas servir à pátria diante de um propósito racionalmente justificado, sem que houvesse imposição de ordens absurdas ou mesmo irracionais.
Já do modelo sofista, os alunos teriam a noção de que a educação é uma profissão que deve ser levada adiante para a melhoria das condições de vida geral, principalmente pela via política, já que – no atual contexto histórico – a prova de valor pela guerra não teria tantas vantagens quanto na via política. E para tal deveria haver esmero e preparação dos alunos para ingressar na política ou para participar dela, seja de forma mais direta ou mais passiva, como por meio do voto popular.
Não há divisores de águas extremos entre os modelos apresentados. Portanto, há de se aproveitar o que de melhor cada um deles oferece, para que, desse modelo híbrido, os próprios alunos tenham noção de que nem tudo é rígido ou dogmático, mas há uma evolução histórica que necessita ser compreendida – em termos de modelos educacionais – de modo que os passos seguintes sejam mais embasados, evitando os erros do passado.


VI - BIBLIOGRAFIA

JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
NIETZSCHE, Friedrich. A disputa em Homero. In: Cinco prefácios de cinco livros não escritos. 3. ed. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2005.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret, 2007.
STONE, I. F. O julgamento de Sócrates. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.



[i] “Tudo quanto é baixo, desprezível e falho de nobreza é suprimido do mundo épico. Já os antigos fizeram notar como Homero eleva àquela esfera até as coisas mais insignificantes.” (JAEGER, 2003, p. 69)

[ii] Xenofonte é outro aluno de Sócrates que retrata os ensinamentos do seu mestre em suas obras.
[iii] Posteriormente, Platão formularia sua teoria do mundo das idéias, o que, infelizmente, não será abordado por não ser objeto direto deste estudo.
[iv] Aritimética, geometria, música e astronomia.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Linguagem e educação



A linguagem tem uma importância fundamental para a articulação do pensamento e da vida em sociedade. Na Grécia antiga, Aristóteles – em “A política” – já dizia que o homem é um animal político porque é dotado de linguagem, que lhe permite organizar-se social e civicamente, diferenciando-o dos demais animais, que teriam apenas voz, mas não linguagem. Os valores da vida social e cívica seriam transmitidos por meio da linguagem. Trata-se de uma forma particularmente humana de comunicação, de se relacionar com o mundo, com o outro, de vivenciar as artes e expressar o pensamento.

Há diversas formas de linguagem: desenhos, danças, gestos, ritmos, esculturas, pinturas, arquiteturas, entre outras. E várias delas podem ser aplicadas à educação, em geral, principalmente a oral e a escrita. Um exemplo de aplicação da linguagem oral na atividade escolar. O aluno precisa aprender a falar corretamente, de acordo com o vernáculo, para se fazer entendido e entender os demais colegas. O professor também precisa saber utilizar a linguagem oral para se fazer entendido e entender os demais. A comunicação oral é a mais simples, mais coloquial e a mais versátil.



Por meio da linguagem oral, o professor ministra suas aulas e os alunos se mobilizam para refletir sobre o conhecimento adquirido. Interagem socialmente e constroem sua convivência a interpretam as normas éticas por meio da razão comunicativa.

A linguagem escrita, por sua vez, exige maior raciocino e maior emprego de lógica, já que há necessidade de correlação entre os termos utilizados na oração. Embora toda linguagem em si seja uma extensão da lógica, pela linguagem escrita, através da sua codificação gramatical, os alunos aprendem a raciocinar com maior clareza. É pela escrita que os alunos aprendem a abstrair e a refletir com maior profundidade sobre diversos aspectos da vida, aprofundando, muitas vezes, os aspectos apreendidos pela linguagem oral.

Por meio da dança, por exemplo, o aluno pode aprender com maior verossimilhança questões de controle corporal e noções de espaço-tempo, em geral. Desenvolve-se a sensibilidade conjugada com a aplicação prática de física e matemática, por exemplo. Na dança, o sujeito tem que ter noção de ritmo e de velocidade, entre outras variáveis, para ter uma boa performance.

domingo, 5 de julho de 2009

Libertade realmente efetiva para ser cidadão







O que é cidadão? No ordenamento jurídico brasileiro, cidadão é o nacional em pleno gozo dos seus direitos políticos. É, sucintamente, o sujeito com capacidade para votar e ser votado, de escolher seus representantes no Governo e de se submeter ao pleito eleitoral para ser escolhido como um representante do Governo.

Contudo, cabe analisar mais a fundo essa definição e sua relação com o contexto sócio-econômico do Brasil contemporâneo. Basta o sujeito ser titular de direitos políticos para exercer efetivamente sua cidadania? Formalmente falando, sim. Mas efetivamente, não.

Há necessidade de o indivíduo compreender o que se passa em seu redor, para que seja realmente livre em suas escolhas. Não há liberdade se o sujeito não tiver “functionings” e “capabilities”, como diria Amartya Sen. Ou seja, possibilidade efetiva de fazer coisas e as combinações dessas possibilidades efetivas de fazer coisas. E, ainda, o “capability set’, quer dizer, o conjunto possível de todas essas combinações.

Pelo processo educacional, seja formal ou informal, o indivíduo adquire esses funcionamentos e os combina conforme suas necessidades. Não se verifica, contudo, essa noção. A desqualificação generalizada dos brasileiros implica quase que invariavelmente num quadro de mão de obra desqualificada e o que é pior sem possibilidades de se qualificar.

Se o indivíduo, no modo de produção capitalista, vende seu trabalho para subsistir, cada vez mais isso se acirra no cenário de competição internacional, tendo em vista o fenômeno da globalização e da revolução das tecnologias da informação.

A acumulação de renda não se dá somente com enfoque no interior das fronteiras, mas também em escala planetária. Assim, o trabalhador brasileiro compete com o trabalhador chinês. Uma multinacional, por exemplo, preferia muito mais um ambiente com mão de obra barata, abundante e qualificada, não pensando duas vezes em transferir suas plantas industriais. O capital não tem fronteiras e o brasileiro deve estar a par disso.

A qualificação da mão de obra se, de um lado, encarece os investimentos externos diretos, podendo inibir empresas multinacionais, por outro lado pode auxiliar no desenvolvimento científico e tecnológico do País. Não é suficiente o Brasil ser um País exportador para gerar divisas internacionais. Muitos dos produtos exportados são commodities, quer dizer, mercadorias com menor valor agregado devido à menor qualidade da mão de obra empregada na sua elaboração.

No entanto, se houver qualificação da mão de obra, via educação, a história pode ser outra. Dessa forma, as exportações podem ser de produtos de maior valor agregado, ou seja, com maior valor intensivo de trabalho de mão de obra qualificada. Isso por si só geraria um diferencial com os outros países “concorrentes” nas exportações. Ademais, é necessária uma mudança de paradigmas mentais para que isso se concretize.

No Brasil, não raro ouvem-se chacotas contra os doutores e mestres, de maneira generalizada e, até mesmo, ignorante. Ora, na Inglaterra as empresas privadas contratam cerca de 700 doutores por ano, enquanto o Brasil tem até hoje 700 doutores empregados no total da indústria nacional.

Há um dado interessante. Cada um doutor empregado na área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) de uma empresa gera de dez a 15 empregos, entre mestres, bacharéis e tecnólogos. Existe, portanto, uma necessidade de conjugar e orientar a economia nesse sentido, para que mesmo que as políticas educacionais sejam bem sucedidas, essa mão de obra qualificada fique ao marasmo por não encontrar mais lugar onde trabalhar, além das universidades.

Pessoas com capacidade crítica, então, com capacidade de aprenderem a aprender de modo contínuo. Esta é a chave para o futuro. Já que se comprovou que o grau de escolaridade, em geral, está diretamente relacionado ao nível de renda do trabalhador. Como dar um emprego de diretor de empresa para uma pessoa que não consegue ler e entender uma página de jornal? Complicado.

Retomando a discussão anterior, é preciso fazer algumas ressalvas com relação às exportações como diretriz primordial para o desenvolvimento do País. O aumento do Produto Interno Bruto (PIB) – a diferença entre as exportações e as importações, de modo simplificado – não significa necessariamente distribuição de renda. O crescimento econômico deve estar conjugado com justiça social. Como fazer isso? Geralmente, por políticas compensatórias para que aqueles que estão em pior situação na escala social sejam compensados pela oportunidade que os capitalistas tiveram de serem bem sucedidos.




Sugere-se a tributação maior sobre a riqueza, de modo que seja investida diretamente em algo que favorecerá diretamente a camada mais pobre da população: a educação.

A educação não se resume ao Homo oikonomicus. Serve para abrir as fronteiras mentais do indivíduo para sua relação com o mundo. Immanuel Kant, filósofo prussiano, já dizia que os cidadãos deveriam ser bem educados para exercerem função de vigilância sobre seus representantes.

Uma pessoa bem instruída dificilmente será enganada por propostas impossíveis de serem realizadas, ou mesmo por comentários demagógicos de parte da imprensa calhorda, por assim se dizer. Nem sempre o que sai na imprensa é verdade, mesmo que sejam críticas aos políticos. Nos dizeres de Michelangelo Bovero, em “Contra o Governo dos Piores”, a manipulação da opinião pública não serve à democracia, podendo até mesmo perverter instrumentos da democracia direta – plebiscitos e referendos – para institucionalizar irracionalidades ou mesmo regimes totalitários.

A imprensa – ao mesmo tempo instituição de educação não-formal e aparato ideológico – deve tal como os políticos ser alvo de vigilância constante dos cidadãos. Entretanto, há necessidade de os cidadãos terem a crítica necessária para tomarem consciência disso.

Quando se fala em educação, não se pode restringir o assunto às instituições escolares. Há todo um conjunto de instituições que servem para “moldar” o indivíduo, seja para melhor ou para pior.

Uma coisa é certa. O capitalismo não e bonzinho com ninguém. E para entrar na briga é preciso se capacitar, via educação. Alguns podem achar ruim, mas não tem jeito. Caso contrário, o Brasil jamais deixará de ser uma República de Bananas.

Globalização, neoliberalismo e ensino


Desde que há migração humana, existe a chamada globalização. Hoje, contudo, está em voga chamada globalização financeira, alicerçada, principalmente, pela revolução das tecnologias da informação e comunicação. Há uma intensificação da velocidade das trocas culturais, sociais, políticas e econômicas, com tal intensidade que jamais fora visto antes.

A escola é a instituição do Estado destinada a moldar mão-de-obra qualificada para o sistema, que seja versátil e polivalente, capaz de aprender novos ofícios de modo contínuo, não se apegando a uma só profissão, ou modo de pensar, por toda a vida.

Há necessidade de pessoas que saibam pelo menos o mínimo para poder se inserir nesse novo mundo com tênues fronteiras. Algumas escolas investem na informatização dos seus recursos educacionais e humanos, remodelando as atitudes dos professores e o próprio trabalho docente, visando compensar o que exige o mercado.



Percebe-se, contudo, que muitas tarefas nesse sentido estão mais em questão de plano, de papel, que de realidade efetiva. Não há infra-estrutura adequada em muitos lugares, o que falar de torná-los pólos que capacitem alunos para enfrentar a globalização?

Mesmo nas periferias das metrópoles, os alunos sentem mais os efeitos “perversos” da globalização, como a exclusão digital, que seus benefícios.

Se, de um lado, a globalização e o neoliberalismo aceleram a transmissão e a aquisição do conhecimento, isso ocorre para uma parcela somente da população mundial e brasileira. A maioria não se adaptou, nem teve meios para se adaptar para tais condições.

A interconexão entre educação e tecnologia, na sociedade da informação, deve levar a formação de um indivíduo que tenha flexibilidade, criatividade, pronta solução de problemas, inteligência coletiva, confiança profissional, disposição para o risco e consciência de aperfeiçoamento constante. Na sociedade da informação, a educação é a regra do jogo, tendo como aliadas as tecnologias da comunicação. Mas o mais importante é ter um indivíduo versátil.

sábado, 4 de julho de 2009

Professor de alto nível?


A tarefa do educador contemporâneo não é fácil. Há de se lutar, primordialmente, contra a superficialidade que assola praticamente tudo, levando as pessoas a quererem viver uma realidade rasteira, sem crítica, nem muita reflexão sobre o próprio ato de viver, em si. A competição no mercado de trabalho se dá em escala global, o que faz com que a educação tenha também papel primordial na formação de competências técnicas.


Porém, a mecanização das relações sociais, fruto da razão instrumental, que transforma tudo, até mesmo outras pessoas, em meios para se atingir um fim, que pode ser o lucro, entre outros, deixou a ética para um plano secundário, assim como a cidadania.

O professor parece ser um profissional de pouca categoria, que serve apenas formar uma mão de obra básica. Os salários são baixíssimos com relação a outras categorias profissionais de nível superior e a valorização profissional é cada mais deixada às traças.

Existe um discurso de prática contra a teoria. Esse discurso é imediatista e pouco pertinente para a discussão ética. A prática serve apenas para ocupar as vagas oferecidas pelos meios de produção. A valorização somente da prática breca qualquer tipo de pensamento mais profundo que possa questionar o sistema em si.

Um profissional para competir em escala global precisa ter uma formação ímpar, de elite. Um professor, então, nem se fala. Mas essa é a intenção do sistema? Ter um professor formador de elites, ou um professor formador de mão de obra desqualificada apenas?




No papel, verificamos que se fala em técnica, ética e cidadania, mas na realidade isso é bem diferente. Parece que se brinca de ensinar e se brinca de aprender. Um aluno formado num sistema deficiente não terá independência profissional e terá de se sujeitar aos sabores das migalhas do que o mercado de trabalho lhe oferece.

Como falar para um sujeito que não consegue se afirmar perante o mercado de trabalho que lhe garantirá a subsistência, e de seus familiares, cumpra as leis e seja ético? Ele fará de tudo para manter o emprego, mesmo que tenha de pisar nas suas convicções. Primeiro é preciso existir.

O desafio do milênio é capacitar um professor, que seja a elite da elite intelectual, para formar quadros da elite. Porém, que os acessos a essa elite seja aberto a todos de forma eqüitativa e proporcional a cada um. O professor não pode ser mais um “obreiro” do sistema. Ele é o sustentáculo de um sistema. Quando se quer um sistema capenga, os professores serão capengas. Por outro lado, o professor é extremamente qualificado e valorizado quando se quer um sistema que não seja o empurrar de barriga a situação.




Um professor de alto nível faz o aluno perceber a todo momento as razões do que aprende, o porquê aprende e as eventuais reformulações do que faz. Não formata robozinhos para a linha de montagem. Quer dizer, pode ensinar a técnica, mas também o ensina a pensar. Pensar por si mesmo, o que é mais importante.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Cidadania, Constituição e Educação


Todo cidadão brasileiro deve ter o mínimo de conhecimento do ordenamento jurídico do seu Estado. Para se ter uma idéia, no equivalente à 5ª série, nos Estados Unidos, as crianças aprendem sobre a Constituição, enquanto que, no Brasil, muitos sequer são alfabetizados em sua plenitude. É comum o chavão de que as pessoas devem conhecer as leis para que possam valer seus direitos.

Contudo, é preciso sair do senso comum e das ondas do momento.A guerra de todos contra todos, que outrora se travava com tacapes ou pedras, hoje é realizada por um meio ordenado de atos coordenados em forma de processo (administrativo, ou judicial). Com o monopólio da violência pelo Estado, os conflitos devem ser resolvidos conforme as leis.

O dito princípio da legalidade de um lado resguarda o poder estatal, mas também estabelece garantias para os indivíduos, já que, em tese, nem mesmo a autoridade poderia passar por cima das leis para fazer valer sua vontade.A legislação é elaborada por meio de um processo rígido, com regras previamente estabelecidas determinam a validade ou não de determinada lei ou ato normativo com relação à Constituição.

A Constituição Federal de 1988 tem caráter social-democrata, programático na erradicação das desigualdades, visando a implantação de um Estado de Bem-Estar social, porém, sem se perder da realidade do mercado capitalista.Cabe, contudo, fazer uma pequena retrospectiva, já que o professor, além de ser agente histórico da transformação social por meio do ensino, também é um “proletário”.

Os Direitos Humanos de Segunda Geração, também conhecidos como Direitos Sociais, tiveram origem no final do Século XIX e começo do Século XX.Podemos dizer que o principal motivo foi a Revolução Industrial, levando o capitalismo a um nível de desenvolvimento jamais visto outrora. Nessa época, houve igualmente grande crescimento da classe trabalhadora, pois, como era de se esperar, os proprietários dos meios de produção eram a minoria, a burguesia, se utilizarmos uma acepção marxista.Naquela época, não havia restrição de idade para a atividade laboral, nem um limite legal para a jornada diária de trabalho. A partir do Século XX, os Estados Nacionais passaram a interferir nas relações sociais, regulamentando as questões trabalhistas.

Antes, os empregadores e os empregados eram livres para estipularem os termos da atividade laboral. Porém, o trabalhador sempre saía em desvantagem, pois o empregador possuía maior poder de "convencimento".Os Direitos Humanos de Segunda Geração, também conhecidos como Direitos Sociais, tiveram origem no final do Século XIX e começo do Século XX. Podemos dizer que o principal motivo foi a Revolução Industrial, levando o capitalismo a um nível de desenvolvimento jamais visto outrora.

Nessa época, houve igualmente grande crescimento da classe trabalhadora, pois, como era de se esperar, os proprietários dos meios de produção eram a minoria, a burguesia, se utilizarmos uma acepção marxista.Naquela época, não havia restrição de idade para a atividade laboral, nem um limite legal para a jornada diária de trabalho. A partir do Século XX, os Estados Nacionais passaram a interferir nas relações sociais, regulamentando as questões trabalhistas.

Antes, os empregadores e os empregados eram livres para estipularem os termos da atividade laboral. Porém, o trabalhador sempre saía em desvantagem, pois o empregador possuía maior poder de "convencimento".Daí, a idéia de Estado Social e Democrático de Direito. Por social, entende-se o Estado que intervêm de forma positiva (ou liberdade num âmbito positivo) em prol das pessoas, principalmente as de menor poder aquisitivo.

Neste rol de direitos, além dos direitos trabalhistas, podemos também incluir o direito à saúde e o direito à educação, por exemplo.Os Direitos Humanos de Segunda Geração não possuem um equivalente à Declaração Universal dos Direitos do Homem (dos Direitos Humanos de Primeira Geração), no plano internacional. Há, porém, organismos como a Organização Internacional do Trabalho (OIT) que tem a pretensão de elaborar normas e uniformizar a legislação trabalhista, em termos globais.

No CF/88, os Direitos Humanos de Segunda Geração, estão insertos em sua maioria na parte que diz respeito aos Direitos Sociais. Daí, a idéia de Estado Social e Democrático de Direito.Por social, entende-se o Estado que intervêm de forma positiva (ou liberdade num âmbito positivo) em prol das pessoas, principalmente as de menor poder aquisitivo.

Neste rol de direitos, além dos direitos trabalhistas, podemos também incluir o direito à saúde e o direito à educação, por exemplo. Os Direitos Humanos de Segunda Geração não possuem um equivalente à Declaração Universal dos Direitos do Homem (dos Direitos Humanos de Primeira Geração), no plano internacional.Há, porém, organismos como a Organização Internacional do Trabalho (OIT) que tem a pretensão de elaborar normas e uniformizar a legislação trabalhista, em termos globais.






No CF/88, os Direitos Humanos de Segunda Geração, estão insertos em sua maioria na parte que diz respeito aos Direitos Sociais.Como não poderia deixar de ser, a CF/88 dotou a cultura, no sentido amplo, de especial importância (alguns dos dispositivos a respeito são o art. 5.º, IX; art. 23, III a V; art. 24, VII a IX, art. 30, IX, e art. 205 a 217). Embora a educação e a cultura sejam consideradas Direitos Sociais, o constituinte incluiu-a na CF/88 no capítulo da "Ordem Social".

Para José Afonso da Silva (Curso de Direito Constituiconal Positivo), o artigo 205, da CF/88, contém três objetivos da educação: "a) pleno desenvolvimento da pessoa; b) preparo da pessoa para o exercício da cidadania; c) qualificação da pessoa para o trabalho".Contudo, para que o Direito de Ensino se realize, a CF/88 conta com certos princípios contidos no artigo 206: "universalidade (ensino para todos), igualdade, liberdade, pluralismo, gratuidade do ensino público, valorização dos respectivos profissionais, gestão democrática da escola e padrão de qualidade (...).” O artigo 6.º, da CF/88. alçou a educação ao status de Direito Social. Combinado com o artigo 205, explicado acima, tem a seguinte mensagem: "todos têm o direito à educação e o Estado tem o dever de prestá-la, assim como a família.” (SILVA, 2001)

A Lei 9394/96 regulamentou esses dispositivos da Constituição. Percebe-se que a dita LDBN estabelece uma estrutura educacional uniforme para o território nacional, contudo, sem que haja preponderância de um ente federativo sobre o outro.Ou seja, há espaço para que os Estados-Membros e os Municípios tenham planos próprios, desde que em consonância com o Plano Nacional de Educação, complementando-o naquilo que couber.

A LDBN trouxe para a prática docente a necessidade de se planejar a atividade educacional em consonância com as mudanças globais. A atividade docente não pode ser mais artesanal, mas planificada tal como uma atividade administrativa empresarial, já que envolve recursos humanos e materiais que devem ser aplicados com eficiência para se evitar desperdícios. Contudo, a legislação é muito idealizada, muitas vezes, distante do plano fático, promovendo distorções, muitas vezes, entre o que se quer fazer e o que se pode fazer. Dessa forma, muito do que a LDBN prevê para os professores é executado mais de maneira burocrática, como algo a ser realizado por exigência legal, que implantado em sua plenitude.

Bibliografia
SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 19.ª ed. São Paulo (SP): Malheiros Editores, 2001.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Arteterapia e felicidade



Minha amiga Adriana Elias Josende, gaúcha (bah tchê) com origens libanesas (aí, quibe!), colaborou com o nosso blog, após algumas insistências. Ela compartilha a sua experiência como profissional de arteterapia. Para quem não conhece, é uma ótima oportunidade de ficar por dentro, no bom sentido, é claro e sempre.


Abaixo, o artigo de Adriana.


Essa tão sonhada Felicidade


Por Adriana Elias Josende (essenciacriativa@terra.com.br)



A sagaz corrida cotidiana, a busca desenfreada pelo bem-estar social, a competitividade profissional, a degradação do planeta enquanto bem coletivo, entre tantos outros fatores, contribuem para a desestruturação psíquica e emocional do ser humano.
Ao deparar-se, diariamente, com os avanços tecnológicos e a efemeridade das relações, o homem entra em conflito consigo mesmo.
Por tratar-se de um ser sociável e social, o homem necessita estar em harmonia com o seu próprio eu, construindo uma imagem positiva daquilo que ele deseja ser, bem como, necessita construir relações que o possibilitem viver em sociedade, cujas regras, valores e normas firmadas, por vezes, o colocam em conflitos imensuráveis.
Historicamente, a humanidade alicerçou projetos, construiu e destruiu conceitos, buscou soluções para inúmeras e distintas perguntas acerca do mundo e da interação humana. Nessa busca alucinada, o homem evoluiu tecnológica e materialmente.


Deixando de ser apenas coadjuvante, o homem sai, como seus antepassados, à caça. Deseja, ardentemente firmar-se pessoal e profissionalmente, esquecendo-se que não é um ser sozinho no universo. Concebe-se assim, em meio à globalização , reflexo de uma tendência inerente ao ser humano que é de sobressair-se e dominar os seus semelhantes.
A flexibilidade e transitoriedade em busca de melhores condições de trabalho, o impacto causado pela globalização, faz com que o homem viva em um constante transformação, seja em busca de trabalho, seja em busca de qualidade de vida. Se por um lado, isto estimula a sua criatividade e a busca pela realização pessoal e profissional, por outro lado, o homem nunca esteve tão só. Rodeado de gente, sente-se solitário em seus projetos e suas ambições.
O conceito de inter-relação, vê-se esmagado pela individualidade e a eliminação da concorrência. Hoje, um homem que, para evoluir emocionalmente, necessitaria da referência do grupo, é sozinho num mundo concorrido e voraz. Vê-se acuado, solitário, em meio ao caos das grandes cidades. É, agora, um número, uma parte da engrenagem que, desgastada, ainda precisa funcionar. Vive e convive com as máquinas, maquinizando-se também.
Sob esse foco, surgem então, os conflitos. O homem é um ser dotado de sentimentos: razão e emoção o distingue dos demais animais. Sua capacidade e necessidade de conviver com o outro apresenta-se esmagada no cotidiano das máquinas e da competitividade coletiva.
A satisfação é efêmera, uma vez que se firma em projetos mutáveis, que tornam-se obsoletos ainda antes de serem desenvolvidos, dado à voracidade do fator tempo.A busca pela felicidade é vendida pela mídia, pela cultura, pelo crescimento econômico e pela possível aquisição de bens materiais. Muitas pessoas buscam a felicidade consumindo, outras se anestesiam através dos vícios e compulsões,outras ainda, sustentam a idéia de que felicidade é enquadrar-se nos padrões de beleza e estética. Há os que se prendem às lembranças do passado; outras gastam tanto tempo planejando o futuro que se esquecem de estar presente no presente.
A vida tem se tornado cada vez mais superficial. A busca constante pelo mito da felicidade têm tornado e formado seres vazios. A fugacidade mostra que a felicidade é algo que precisa firmar-se no transcendente.
Em meio ao conflito interno instaurado, o homem vê-se insatisfeito e questionador. Nesse momento, começa a reencontrar-se, rebuscar-se, almejando uma reestruturação pessoal e social.
Questões profundas e fundamentais da existência humana lhe permeiam o ser:. Será que existe felicidade? Como ser feliz ? Onde está a felicidade verdadeira? A cultura em que vivemos hoje prima por uma utópica felicidade baseado em fantasias inatingíveis.Nesse vagar filosófico e existencial, o homem compreende a necessidade de visitar as profundezas da sua própria alma.Cada qual com seu questionamento, encontrará diferentes respostas para suprir-se. É nesse momento que, em profunda introspecção, o homem vê-se diante do óbvio: a felicidade está naquilo que não passa; naquilo cuja efemeridade e o materialismo não corrompe; nas conquistas internas que se alicerçam; no respeito ao eu e ao outro. A felicidade está no crescer e auxiliar o crescimento daqueles que nos rodeiam.
Karl Marx, em seu livro “O Manifesto Comunista”,fez uma colocação interessante e que se remete ao atual momento em que vivemos. Ao afirmar que “a família havia sido coberta pelo véu do capitalismo, reduzindo assim, os laços afetivos, limitando-a a relações de interesses”, o filósofo mostra que as relações de posse e de opressão podem começar ainda no âmago da existência humana. Essa lacuna emocional, aliada à desenfreada busca pelo individualismo social, tornam o ser humano infeliz e perdido no imenso universo comum que é a sociedade.
A era tecnológica com toda a sua parafernália do progresso e a mercantilização da vida fez com que o homem/mulher fossem se afastando cada vez mais de si próprios e dos outros. Sob a ótica da modernidade ser-mais é ter mais. Saber-se importante é ocupar o primeiro lugar, é usufruir do poder e do outro, manipulando-o, numa cegueira que impossibilita ver no outro a si mesmo, convivendo numa sociedade que ignora a alteridade e os valores comuns ao crescimento coletivo; somente o individual é que conta.
Urge, então, que o ser humano reveja conceitos, atitudes, olhe para sua própria condição humana. E há todo um cenário propício para isso. A virada do milênio; a insatisfação do homem/mulher com um sistema que nos iguala e ao mesmo tempo dilata o abismo entre os diferentes grupos sociais; a subjetividade pós-moderna, diferente do individualismo moderno, leva o sujeito a resgatar sentimentos da essência humana. É tempo de olhar para dentro de si próprio em direção a uma transcendência que resulta na emersão consciente de uma nova condição humana, envolta em princípios, que caracterizam um novo ser. Princípio esses, como a solidariedade, respeito às diferenças e a busca pelo não efêmero, alicerçam o desejo do homem voltar-se ao transcendente, numa espécie de regresso ao berço, ao colo do Pai.Assim, em meio a tanta tecnologia, competitividade, materialidade, desapego aos valores éticos e morais, o homem busca, exaustivamente, reencontrar-se.
O momento é oportuno para o resgate das relações humanas. Profissões relacionadas à saúde, ao desenvolvimento humano e social ganham espaço e força , num desejo imenso de resgatar a identidade humana, seus anseios e interrogações, apontando-lhes um novo horizonte a ser desvendado.
A percepção de que, para ser feliz, o homem necessita crescer e integrar-se, passa a ser vista como alavanca essencial de um trabalho que surge como complemento às ciências humanas. A Arteterapia transita por entre esse universo da psicologia, da psiquiatria, da educação, das relações humanas e encontra respaldo na sua essência primeira: o homem e seus sentimentos.
Assim, através de mecanismos como a dança, a pintura, o teatro, a modelagem, a arte na sua forma expressiva, oferece um canal para que o indivíduo se (re) encontre e encontre o outro. Esse processo, marca o retorno do homem à sua essência, que é compreender-se como parte do universo que está inserido, respeitando o espaço do outro e vendo nele, o outro, alguém que faz parte das minhas relações.
Um grande leque se abre para profissionais desejosos de “ajudar” àqueles que estão nessa jornada de volta ao seu ser. O arteterapeuta encontra na ânsia do outro em resolver seus conflitos, o seu foco de auxílio. De forma sutil ,desacomodadora, propõe atividades que resgatam o ser humano da sua clausura existencial, trazendo-o à reflexão de conflitos, apontando-lhes um novo olhar, um novo foco e redimensionando seus conflitos internos na busca da estrutura interior.
Chico Xavier, costumava dizer que: “ A verdadeira caridade alenta e liberta aquele que ajuda, não o ajudado.” Assim, ao deparar-me com o maravilhoso universo da Arteterapia, sua proposta centrada na Arte como essência, sua faceta social, não pude recusar ao chamado interior de segui-la.
Quisera fazer da Arteterapia, mais que uma profissão. Quisera concebê-la como forma de auxiliar àqueles que buscam reencontrar-se, regressar, rever seus conflitos e poder estar em sintonia consigo mesmo, com o outro e com o transcendente.
Aí, quem sabe um dia, possamos aceitar nossa condição única e singular; serem livres das convenções sociais, buscando em nós mesmos a verdade, a luz e a essência. Então, libertar-nos-emos das amarras; não mais vagaremos sem sentido pela trajetória da vida; seremos capazes de percebermos o fundamental, o singelo e assim entenderemos a sensação de completude e de totalidade, numa transcendência que nos orienta e nos faz renascer, todos os dias.
Que eu possa pelo menos sonhar, e, nesse sonho, encontrar-me feliz por ajudar alguém. Talvez, ousarei dizer que é provável que a felicidade exista, que momentos felizes não passam e que as lembranças podem ser menos dolorosas quando reportar a recordações e saudades. Aí sim, teremos encontrado a tão sonhada felicidade, e quiçá, possamos continuar constantemente buscando-a nos momentos mais simples do cotidiano.


* Adriana Elias Josende é professora de Literatura, Teatro e Expressão Corporal, pós- graduanda do curso de Arteterapia pelo Centro de Estudos em Arteterapia, Psicologia e Educação (Centrarte), da Faculdade Cenecista Bento Gonçalves (Facebeg), em Bento Gonçalves (RS).
* Trabalhado apresentado originalmente para apreciação da professora Edna Pereira.