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terça-feira, 20 de julho de 2010

"Schadenfreude": ser feliz é curtir a infelicidade do outro



Há uma palavra em alemão denominada “Schadenfreude”. Talvez não exista uma expressão em português para traduzi-la fielmente. Numa tradução aproximada, significa “sentir-se feliz com a infelicidade alheia” (Schaden – dano; Freude – alegria). Quem não sentiu uma pontadinha de alegria, na Copa do Mundo de Futebol de 2010, quando a seleção da Argentina tomou uma goleada de 4 a zero da Alemanha? O mesmo ocorreu quando a Holanda ganhou por uma virada de 2 a 1 do Brasil.
Os olhares cínicos e as risadinhas amarelas no canto da boca, com suspiros de satisfação quando o outro se ferra, podem demonstrar a “Schadenfreude” com uma certa tipicidade. Quem sabe, tal sentimento reflita a verdadeira natureza humana, que se regojiza aos deleites diante da desgraça dos outros. Aliás, esse não é o segredo de sucesso das "pegadinhas" e outras "trapalhadas acidentais" veiculadas, principalmente, nos programas televisivos de domingo?
Sem as máscaras da moral cristã, se revelam os desejos destrutivos e o egoísmo extremado do ser humano. E também se dá vazão à hipocrisia. Quando se coloca uma pessoa no centro das atenções, todas suas ações e atitudes são analisadas como se vistas por um microscópio. Isto é, qualquer coisa – por mais normal que faça e que também a maioria das pessoas faz – é motivo de recriminação.



Neste caso, a “Schadenfreude” se dá pelo fato de o sujeito em questão ser descoberto e exposto ao público, enquanto os outros - que, provavelmente, fazem a mesma coisa - permanecem ocultos. Anseia-se destruir o outro quem sabe pelo fato de o mesmo lhe ser semelhante, no intuito de se tentar apagar aquela faceta interior que ninguém quer ver.
Afinal, ao se olhar no espelho nem sempre se gosta do reflexo, principalmente, quando mostra quem realmente se é. E ninguém aprecia ver sua imagem desnuda, com todas suas imperfeições. É melhor ver as imperfeições – mesmo as suas – nos outros.
Eis, pois, a “Schadenfreude”. O gozo em flagrar a corrupção alheia, já que a sua própria escapa impune. Corruptos e calhordas são os outros. É mais fácil viver assim: olhar a hipocrisia no outro, em vez de si mesmo, e clamar para que o outro tenha vergonha na cara, em vez de ter vergonha na cara por si mesmo.
Errados sempre são os outros. Dessa maneira, é bem melhor que olhar a si mesmo diante do espelho e morrer de decepção.
Publicado também no "Direto da Redação com Leila Cordeiro e Eliakim Araújo", URL: http://www.diretodaredacao.com/noticia/ser-feliz-e-gozar-com-a-desgraca-alheia

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ars longa vita brevis



Pois é. Mais outro ano que chega, de mansinho. E, obviamente, desejamos que seja melhor, com mais prosperidade e possibilidades de realizações. É a esperança que nos move a cada segundo das nossas vidas, que nos é mais vivaz enquanto somos crianças. Quando pequeninos, temos um brilhar nos olhos que desfalece paulatinamente ao crescermos e nos depararmos com a realidade do mundo de verdade.
As brincadeiras e o fascínio das descobertas ficam sem sal e o reino da necessidade se impõe imperiosamente, ditando-nos as exigências do mundo: emprego, conseguir dinheiro e se estabilizar.
Uma série de mudanças afetam nossas almas em definitivo e os sonhos, antes apontados para o infinito, desvanecem pela ladeira e a vida toma seu curso em tons de cinza.
Não há possibilidade de se escapar dessa louca aventura, a vida. E dela, certamente, não sairemos vivos. A magia, o encanto e a alegria são encontradas nas oportunidades que ela nos apresenta, e como soubermos aproveitá-la, pois não há mais espaço para devaneios. Não somos mais crianças.





Ao mesmo tempo que atingimos o ápice corpóreo, das nossas vidas adultas, começa o declínio do envelhecimento. O recrudescimento carnal é inversamente proporcional à nossa evolução intelectual e de vivência.
Estamos, pois, condenados à vida. A chegada do ano novo denuncia essa situação. Essa sentença não pode ser comutada por outra de menor pesar. Deve ser cumprida com todas suas agravantes e causas de aumento de pena, para que possamos aprender a evoluir diante da adversidade e das limitações deste plano terrestre.
Um brinde, então, às nossas prisões de necessidades e convenções sociais. Mais um ano do cumprimento das nossas penas nos acalenta e nos faz sentir, profundamente, que devemos viver. Arte profunda e duradoura para uma vida curta.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Voltar de Buenos Aires


Fora do País, nos sentimos mais estrangeiros ainda. Do exílio, o fedor das favelas sem saneamento básico é mais penetrante e o grito do inocente morto numa emboscada oficial soa muito mais verossímil.

A vontade de voltar é imensa e embriagante, apesar das circunstâncias atenuantes.
Em Buenos Aires, as mulheres têm a pele clara e o charme europeu, com os
agravantes dos antepassados índios e ibéricos. O suco de laranja é mais caro e as
roupas têm preço de banana, como dizem os novos ricos. Que atrevidos!

O sangue é caliente e a língua se enrola ao sabor do tango e ao ritmo do portenho vinho. As viúvas da Plaza de Mayo gritam por seus ausentes, enquanto no Brasil, ainda
se fabricam mais desaparecidos. O menino de rua virou mortadela, meus amigos.

Ótima solução para quem sequer liga para os recém-nascidos, jogados aos fornos da miséria, como leitões empedernidos. É a solução para a fome, de um país quase desenvolvido, transformar pirralhos das ruas em embutidos.

Vivas para a Fábrica de Mortadela, da qual nenhum menor carente sairá vivo! E, quiçá, aos mais críticos: antes do abate, são bem alimentados, para se tornarem
produtos da melhor qualidade, tipo exportação, e muito nutritivos.

Em Buenos Aires, o fantasma de Perón permanece vivo na lenda de Evita, transformada num musical por uma cantora maldita e, ao mesmo tempo, querida. Na minha terra, da qual parti a contragosto, os tiranos se fazem muito mais desapercebidos.

Sob a sigla de movimentos, estatais, sindicatos, partidos, investigam todos os passos dos menos favorecidos. O pobre quer ser alguém e sair de seu casulo, mas o Leviatã não deixa, simplesmente por vaidade. No mundo dos reles mortais, só existem
direitos para aqueles de berço bem-nascido, cujos traços econômicos estão
rigidamente definidos, em contraposição aos coitados de dentes e sonhos partidos.

É o prazer mórbido daqueles capazes de fustigar o próprio povo, conhecidos no Islã como mamelucos, que são na verdade canalhas travestidos de governantes, ou coisas adjacentes, que usam como bode expiatório o bem-estar de um povo, apesar de exercerem o poder do interior da casca de um ovo choco.

Dentro de seu mundo perfeito, os eleitos por eles mesmos elaboram suas leis, perfeitas aos domínios de suas próprias vaidades. Por analogia - incorreta, diga-se de passagem -, a lei interna do ovo, da cúpula dos eleitos, é transferida ao mundo real, que é algo totalmente diferente do que eles imaginam ser.

É assim que começa o tratamento igual dos desiguais: como adaptar as leis de dentro de um ovo para toda a imensidão ao seu redor? Então, afirmam os sofistas que os provenientes do interior do ovo, a gema da sociedade, são mais iguais que os outros, originários das zonas periféricas.

Assim, as leis sedimentam e mobilizam o sistema. Os desafiadores são submetidos aos aparelhos repressivos e ideológicos do governo, que lhes ditam: Pena de morte gradativa àqueles que tentam desafiar o sistema! Quem é pobre já está condenado sumariamente à desgraça. Quem mandou perder o emprego? É sua culpa e não do governo!





O rapaz erodido pelas rodovias da vida tenta rodar por outro caminho. Sem emprego, sem nada, mas com um pouquinho do que lhe resta do orgulho. Quer fazer tudo certo, como diz o figurino. Quer montar uma mercearia, junto com o padrinho. Os papéis aterrissam e dominam a sua vida.

Vai de um guichê a outro e ninguém resolve o seu problema. A lojinha, bonita de fachada e por dentro toda perfumada, é ilegal por vontade do governo. É só esperar o fim do mês para ter dinheiro e tudo ficar certo. Mas não dá tempo de regularizar a situação.

Em pouco tempo, os fiscais passam por lá e embargam tudo. Como seus bens estão confiscados, é hora de virar bandido ou de cair de vez junto às fileiras de pó e pedrinhas e de ver suas filhas, pré-púberes, aprenderem a ser gente grande, do jeito errado, usando drogas e se vendendo à noite, ao lado do mercado! Dessa maneira, o governo tira o pouco de orgulho que resta do pobre coitado, que vira cambista do mercado informal, que é da economia o filho bastardo.

A viagem, aqui na Argentina, seria aproveitável e curta se eu não tivesse memória e
me esquecesse de tudo o que eu vi e considerei errado. Digo o que ocorre no meu País aos meus novos amigos na Argentina e eles acreditam porque também são exilados. Indagam o meu crime e respondo: “Idéias independentes e um sobrenome de mau-agrado.”
Do jeito que estou, poderia ficar aqui e ninguém se importaria da maneira que eu gostaria.

Adeus, caro leitor, e que estas linhas te tragam algo mais. E se fores um burguês, peço-te com veemência para deixar um pouco de lado tua asquerosa mesquinharia! Se esse dia chegar, poderei voltar sem colocar ninguém em perigo, pois seremos todos iguais.

Daí abraçar-me-ei num corpo de mulher e afagarei seus cabelos negros. Recostarei minha cabeça e chorarei nos ombros dela, numa torrente de carícias. Assim, pueril como um infante, indagarei num suspiro: “O erro está em mim ou no mundo, Maria?”

terça-feira, 23 de junho de 2009

'Karajimagi', o cabeludo



Desenho feito por uma amiga num guardanapo do bar 'Asilo Arkham", por volta de 1994. Até que fiquei bonitinho, né






No uchinaguchi (dialeto de Okinawa, província do Japão), há uma palavra chamada “karajimagi”. Significa “cabeludo”. Durante um bom tempo da minha vida, uns cinco anos (não necessariamente ininterruptos), fui “karajimagi”. Na adolescência, tudo é possível, já que nossas ilusões ainda não foram macetadas pelas pancadas do mundo real.

Eu, por exemplo, queria ser guitarrista profissional. Tinha uma banda formada com o Celso Sinzato (hoje psicólogo), o Fabinho (já há algum tempo na Austrália), o Alexandre Minhoca (atual Policial Militar) e meu irmão, o Chico (continua a tocar na Banda Blackberry).

Fazia guitarra solo com minha Tajima vermelha, modelo Stratocaster, para canhoto. Para apimentar as performances da nossa banda (Xamã), o balançar de cabeça para frente e para trás, para os lados e assim vai.

Conheci muita gente legal nessa época, os irmãos Choquito e Chocola, baixista e guitarrista, respectivamente, gênios nos seus instrumentos. A galerinha muito dez do “The Wry”, que, vocês todos devem conhecer e, se não conhecem, deveriam, pois fazem um som da hora.

Era uma época com sabor de selvageria e delírios teens, mas sem frescuras de tremeliques. Mas como tudo o que é bom dura pouco, essa festa também acabou. Um professor de Biologia - o Sérgião -, no colegial, me apelidou de "Japonês Orgasmatron". E minha lenda se disseminou durante algum tempo na escola. Um outro nipo-brasileiro cabeludo, o professor Iwao, de Química, disse em classe que eu era o cover dele. Outro apelido era "Iwao Cover". Só tiração de sarro.

Por volta de 1991 ao começo de 1993, quando passei no vestibular de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) e de História na Universidade de São Paulo (USP), fui "karajimagi".

Não teve jeito, tive que cortar as longas madeixas de cabelos lisos, que causaram tanta inveja das mulheres que passam horas nos salões de cabeleireiros à procura da “lisura” perfeita.

Eu andava muito a pé naquela época ou de ônibus. Era magro e muito pálido, parecia uma lombriga. Entrei no Salão Fluminense, do João (que Deus o tenha, morreu de acidente automobilístico quando voltava de uma pescaria).

Sentei no banco, cabisbaixo, com dó da minha fonte de forças, tal como se fosse um Sansão da vida. Peguei uma Playboy, só para ler os artigos, como tudo mundo faz, aliás, para ver se me distraía um pouco.

Chegou o momento fatídico. João me chamou. Sentei-me à cadeira, que parecia ser elétrica, pronto para a execução. Resolvi fazer um corte nada tradicional. Cortei moicano a la Phil Anselmo (veja a foto do cara enrolado numa cobra), então, vocalista da banda Panthera. Ficou um troço no meio da cabeça que dava para prender com uma xuquinha.






Saí do salão, todo mundo me olhava meio espantado. Algumas pessoas saíam do meu lado da calçada e iam para outra. Só risos internos.

Passado o período de bicho, na faculdade de Jornalismo, deixei os cabelos crescerem novamente. O período de incubação da cabeleira é sofrido. No meio do caminho, os cabelos ficam parecidos com aqueles ninhos bem desarranjados de passarinho. Horrível. Depois, fica bom.

Comecei a tocar em outra banda, com o Emerson (depois do K-Zone), Ceratti (também K-Zone), Marquinho e novamente Alexandre Minhoca. A temática era rock melódico a la Iron Maiden. O nome era sugestivo “Self Lords” – Senhores de Si.

Depois de economizar por muito, mas muito tempo, consegui uma aparalhagem melhor. Uma guitarra Ibanez para canhoto, um cubo Marshall 4040 e uma pedaleira Zoom 505. Uma das nossas performances foi num lugar chamado “Caipira & Country”, cujas instalações hoje abrigam um teatro pornográfico ao vivo (obs.: eu só ouvi falar, ein. Não frequento esses lugares).

Um lugar mais afeito ao público sertanejo, e nós lá. Tocando heavy melódico com algumas composições próprias. Uns instantes antes, havia um tal de “show das mulheres”. Uns “bofes” subiam ao palco e tiravam a roupa. Na hora de tocarmos, havia uma pequena pausa em uma das nossas músicas. Tirei a camisa, aproveitando o embalo, e comecei a solar. Só gritos da mulherada. Eu, magrelo, pensei que ia tomar xingo, entre outras coisas. Mas como a mulherada fazia tempo, parecia, que não via homem, até que gostou de mim. Menos pior.

Gravamos, com essa banda, uma faixa na coletânea “Rock n Roll de lo Tercero Mundo”, de um estúdio em Salto (SP). Só gente do interior paulista com composições próprias. A nossa foi a música “The first sight”. Mais tarde, mudamos o nome da banda para “Senhores de Si”, vertemos algumas músicas nossas para o português e gravamos, em 2000, no Estúdio Dó, Ré, Mi, em Sorocaba (SP), sob a batuta do músico Maurício Nogueira, duas faixas que seriam lançados num CD coletânea.

Lá por 1995, já estava com os cabelos no meio das costas. Outro impasse. Formei-me na primeira faculdade. No entanto, apesar de jornalista ser meio “bicho grilo”, as aparências no mercado de trabalho são implacáveis.

Por livre e espontânea pressão do mercado de trabalho, resolvi, novamente, cortar os cabelos. Dessa vez, pedi para o João, do Salão Fluminense, me entregar os cabelos. Eles estão guardados, no meu armário, dentro de uma caixa de sapatos. E, ainda, exalam o perfume da última lavada com xampu.





Tinha algumas coisas que me incomodavam também, como me confundirem com mulher na rua, levar encochada no ônibus, essas coisas chatas. Uma vez, um cara me perguntou: “- A senhora vai descer nesse ponto?” Respondi com voz bem grossa, igual dos filmes de samurai: “- Como é que é?” O cara ficou mudo e olhou para o outro lado. Ouvi algumas vezes: “Aí, gostosa!” Nossa, esses caras deviam ser doidos ou meio cegos. Já que eu, cabeludo, deveria parecer a japonesa mais horrível do mundo. Pensando melhor, a segunda mais horrível do mundo. A mais horrível é a Yoko Onno.

Por outro lado, tinha gente que falava coisas maldosas, do tipo "hippie nojento", "nojo de você", e outras delicadezas verbais típicas de gente "muito bem instruída".


Fiquei de cabeça rente por um tempo, principalmente, durante a faculdade de Direito. Depois da colação de grau, em 2005, deixei o cabelo crescer novamente. Fiquei assim até 2007. Na foto da minha carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), aliás, estou com cabelos longos e presos, devidamente trajado com terno e gravata.

Não era muito legal aparecer cabeludo no forum ou outros meios jurídicos. As pessoas olahvam meio estranho. Cortei a cabeleira mais uma vez em junho de 2007, na galeria da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), onde fazia pós-graduação em Direito Penal e Direito Processsual Penal. O pessoal da classe não me reconheceu, perguntou se eu era aluno novo.


Por mim, deixava o cabelo grande mesmo, mas vivemos numa sociedade que dita normas e costumes. Não posso me dar ao luxo de ignorá-las. Por enquanto, não posso me expressar tanto ou viver como eu quero, já que tenho que me adequar ao que a coletividade e o mercado de trabalho pedem. Um dia quando não tiver que dar satisfações para quem quer que seja eu deixo o cabelo crescer de novo. Mas acho que só depois que estiver aposentado. Aí, tem tempo. O tiozinho aqui não é tão velho assim. he he he. Piada sem graça.

sábado, 20 de junho de 2009

De olhos puxados


Ter olhos puxados no Brasil é algo interessante. Desde criança, confundem-me com japoneses, chineses, coreanos, indonésios, vietnamitas, filipinos, entre outras nacionalidades do extremo oriente. É brasileiro nato quem nasce no Brasil. Nasci em Votorantim (SP) porque não tinha vagas em hospitais de Sorocaba (SP). Sou, portanto, brasileiro nato, porém, neto de japoneses.


Como descendente de japoneses, mantenho algumas tradições e alguns costumes, tal como frequentar a União Cultural e Esportiva Nipo-Brasileira de Sorocaba (Ucens), ouvir algumas músicas e ver alguns filmes orientais. Conheço algumas palavras e expressões do idioma japonês, e nada mais.

Interessante notar que ainda tem gente que me considera um não-brasileiro, apesar de ter Registro Geral (RG), Cadastro de Pessoa Física (CPF), carteira de identidade da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), emitidas por entidades nacionais.

Havia uma época em que me mandavam voltar para a minha terra. Minha terra? Matutava. Bom, eu não era e não sou proprietário de terras. Depois caiu a ficha. Mandavam-me voltar ao Japão. Mas como voltar ao Japão se eu nunca vim de lá? Mesmo que eu cometesse uma besteira federal não teria jeito de me “deportar”, “expulsar”, ou outra coisa do tipo, para lá, já que não tenho nacionalidade daquele país.

O preconceito, infelizmente, existe. E não é só contra os nipo-brasileiros, mas também contra os afro-brasileiros e demais minorias. Muito disso é por maldade, mas também tem muita falta de informação, que causa alguns episódios engraçados.

Quando estava no colegial (ensino médio), um rapaz de feições orientais entrou na sala e se sentou perto de mim. O cara ficou quieto, mudo. Puxei conversa, ele não me respondeu. Perguntei, em japonês, o nome dele. Novamente, ele não me respondeu.

Timidamente, ele disse que o seu nome era Ji Hyoung Woo, recentemente vindo de Seul, capital da Coréia do Sul. Apesar de o Japão e a Coréia do Sul terem travados conflitos no passado, nós dois tínhamos nada a ver com isso.

Começamos a conversar em português mesmo, depois formou um bolinho em nossa volta. O pessoal soube que ele era estrangeiro, aí, já viu. Meu novo amigo virou pop star. Chegou a professora e começou a se comunicar com ele por mímica, como se ele fosse surdo. Foi muito engraçado. Ela disse para mim: “Diz para ele que estamos à disposição para o que precisar.”

Eu olhei para ela meio pasmo. Talvez só pelo fato de ter olhos puxados, ela tinha pensado que eu sabia falar coreano. Respondi: “Mas eu não sei falar coreano, no máximo, algumas palavras e frases de japonês.” De repente, um silêncio geral.

Em outras ocasiões me faziam umas perguntas que eu respondia ironicamente, de modo sarcástico, como sempre faço. Sem querer faltar com respeito, mas só para dar risada mesmo:

Pergunta – Na sua família só pode casar com japonês?
Resposta – Não, porque eu gosto de mulher. Eu poderia me casar com japonesa, mas casar com outro homem no Brasil não pode. E se pudesse, mesmo que fosse com um japonês, acho que a minha família não ia aceitar. Não somos tão liberais assim.


Pergunta – Na sua casa vocês comem comida normal mesmo?
Resposta – Não, a gente come ração de cachorro.

Pergunta – Seu irmão é japonês também?
Resposta – Não. Ele é russo.


Pergunta – Fala alguma coisa em japonês.
Resposta – Alguma coisa em japonês.

Pergunta - Adoro a cultura e culinária do seu País. Qual prato, do seu País, você mais gosta?
Resposta número 1 - Não sei. Eu não como prato.
Resposta número 2 - Nossa, há vários pratos muito gostosos na culinária do meu País como feijoada, dobradinha e tutu de feijão. Mas eu, particularmente, adoro churrasco!

Pergunta – Que tipo de mulher você gosta?
Resposta – Mulher do sexo feminino.
Pergunta - Você é mestre em artes marciais?
Resposta - Não. Sou mestre em artes sexuais. Eu sou o sushi erótico! Se experimentar, sei que vai gostar! (a moça que ouviu isso nunca mais conversou comigo. Nem todo descendente de asiáticos é ninja, ou o gafanhoto do seriado "Kung Fu". rs rs rs)

Não sei se responder assim é grosseiro, porém, é bem legal. Eu dou muita risada, levo na brincadeira se me fazem essas perguntas. Espero que quem me ouça falar isso também me leve na brincadeira. Independentemente de etnia, cor de pele e religião, somos todos humanos. Corta o seu braço e eu corto o meu. O sangue que sairá é vermelho. Escrevi em sentido figurado, não vai pegar uma faca para fazer isso, ein.

sábado, 6 de junho de 2009

Música da vida inteira


Foto: Meu avô e eu, quando eu ainda era um ser humano. Depois a gente cresce e vira essa coisa que escreve esses bagulhos estranhos nesse blog. rs rs rs.

“Good bye my friends, I´m leaving you today. My quest is high and I must to find my way.” (Música Farewell, da banda Gamma Ray. Tradução: “Adeus meus amigos, estou lhes deixando hoje. Minha missão é grande e eu devo procurar meu destino.”)



As pessoas têm características únicas, indelegáveis e personalíssimas. Cada uma tem uma história, uma mensagem, uma missão nesta vida. Individualmente, carregam consigo uma melodia que lhes permite identificar seu temperamento, caráter ou demais qualidades. Tal como um ruído extravagante, às vezes, alguns nos causam arrepios e nos espantam, por assim dizer. Entretanto, podemos afirmar que se encontramos seres humanos que, somente pela sua presença, transmitem uma energia, uma sabedoria, como uma onda celestial, vibrando através de tudo, podemos dizer que, de certa maneira, fomos abençoados com uma graça muito superior a qualquer coisa que conhecemos. Esta música, que cada um tem em si, vaza pela matéria e permanece na memória dos que ficam, através de flashbacks e outros assuntos inesquecíveis. Algo assim ocorreu na minha vida. E esta é uma música de uma vida inteira que vou guardar comigo até o fim dos meus dias.

Ao som das ondas batendo contra os rochedos e da brisa varrendo as areias da praia, Schincho Ishigaki lê atônito um documento. Sua irmã lhe enviara uma carta, comunicando-lhe que ficara viúva, com dois filhos menores para cuidar. Num país recém-castigado pela guerra contra a Rússia, o jovem com seus 20 anos tomou uma decisão que iria mudar os destinos de muitos. Franzino e calado, mas muito decidido, despediu-se lentamente da sua terra natal, uma ilha homônima (ver Ishigaki Shima, no mapa abaixo) ao seu sobrenome, para adentrar na mais maravilhosa das aventuras que imaginara. Atitude, no mínimo, admirável.





Ao zarpar do navio, o belicoso Hino Nacional Japonês era entoado pela multidão que partia para a terra prometida, o Brasil. “Kimi ga yo wa...” Uma viagem longa, de quase um ano, atravessando o Oceano Pacífico, certamente não era para qualquer um. Mas estes intrépidos personagens reais enfrentaram isto e muito mais ao longo das suas existências. Canções folclóricas serviam para enfrentar os enjôos e a insalubridade dos navios. O shamisen (tipo de um banjo japonês) era freqüente nas rodas de amigos que se formavam durante a viagem.

Músicas peculiares a cada província dos aventureiros mostravam a diversidade cultural de um povo aparentemente homogêneo. Em semelhança aos navios negreiros, muitos não resistiam à viagem e tinham seus corpos jogados ao mar. A embarcação dava uma volta em redor do corpo e seguia novamente a viagem.



Yanawaraba - banda de Ishigaki Shima (Okinawa, Japão), formada por Ishigaki Yuu (sanshin e vocal) e Ayzato Riyo (violão e vocal)


No Porto de Santos, depois do apito do navio, escutavam o Hino Nacional Brasileiro, numa recepção que era um misto de alegria, mistério, desejo e receio, tudo ao mesmo tempo. Depois disto, partiam para o interior da Terra Brasilis. A saudade da terra natal e a esperança de para lá retornarem ricos eram presenciadas nas canções e cantigas, entoadas pelos grupos, nas roças, arados e outros serviços rurais.

O dinheiro nunca era o suficiente. Mas a vontade de ser alguém era enorme e o espírito guerreiro, também. O jovem Schincho encontrou a irmã, mais os filhos dela. Apesar da pouca diferença de idade com seus sobrinhos, fez as vezes de pai, tio e avô ao mesmo tempo. Com tudo encaminhado, encantou-se com a irmã de um amigo, chamado Takahide Daijó. A moça de gênio temperamental era Yoshiko Oshiro. O início da relação fora tempestuoso. Mas deixadas de lado as diferenças, suas músicas se encontraram em perfeita harmonia, originando um ser quase que uno, na imensidão de sons que amealhava-lhes a resistência.


Desta união, surgiram novos costumes e outros sonidos, um misto da bagagem oriental com o aprendizado adquirido no solo brasileiro: os filhos (Mário, Júlia, Marisa e Jorge). Mas até atingir a harmonia, existe o eterno conflito, o jogo de forças antagônicas e complementares. A melodia nipônica e a brasileira chocavam-se com estrondo, causando guerras internas – nos filhos – e no próprio casal, na condução da sinfonia das suas vidas.

Mas a mensagem das suas músicas era muito poderosa e envolvente. Mas precisava de gingado. Na fuga das plantações e no contato com os clientes, no comércio de produtos agrícolas, o casal adicionava ritmo à sua harmonia. Schincho, quieto e detalhista, comprava as mercadorias e administrava os negócios. Sua cônjuge, elétrica e falante, tinha o perfil de uma vendedora nata, de dar inveja uma ponta aos executivos mais afinados com as técnicas de venda.


E assim, conduziram a melodia das suas existências até chegarem ao adágio da aposentadoria. Forçados pelos filhos, venderam a banca no mercado municipal. Birrentos, como a maioria dos idosos nipônicos, cederam sem querer dar o braço a torcer. Mas perceberam que era hora de tocar em frente outra parte da sua sinfonia, os seus netos. Um deles, aliás, carrega seu nome (Francisco Schincho Moshin, o Chico, o baixista da banda Blackberry), numa homenagem que lhe levou aos prantos – uma das raras vezes na sua vida.

Um derrame cerebral dificultou as peripécias de Schincho, mas auxiliado pela filha Marisa, retomou a batuta e reconduziu sua vida. Sua companheira de vida, contudo, ainda não se adaptava ao novo andamento da música conjunta. Por isso, ouvia-se, às vezes, as interjeições do patriarca, fazendo com que sua esposa se encaixasse novamente no tempo.


Mas toda música tem um fim e um novo derrame lhe fez perder a condução da sua orquestra. Foram quase 20 dias de silêncio, no hospital, que lhe deram a condição de ouvinte da sinfonia que ajudara a criar. Esposa (Yoshiko), filhos (Mário, Júlia, Marisa, Jorge), genros (Moko e Jorge), noras (Marilene e Reiko) e netos (Roger, Lilian, Chico, Tato e Juliana) – no limite do permitido – entravam na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e sopravam-lhe mensagens de esperança no ouvido. Mesmo com toda a expectativa, às 13h15 de 27 de julho de 2001, o maestro passou a titularidade da orquestra para sua companheira e impôs a si mesmo um nível mais alto de composição, junto aos seus pais e ancestrais, num grau de abstração ininteligível para nossa finitude e pequenez.

Uma música tão bem elaborada e executada assim nunca será esquecida, até porque se incorpora como elemento fundamental das outras composições, ao longo das suas vidas. Este maestro, caros leitores, eu tive a honra de chamar de avô. Se escrevo estas linhas hoje, devo muito a ele, que sempre incentivou meus estudos, embora atentando-me sempre para não me desviar do caminho das virtudes e, principalmente, da humildade. Não sei se sou digno dos seus ensinamentos e se conseguirei mantê-los intactos. Espero que esteja regendo esta música, lá de cima, guiando-me nos meus passos à excelência. E quando este dia chegar, sei que estaremos juntos novamente.