Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Meu livro - Contos do Infinito





O autor Roger Moko Yabiku lançou o livro “Contos do Infinito”, pela Chiado Editora, de Portugal. A obra contém, em sua maioria, pequenas histórias com temática policial, existencialista e de crítica social. “Analiso o cotidiano sob o ponto de vista da introspecção, do sujeito que não desiste apesar de todas as dificuldades encontradas”, diz o autor. “Mas também há espaço para um amor mais sublime, quase platônico.”
No conto “Voltar de Buenos Aires”, Yabiku denuncia a manipulação das massas: “Na minha terra, da qual parti a contragosto, os tiranos se fazem muito mais despercebidos. Sob a sigla de movimentos, estatais, sindicatos, partidos, investigam todos os passos dos menos favorecidos. (...) No mundo dos reles mortais, só existem direitos para aqueles de berço bem-nascido, cujos traços econômicos estão rigidamente definidos, em contraposição aos coitados de dentes e sonhos partidos”.
Os alertas quanto aos riscos de um regime totalitarista dão o tom de “Quando ela veio”. Neste conto, são descritas cenas de tortura contra um indivíduo que ousa a desafiar a ordem vigente e que, ao final, recebe uma inusitada visita: “Ela continua ao meu lado e segura a minha mão. Com um fiapo de voz, sem crer muito no que presencio, pergunto-lhe finalmente o seu nome.”
Já em “Conto de Natal”, o autor destila uma amarga e irônica crítica à desigualdade social, cujas diferenças permitem que, numa ponta, haja prostituição infantil e pobreza extrema e, na outra, pequenos burgueses com mesas fartas para a ceia.
A pedofilia é tema dos textos “A fábrica de mortadelas” e “O retorno da vítima”. “O tom dos escritos é brutal e retrata cenas de vingança daqueles que, outrora em posição de hipossuficiência, foram abusados por aqueles que deveriam protegê-los”, explica Roger Yabiku.
O clamor por justiça social está presente em “Quase-discurso”: Esforços reunidos em torno de um acordo geral de vontades nos garantirão meios para que tenhamos uma estrutura básica, incluindo em seu bojo instituições justas, com igualdade de oportunidade para todos.”
Roger Yabiku é bacharel em Direito e Jornalismo, graduado pelo Programa Especial de Formação de Professores de Filosofia, MBA em Comércio Exterior, especialista em Direito Penal e Direito Processual Penal e mestre em Filosofia (Ética). Atualmente, atua como professor universitário e advogado, no seu escritório à Rua Manoel José da Fonseca, 35, Centro, Sorocaba (SP)..

“Contos do Infinito” custa R$ 40,00 e pode ser adquirido, no Brasil, com o próprio autor.

sábado, 22 de março de 2014

O retorno da vítima: adeus, pedófilo!


Visco das entranhas espalhava-se pelo chão, numa mistura com sangue, fezes e outras substâncias típicas do aparelho digestivo. Tal como uma cena grotesca de arte, enrolou-se um pedaço do intestino em redor do pescoço do cadáver, como se aquilo fosse uma gravata da mais recente moda. Era um espetáculo jamais visto antes. A parte inferior da boca descolou-se do crânio, abrindo a boca até a metade do pescoço, num sorriso macabro, sombrio e tenebroso.
            Um filete de voz ainda escapulia pela garganta do sujeito, demonstrando que, apesar de todo o aparato sofisticado de tortura, o desgraçado ainda estava vivo. Sem os dois globos oculares, que foram ocupados estrategicamente por bolinhas de gude, e sem a parte inferior do torso, cuja mutilação deixava escorrer o restante das vísceras pelo ambiente. E o odor se tornou fétido e imprestável.
            Aquela carcaça inútil ainda resistia, porém, não se sabia que poderia ter tamanha vontade de viver. Como isso poderia se dar, já que não teria condições reais de viver normalmente, sem nada que lhe impedisse de usufruir das delícias que outrora provou.
            Mesmo que nada mais lhe restasse, a mente praticamente moribunda do quase cadáver relampejava e insistia em manter e a enviar alguns sinais elétricos para as sinapses, apesar do prelúdio da morte certa e imediata.
            Um crime com status estético, tal como aquele em que se seu caráter artístico àqueles corpos de prisioneiros chineses embalsamados e fatiados, expostos como se fossem obras de arte.
            Jamais tinha visto algo parecido na minha parca existência. Tudo refletia o que mais de horrendo já havia percorrido a superfície terrestre. Um espetáculo além do macabro, que ficaria para sempre na minha memória.
            Nunca mais conseguiria dormir sem antes sorver alguns goles de bebida alcoólica para tentar apagar, da mente, aquela degradação que me invadia constantemente os domínios do real e do imaginário.
            Tinha que me livrar daquilo, pois me lembrava outra faceta do meu ser que nunca enfrentei antes. O lado obscuro da alma, que abraça a loucura e os demônios encalacrados, insurgia-se, de tempos em tempos, para dar vazão ao ódio acumulado ao longo dos tempos.
            Aquela obra de arte hedionda tinha um autor peculiar que custei a reconhecer. Mas ao reconhecê-lo, tive sobressaltos de decepção. O ser nauseabundo e fétido era da minha autoria. Eu, artista apocalíptico que esporrava a mais profunda raiva com talhadeiras, furadeiras, serras e outros instrumentos típicos de carpintaria em matéria orgânica que insistia em continuar viva.
            Dificilmente saberei dizer com todas as palavras os sentimentos que se apoderaram de mim quando selecionei a minha presa e a entalhei com requintes de sensibilidade barroca.


            Por muito tempo, aprendi a controlar as emoções, a ficar calado quando contrariado, numa frieza que daria inveja ao mais articulado dos espiões. Mas isso de nada serviu quando não consegui mais segurar a besta interior. Não tenho mais possibilidade de saber se terei habilidade para controlá-la, no intuito de se evitar outros massacres.
            A vida de seres como o que acabo por destruir é totalmente perecível e descartável, mesmo com relação a um suíno. Pedófilos não são pessoas, e sequer podem ser considerados humanos. Não há parâmetros para suportar animais desse porte que destroem de dentro para fora a infância que deveria ser sagrada a toda e qualquer criança.
            Em todos seus crimes, o sacerdote seviciava os pequeninos com um crucifixo preto de madeira, arrebentando-lhes as aberturas do ânus e da vagina das meninas e do ânus e do pênis dos meninos. Os poucos que sobreviviam depois de horas de brutalidade eram submetidos a cirurgias de reconstrução, porém, não teriam mais possibilidade de controle do despejo dos seus excrementos e outras secreções.
            Ele filmava todas as sessões de “catecismo”, narrando detalhadamente cada uma das atrocidades que cometia e ignorava, por completo, os clamores das vítimas pela piedade e pela intervenção divina. Penetrava-as por todos seus orifícios, lambuzando-os com seu sêmen. Gentilmente, após realizados os atos, banhava seus corpos em água benta, no intuito de purificar as almas dos ingênuos e perdidos pecadores.
            Consegui sobreviver, padre. Mesmo com meus órgãos baixos dilacerados e a dignidade corrompida, Deus me deixou vivo para que eu pudesse me dar conta da minha verdadeira missão nesta terra profana. Naquele dia, padre, o senhor e seu crucifixo me levaram ao inferno e não mais retornei. De acordo com a doutrina, mesmo sendo vítima, tornei-me um pecador.
            Sim, padre. Igual ao senhor, também sou um pecador. Porém, um pecador contra minha vontade. Lembra-se quando eu lhe ajudava nos preparativos da missa e todos meus amigos do orfanato sentiam orgulho? Poucos sabiam, padre, ou queriam não acreditar, que naquela minha dedicação, havia grilhões em minha alma que me aprisionavam diretamente ao senhor.
            Inúmeras vezes, padre, o senhor me seviciou com as garrafas do vinho com que celebrava a missa, mastigava as óstias e me cuspia dentro do intestino, como se eu fosse um peru sendo recheado para a ceia natalina. Não percebia meu choro calado e as lágrimas secas que encharcavam o ambiente.
            O senhor me tornou servo do demônio, padre. Num lugar onde esperava salvação, como outros garotos miseráveis do meu bairro, o senhor me destruiu no primeiro momento em que me forçou suas carícias. Em outra paróquia, foi o digno defensor da virtude e da castidade. Mas aquela era uma paróquia de ricos, senhor. Padre, o senhor violou justamente as crianças depauperadas de dinheiro e de afeto. Aquelas que mais queriam o seu puro amor.
            Não que haja diferenças morais por se nascer rico ou pobre. Juízos morais não se proferem com base em propriedade ou posse de bens materiais. Porém, éramos os que mais necessitavam da sua proteção, pois nas nossas casas, escolas e outros recintos sociais estávamos sujeitos a sermos violados. E não na casa do nosso Senhor.
            Na sua chácara de final de semana, padre, o senhor passou um pouco dos limites e estraçalhou as minhas carnes. Deixou-me junto ao córrego carregado de esgoto para, simplesmente, morrer, totalmente lambuzado com suas secreções. Não parecia que ia sobreviver, padre. Mas a cúpula da ordem já estava de olho no senhor, acompanhando os seus passos, coletando provas, para que o Sumo Pontífice firmasse sua convicção com certeza.
            Todos os membros da força tarefa da ordem que deveriam lhe capturar se compadeceram diante dos meus restos vivos e começaram me acudir, para me tentar reanimar, enquanto o senhor, padre, fugia como um anjo caído se apavora diante da luz do Sol.
Morri naquele dia por sua obra, padre. Renasci das cinzas junto à ordem, que não poupou esforços para reconstruir cirurgicamente meu corpo. Não deveria voltar a andar, falar, ler, ouvir ou escrever. Por isso, a ordem fez crer, assim como eu, padre, que minha sobrevida foi um milagre.
Fui rebatizado. Lembrei-me do senhor, padre, que me fez o primeiro batismo, a primeira comunhão e a crisma. Precisava, contudo, ver-me redefinido, junto com a fé que o senhor me ensinou, mas que o senhor mesmo traiu. Meu corpo é uma aberração, um misto de músculos, ossos e aparatos mecânicos, sem os quais não poderia sequer respirar. Seu estrago em meu corpo e meu espírito foram devastadores, padre. Isso me queima até hoje.
Porém, o fogo que o senhor ateou no meu espírito, padre, é mais incandescente e doloroso que toda fustigação a que me sujeitou. A remoção cirúrgica das minhas partes estraçalhadas, da minha masculinidade e de outras partes vitais, padre, me arde menos que a decepção que o senhor me causou e aos outros inocentes.
Os anos de recuperação e de fisioterapia, além do treinamento de soldado da fé, padre, em vez de me auxiliarem a recuperar a fé no Senhor, Nosso Deus, me alimentaram o ódio e o desejo de vingança contra a sua pessoa. Deram-me a extrema unção quando me encontraram no córrego de esgoto em que me deixou para morrer, padre. Mas algo brilhou no fundo do meu ser, algo que não me deixou esmorecer, de forma alguma. Aquela extrema unção tornou-se algo que me fez viver, sentir-me com um motivo de perseverar diante de toda aquela adversidade.
Sobrevivi e fui reconstruído pela ordem, padre. Porém, creio que ainda estou morto, tal como o senhor me havia quase deixado. As próteses metálicas, com funções também beligerantes, são tão frias quanto aquilo que um dia foi o coração de um menino cheio de expectativas com o futuro.
            Não vejo esperanças num mundo que mascara esse tipo de atividade insensata e insana, muito menos de fiéis que acobertam os crimes de um sacerdote, que usa da fé e da confiança para atraiçoar aqueles que deveria proteger. Rezar e idolatrar a divindade e se dizer pregador da sua palavra para milhares de pessoas ao longo dos anos, com atividades secretas com algumas delas, selecionadas especialmente para outros fins, assemelha-se a um pastor que sevicia as crias do rebanho, sem que haja possibilidade de reação.
            A decepção é insuportável. Nossa ordem sempre primou pela aplicação correta da palavra divina, sem que houvesse aberrações ou distorções contra os mais fracos, que não têm possibilidade de se defender. De um lado a cruz e, do outro, a espada para fazer valer os desígnios de Deus numa terra infestada pelas intenções e ações malévolas.
            Certamente, a espada pode ser substituída por qualquer outro tipo de armamento, até mesmo por aqueles que são improvisados, mas que são extremamente letais se empregados por profissionais experientes contra qualquer tipo de ser vivo.
            A arte de matar parece contradizer o mandamento cristão de preservar, a qualquer custo, a vida. No entanto, o mundo não é preto e branco, com fronteiras bem definidas. No discurso religioso, isso é possível, entretanto, no mundo real, tudo é pincelado em tons cinzentos, sem que haja distinção nítida entre o que é certo e o que é errado.
            Para combater os que violam o ordenamento social, não bastam somente boas intenções. Há necessidade de emprego de força, ou mesmo passar por cima dos princípios que, outrora, juramos defender. Ficamos encarregados de limpar a terra com nossos atos concretos, enquanto os sacerdotes e os fiéis se encarregam das orações.
            Oficialmente, não existimos. Oficialmente, seremos execrados se formos pegos. E, sem dúvida, abandonados por nossos superiores e por nossos comuns. Apesar de desempenharmos nossas funções com propriedade, o anonimato é essencial para a existência da ordem.
            Não há liberdade de expressão nesse âmbito, muito menos de solidariedade. Aprendemos a matar, um ofício solitário e sensível, com a trilha sonora das orações e dos cânticos sagrados. O assassinato justificado, por assim se dizer, de pessoas que se tornaram indesejáveis perante o mundo, mas que as autoridades religiosas, políticas e econômicas não têm coragem de se livrar delas.
            Somos nós que fazemos o trabalho sujo que mancha de sangue nossas almas para que as dos demais permaneçam imaculadas à espera da salvação prometida nos templos. Os cavaleiros devem ficar ocultos e exclusivos aos desígnios da ordem, tal como androides sem convicção, além de cumprir exemplarmente aquilo que lhes fora designado.
            Nascemos mortos e sabemos de antemão que seremos amaldiçoados por tudo aquilo que fizemos por nossa passagem terrena. Iremos direto para o inferno. Um paradoxo, já que lutamos para fazer valer os mandamentos de Deus, embora, na verdade, utilizemos o ferramental do demônio.
             O senhor, padre, pensa que seu suplício acabou? Bang, bang. Dois tiros de misericórdia bem no meio da sua testa, padre. A misericórdia que nunca teve com os outrora inocentes. No inferno, ao nos encontrarmos novamente, terá mais. Aguarde-me, padre. Ainda estou reencarnado do inferno. E um dia retornarei ao inferno junto ao senhor, no qual serei o inquisidor, o defensor, o magistrado e o executor da sentença. Minha alma já foi perdida por sua obra padre. Deus que, se puder, me perdoe, pois eu não mais consigo perdoar, muito menos amar. Tornei-me o pior dos assassinos, padre, para que o senhor não pudesse mais pecar da maneira como pecou comigo.

            - Bang. É o estampido seco do tiro bem no meio da sua testa. São os últimos sons que ouviu, padre. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Papel higiênico será usado no cálculo da inflação


IPCA, do IBGE, terá de incluir as variações dos custos também na região metropolitana de Sorocaba

SOROCABA (SP), 21 de abril de 2010 – O papel higiênico será incluído como item específico para o cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que também vai pesquisar as variações de custos na região metropolitana de Sorocaba (SP). Isso será realizado caso Darth Vader ganhe as eleições presidenciais de 2010.

Metas de inflação

O IPCA, calculado mensalmente, é o índice oficial que o Governo Federal utiliza para a medição das metas de inflação. Inicialmente, foi instituído para corrigir as demonstrações financeiras das sociedades de capital aberto (empresas com ações negociadas em bolsa de valores).
Apesar de o papel higiênico poder ser inserido no tópico saúde e cuidados pessoais, entre os demais itens utilizados para a ponderação e cálculo do IPCA, Darth Vader considera extremamente importante que o produto seja mais valorizado. “O papel higiênico é o que separa os civilizados dos não civilizados”, diz.
Os tópicos ponderados para o cálculo do IPCA, por peso nos gastos, são alimentação (25,21%), transporte e comunicação (18,77%), despesas pessoais (15,68%), vestuário (12,49%), habitação (10,91%), saúde e cuidados pessoais (8,85%) e artigos de residência (8,09%).

Equipe econômica




De acordo com o presidenciável, a equipe econômica do atual Governo parece não saber disso, pois o fedor das reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) indica o não uso de papel higiênico por parte dos irresponsáveis pela condução da política monetária. “No meu governo, todo presidente do Banco Central (BC) e ministro da Fazenda terá que usar obrigatoriamente papel higiênico. E, depois, bidê, para evitar resquícios”, assevera.
Atualmente, a pesquisa do IPCA é realizada em pessoas que ganham até 40 salários mínimos, nas regiões metropolitanas de Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, município de Goiânia e Distrito Federal. “Sorocaba não pode ficar fora dessa pesquisa”, afirma Vader. “Se eu não a incluir nos meus quatro anos de mandato, podem pedir meu impeachment.”
Darth Vader finaliza: “Minha equipe econômica não pode cometer fezes durante o exercício da função. Fora, tudo bem. Mas que use papel higiênico.”


Obs.: Este texto é uma sátira da realidade, não tem conexão com a verdade. É tudo ficção, mentirinha. É algo para se dar risada diante do absurdo que se apresenta a política. Apenas isso!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A fábrica de mortadelas


- Sai da frente moleque desgraçado, que está atrapalhando o caminho!
- Calma aí, tio.
- Não sou seu tio, filho da puta, e vê se some rapidinho.
Juliano nem escutou direito as últimas palavras. Os dedos gordos do homem juntaram-se numa concavidade e ergueram-se numa trajetória lateral até a orelha esquerda do menino. - Plac. - foi o estampido do zumbido que ficou latejando por um bom tempo no tímpano dele. - Esse foi de graça, da próxima vez, sai mais caro.
Saiu rapidinho, por uma das vielas da Catedral, saindo da Praça Central para Rua Padre Luiz. De lá, ia dar uma passada na Concha Acústica. Já era noite e o calor insuportável de fim de dezembro engordurava sua pele morena e esquálida pela ação dos helmintos. O Centro estava vazio. As buzinas e os passos das pessoas pelas calçadas permaneceram mudos como um reflexo da ressaca do Natal. Juliano era miúdo. Apesar dos 14 anos, aparentava 11. Seus passos desanimados compensavam-se com o sonho de um dia ter uma vida normal. Nas costas, encobertas por uma camiseta de algodão bem justa e agarrada às formas do tórax, estava a cicatriz da navalhada, uma espécie de demonstração de afeto de sua primeira noite como prostituto mirim. Para disfarçar, tatuou um navio em cima do talho, em cima do pulmão direito. Seus olhos eram amarrados e distantes, como se quisessem partir desta dimensão para outra realidade mais acolhedora.

Ocorrência: 15 de novembro de 1998. Juliano Alves Pereira, data de nascimento: 7 de setembro de 1984. Idade: 9 anos. Escolaridade: 3ª série do 1º grau. Local de nascimento: Maringá, Paraná. Mãe: Matilde Alves Pereira. Pai: desconhecido. Estado civil da mãe: amasiada.

Juliano um pentelho vivo e inteligente fazia vida fácil na escola. Aprendia rápido um pouco de tudo e tirava boas notas. Não repetiu de ano nenhuma vez e por causa disso seus colegas eram mais velhos, maiores e mais fortes. Mas o bichinho sabia impor respeito. No pátio era o rei da conversa, um pouco assanhado e inocente, dizia: - Conhece a Sandrinha ? Ela é minha namorada, mas não fale nada porque ela não sabe ainda.
Naquele fim de tarde, saiu correndo da escola com o boletim na mão. Passou em tudo, com o calor úmido de fim de ano escorrendo em suor pela sua garganta. A mãe terminava de limpar o toalete, numa mansão do Jardim Santa Rosália. Toalete, explicou-lhe em certa ocasião, é o nome que os ricos dão ao banheiro. Assim como a privada recebe o nome quase científico de vaso sanitário. Tinha um tal de bidê, que Matilde nem sabia para que servia.
Trotando pelas ruas, coberto da terra vermelha que assola a região, Juliano tinha o documento nas mãos como se fosse um cavaleiro numa cruzada à Terra Santa. “Mãe, passei de ano ! Fui o primeiro da classe !” Em atrito com o asfalto de quinta categoria, seus tênis - imitação de um Nike de linha - produziam aquele ruído característico de quem arrasta os pés pelo chão. Avistou o casebre de dois cômodos, abriu a porta da cozinha-sala. Não encontrou Matilde. Porém, não desanimou. Mostrou, aos gritos, seus feitos ao padrasto, Zezo, que pendia cambaleante na poltrona semi-rasgada comprada num brechó no centro. A garrafa de aguardente já estava quebrada no canto do cômodo principal.
A euforia durou pouco. Juliano pensou por um décimo de segundo que seu padrasto ia ser bom para ele pelo menos naquela ocasião.
- Pensa que é mais esperto que eu, né ? Você ainda tem muito o que aprender... Muito mesmo. Essa porcaria de papel que você trouxe não quer dizer nada comparado ao que eu aprendi na vida. Entendeu ? Será que não aprende nunca, porra de moleque !
- Desculpa, não tive a intenção. - respondia Juliano num fiapo de voz.
- Cale a boca que agora não tem mais tempo de nada ! Vem cá, mulherzinha, que vou te ensinar a empinar pipa.
- Por favor, eu não sou mulherzinha. Sou homem. E homem não faz esses tipos de coisas que o senhor me obriga a fazer.
- Enquanto estiver morando aqui vai ser mulherzinha, porque eu mando, entendeu ?
- Agora, empine a pipa, viadinho !
- Não !
- Filho da puta, faça o que mando ! - gritava Zezo, já com a calça arriada e um ensaio de ereção, com os punhos cerrados sobre a vítima, entrelaçando os dedos das mãos na parte posterior da cabeça do menino, forçando-o a acomodar em sua boca seu falo fedido e ensebado dos não- adeptos do banho.
Juliano engasgava com o órgão em sua boca. Tentava gritar mas não conseguia.
- Desse jeito... Bem devagarzinho, do jeito que eu gosto. Isso, vai... Mexe com a língua bem naquele lugarzinho... Dá uma mordidinha...
As lágrimas corriam pelo rosto do menino e salgavam os pêlos do testículo do padastro, que ficava mais excitado.
- Agora bebe tudo, não deixe escapar nenhuma gotinha.
O menino obedecia. Já conhecia a seqüência de cor. Terminada a primeira fase, foi à geladeira e tirou o pacote de margarina. Esfregava nas bordas do ânus de Juliano, que ficava de quatro. O padastro vinha e o cobria, encostando a faca de cortar pão em seu pescoço. Ele não sabia o que era mais ameaçador, a ameaça de sua vida ou a brutalidade com que seu reto era violado.
- Agora eu te parto no meio ! - gritava o bêbado, que acelerava os movimentos copulatórios, num ímpeto animalesco.
Com os punhos serrados, Juliano ainda tinha o boletim, naquele momento todo amassado, entre os seus dedos. Aquela foi uma lição que não se aprende na escola. Com o corpo dolorido e um gosto terrível na boca, ele sentiu seu orgulho se partir. Matilde tinha o costume de chegar quase de noite. Banha-se, troca de roupa e vai ao culto. O garoto não tinha sequer coragem de mostrar o boletim. Aliás, nem tinha mais sentido. Sua mãe sabia de tudo, desde o começo, mas não fazia coisa alguma para defendê-lo. Então, naquela noite, enquanto o padrasto vislumbrava um sono etílico e sua mãe entoava os cânticos sagrados, Juliano preparou suas coisas e botou em duas sacolinhas plásticas de hipermercado. Não eram muitos pertences: um par de tênis, escova de dentes, três camisas, uma cueca e uma calça jeans. Do uniforme da escola, não ia mais precisar, assim como seus livros e cadernos.
Deixou um bilhete na cozinha, ao lado do pote de margarina, utilizado para fins profanos durante a tarde, para a mãe. Apenas dizia: “Vou embora, aqui não é meu lugar. A senhora é a mulher do Zezo e não eu. Cansei de ser mulherzinha. Eu sou homem.”


O índice de violência envolvendo menores já somava 70% das ocorrências policiais, motivo de sobrecarga às entidades estatais de cuidados à infância e juventude locais. Fruto de um sistema mal-planejado, as duas celas que serviam para acondicionar menores até o internamento numa instituição do governo estavam abarrotadas. No espaço projetado para quatro garotos, moravam 20. Todos misturados, sem levar em conta as diferenças de sexo.
O conceito de reeducação consistia na tortura do ócio, em que os prisioneiros juvenis matutavam a melhor maneira de passar o tempo e se divertir. Juliano sabe que não pode confiar nos seus companheiros. Aqui é cada um por si.
Depois de fumar crack naquela noite, na Concha Acústica, ele e mais dois amigos ficaram ligadões. Esperaram o horário de saída de uma escola particular ali perto, só de tocaia, para arranjarem um trouxa. Deram sorte, já era tarde e quase todo mundo tinha ido embora. Só ficou a loirinha, no estilo barbie girl, na frente do colégio, esperando o pai, obviamente atrasado.
Ela passava a escova nos cabelos e faz cara de tédio. Os três cercaram a garota e a tomaram de assalto. Pálida e assustada, não conseguia sequer gritar por socorro. Um deles pegou a bolsa dela e o outro passou a mão pelos seios. Mijou-se toda. Juliano, até então expectador, arrancou-lhe os sapatos brilhantes.
Os três postaram-se a correr. A viatura de Patrulhamento Tático Móvel (PTM) estava bem perto dali. Os policiais foram atrás. Sob efeito da droga, os moleques não tinham forças, nem coordenação, para correrem. Dançaram legal, com direito a umas bordoadas. Dos outros dois, em seguida aquela noite, Juliano nunca mais ouviu falar. Ele foi sozinho para a delegacia, é tudo o que lembra.
A vítima, já no plantão policial com o pai, reconheceu Juliano. E esboçou sua indignação de ter sido humilhada por pivetes tão magros e fedidos.
- Tem que matar gente desse tipo! – berrava na sala de espera. “Filho da puta, desgraçado, me fez andar descalça naquela rua imunda, igual a você.” – e perdeu a compostura angelical.
Lavrada a ocorrência, Juliano deu outro passeio de camburão e foi parar numa das duas celas especiais para menores infratores, em Votorantim. Na primeira noite, só quis dormir. Dormiu mesmo, atordoado pelas pancadas e pelo choque emocional de ser mais uma vez depreciado como um cachorro sem dono.
Dez pessoas no cubículo. Cheiro de peido, de mijo, de merda, de porra e de cigarro. É só ter uma graninha que eles dão um jeito de conseguir as coisas. É assim que roda o mundo, impulsionado a dinheiro ou favores. Ainda se sentindo anestesiado, Juliano notou seus companheiros. O maior já queria lhe tomar satisfações. Ele nem ligou mais. Nem dava mais bola para mais nada. Estar vivo já era uma recompensa, e ele nem sabia mais porque ainda vivia. Devia ser sorte, um plano divino ou uma piada de muito mau-gosto.
A comida, em marmitex, era uma porcaria, parecia já vir podre. De vez em quando, vinham umas fatias de mortadela, com um gosto especial, que ele nunca tinha provado antes. Ele gostou e esperava sempre por mais. Como uma sardinha, no seu cubículo, Juliano tinha vontade de comer mais uma vez aquela mortadela.
A mortadela Les enfants, apesar do nome francês, era fabricada em Sorocaba mesmo. Administrada por técnicas de gestão empresarial muito modernas, funcionava somente à noite, pois assim resolveriam outros assuntos durante o dia. A embalagem tinha a cara de um garoto moreno, de sorriso banguela e rosto magro. Sem estratégias chocantes de marketing, tomou o mercado local.
O município concedeu terreno, isenção fiscal por dez anos e ainda ajudou a empresa a obter o financiamento. Em troca, foram anunciadas 150 vagas de emprego. Na verdade, devido à automatização da produção e a necessidade de mão-de-obra especializada, empregava no máximo 40 pessoas da cidade. Recompensa chinfrim para tamanha badalação. A propaganda é a alma do negócio. E isso os políticos sabem fazer muito bem.
Les enfants. Juliano viu uma vez o rótulo da mortadela e desejou ser como o menino estampado nele: sempre alegre, sem preocupações com coisa alguma. Juliano ganhou um pacote da mortadela quando sua mãe veio visitá-lo. Guardou a embalagem. Bonito aquilo. Quando se entediava do nada, ficava olhando aquilo.
Mastigando um naco da mortadela, Juliano percebeu algo entre os dentes. Tirou da boca e viu algo que julgou ser uma unha. De gente mesmo, não de rato ou outros bichos. Limpou os resquícios de saliva e olhou melhor. Era de gente mesmo, de uma criança, pensou. Já tinha comido coisa muito pior. Continuou sua refeição.
Num gesto de extrema boa vontade, os menores custodiados na cadeia à espera de internação na Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem) foram convidados para visitar a Fábrica de Mortadela Les Enfants. Curiosamente, receberam autorização das autoridades para fazê-lo. Juliano ficou eufórico. Adorava aquele petisco e queria saber tudo sobre aquela marca. Quem sabe ganharia um pacote da mortadela? Pois, sim, claro que ia. Afinal, tinha sido bem comportado por toda sua estadia na cela, junto com os outros dez menores infratores.



Sob o olhar vigilante de dois policiais armados com escopetas, protegidos com coletes à prova de balas, os garotos entraram num veículo besta para o passeio. Nem todos animados, nem todos contentes, mas felizes de alguma forma por estarem saindo da rotina do cubículo. A atmosfera chuvosa e as ameaças de chuva, deixavam o ar úmido e quente, muito mais abafado ainda, dentro da besta.
Juliano nem prestava atenção nisso. Só queria saber das mortadelas. Em 30 minutos de trajeto, chegaram ao local. Situava-se no terreno da antiga Chácara Sônia Maria. A fábrica em si postava-se bem no centro do terreno, preservando as árvores – frutíferas, em sua maioria – ao redor, gerando um clima de curiosidade e suspense acerca do que se processava além daquela muralha verde.
Ultrapassados os requisitos de segurança, adentraram os portões e penetrando numa sala de azulejos brancos, do chão ao teto. Um gás penetrou na sala, para fins de esterilização de microrganismos. No compartimento seguinte, cheio de armários, tiraram suas roupas para tomarem um banho. Vestiram macacões brancos e entraram no setor de produção.
Não viam a matéria-prima chegar. Viam somente a carne, já moída e triturada, sendo temperada e preparada para ser embutida. Uma parte dela era temperada e imediatamente enlatada, antes de cozer, como parte de um método para evitar contaminação.
O cheiro, foi isso que prendeu a atenção de Juliano. Só isso. Para ele, aquilo era o máximo. Comida à vontade, para forrar seu bucho esquálido e vazio. O guia, acompanhado dos policiais armados, mostrava tudo aos garotos, com detalhes, chamando atenção para os procedimentos de qualidade total, que previam a segurança dos procedimentos de produção, a higienização do local e a qualidade do produto.
De todos, Juliano era o mais atento de todos. Uma hora mais tarde, depois de visitarem os escritórios da administração, sentaram-se às mesas do refeitório. Como não podia deixar de ser, receberam sanduíches de mortadela, não da comum, mas do tipo for export, como uma pequena cortesia da companhia.
Já numa saleta, parecida como uma classe de aula, um homem parecido com um psicólogo distribuiu papel e caneta para os menores. Um tipo de teste. Muitos nem sabiam ler direito. Juliano, porém, sabia. Era esperto e sabichão, nestes termos. As perguntas falavam basicamente sobre os sentimentos deles, suas perspectivas de futuro e desejos.
Eles não sabiam definir nem o dia de amanhã. Juliano foi o único que ficou na saleta até o final. O resto foi direcionado para uma outra sala, idêntica a da entrada. Receberam outro sanduíche de mortadela e um copo de refrigerante. “Não tenha pressa. Responda tudo”, disse o homem para Juliano.
O garoto obedeceu. Já estava ali mesmo e não custava nada ficar mais um pouco. Entregou o papel com o teste e foi para uma sala. Sozinho. Seus companheiros não estavam lá. Teve receio e desconfiança, tinham sacaneado ele, é o que sentia. Em posição fetal, colado num dos cantos da sala, viu o homem aproximar-se com um sorriso.
Pegou-o pela mão e o levou escadas acima, para conversar com o diretor de recursos humanos (RH). Um homem de terno azul-marinho, todo arrumado e gestos enérgicos, olhou Juliano de cabo a rabo.
- Sente-se. – ordenou o diretor.
- Estamos procurando jovens com alto potencial para se juntarem a nossa empresa. – explicou. Nossos métodos de recrutamento não são convencionais, porque nossos negócios não são convencionais.
Juliano assentiu com a cabeça e firmou a atenção.
- Você, meu rapaz, tem o desejo de sair daquela cela em que vive como um animal?
- Sim.
- Seria capaz de cortar todos os relacionamentos anteriores com seus amigos, pais, clientes?
- Essa é a parte mais fácil.
- Gostei da disposição. Quer um emprego?
- Com certeza. Tudo para sair daquele inferno.
- Uma vez aceita a tarefa, você não pode mais sair, porque só de pensar nisso, nós lhe matamos.
Diante da afirmação de morte, Juliano engoliu um seco e revirou os olhos. Que coisa é essa? E eu estou aguardando sentença judicial. Não posso nem arrumar trabalho. O que é isso, meu Deus? Esse cara é doido? Um minuto de silêncio e Juliano aceitou o novo emprego.
- Mas agora eu tenho que voltar para a cadeia.
- Não precisa mais.- comentou o diretor. – A partir de agora, Estado requisita os seus trabalhos com exclusividade para esta fábrica. Todo o seu passado foi perdoado, desde que continue conosco para até quando julgarmos necessário.
Juliano foi encaminhado para uma área no subsolo da fábrica. Lá, conheceu outros garotos como ele. Finalmente, tinha um quarto só para ele.
- As aulas começam às 7 horas.- advertiu um instrutor.
Ele se deitou na cama e fechou os olhos. Inspirou o ar com força e sentiu o frescor do ambiente. Relaxou e dormiu. Sonhou que estava esquartejando seu padrasto. Ao som de uma sirene, levantou-se feliz. Foi ao banheiro, no próprio quarto, tomou banho e escovou os dentes. Vestiu um uniforme de foi para o pátio central.
Uma forte luminária simulava os efeitos da luz solar. Era a ginástica matinal. Corrida. Polichinelo. Flexões de braço. Abdominais. Juliano quase não conseguia acompanhar. Alongamento. Suas pernas pareciam que iam se separar do seu corpo.
Uma hora de exercícios. Suado, com direito a um copo de água, para não acostumar à moleza, Juliano tentou puxar conversa com um companheiro. Foi surpreendido. Era proibido. Ficou quieto.
Depois de outro banho, foi para o café da manhã. Mortadela Les Enfants, salada, pão, queijo, salame, frutas, suco, manteiga, geléia e bolo. Delícia, muito bom, empanturrou-se Juliano, com cuidado para não parecer um morto de fome.
E assim se foram os dias. Juliano ganhou corpo e exercitou o cérebro. Estudava muito porque os professores eram exigentes. De nada mais parecia com aquele farrapinho que entrou na fábrica, seis meses atrás. Aprendia oratória e tudo o que fosse conveniente para convencer uma pessoa.
Tinha até aula de etiqueta com um cara meio esquisito, com sotaque estrangeiro. O garoto se sentia mais poderoso e dono de si mesmo. Sua auto-estima elevou-se e o seu objetivo ficou mais definido: vencer na vida, a qualquer custo.
Após um ano de treinamento básico, começou a aprender combate corporal e manejo de armas brancas. Vestido com uma farda semelhante a dos fuzileiros navais, encarava as manobras e exercícios simulados no subsolo da fábrica de mortadela.
Um instrutor oriental ensinava a técnica de matar em silêncio, sem deixar vestígios do delito. Juliano já era silencioso por natureza, aperfeiçoou seu dom de nascimento. Dos 20 cadetes, desde o início do programa, sobraram apenas cinco. Ele era o melhor deles, sem sombra de dúvida.
Não havia espaço para se enturmar ou fazer amizades. As atividades eram demasiadamente rigorosas e exigiam estudos e treinos exaustivos, que inibiam qualquer tentativa de se quebrar esta regra. Não questionava, apenas obedecia e fazia o que pediam. Juliano aprendeu a dar valor a si mesmo e ganhou uma auto-estima, que há de muito carecia.
- Sou um homem.- murmurava Juliano ao receber as pancadas, numa sessão de calejamento, no treinamento de artes marciais. E recebia pelo corpo as carícias de um pedaço roliço de madeira. Técnica chinesa, palma de ferro, controle da dor. Nem uma faca atravessava sua pele. Concentração, suor, comunhão com o todo. Sem dor, sem desespero, apenas a tarefa a ser cumprida.
Com uma facilidade surpreendente, Juliano aprendia línguas estrangeiras, hardware e software. Computadores eram sua predileção. Montava e desmontava uma máquina como se fosse um brinquedo. Sempre no subsolo, oculto do mundo exterior, Juliano tornou-se um homem. Já com 18 anos e patente de primeiro tenente, estava em fase de conclusão de treinamento.
Aos 16 anos, teve um microchip implantado em seu cérebro, para monitorar toda sua ação motora. Era um equipamento de comunicação ambulante, uma unidade portátil de transmissão de dados. O que via e ouvia era transmitido via satélite para a base. Tecnologia sofisticada, feita por gente graúda e importada por figurões.
O rapaz era uma máquina obediente. No último teste de aptidões intelectuais, após ser aprovado com louvor, Juliano foi promovido a capitão. Com 19 anos nas costas, foi chamado ao comando-geral, ainda no subsolo, para conversar com o diretor de RH, na verdade, o general responsável pela operação secreta.
Ele bateu continência e assim permaneceu até receber instruções.
- Descansar, capitão. – disse o general. – Você já sabe que esta operação, apesar de ter demorado quase cinco anos para se iniciar, ainda está na sua gênese. Temos orgulho, porém, do principal fruto dele, que é você, e esperamos que não nos desaponte na execução do plano.
- Pode ficar tranqüilo, general. Prefiro a minha morte ao fracasso ou desapontar a qualquer um dos meus comandantes e instrutores.
- É bom ouvir isso, capitão. Não temos mais controle sobre a selvageria que pode tomar conta do Estado e destruir a ordem como a conhecemos. Cabe a nós, defensores desta grandiosa Nação, defendermos tudo o que vemos hoje. Existem maçãs podres e nem todas podem ser recuperadas como você foi, capitão. Ao menor contato, elas contaminam o restante e a praga se disseminou por completo, sem termos a menor chance de reação. Devemos destruir quem nos corrói. Aqueles que não são agraciados pelo Estado não o são por sua própria impotência perante a sociedade. Por isso, devemos limpar a sociedade daqueles que a ameaçam. A Constituição nos proíbe de castrarmos aqueles que se reproduzem como coelhos assanhados. Somos assolados por uma multidão de crianças bastardas, que tomam conta dos hospitais e demais órgãos públicos, deixando um déficit incomensurável para o Estado.
- Sim, senhor.
- Então, capitão, esta fábrica de mortadelas é o instituto modelo para iniciarmos a limpeza deste País. Sabemos que existe o tabu sobre a ingestão de carne humana. Mas devemos fazer coisas para o bem geral do Estado, mesmo que signifique ir contra alguns costumes ultrapassados e a legislação torpe que ata as nossas mãos. A carne humana, como já provaram nossos cientistas, é altamente nutritiva. E nós temos excesso de gente e uma multidão de famintos. Para acabar com esse problema, o serviço de inteligência me deixou a cargo desta tarefa. Desenvolvemos uma fábrica que processa a carne de párias da sociedade para alimentarmos o nosso futuro. Esses pivetes sem futuro e os desajustados sociais são matéria-prima para nossas máquinas. Daqui, saem melhor do que entraram, pois vão estar fazendo realmente uma função social. As ruas desta cidade já estão vazias, por isso, concentramos nosso foco de ação nas cidades da região. Controlando a situação regional, podemos dar prosseguimento ao nosso projeto, trazendo matéria-prima da capital.
- Exatamente como diz, general. – respondeu. E bateu continência.
- Dispensado!




Juliano preparou-se para o primeiro contato com o mundo exterior depois de cinco anos no subsolo da fábrica. Estava ansioso, mas aprendeu a dissimular na manha. Agora era um mameluco, no jargão da operação, aquele que era capaz de fustigar um dos seus. A palavra tinha origem no Islã, quando da sua expansão, os muçulmanos realizavam capturas e convertiam os prisioneiros aos seus paradigmas sócio-culturais, para prosseguirem com a dominação sobre os povos conquistados e empreender novas guerras.
Sabia que de todos os seus colegas, que entraram na fábrica naquele dia, era o único sobrevivente. Os demais viraram matéria-prima. O contato com o Sol fez seus olhos tremerem um pouco, mas se acostumou e deu uma volta ao redor da fábrica. Algumas coisas tinham mudado. Parecia tudo mais limpo. Andou até o Centro, tudo mais limpo também. Sem indigentes, prostitutas ou menores abandonados nas praças e calçadas.
Entrou numa concessionária e comprou um carro, Honda, último modelo importado. Tinha dinheiro para isso. Pagou à vista. Acelerou e procurou um flat. Achou um de três cômodos. Perfeito. Mais dois dias, e o imóvel foi mobiliado. Tudo simples, mas funcional, para atender as expectativas do seu trabalho.
Em silêncio, viajava freqüentemente para realizar “serviços de limpeza”. Comandava um esquadrão que atraía menores das ruas de São Paulo para dentro de uma van. Às vezes, faziam-se de pervertidos para que fossem convidados para festinhas ornamentadas a sexo, realizadas pelos barões locais. Por vezes, fingiam-se bons samaritanos, de entidades filantrópicas, e captavam indigentes e demais abandonados.
Devido ao treinamento recebido, o trabalho era simples e quase não havia imprevistos. Juliano cumpria suas ordens automaticamente. Sedava a matéria-prima para que a carne se mantivesse ainda fresca e macia, até o momento do abate. Para sedá-los era fácil. Uma garrafa de uísque com drogas. Efeito rápido o bastante para a viagem completa.
Já na fábrica, a matéria-prima era despida e lavada com um detergente especial que, de tão forte, deixava as peles vermelhas e descoloriam o cabelo. Era enxaguada, em água destilada, e levada em esteiras para a realização de exames. Verificavam o tipo de sangue e o estado geral dos órgãos internos, exigências das entidades que encaminhavam este material para o sistema público de saúde.
Com tudo checado, passava pelas mesas cirúrgicas. Retirados os órgãos e drenado o sangue, partia – numa esteira novamente – para ser temperada, moída e compactada em forma de mortadela. Antes, é claro, havia o cuidado de se retirar as unhas e todos os vestígios de pêlos dos corpos. Nada mais desagradável para um consumidor que ver um pedaço de unha ou um pêlo naquilo que está comendo.
A quantidade de propagandas institucionais do governo aumentou consideravelmente nos meios de comunicação, depois houve a superação no déficit de órgãos para transplante, a queda no nível de desnutrição e o saneamento social das ruas. A sociedade parecia mais feliz com o que via. Os partidos de oposição, curiosamente, não tinham mais tanta força quanto anteriormente.
A mortadela, produto comum na mesa dos brasileiros, tinha – como ingrediente no tempero – uma substância narcotizante, que catalisava as atenções para as mensagens subliminares do governo. Por isso, tudo foi ficando mais homogêneo, das decisões do congresso às divergências entre os partidos políticos.
Juliano fazia parte do plano nacional de imbecilização das pessoas. Era apenas uma agente, mas estava no alicerce de todo o movimento. Um dia, ele vistoriou seu passado e veio a lembrança daquelas vezes em que era violentado pelo padrasto. Suas noites eram pesadelos e seus nervos, aturdidos, estavam no meio fio entre o ódio e o desejo de destruir.
Não era mais o garoto franzino e desprotegido de outrora. Foi moldado para uma finalidade do Estado e era um exemplo vivo da excelência do treinamento ao qual fora submetido. Sem família, sem remorso, o agente perfeito para a execução das tarefas mais ocultas na manutenção do poder.
Numa madrugada, o pesadelo veio com violência e Juliano teve que fazer algo para compensar sua dor. Levantou-se e vestiu sua indumentária de missão. Reconstruiu mentalmente o trajeto da casa onde vivera sua infância maltrapilha e para lá partiu, com um objetivo definido.
Luzes de vela e o cheiro de cachaça atravessavam as janelas do casebre. Ele estava lá sozinho, a mãe já saiu para trabalhar. O inútil, porco e imprestável. De um só assalto, Juliano invadiu o local, imobilizou o padrasto e sedou-o com um pano embebido em clorofórmio.
Jogou seu corpo no porta-malas do carro. Essa limpeza era pessoal, de caráter obrigatório. Foi até a fábrica. Num quarto semelhante a uma sala cirúrgica, Juliano adentrou com seu padrasto. Amarrou-o na mesa e tirou-lhe a mordaça.
O capitão não queria ouvir palavra alguma. Mandou-o calar-se. Com um bisturi cortou-lhe as roupas e deixou-o nu. Zezo, ainda entorpecido, tentava gritar. Juliano, enfurecido, cortou-lhe a língua com um bisturi e deu-lhe pontos para que não se afogasse com o próprio sangue.
Juliano dizia calmamente tudo o que sentia e tudo o que passou para o paspalho estendido na mesa. Contou-lhe em minúcias o processo produção das mortadelas e que ele era matéria-prima em potencial: um pária, sem função alguma, serviria de alimento para as pessoas de bem.
Zezo contorcia-se na mesa, inutilmente. Juliano levou-o para a lavagem, sem anestesiá-lo. Ainda vivo, o padrasto passou pelo banho químico e pelos exames. Novamente numa mesa cirúrgica, via seus órgãos serem retirados, seus músculos do pescoço se contorciam num grito que morria ao chegar à boca. Todos seus órgãos, exceto o coração, estavam corroídos pelo álcool. Com lágrimas nos olhos, o capitão murmurou: "Tudo o que eu queria era que você fosse um pai."
Os cirurgiões retiraram-lhe o coração e Zezo desfaleceu de vez. Com os olhos esbugalhados, semi-abertos, seguiu para ser triturado, temperado, compactado e enlatado. Lote 389.670. Este lote, porém, não saiu para a mesa do consumidor. O departamento de entregas e circulação teve ordens diretas para despejar a mercadoria no apartamento do capitão Juliano.
Após uma longa jornada de trabalho, Juliano sentou-se ao sofá e abriu um pacote de mortadela. Com uma faca, retirou um naco grosso e colocou-o num pão, recheando-o com maionese. Com um brilho nas pupilas, pegou uma lata de refrigerante e ligou no canal de sexo explícito.
Ao som das sacanagens e imagens de bacanal, desferiu a primeira mordida no sanduíche. Sua vingança contra todos, pelo menos no plano individual, estava completa. Saboreou com vontade o sanduíche e preparou mais outro, com a mesma manteiga que Zezo usava para seviciá-lo. Sentia-se saciado, em todos os sentidos. Mordiscou o último pedaço e falou:
- Agora sou eu quem te come, filho da puta.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O sono


O calor faz o suor sair lentamente da minha pele, não em gotas, mas como uma fina camada de sereno, que recobre o exterior e me faz sentir ensebado, sujo, indigno e exilado. Fecho as janelas e as vidraças para impedir a entrada do ar fresco da matina. Quero isolar-me do mundo exterior e recolher-me ao meu recanto seguro, sem luz, nem vozes, num vazio aconchegante, para tentar abafar o crescente desespero. Deito-me na cama e puxo o cobertor até metade da cabeça. O aumento da temperatura fustiga o corpo e os líquidos elevam suas temperaturas com maior avidez.

Peço pelo sono, mas ele não me vem anestesiar, nem carregar para fora as máculas deste mundo. Sinto o bafo do demônio logo nas minhas costas, regurgitado pelos sonidos incólumes e indescritíveis que alimentam ainda mais meu medo. Estou paralisado, sem ação alguma, nem vontade de reagir. Fui fustigado pelo desânimo que me levou a alma, deixando-me como um morto-vivo, sem motivo algum para continuar a viver.

O demônio ganha vulto e força pelas maquinações e desproporcionalidades da imaginação. Grito, mas as cordas vocais estão congeladas. Soco-lhe, porém, os braços permanecem imóveis. As pernas, inertes, são inválidas em qualquer esboço de qualquer coisa pensada. Deste holocausto, sou a oferenda, o objeto de sacrifício e a coisa a ser colocada em cima do altar.
Tentei viver e reconciliar-me com o mundo. Só atritos e desavenças pelos corredores da existência que me fizeram perder a crença em algum fim último que pudesse justificar a minha estada neste reles planeta. Como manda o manual, fui bom filho, bom estudante, bom cidadão, mas deu tudo errado, todos os planos, todas as expectativas. Tudo foi esmagado como um pedaço de merda embaixo de uma sola de sapato.

Minha vida não passou de um pouco de resto orgânico digerido, defecado e decalcado no pé de algum filho da puta que nem conheço, que, no entanto, sempre torceu para eu me foder legal. Que prazer imenso deve ter sentido ao me dar uma pisada bem em cima da minha personalidade, dando também aquela típica viradinha com o pé, como se estivesse falando: “Seu bosta, isto é para você aprender a ficar no seu canto.”

Diálogo de um só ou monólogo esquizofrênico? Falar comigo mesmo faz parte da dialética de argumentos ou é delírio de um louco prisioneiro em sua própria carcaça? Uma singular resposta não serve, daí, fomenta outras perguntas, que dão em outras respostas e mais milhares de perguntas.

Um turbilhão de pensamentos forma uma nuvem enegrecida que impede a comunicação entre os neurônios, levando-me à inércia generalizada. Não bebo álcool, nem consumo drogas. A droga sou eu mesmo.

Comunicar é tornar comum, fazer-se inteligível a outrem. Contudo, ninguém compreende o que falo ou escrevo. Sou esfaqueado com prazer sádico por quem menos espero. Amor não existe, nem respeito. É tudo fachada para não nos matarmos como animais que mutilam em caça predatória. Um observatório de hipócritas; canibais famintos pelo sangue alheio.

Bebericar e saborear a fina iguaria vermelha. Sentir apossar-se da força do outro. Vampirismo, porra nenhuma. Matar ou morrer, correr ou morrer, murmurar para morrer. Nada de nada, tudo de tudo, sem forma no formato do gosto do desgosto. Não tem mais nada que falar, esgotou-se o repertório, juntamente com o paladar da vida.

No meu leito, divido o espaço com meus livros. Mudos, eles me respondem as dúvidas em seu ritmo pausado e sonolento, sem extravagâncias. Somos cúmplices no nosso mútuo encarceramento, semelhante às relações entre os vermes e a carne morta. Num esforço quase sobre-humano, tiro minha camiseta. Fico quase desnudo embaixo do cobertor. Se morasse sozinho, ficaria pelado, numa boa. Mas não tenho assim tanta privacidade. Os fios da coberta me acariciam o torso, quase que fazendo cócegas.




Não queria brigar com ninguém, nem causar ódio em ninguém. Só queria fazer as coisas bem feitas, para ajudar as pessoas e, em dado momento, me sentir feliz e produtivo com alguns feitos. Se tenho amigos, ainda não se manifestaram, porque eu sinto seus golpes invisíveis e olhares de ferocidade, embora não lhes tenha feito coisa alguma. Paciência, estas porcarias ocorrem o tempo todo, sem que sequer houvesse manifestação mínima da minha personalidade.

Prefiro ficar no meu canto, como um repolho fedido, em conserva no ácido acético, um picles perfumado e quase podre, esquecido num recanto de prateleira de um boteco de péssima categoria.

As problemáticas nos envolvem como uma bola de neve, encurralando-nos como feras acuadas nas jaulas dos zoológicos maltrapilhos. Não vejo saída, por causa desta condição que não contempla, o mínimo que seja, de uma saída plausível para uma vida normal. Estas palavras, pseudo-inspiradas, saem como cálculos renais, pela uretra, queimando-lhe toda sua extensão devido ao atrito sem lubrificação.

Num estado de maior lucidez, sem as complicações perversas deste estado mental, tudo é mais fácil, inclusive a redação desta porcaria ridícula. Os ensaios bem-humorados são como portas abertas para a vida. Por meio da alegria, a vontade de viver e a esperança queimam a lenha que libera os espíritos, que mostra a verdadeira vida nos aspectos minúsculos do cotidiano.

Viver um grande amor, tal como sonhamos desde sempre é fechar os olhos para as oportunidades. Se nos fixamos muito nele, ele nos foge e nunca o encontraremos, bem debaixo do nosso nariz. O macro é composto de milhares de micros. Os micros compõem o macro. Então, o pequeno e o macro, se vistos da maneira certa, se tornam um só. Uma visão sistêmica, ampliada e sem obscuridades, que congregue o uno e o todo.

Como se vê o tudo, se vê o nada. A escuridão não existe para o cego que aproveita, no cotidiano, a esperança e o vigor da existência neste plano terreno. O alimento para o cérebro não é o mesmo que revigora o corpo e a alma. Mente sana e corpo são, tal como o emblema de conhecida sociedade desportiva.

Se eu amordaço minha dimensão física e me dedico somente ao espiritual, ocorre o desequilíbrio. Caso me dedique somente ao corpo, desligando-me da consciência superior, serei, com certeza, um animal, um morto-vivo. A inteligência, contudo, é tirana se não houver harmonia, com relação aos demais.

Às vezes, a mente comanda o espírito e o corpo. Por outras, o corpo guia a mente e o espírito. Nas demais, o espírito se sobreleva ao espírito e ao corpo. Uma dialética tríplice, cada ponto determinando as demais circunstâncias, em momentos oportunos. Caso um deles sobreponha-se aos demais, instala-se a desordem, e os maus fluídos carregam os poros, dos mais minúsculos aos mais visíveis.

Quando pensamos ser invisíveis somos monstros, cuja capacidade de destruição é indescritível e, no mínimo, abominável. Sentimo-nos assim quando estamos isolados de um mundo que não nos é ensinado e, portanto, esta disparidade entre o que se pensa e o que se vê é o que se chama de loucura.

Desatinos e aforismas brotam da mente desacostumada com o aflorar das realidades até então ocultas. Tudo o que acreditávamos era uma ilusão, porque, detrás desta ordem, existe algo diferente e dinâmico, sem igual, uma malha de comunicação jamais vista, outrora, pelo menos por mim.

Os números de telefone e as redes de internet são manipuláveis, como móveis levados de um lugar a outro, ou plumas de aves, sopradas pelo vento. Tudo, apesar do aparente caos, é completamente controlado, processado e posto em prática. Facções diferentes, discursos diferentes, apenas momentâneos e aparentes. O consenso vigora, debaixo das convenções.

Muitos estão envoltos nesta malha e sabem como articular-se nela. Entretanto, não me foi permitido o aprendizado destas sutilezas, vedando-me o contato com a sociedade. Fui escolhido para dar de cabeça na parede, tal como um bode estraçalha seu oponente, num ritual de pré-cópula selvagem.

Esta dislexia com o meio social é algo que me deixa pasmo e alheio ao que está em meu redor. Esta linguagem, este código esotérico restrito, que nunca me fora ensinado, nunca me fora apresentado, salta à minha realidade como um assassino que ronda sua vítima, dando-lhe somente espaço para perceber os seus últimos minutos de agonia diante do fim inevitável.

Talvez seja uma jornada imposta para testar o valor e as capacidades de adaptar-me a uma realidade, na qual tudo aparenta o mero acaso, apesar de estar tudo previamente planejado, pelo Deus superior, que é a humanidade.

Estas pedradas na alma e os flagelos incorpóreos mostram-me que toda minha educação foi calcada num ideal sem nexo com a vida em si. Aquilo que nomeamos, que falamos, que escrevemos contém uma mensagem oculta, que escondida no tão óbvio, é impossível de ser decifrada.




Desde o nascimento fui exilado deste mundo simples, mas complexo, cuja estrutura ainda não consigo compreender. É uma prisão sem grades, que eu pensava ter sido feita para eu perder. Estes espinhos eram e são, no entanto, sinais para despertar-me para a vida como ela é, sem os formalismos impostos pelo cientificismo. “Estude teologia”, dizem-me os próximos.

De que adianta dizer-me algo, num código que não consigo decifrar? Tudo o que eu acreditava foi destruído como um pedaço de areia que se desfaz com o choque provindo de uma onda furiosa do mar. Mais que um peixe fora da água, sou um molusco imerso em ácido sulfúrico.

As queimaduras são como goles deste mesmo líquido corrosivo adentrando goela abaixo, sem impedimento algum para afastá-lo das minhas entranhas. Meus inimigos eram fantasmas, criados pela minha própria falta de adequação. Era uma paranóia sem sentido, para os inclusos na sociedade, porém, algo totalmente diverso para mim.

A racionalidade técnica me foi colocada como suprema, daí, as negativas com relação às demais coisas. Um questão de ordem cartesiana e positivista fez-me crer mais nos livros que na própria humanidade. Meus livros foram meus amigos a todo momento, domesticando-me e amoldando minha mente, até que não pudesse ver mais nada à frente, afincando uma cerca de medo, com relação aos demais.

Tudo o que eu acreditava ser correto era apenas mera ilusão, coisas que não tinham princípios motores, nem sentido com relação a coisa alguma. Estou cercado de todos os lados e nem sei como pedir ajuda, como assimilar e adaptar-me a tudo. Há uma multidão de furiosos, uma turba revoltada com meus atos impensados.

Fui pego nesta armadilha e não sei como escapar, nem como viver diante de tantos olhares, risos e vocábulos estranhos. Tenho apenas dois meses de sobrevivência nesta selva. O erro não estava nos outros, estava em mim mesmo, e ninguém me alertou a este respeito. Todos tiranos consideram-se vítimas quando são arremessados para baixo do cadafalso do poder.

O ser humano, em si, considera-se correto, mesmo ao cometer atrocidades e incorrer de paixão avassaladora na defesa de uma fé cega, mesmo científica, que lhe veda acesso a altares mais sagrados e elementares da contemplação da vida.

Tenho pouco tempo para continuar e para sobreviver diante desta nova perspectiva que se abre diante do meu mundo. Já fui condenado e nem sei se me cabe recurso, com relação às cláusulas descumpridas por imperícia, negligência ou imprudência. Estou crucificado com o olhar de desprezo das pessoas que nem mesmo conheço e com o sentimento de pesar que causei àqueles que mais amo, por causa da minha beligerante e insensata ignorância.

Em cada ponto, as pessoas se mostram, vêm em fluxos contínuos, como multidões de anônimos que se agrupam à espera de sinais mais ou menos reconhecíveis. Sei, no entanto, que meu fracasso é geral e retumbante, um castelo de areia a ser devassado em época de tormenta, pela minha inadequação em encontrar meios para adequar-me a coisas novas.

Estranho batismo de fogo que corre pelas plantações e ceifa, sem pestanejar, as características que considerava, anteriormente, virtudes. O corpo, carbonizado pelas chamas, ainda insiste em manter-se com todas suas funções, as que não foram danificadas, em reles manutenção.

Conforme Platão, se fôssemos invisíveis, faríamos atrocidades porque nos consideraríamos imunes à ira da coletividade. Nunca estamos invisíveis, nem com falsos nomes, nem com a aparente inviolabilidade do nosso lar, nem com nada. Tudo está perfeitamente vigiado, num sistema de controle, que transcende minha reles inteligência. Não sou e nunca estive invisível, na massa, tal como acreditava.

Aqueles olhares e intenções que me penetravam eram reais mesmo, nada era fruto da imaginação. Loucura nenhum pouco válida, a não ser que fosse uma conspiração contra minha sanidade. Aliás, quem não ficaria louco diante de tanta coincidência?

Apesar de traçar os referenciais, não estou e nunca estive certo, mesmo quando a certeza se apresentava como evidente. Os referenciais são móveis, nunca estáveis, muito menos palatáveis. Eles simplesmente são e se mostram por si mesmos, uma cabal aparição travestida de acaso.
Nunca estive em ascensão. Sempre fui a queda lenta e vagarosa que faz o desejo da morte ser algo muito natural. Odeiem-me, vocês têm toda razão para isto. E quando se cansarem de me odiar, matem-me e vilipendiem-me o cadáver aos quatro ventos. O povo necessita de uma válvula de escape, eu sou o brinquedo, para esta empreitada, mais do que perfeito. Que se faça, então, o plano de execução. Uma vez expulso não há mais retorno, certo? Embora não tenha a qualidade necessária, sou o cordeiro deste sacrifício. Saciem sua fome de vingança. Estou pronto para o meu destino. Enfim, estarei livre, como um pássaro sem asas, que está frio como um cadáver já putrefeito.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Algo além de cartas


A geada da noite anterior tocou e agraciou com um toque temperado os domínios de um dos bairros mais fustigados da periferia. Tudo branco, tudo muito leve, tudo muito belo, em contraste aos estragos provocados na saúde dos que vivem naquelas redondezas. Terminada a madrugada com o despontar dos primeiros raios de sol, os resquícios do frio, porém, continuavam a disseminar o pedido de calor daqueles que são corpos separados e incompletos por definição. Consciente do seu isolamento e da falta de algo melhor para fazer naquela tarde de feriado, Armando perambulou – encoberto pela sua manta predileta – por toda sua casa, esquecendo-se dos seus chinelos perto do sofá. A parte de baixo das suas meias já estava encardida devido ao contato com chão. Ligou a televisão e passeou com o controle remoto por todos os canais. Nada de interessante.



Dentro do cômodo que usava como escritório, sentou-se à escrivaninha e começou a ler uma revista. Entediado, parou e ligou o computador. Internet é uma maravilha nestas horas, pensou. Entrou num chat. Não gostou de ninguém. Aliás, Armando nunca gostou de ninguém, no sentido homem-mulher da expressão. “Nunca amei ninguém, realmente. Apenas tive lapsos mentais, a popular paixão. Felizmente, eu me recuperei de todos eles”, costumava dizer.


Colocou as capas plásticas no CPU, no monitor e no teclado, para depois retomar a revista e ir para a sala. Tédio era a melhor tradução dos seus sentimentos. Seus dedos tatearam as folhas da publicação, enquanto jazia no sofá com a televisão ligada na MTV. Não se interessou por matéria alguma em particular. Os videoclipes, repetidos ao extremo, nem chegavam a construir uma trilha sonora para aquele cenário embebido de silêncio humano. Dance, techno e porcarias de FM: lixo cultural. Tudo música ligeira, de acordo com a conceituação de indústria cultural do alemão Theodor W. Adorno. O tilintar das folhas da revista produzido por Armando era mais barulhento e precioso que os barulhos vindos do aparelho televisivo.


Seus olhos percorreram as páginas e pousaram na parte de cartas de leitores. Ele imaginou a fauna que deveria mandar cartas para aquela publicação e sorriu levemente, achando engraçado. Evitou cair no sono preguiçoso de fim de feriado ao ler mensagens do tipo: “Sou rebelde, adoro Megadeth e o verdadeiro death metal. Caçadoras de cabeludos não me escrevam. Quero me corresponder como pessoas realmente conscientes.”





Armando tocava guitarra desde os 14 anos. Sua mãe, como era de praxe, proibiu-o de seguir a carreira de músico. Manteve os cabelos longos e a banda de “rock esquisito”, porque ninguém conseguia conceituar o tipo de música composta pelos seus integrantes. Desde aquela época, tinha o costume de comprar aquela revista. “Não criei filho para ser músico”, dizia sua mãe que aproveitava a oportunidade para cobrá-lo quanto aos estudos para os exames vestibulares.
Mesmo com uma guitarra mediana, uma caixa amplificadora simples e um pedalzinho de distorção, continuou a aprender as técnicas do instrumento, com vídeo-aulas e revistas importadas. Ele amava aquilo e deixava seus sentimentos transparecerem silenciosamente, por meio dos seus cabelos longos, que chegavam até o meio das costas. Passou nos exames e, com muito custo, teve sua cabeleira depenada.


Formou-se bacharel em Direito com todos os méritos, totalmente metamorfoseado. Não era Gregor Samsa, de Franz Kafka, convertido em barata, mas, com certeza, era outro. Cabelos cortados rentes, olhar espartano e intimidante. Quase nada daquele rapaz restou. Aos 22 anos, passou no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), logo em seguida da colação de grau, já era reconhecido como um dos maiores especialistas em direito relacionado a internet. Mais um ano e já tinha seu escritório montado, prestando serviços e consultoria para empresas multinacionais e o próprio governo. Apesar de tudo silencioso, on-line, como sua vida, precisava do seu espaço. Daí, decidiu construir uma casa, adjunta ao seu escritório. Só sua e de ninguém mais. O silêncio lhe era precioso, principalmente nas noites de insônia. Sono leve e cabeça dura: combinação infernal. Muito para os seus apenas 24 anos.


Uma mensagem em particular chamou-lhe a atenção: “Tenho 23 anos e estou terminando a faculdade de biologia. Gosto de rock em geral. Sou de poucos amigos e queria conhecer alguém especial. Michelline.” Armando parou naquela página e imaginou mil coisas. Pensou quem deveria ser aquela moça que, misteriosamente, precisava conhecer alguém por meio de cartas. Enfim, resolveu escrever-lhe, só para ver no que dava. Mesmo morando na mesma cidade, achava que os dois nunca iam se encontrar, de qualquer maneira.


Passada uma semana, veio a resposta. Michelline tinha adorado sua carta. “Nunca me correspondi com alguém que escrevesse tão bem. Eu reparo nisso, sabe ?” Gostavam basicamente das mesmas coisas, dos mesmos conjuntos. O falatório das bandas de rock dos anos 80 prevalecia, inicialmente. Armando gostou de se corresponder com ela e pediu o seu endereço eletrônico (e-mail) para se sentir mais seguro no seu reinado eletrônico. Mas recebeu uma recusa. “As cartas são mais nostálgicas, retratam a pureza e a beleza de um passado distante nos dias de hoje”, respondeu Michelline.


Os novos CDs e shows eram a pauta fundamental da comunicação, no início do relacionamento. Aos poucos, foram se soltando e revelando pequenos aspectos de suas tolhidas personalidades. Depois de seis meses de correspondência, Michelline confessou-lhe que escrevia porque se sentia totalmente só. Escrever era uma maneira particular de ocupar-se e tentar contato com alguém, “como um abraço quente e envolvente, numa noite de luar cúmplice”. Armando também passou para as cartas seus segredos. Narrou-lhe em detalhes, seus sonhos, suas fantasias e seus medos. Nunca se abriu dessa maneira. Com ela, ao contrário das relações com as outras pessoas no cotidiano, agia com tamanha espontaneidade porque começava a sentir algo que não sabia ainda definir bem ao certo o que era.


Depois de um ano, eram mais que correspondentes, embora nunca se tivessem visto ou tocado. “Você é o meu melhor amigo”, revelou Michelline no papel. “Você também é a minha melhor amiga”, respondeu.


Michelline já era bióloga e trabalhava no zoológico local. Armando evitava passar naquele local. Temiam maiores contatos que não fossem os escritos. As cartas continuaram, sempre. Ela mudou-se para uma casinha perto da dele. Mesmo assim, não arriscavam uma visita.


Um ano depois, Michelline ficou dois meses sem escrever. Foi aos Estados Unidos para um curso especial em educação ambiental no Roger Williams Park Zoo, na cidade de Providence, Estados Unidos. Cometeu um erro, esqueceu de avisar Armando. Apesar de as respostas não chegarem, insistia em continuar mandando cartas.


Chegou a um limite extremo. De posse do endereço da moça, foi à casa dela. Tocou a campainha repetidas vezes, por dez minutos. Só o silêncio respondia. Trepou no portão e pulou. Bateu à porta, sem resultados. Tirou um pedaço de papel do bolso e escreveu um bilhete: “Você se esqueceu de mim. Será que tudo o que passamos não valeu a pena ?”


Uma semana depois, voltou. Leu o bilhete. Nem desfez as malas e lhe deu o retorno. “Desculpe-me. Esqueci-me completamente de contar-lhe a respeito do curso nos EUA. Prometo que nunca vai acontecer novamente.”


Naquele período sem receber as cartas, Armando percebeu que não podia ficar sem as palavras dela. Aos 28 anos, continuava vivendo só com sua presença numa casa de cinco cômodos, grande demais para ele. Num deles, montou um estúdio, com bateria, amplificadores, mesas-de-som e tudo o que era necessário para gravar de demo-tapes (fitas-demonstração) a compact discs (CDs). Programava os instrumentos, compunha algo na guitarra e deixava gravado.


Recebeu a carta de Michelline e não dormiu. Demorou horas para escrever um texto. Ao final da carta, deu-se conta da plenitude de seus sentimentos e lhe segredou: “Michelline, eu te amo.” “Armando, também te amo. Nunca mais deixarei de te escrever”, veio a resposta.


Embora tivessem tudo a favor para serem felizes, não tinham coragem de enfrentar um a presença do outro. Amaram-se na escolha das palavras, especiais para cada ocasião, na construção das frases, orações e períodos. A felicidade do casal era materializada naquela forma particular de amar.


Armando tinha 30 anos quando Michelline lhe escreveu que tinha se casado no sábado. Era Ricardo, um namorado dos tempos de colegial. “Eu sempre gostei dele. É o homem da minha vida”, justificou-se a moça. Um estilhaço arremeteu os sentidos de Armando junto ao mármore da sua casa. Congelou-se por dentro como se uma lança de gelo atravessasse seu corpo, num gesto de derrota total perante a única esperança de continuar a viver. Levantou-se e se recompôs. Não ia desistir de tudo o que tinha feito até então por causa disso.



A correspondência continuou, mais fria, mas constante. O foco existencial de Armando recaiu com forças redobradas nas suas atividades profissionais. Seu escritório crescia e seu nome, reconhecido, era freqüente nas publicações de negócios. Um ano depois, nasceu o primeiro filho de Michelline. Sem ninguém da família, incluindo o marido, entender deu-lhe o nome de Armando, “Armandinho”. Armando, na quietude de seu estúdio recheado de memorandos e resultados com ações da sua empresa nas bolsas de valores de todo o mundo, abriu uma garrafa de champanhe e comemorou o nascimento como se fosse seu próprio filho. Veio o convite para o batismo, via correio. Quase foi, desistiu de última hora, porque iria inaugurar mais uma filial, desta vez em Manhattan.


Dois anos depois de Armandinho, veio Sandra. Novo convite, outra desistência. Michelline entendeu a reação do correspondente. As cartas continuaram por semanas, meses, anos e mais três décadas. A Internet estava consolidada, mas eles preferiam o papel, sem invasões de privacidade por hackers. Armandinho já era médico e Sandra, jornalista. O advogado sempre esperou por ela. Com 60 anos, Armando soube pela carta de Michelline que Ricardo tinha morrido de enfarte. Ele já estava consolado com sua situação.


Mais dois anos e Michelline se recuperou da dor. Lembrou-se do amor por Armando e arrependeu-se do tempo perdido. Em uma das cartas semanais, que se estendiam por 40 anos, ela marcou um encontro. Armando hesitou, mas acabou aceitando. O encontro seria na praça central, cujas marcas da velhice podiam ser sentidas no abandono e quantidade de menores sujos e largados.


Armando tinha um CD (ultrapassado por causa dos mini-discs), antigo e raro, do Van Halen, que ia dar para Michelline. Tinha a música “When it´s love”, um clássico. Na praça, eles caminharam passo a passo na direção do outro. Ficaram a 30 centímetros de distância. Não trocaram palavras, nem um simples abraço ou expressão de emoção. Os olhos se fixaram, cada par na figura do ser amado. O tempo parou. Um sorriso calado brotou de suas bocas velhas e enrugadas. Compreendiam a plenitude do que sentiam um pelo outro. Deram-se as costas e voltaram cada um para sua casa. Decidiram que o amor deles continuaria mais puro e real se continuasse daquela maneira, praticada por 32 anos. Armando enviou o presente pelo correio. E Michelline mandou um CD do Kiss como sinal de agradecimento, junto a uma carta cujo final era: “É melhor desse jeito. Eu te amo, escreva-me logo. Estou esperando.” E continuaram se amando, dessa forma peculiar, pois descobriram que, assim, seu amor nunca se acabaria, por permanecer imaculado e singular.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Quando ela veio

A cigarreira folheada a ouro é minha. Mas o objeto dourado está nas mãos do carcereiro boçal, sádico e burro, que tira um cigarro do maço e o bota na sua boca pútrida e amarelenta de nicotina. Meus olhos, já distantes e opacos, continuam num plano anterior ao presente. Daquela noite, continuo a sentir o desequilíbrio provocado pelos nossos pesos no palanque de palafitas improvisado. O bafo dos gritos da multidão acerca do meu nome é quente e me satisfaz. Minhas palavras carregadas de juventude e desejo de mudança se espalham pelo ambiente úmido e viscoso de um verão de janeiro, mais chuvoso que o normal, tal qual o sereno invade a penumbra campestre.


Passo a mão nos cabelos e, num tapa, puxo para trás a água misturada com suor, que me cai pela nuca. As tropas do governo vão chegar a qualquer momento. Fugir é o primeiro pensamento que me surge, mas resisto. A multidão clama o meu nome e o som se mistura aos raios que caem no fim do horizonte. Um mártir, é isso. O povo precisa de um mártir. Fico e falo com mais ardor porque eu quero ser um mártir. Eles me ouvem e alimentam o meu vício.
A liberdade de expressão, nossa bandeira, fica esquecida, enquanto penso somente em continuar a ser querido pelos meus ouvintes. Estou viciado pelos seus olhares esfaimados de esperanças. Por um momento, eu lhe proporciono esta ilusão. E eles alimentam o meu vício de ser ouvido. As bombas de gás caem e os gritos entusiasmados transformam-se em urros de medo. Permaneço no palanque, mesmo sem alguém ao meu lado. Os soldados atiram na aparelhagem de som, mas eu continuo a falar, aos berros. Devo persistir, mesmo com a certeza da derrota, afinal, sou um mártir.
Finalmente, um deles me cala, com um golpe do cabo do seu rifle de assalto na minha boca. Em seguida, me chuta os bagos e me faz desabar sem ar no meio do palanque. Sinto o tutano dos meus dentes quebrados, misturado com o sangue que escorre para o chão de madeira molhada.
Eles me cercam e me espancam em todos os lugares. Seus coturnos em fricção com o meu corpo raspam-me a pele. Tento gritar, sai somente um murmúrio. Desfaleço e os soldados continuam a me surrar.
Jogam meu corpo num veículo militar e rasgam minhas roupas. Pederastas desgraçados, brincam de me queimar com tocos de cigarro. Nem consigo esboçar a menor reação, tal o grau de debilidade. Já no cárcere, me dão água para beber. Bebo tudo. Eles riem como hienas coprófogas e me jogam na cela. Compreendo, num insight, o teor do líquido que acabei de sorver com um camelo. É água do mar.
Deito a cabeça no chão frio de cimento corrido e me recolho à posição fetal. A água salgada começa a surtir efeito nas minhas vísceras. Tenho muita sede, a maior da minha vida. Com a boca aberta, durmo e tento não pensar em coisa alguma. Os soldados percebem e me dão um esguicho de água fria. Os olhos abrem novamente. Estou nu, sem nada. Eles me tiraram tudo, incluindo eu mesmo.
Levam-ne novamente para a salinha cheia de sádicos e me fazem um monte de perguntas. Recuso-me a responder. Ainda tenho nos meus ouvidos o meu nome no clamor da multidão. Agora, sou um mártir, não dá mais para desistir. Um deles se diverte enfiando a lâmina do seu canivete novo, uma obra da cutelaria artesanal, embaixo das minhas unhas. Gargalhadas acompanham meus gritos. “Ninguém pode ouvi-lo, idiota”, diz um deles.
Mijam no meu corpo com uma inocência arteira de criança. Desenrolam o arame de um caderno universitário dão sorrisos marotos. Primeiro, envolvem meu pescoço e o apertam com força até meus pulmões quase explodirem e a minha língua ganhar um contorno arroxeado. Também fica um vergão perpendicular à jugular, que quase verte numa torrente de sangue.



Na nova brincadeira, cortam um pedaço do mesmo arame e me enfiam uretra adentro. Sinto o metal furar a minha bexiga. Escorre pelo chão, um misto de urina, porra e sangue. Um deles, num gesto de brilhantismo, conecta a ponta do arame aos cabos de um abajur. Com a tomada ligada sinto meu pênis queimar e a urina residual da bexiga, ferver. A corrente elétrica se espalha pelo resto do meu corpo e a taquicardia acelera a respiração. Eles param, têm medo de me matar. Com um canto do olho, vejo um deles gozar ao final de uma masturbação entusiasmada. Pederasta, maldito. “Deixem-no na cela para morrer”, comanda o torturador punheteiro.
Eles me deixam deitado de bruços no chão molhado do cubículo fétido de urina, fezes, sangue e esperma. Não reajo aos estímulos. Quero dormir, só isso, e beber água. A sede é muito forte, por isso abro a boca e lambo o chão da cela. O sono vem profundo e paciente, numa carícia envolvente e silenciosa. Com a névoa, ela aparece e se senta ao meu lado. Não diz coisa alguma, apenas me observa. Sua beleza me magnetiza e prende minha aura numa corrente energética reconfortante. O luar que atravessa as janelas da cela reflete os seus cabelos negros, compridos como uma relva selvagem, que tocam as costas cobertas de feridas. Olhos escuros, como a perdição. Lábios pequenos e vermelhos.
Sua graça não é vulgar, como a das mulheres de vida fácil que deixam transbordar seus dotes para fora de seus decotes. Mas a sua formosura é proporcional, numa nuance ao mesmo tempo delicada e agressiva. As vestes de seda branca, quase transparentes, deixam parcialmente visíveis os contornos dos seus seios, glúteos e sexo.
Sobe-me o desejo, misturado com o medo. Sem saber explicar como, apoio-me nos meus braços e me sento ao seu lado. Toco os seus cabelos, porém, com receio. Não sei como ela veio parar neste inferno. Tenho vergonha, mas persisto, porque fazia muito tempo que uma mulher como aquela não me dava a menor demonstração de afeto. Ela permanece calada e retribui o meu gesto.
Deve ser um espírito tentando me azucrinar. É isso. Estou morto e esta alma penada quer tirar proveito da minha penúria. A mulher pega minha mão e a posiciona nos seus cabelos. Acaricio os fios negros e, assim, sou cativado progressivamente. Sua voz, com palavras indefiníveis, transmite suavidade e ternura. As luzes se apagam e ela continua comigo.
Param os gritos e o silêncio só é perturbado pelos gemidos dos outros moribundos das celas adjacentes. Sinto paz e segurança quando ela toca seus lábios no meu lóbulo esquerdo. Aos poucos, o tom das suas carícias crescem de intensidade, com toques ligeiros que me arrepiam até o osso. Já calada, pousa os dedos nos meus lábios rasgados e desaparece junto com a névoa que a trouxe.
Os soldados me tiram da cela e me penduram num pau de arara. Dizem que é para eu aprender a ser mais obediente e patriota. A circulação nas minhas pernas desacelera consideravelmente e o sangue escorre para o meu crânio. As algemas friccionam os pulsos e tornozelos, rasgando a pele. Com um alicate, apertam os meus mamilos. Se eu gritar, acho que a minha cabeça explode. Mordo os dentes, até engolir uma obturação, que se desprega de um dos dentes molares.
As cãibras se espalham pelo corpo como agulhadas de metal em brasa. A garganta ressecada expulsa a língua para fora da boca, na esperança de captar um pouco de umidade. Viro a cabeça para um deles, que me diz: “Tá olhando o quê, filho da puta?” E chuta a minha nuca. Um estalo escorre pela sala e um calombo, acompanhado por uma circunferência arroxeada, surge imediatamente no local da pancada. Felizmente, ou infelizmente, não foi desta vez que ele me quebrou o pescoço. Uma moleza me chega arrebatadoramente e eu perco os sentidos.
Na cela novamente, desta vez, estirado de costas para o chão, recebo o seu primeiro beijo. É inexplicável o ósculo da misteriosa mulher, cuja paixão não se parece com nada que eu já tenha provado. Os lábios de vermelho sangue se esfregam na minha boca de carne esfolada. Meu corpo, mais quente, perde temperatura para o dela, mais frio. Pura entropia. Não tenho medo. É muito estranho, mas tudo o que ela faz me fascina. Os beijos dela tornam-me cada vez mais distante deste mundo. Só a presença dela alivia a dor. As outras coisas e pessoas ao meu redor perdem sua significação. Nada mais importa, só ela.
Ela vem e me cobre, deitando-se sobre mim. Suga o calor que irradia, em filetes escassos, do meu corpo. Confesso minha excitação irracional neste estado de penúria em que me apresento. Eu a amo. Amo de verdade, por isso permito que ela me beije e me sorva com uma avidez selvagem, intercalada por momentos de doçura.
Devagar, bem leve, ela me e me aloja dentro de si. A dor quase interrompe o processo. Em virtude disso, me toca o sexo brutalizado pelos torturadores e o regenera com um beijo. O frio dela enrijece ainda mais a minha masculinidade, ressuscitada pela sua graça.



A vida retorna a este semi-cadáver , marcada pelo retorno do fluir abrupto do sangue pelas veias e artérias. Transmito-lhe minha energia e me delicio com isso. Freneticamente, ela se movimenta. Demoníaca, uiva. Beija-me novamente em todos os meus pontos erógenos, ávida por satisfazer-se.
Joga suas nádegas fortes ao meu encontro. Elas me mastigam, como uma boca sem dentes. Vou explodir em êxtase em poucos segundos. Abruptamente, interrompe os movimentos. Diz que não estou pronto para o prazer maior e eterno e, como uma névoa, ela se dissipa no ar e me abandona.
Deitado no chão, com o olhar fixo no teto acinzentado de fungos, completamente inerte, permaneço consciente, embora de forma peculiar. Necessito dela e estou disposto a pagar o preço. Preciso sentir-me dentro dela. Quero ser absorvido e sentir o frio vencendo o meu calor. Por causa da imobilidade, o desespero desordena as idéias e a angústia queima lentamente as entranhas.
Neste dia, os soldados não fizeram experimentos comigo. Deixaram-me só no meu jazigo em vida. Um cigarro, quero um cigarro. Uma tragada de fumaça quase negra adentrando os pulmões e, por seqüência, os alvéolos, nos quais se realizam as trocas gasosas, que carregam os glóbulos vermelhos de monóxido de carbono e outras porcarias, como a nicotina, para todas as células do meu corpo. Anseio impossível de ser atendido nestas condições. Sou uma besta. Nem consigo me mexer. Se estivesse brincando de estátua, seria o vencedor, com certeza. Eles me fizeram muito mal. Estou detonado física e espiritualmente. Mas ainda estou vivo, lazarentos. Vivo - para ter a esperança de escarrar nas caras daqueles torturadores de merda.
Pela janelinha, o sol toma de assalto a cela. Justo no cantinho que está a minha cabeça. Olho fixamente para o astro-rei e sinto-lhe secar minhas lágrimas. Fecho os olhos e deixo o calor penetrar no meu corpo pelas minhas faces escoriadas. Os pés, lá no fundo, continuam frios. A energia me deixa com uma preguiça e eu durmo novamente.
Abro as pálpebras e já está escuro. Peço a sua companhia, porém, ela não me responde. Adormeço por frações de segundo. Ela me acorda com uma beijo frio, desta vez molhado. Ignoro as mensagens do meu corpo e a agarro, para a encobrir. Minha minha carência percorre com as mãos pelos seus seios duros e gelados. Repentinamente, ela se entrega, deixando-se levar pela minha vontade. A muito custo, sem dar atenção para os ferimentos no meu órgão, alojo-me dentro dela. Movimento-me freneticamente, como uma fera, mas não consigo atingir o grau de satisfação para o meu desejo.
Tenho noção de que a vida se esvai aos poucos da carne. Em contrapartida, ela fica cada vez mais brilhante e forte. O prazer clama pela raiva, num urro, pelo êxtase que desejo atingir. Ela geme. Sente prazer, eu acho. Gesticula com os braços, enquanto crava as unhas nas minhas costas. Somos dois animais selvagens em coito. Eu, o macho. Ela, a fêmea.
Uma carga eletromagnética nos une nos move. Sou o polo com menor potência, por isso apresento menos resistência à sua força gravitacional. Estou sendo sugado e me delicio com isso. Os cabelos dela me cobrem e vestem o nossos torsos nus. O suor nem escorre mais pela minha pele.
A excitação em nova aceleração aumenta exponencialmente ao meu sentimento de paz e harmonia. O esgotamento penetra nas minhas entranhas enquanto meus cílios colidem-se vagarosamente. A par do meu estado, ela troca de posição. Galga em mim e me encobre.
Dentro dela mais uma vez, sou comprimido severamente, libertando o meu gozo sofrido e resfolegado que contém as últimas sementes de vida, da minha vida, que ela, simplesmente, leva para aplacar a sua voracidade.
Fecho de vez os olhos e levanto-me da minha carcaça, com uma sensação indescritível de paz. Vejo o soldado assoprar o cano da pistola Magnum 45. Aos seus pés, vejo minha cabeça ensangüentada, com um rombo no meio da testa. Foi o tiro de misericórdia, uma eutanásia para justificar um homicídio. Os torturadores devem ter arranjado outra cobaia para seus experimentos de entretenimento. Entra brinquedinho novo na casa, o velho tem que ser descartado.
Ela continua ao meu lado e segura a minha mão. Com um fiapo de voz, sem crer muito no que presencio, pergunto-lhe finalmente o seu nome. Calada, toca-me a fronte desencarnada. Não precisa dizer mais coisa alguma porque estou livre, realmente livre, e, agora, compreendo a razão de tudo isso que passei.