sábado, 22 de março de 2014
O retorno da vítima: adeus, pedófilo!
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Papel higiênico será usado no cálculo da inflação

SOROCABA (SP), 21 de abril de 2010 – O papel higiênico será incluído como item específico para o cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que também vai pesquisar as variações de custos na região metropolitana de Sorocaba (SP). Isso será realizado caso Darth Vader ganhe as eleições presidenciais de 2010.
Metas de inflação
Apesar de o papel higiênico poder ser inserido no tópico saúde e cuidados pessoais, entre os demais itens utilizados para a ponderação e cálculo do IPCA, Darth Vader considera extremamente importante que o produto seja mais valorizado. “O papel higiênico é o que separa os civilizados dos não civilizados”, diz.
Os tópicos ponderados para o cálculo do IPCA, por peso nos gastos, são alimentação (25,21%), transporte e comunicação (18,77%), despesas pessoais (15,68%), vestuário (12,49%), habitação (10,91%), saúde e cuidados pessoais (8,85%) e artigos de residência (8,09%).
Equipe econômica
Atualmente, a pesquisa do IPCA é realizada em pessoas que ganham até 40 salários mínimos, nas regiões metropolitanas de Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, município de Goiânia e Distrito Federal. “Sorocaba não pode ficar fora dessa pesquisa”, afirma Vader. “Se eu não a incluir nos meus quatro anos de mandato, podem pedir meu impeachment.”
Darth Vader finaliza: “Minha equipe econômica não pode cometer fezes durante o exercício da função. Fora, tudo bem. Mas que use papel higiênico.”
Obs.: Este texto é uma sátira da realidade, não tem conexão com a verdade. É tudo ficção, mentirinha. É algo para se dar risada diante do absurdo que se apresenta a política. Apenas isso!
terça-feira, 14 de julho de 2009
Algo além de cartas

A geada da noite anterior tocou e agraciou com um toque temperado os domínios de um dos bairros mais fustigados da periferia. Tudo branco, tudo muito leve, tudo muito belo, em contraste aos estragos provocados na saúde dos que vivem naquelas redondezas. Terminada a madrugada com o despontar dos primeiros raios de sol, os resquícios do frio, porém, continuavam a disseminar o pedido de calor daqueles que são corpos separados e incompletos por definição. Consciente do seu isolamento e da falta de algo melhor para fazer naquela tarde de feriado, Armando perambulou – encoberto pela sua manta predileta – por toda sua casa, esquecendo-se dos seus chinelos perto do sofá. A parte de baixo das suas meias já estava encardida devido ao contato com chão. Ligou a televisão e passeou com o controle remoto por todos os canais. Nada de interessante.
Dentro do cômodo que usava como escritório, sentou-se à escrivaninha e começou a ler uma revista. Entediado, parou e ligou o computador. Internet é uma maravilha nestas horas, pensou. Entrou num chat. Não gostou de ninguém. Aliás, Armando nunca gostou de ninguém, no sentido homem-mulher da expressão. “Nunca amei ninguém, realmente. Apenas tive lapsos mentais, a popular paixão. Felizmente, eu me recuperei de todos eles”, costumava dizer.
Colocou as capas plásticas no CPU, no monitor e no teclado, para depois retomar a revista e ir para a sala. Tédio era a melhor tradução dos seus sentimentos. Seus dedos tatearam as folhas da publicação, enquanto jazia no sofá com a televisão ligada na MTV. Não se interessou por matéria alguma em particular. Os videoclipes, repetidos ao extremo, nem chegavam a construir uma trilha sonora para aquele cenário embebido de silêncio humano. Dance, techno e porcarias de FM: lixo cultural. Tudo música ligeira, de acordo com a conceituação de indústria cultural do alemão Theodor W. Adorno. O tilintar das folhas da revista produzido por Armando era mais barulhento e precioso que os barulhos vindos do aparelho televisivo.
Seus olhos percorreram as páginas e pousaram na parte de cartas de leitores. Ele imaginou a fauna que deveria mandar cartas para aquela publicação e sorriu levemente, achando engraçado. Evitou cair no sono preguiçoso de fim de feriado ao ler mensagens do tipo: “Sou rebelde, adoro Megadeth e o verdadeiro death metal. Caçadoras de cabeludos não me escrevam. Quero me corresponder como pessoas realmente conscientes.”
Armando tocava guitarra desde os 14 anos. Sua mãe, como era de praxe, proibiu-o de seguir a carreira de músico. Manteve os cabelos longos e a banda de “rock esquisito”, porque ninguém conseguia conceituar o tipo de música composta pelos seus integrantes. Desde aquela época, tinha o costume de comprar aquela revista. “Não criei filho para ser músico”, dizia sua mãe que aproveitava a oportunidade para cobrá-lo quanto aos estudos para os exames vestibulares.
Mesmo com uma guitarra mediana, uma caixa amplificadora simples e um pedalzinho de distorção, continuou a aprender as técnicas do instrumento, com vídeo-aulas e revistas importadas. Ele amava aquilo e deixava seus sentimentos transparecerem silenciosamente, por meio dos seus cabelos longos, que chegavam até o meio das costas. Passou nos exames e, com muito custo, teve sua cabeleira depenada.
Formou-se bacharel em Direito com todos os méritos, totalmente metamorfoseado. Não era Gregor Samsa, de Franz Kafka, convertido em barata, mas, com certeza, era outro. Cabelos cortados rentes, olhar espartano e intimidante. Quase nada daquele rapaz restou. Aos 22 anos, passou no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), logo em seguida da colação de grau, já era reconhecido como um dos maiores especialistas em direito relacionado a internet. Mais um ano e já tinha seu escritório montado, prestando serviços e consultoria para empresas multinacionais e o próprio governo. Apesar de tudo silencioso, on-line, como sua vida, precisava do seu espaço. Daí, decidiu construir uma casa, adjunta ao seu escritório. Só sua e de ninguém mais. O silêncio lhe era precioso, principalmente nas noites de insônia. Sono leve e cabeça dura: combinação infernal. Muito para os seus apenas 24 anos.
Uma mensagem em particular chamou-lhe a atenção: “Tenho 23 anos e estou terminando a faculdade de biologia. Gosto de rock em geral. Sou de poucos amigos e queria conhecer alguém especial. Michelline.” Armando parou naquela página e imaginou mil coisas. Pensou quem deveria ser aquela moça que, misteriosamente, precisava conhecer alguém por meio de cartas. Enfim, resolveu escrever-lhe, só para ver no que dava. Mesmo morando na mesma cidade, achava que os dois nunca iam se encontrar, de qualquer maneira.
Passada uma semana, veio a resposta. Michelline tinha adorado sua carta. “Nunca me correspondi com alguém que escrevesse tão bem. Eu reparo nisso, sabe ?” Gostavam basicamente das mesmas coisas, dos mesmos conjuntos. O falatório das bandas de rock dos anos 80 prevalecia, inicialmente. Armando gostou de se corresponder com ela e pediu o seu endereço eletrônico (e-mail) para se sentir mais seguro no seu reinado eletrônico. Mas recebeu uma recusa. “As cartas são mais nostálgicas, retratam a pureza e a beleza de um passado distante nos dias de hoje”, respondeu Michelline.
Os novos CDs e shows eram a pauta fundamental da comunicação, no início do relacionamento. Aos poucos, foram se soltando e revelando pequenos aspectos de suas tolhidas personalidades. Depois de seis meses de correspondência, Michelline confessou-lhe que escrevia porque se sentia totalmente só. Escrever era uma maneira particular de ocupar-se e tentar contato com alguém, “como um abraço quente e envolvente, numa noite de luar cúmplice”. Armando também passou para as cartas seus segredos. Narrou-lhe em detalhes, seus sonhos, suas fantasias e seus medos. Nunca se abriu dessa maneira. Com ela, ao contrário das relações com as outras pessoas no cotidiano, agia com tamanha espontaneidade porque começava a sentir algo que não sabia ainda definir bem ao certo o que era.
Depois de um ano, eram mais que correspondentes, embora nunca se tivessem visto ou tocado. “Você é o meu melhor amigo”, revelou Michelline no papel. “Você também é a minha melhor amiga”, respondeu.
Michelline já era bióloga e trabalhava no zoológico local. Armando evitava passar naquele local. Temiam maiores contatos que não fossem os escritos. As cartas continuaram, sempre. Ela mudou-se para uma casinha perto da dele. Mesmo assim, não arriscavam uma visita.
Um ano depois, Michelline ficou dois meses sem escrever. Foi aos Estados Unidos para um curso especial em educação ambiental no Roger Williams Park Zoo, na cidade de Providence, Estados Unidos. Cometeu um erro, esqueceu de avisar Armando. Apesar de as respostas não chegarem, insistia em continuar mandando cartas.
Chegou a um limite extremo. De posse do endereço da moça, foi à casa dela. Tocou a campainha repetidas vezes, por dez minutos. Só o silêncio respondia. Trepou no portão e pulou. Bateu à porta, sem resultados. Tirou um pedaço de papel do bolso e escreveu um bilhete: “Você se esqueceu de mim. Será que tudo o que passamos não valeu a pena ?”
Uma semana depois, voltou. Leu o bilhete. Nem desfez as malas e lhe deu o retorno. “Desculpe-me. Esqueci-me completamente de contar-lhe a respeito do curso nos EUA. Prometo que nunca vai acontecer novamente.”
Naquele período sem receber as cartas, Armando percebeu que não podia ficar sem as palavras dela. Aos 28 anos, continuava vivendo só com sua presença numa casa de cinco cômodos, grande demais para ele. Num deles, montou um estúdio, com bateria, amplificadores, mesas-de-som e tudo o que era necessário para gravar de demo-tapes (fitas-demonstração) a compact discs (CDs). Programava os instrumentos, compunha algo na guitarra e deixava gravado.
Recebeu a carta de Michelline e não dormiu. Demorou horas para escrever um texto. Ao final da carta, deu-se conta da plenitude de seus sentimentos e lhe segredou: “Michelline, eu te amo.” “Armando, também te amo. Nunca mais deixarei de te escrever”, veio a resposta.
Embora tivessem tudo a favor para serem felizes, não tinham coragem de enfrentar um a presença do outro. Amaram-se na escolha das palavras, especiais para cada ocasião, na construção das frases, orações e períodos. A felicidade do casal era materializada naquela forma particular de amar.
Armando tinha 30 anos quando Michelline lhe escreveu que tinha se casado no sábado. Era Ricardo, um namorado dos tempos de colegial. “Eu sempre gostei dele. É o homem da minha vida”, justificou-se a moça. Um estilhaço arremeteu os sentidos de Armando junto ao mármore da sua casa. Congelou-se por dentro como se uma lança de gelo atravessasse seu corpo, num gesto de derrota total perante a única esperança de continuar a viver. Levantou-se e se recompôs. Não ia desistir de tudo o que tinha feito até então por causa disso.
A correspondência continuou, mais fria, mas constante. O foco existencial de Armando recaiu com forças redobradas nas suas atividades profissionais. Seu escritório crescia e seu nome, reconhecido, era freqüente nas publicações de negócios. Um ano depois, nasceu o primeiro filho de Michelline. Sem ninguém da família, incluindo o marido, entender deu-lhe o nome de Armando, “Armandinho”. Armando, na quietude de seu estúdio recheado de memorandos e resultados com ações da sua empresa nas bolsas de valores de todo o mundo, abriu uma garrafa de champanhe e comemorou o nascimento como se fosse seu próprio filho. Veio o convite para o batismo, via correio. Quase foi, desistiu de última hora, porque iria inaugurar mais uma filial, desta vez em Manhattan.
Dois anos depois de Armandinho, veio Sandra. Novo convite, outra desistência. Michelline entendeu a reação do correspondente. As cartas continuaram por semanas, meses, anos e mais três décadas. A Internet estava consolidada, mas eles preferiam o papel, sem invasões de privacidade por hackers. Armandinho já era médico e Sandra, jornalista. O advogado sempre esperou por ela. Com 60 anos, Armando soube pela carta de Michelline que Ricardo tinha morrido de enfarte. Ele já estava consolado com sua situação.
Mais dois anos e Michelline se recuperou da dor. Lembrou-se do amor por Armando e arrependeu-se do tempo perdido. Em uma das cartas semanais, que se estendiam por 40 anos, ela marcou um encontro. Armando hesitou, mas acabou aceitando. O encontro seria na praça central, cujas marcas da velhice podiam ser sentidas no abandono e quantidade de menores sujos e largados.
Armando tinha um CD (ultrapassado por causa dos mini-discs), antigo e raro, do Van Halen, que ia dar para Michelline. Tinha a música “When it´s love”, um clássico. Na praça, eles caminharam passo a passo na direção do outro. Ficaram a 30 centímetros de distância. Não trocaram palavras, nem um simples abraço ou expressão de emoção. Os olhos se fixaram, cada par na figura do ser amado. O tempo parou. Um sorriso calado brotou de suas bocas velhas e enrugadas. Compreendiam a plenitude do que sentiam um pelo outro. Deram-se as costas e voltaram cada um para sua casa. Decidiram que o amor deles continuaria mais puro e real se continuasse daquela maneira, praticada por 32 anos. Armando enviou o presente pelo correio. E Michelline mandou um CD do Kiss como sinal de agradecimento, junto a uma carta cujo final era: “É melhor desse jeito. Eu te amo, escreva-me logo. Estou esperando.” E continuaram se amando, dessa forma peculiar, pois descobriram que, assim, seu amor nunca se acabaria, por permanecer imaculado e singular.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
A chuva

Com o solo impermeabilizado quase por completo, a enxurrada nascia devagarzinho e ganhava força, à medida que descia com a aceleração da força da gravidade. Na avenida, outra torrente se formava rumo a planos mais baixos. Mas, justamente no meu ponto de ônibus, a água de chuva, adicionada de outros detritos, advindos da sua força de erosão, se aglomerava e formava uma pequena lagoa.
O ônibus parou. Abri o guarda-chuva e pulei uns dois metros. Não foi o suficiente. Pisei num pedaço da pequena lagoa, cuja força da correnteza jogou-me em pé para o centro. A força do vento entortou a haste do guarda-chuva. Os músculos penaram para sair do meio da lagoa. Iniciei a subida do morro de asfalto. A chuva veio com mais força e a torrente esbarrava no meu joelho.
Logo no topo do mundo artificialmente aquático, dobrei a esquina. A passos lentos caminhei para casa. Já estava mais molhado que um frango. A água lavou meu corpo e o frio parecia ter congelado as impurezas. Porém, a água era suja, impura, carregada de nojeiras. Livrei-me das roupas e entrei no chuveiro. Água quente para sacudir o esqueleto. Não me sentia com rigor suficiente para tomar outro banho de água fria.
Sou homem, mas não sou santo, nem eremita natureba. Seria mais fácil virar saco de pancadas do que levar as agulhadas das gotas de água fria. Permito-me poucos confortos, para não me acostumar com leviandades e luxúrias. Nada contra as opções sexuais não convencionais, só não curto que pisem no meu calo e não me respeitem.
Ainda com a cabeça para fora da janela, sinto o vento frio estapear minha face e a me despertar recordações. Deixo o frio entrar pelas minhas narinas para o frio espantar as fagulhas de preguiça que ainda se alojam no meu ser. Preciso ficar acordado para terminar a demanda. Não tem nada mais escroto do que deixar o trabalho pela metade. Não adianta tentar explicar. Qualquer tipo de trabalho intelectual, aqui, é tido como coisa de vagabundo.
Já pensou? Toda atividade que exige um pouco mais de esforço intelectual é simplesmente coisa de quem não gosta de trabalhar, é só ficar sentado lendo alguma coisa, ou na frente do computador. Pensamento reles de quem não tem noção de que é esse “trabalho de vagabundo” que vai levar o País ao desenvolvimento.
Existe uma preguiça de pensar que está arraigada inexoravelmente nas almas das pessoas. Criou-se uma cultura de extermínio de virtudes. Quem ousar galgar um degrau acima da mediocridade será destruído. Desafiar as estruturas é coisa de gente metida a besta, que gosta de aparecer, e que pensa que é melhor que as outras. Por isso, matutam os “cabeças pensantes”, é justificável o boicote e a humilhação dos que tiveram a ousadia de desafiar e ir além da tradição do nivelamento intelectual por baixo.
Acho que é por causa disso que eu nunca me permiti ir além dos deveres. Fui amaldiçoado em vida, como se fosse um leproso com as chagas invisíveis, que, mesmo assim, são repugnantes a todos os seres que encontro. Vivo no exílio, mesmo estando rodeado de pessoas. Tenho a precaução de não deixar que a maldição vá além de mim mesmo. Não me envolvo demais com os outros, pois sei que elas também serão fustigadas pelo meu tormento.
Mas quando eu lhe vi pela primeira vez, sabia que algo deveria mudar. E que as trevas que entornava meu coração, duro como pedra, deveriam dissipar-se. Olho para o infinito escuro que se desdobra na madrugada e vejo o seu rosto estampado na imensidão. Ilusão. É isso o que você é, uma ilusão mais distante que a lua que desponta ao anoitecer.
O céu está escuro e límpido, porém, sem estrelas. Só a lua para guiar os navegantes perdidos na imensidão da vida. Quem me dera ter um norte, um rumo, algo para me ancorar e não me perder diante das múltiplas escolhas da vida. Seria tudo tão simples, não ter que escolher, tudo estaria dado, escrito e marcado para ocorrer. Não seria livre. Mas também não sou livre se não sei o que fazer com a liberdade. Vá, seja livre, faça e seja o que quiser. Mentira, lorota barata.
De um modo ou outro, somos todos prisioneiros e carcereiros de nós mesmos. Encarnamos nossos mais perversos torturadores, nossas mais indefesas vítimas e nossos mais insensíveis julgadores. É verdade, porém, que quando julgamos nós mesmos, por mais horrendas que sejam nossas atrocidades, sempre nos sentenciamos inocentes. Imparcialidade é um mito. Imparcialidade é para os outros.
Volta a chuviscar. Do alto, as gotículas de água vindas do alto parecem minúsculas adagas transparentes que fazem ondular o céu escuro com pequenas punhaladas. Minúsculas adagas e tão finas quanto agulhas de acupuntura que se desmancham ao menor contato com a matéria mais bruta.
As pequenas alfinetadas dos chuviscos possuem propriedades terapêuticas. Nos seres malditos, como eu, lavam a alma, libertando-a dos pecados e dos pensamentos mais atrozes do interior obscuro que está sedimentado no insano.
Se existem pessoas às margens do contrato social, talvez eu esteja muito além dessa margem. O que eu sou exige que eu faça coisas desagradáveis, inaceitáveis para a maioria que prefere fechar os olhos à realidade como ela verdadeiramente é. A classe dos guerreiros foi extinta, sou o único remanescente de um grupo de poucos, porém, dedicados estudiosos da guerra.
Éramos pacificadores, senhores da vida e da morte, com doutrinas de justiça. Essa prática foi banalizada pelo afrouxamento dos costumes, até que praticamente se esvaiu em pó pelas estradas dos tempos, como se nunca houvesse existido. Tolos assumiram o comando, uma horda de patifes ocultos. Assumem, implicitamente, a gestão das coisas, sem o mínimo de capacitação possível.
A irracionalidade tomou controle. As decisões e práticas com princípio e fim somente no poder vigoram, substituindo a honra do centro de todas as coisas. Na arte da guerra, era inconcebível uma pessoa existir sem ter como moto gerador da sua existência a honra. Agir segundo o dever, o que está prescrito na lei moral que bate em meu coração, não é mais útil nesses dias. Nem coração eu tenho mais, aliás. Parece viger o império do prazer animal, a atração medíocre para fins meramente banais, sem levar em conta o sentido das coisas.
Como discutir com gente assim? Não tem como. Argumentos racionalmente validados não fazem a menor diferença para quem vive e quem viveu e faz meta de vida na mediocridade cotidiana. As pessoas vivem numa redoma e não se deixam libertar dos bombardeios intensos que lhes reforçam a imbecilidade. Ninguém parece compreender meus pensamentos e meus sentimentos, é como se estivesse deslocado numa era em que o consumo dita tudo.
Muitos viveram tanto tempo como porcos que não sabem mais serem humanos. Arremesse-lhes filé mignon e fezes. Não sabem diferenciá-los, pois se esquecem muito fácil e muito rápido. Não esqueço nada. Por mais que meu corpo se deteriore, minha consciência é imortal e guarda tudo, como um gigantesco gravador magnético de pensamentos e sensações, sem lhe deixar escapar coisa alguma.
Impossível conversar ou travar um diálogo racional com quem se delicia em fazer outras pessoas de objetos de brincadeiras. O que dizer de pessoas que transformam o “Big Brother” um passatempo nacional, na qual outras pessoas são vistas como animais enjaulados, nos quais se aposta a sorte desses infelizes? É a educação para a hipocrisia. Imagine-se jogado numa arena e ser observado por multidões de curiosos que dão palpites sobre sua intimidade e privacidade, julgando seus atos pela lente de um microscópio.
Esses mesmos observadores, se tivessem o mínimo de vergonha na cara, morreriam de decepção ao se observarem, a si mesmos, nas mesmas condições do outro ser humano que foi torturado em sua intimidade e privacidade. Tempos inóspitos. São forças ocultas que fundam um pacto social baseado na manutenção da mediocridade. É para se manter tudo desse jeito, à mercê de patifes ocultos que comandam forças igualmente ocultas sem o mínimo de noção de qualquer coisa que seja.
O prelado da incompetência reina acima de quaisquer suspeitas. A inveja e o desejo de não deixar ninguém progredir acima do limite da mediocridade são os motos perpétuos da ignorância que sempre vai puxar o tapete de pessoas que não se vendem ao sistema. É impressionante testemunhar um patife choramingando porque não conseguiu lhe sacanear. Esse patife se acha a vítima da história toda, como se ele tivesse todo o direito do mundo de ferrar quem ele quiser.
Apreciem os mentores das forças ocultas que nos sujeitam, a todos, ao plano da mediocridade. Não há saída, pois eles estão em todos os cantos, como micróbios, dos mais contagiosos e purulentos, para lhe bisbilhotar. Seu passatempo é contar lorotas, como se fôssemos todos idiotas e caíssemos em conversas baratas. Eles fingem ser seus melhores amigos, seus confidentes e salvadores. Quando as coisas chegarem a esse ponto, lembre-se que só a chuva é real.
Só a chuva parece fazer-me recuperar algum tipo de propriedade sensorial. A chuva com propriedades curativas e purificadoras, fria e fina que tocam a pele como minúsculas centelhas, ou forte, como um arremesso voraz. Ela sempre me faz a consciência me lembrar, para sempre, quem sou e o que sou, e a quem devo evitar.
É o meu destino, é o caminho que decidi trilhar. Não há o que se lamentar, pois o que está feito está feito. A enfermeira vem e me acorda. Diz: “Está na hora do remédio.” Faço que engulo a pílula. Essas pílulas me deixam com pensamento embaçado. Não quero que me controlem, que me joguem para a realidade construída pelos irracionais. A minha realidade é mais interessante. Sou livre para falar com quem e quando quiser, pensar e sentir prazer com quem e quando quiser.
Vocês não têm nada a ver com isso, seus hipócritas. Se quiserem me humilhar, me torturar e me matar, façam-no. Jamais entenderão que eu sou livre, mesmo trancafiado nesse quartinho frio e imundo. Sou senhor de mim mesmo, mais do que imaginam. Aprendam a apreciar a chuva e vão enlouquecer outra pessoa. Vocês me transformaram em louco, mas os calhordas são vocês. Dentro de mim eu sou livre e ninguém me pode tirar isso. Deixem-me em paz.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Passeio em um dia cinza

Não parecia que ia chover, ou faltava muito ainda. Decidimos andar pelo centro, era horário especial de Natal, e as lojas iam estar abertas até o começo da noite. Um passeio de mãos dadas, em um dia cinza, era o ideal para terminar o nosso final de semana. Aguardávamos, no dia seguinte, uma segunda-feira, cheia de chefes, ônibus lotados e paciências estouradas.
- Não gostei do filme, achei muito parado. Odeio filme desse tipo. É coisa de francês. - disse Rita.
- Você está muito acostumada àquela banalidade dos filmes norte-americanos. Aquilo é para quem tem músculos no crânio, em vez de cérebro. - respondi.
- Lá vem essa conversa de novo. Eu lhe gosto muito mesmo, mas você é um saco quando fica desse jeito. Parece que está revoltado com o mundo. Credo !
Não respondi e continuamos a andar, lentamente, pelo calçadão. Não havia muito movimento, quem tinha algum dinheirinho guardado preferia ir aos shoppings. O centro da cidade era coisa de pobre, plebeu. Os enfeites de Natal enfeitavam o teto das lojas e do bulevar. Mas ainda havia luminosidade, por causa do horário de verão.
Entramos em uma loja de compact discs (CDs). - Posso ajudá-los - perguntou um vendedor. Dissemos que estávamos apenas olhando. - Qualquer coisa é só me chamar - insistiu. Concordamos com um sinal de cabeça e fomos direto às prateleiras. Eu queria saber se havia lançamentos de alguns guitarristas. Examinei e percebi que tinha praticamente todos. Queixei-me e comentei que nem tinha dinheiro para comprar um mísero exemplar.
- Não entendo nada desses caras. É muito chato, ninguém canta. Dá até vontade de dormir.
- Rita, isso é música de verdade. Se você entendesse alguma coisa de música, chamaria o Joe Satriani, o Steve Vai, o Edward Van Halen e o Yngwie Malmsteen de gênios. Eles não fazem aquelas coisinhas bobinhas que tocam em FM.
- Para mim, o que interessa é me divertir, Paulo. Gosto de ouvir aquilo que me dá vontade de cantar junto e dançar. Também gosto de rock. Você não o único entendido. Sabe muito bem que tenho a coleção completa do Pink Floyd.
- Tem de enfeite. Não sabe nada dos caras. Escuta mais o The Wall, porque todo mundo conhece, e deixa os conceituais de fora. Qual é o nome do guitarrista ? Aposto que nem sabe.
- Claro que sei, seu esnobe. É o David Gilmour, que tem o feeling de um guitarrista de blues, com aquelas pentatônicas, e a sofisticação de um progressivo, com todos aqueles pedais e racks de efeito. Satisfeito ?
- Ok, essa foi fácil - retruquei, com um sorriso e cara de sarro.
- Seu metido ! - rebateu, dando-me um empurrãozinho amoroso.
Aproveitei o embalo e a segurei entre os braços. Voltamos ao calçadão abraçados. Aqueles dois anos ao lado dela eram os mais felizes de minha vida. Nunca tinha me sentido daquele jeito, em paz e completo. Aqueles cabelos ondulados e compridos, escorridos pela face me deixavam doido. Queria acariciá-los a todo momento.
Sua face era lisa, sem espinhas ou cravos. Gostava de tocá-la, com a palma e as costas da mão e senti-la em toda sua suavidade. Quando agia assim, seus olhos se fechavam e remexiam-se em suas órbitas como se fosse um sonho. Seus olhos eram cinzas, como a cor do céu naquele dia. Um enigma. Era impossível tentar adivinhar quais universos se desenvolviam no imaginário dela. Sentia, mas nunca tive coragem de dizer que a amava.
Pegamos um sorvete cada um. O meu, crocante. O dela, pistache. Sentamo-nos em um banco da praça central. Dispensamos as colherinhas de madeira. Preferíamos devorá-los até a casca, antes que derretessem de vez. Provávamos um o sorvete do outro. Podia ser meio bobo, mas era divertido.
Terminamos a nossa guloseima e caminhamos em direção à casa dela, que não era muito longe dali. Escurecia aos poucos e o cinza se tornava preto. Ela estava esquisita e calada. Quando chegamos ao coreto, poucas quadras de sua residência, feriu-me como nunca alguém fez antes.
- Vou terminar com você. Não têm argumentos. Está definitivamente decidido.
- Por quê ? - indaguei desesperado, enquanto a visão escurecia e o mundo ficava desequilibrado e fora de foco.
- Ainda lhe amo, mas é melhor para nós dois. Você se apegou muito a mim. É melhor encerrarmos isso agora, ou vai sofrer mais.
- Você também vai sofrer, não vai ?
- Claro, seu bobo. Mas de forma diferente. Somos de mundos diferentes.
- Eu não me importo. Faço o que você quiser. Posso até entrar naquele bar lotado de bêbados e chamar todo mundo de boiola e ficar lá para apanhar. É só pedir.
- Sei que seria capaz de fazer isso. Mas não faça. Vou pedir uma única coisa, um último beijo.
Com lágrimas nos olhos, envolvi-a entre meus braços, como se me quisessem arrancá-la à força. E a beijei. Beijei profundamente, até sua alma. Soluços misturavam-se aos suspiros. Era a companheira perfeita, que me encontrava e me deixava só. Queria que aquilo durasse para sempre. Era o fim de um filme branco e preto. A cena final éramos nós, o casal, dentro do coreto, já em sombras, cujo cenário de fundo era o fim de um dia cinza.
Repentinamente, veio um choque, uma convulsão. Depois da escuridão, visualizei o teto branco e dei-me conta do cobertor malhado. Estava em minha cama. A mulher da minha vida nunca existiu, era uma fantasia. Era tudo tão real que doía de verdade. Chorei lágrimas que pareciam de sangue. Sem me importar com os outros habitantes da casa, gritei: “Rita, eu te amo!” Foi inútil e demasiado tarde. O sonho já tinha terminado.
* O conto “Passeio em um dia cinza” foi publicado originalmente no livro Anuário de Escritores 1999, da Litteris Editora.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
A irmandade

Existiu um Messias, concebido por uma humana e vindo por questão divina. Mas, nesta sociedade secreta, há outros escolhidos, por suas virtudes terrenas que muitas vezes podem, ou não, coincidir com os desígnios de Deus.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Araucaria angustilofolia
Convencionei parar num posto de gasolina, a cada dois mil quilômetros, para urinar. Meço de cabo a rabo os tipos locais. Não é algum tipo de perversão de conotação sexual, apenas força do hábito. Um trapo em tom de vermelho fosco, que traz reminiscências de um vestido, é a única peça que cobre a figura caquética de um ser feminino. Ao mesmo tempo em que acondiciona a xícara de café, a mulher junta as mãos em forma de cuia tal qual um instrumento de captação de energia para sua carcaça. Seus olhos de azul desbotado, o preto que fica branco quando chega perto das raízes e a flacidez de seu rosto, disfarçada por toneladas de maquiagem de terceira linha, denunciam o peso de sua idade. Sorve o líquido provocando um ruído irritante de sucção e deixa sua marca venérea de cor lilás na borda da xícara.
A mulher tem vergonha de mostrar a boca. É banguela. Deixa uma moeda no balcão e, como entrou, deixa o estabelecimento: calada. O balconista vira a aba do boné para trás e me explica, apesar de eu não ter perguntado coisa alguma: - É mais uma puta velha que ninguém mais tem coragem de pagar para comer.
Ouço, mas não respondo. Termino a minha xícara de café e volto para a estrada. Algum tempo depois, a rodovia ganha cores mais fortes. Os postes de luzes amareladas começam a aparecer, seguidos dos seus comparsas de luzes fluorescentes. No momento em que já não agüentava mais chego ao meu destino, Curitiba. Diante do desconhecido, surge a curiosidade aguçada pela minha melhor propriedade naquela ocasião, o anonimato. “Araucaria angustilofolia”, murmuro tentando não pensar em nada.
Chego ao hotel, um quatro estrelas, bem no centro da cidade. Freio. O atendente confirma a reserva e me entrega a chave do apartamento. Um rapaz pega bagagem e toma a frente, ensinando-me o caminho. Nestas circunstâncias, sou anônimo, sem conhecidos. Posso ser quem quiser com as chances de ninguém saber quem realmente sou. A mente pede por um entretenimento. Luxúria regada a álcool é uma boa opção. Pergunto, já no elevador, onde fica uma casa de espetáculos adultos. Ele pondera e diz que vai perguntar a um outro companheiro, mais familiarizado com esse aspecto do turismo.
- La Vita. - revela-me o outro, quando desço à recepção, na saída de encontro ao espectro clandestino da noite. - Qualquer coisa, o senhor volta e me pergunta, que eu conto quais são as outras casas do tipo, fico aqui até as 23 horas.
Garoto atencioso, até me prepara um mapa e me ensina o caminho. Em tempos passados, diria que foi uma cordialidade corporativista a um companheiro de gênero que procura diversão vulgar. Todavia, toda sua atenção visa uma boa e gorda gorjeta. Deixo umas moedas em sua mão e é tudo. Se falar ou pensar besteira apago ele aqui mesmo. Dirijo até o centro de espetáculos perto dali. Estacionamento horizontal e piso límpido.
Entro no elevador e ensaio passos mortos abafados pela música afro-baiana que estimula os corpos se sacudirem a cintura num ato quase inconsciente de tentar manter a temperatura que vagarosamente lhes foge pelas frestas do teto. Teto ao ar livre por motivos estéticos, genial. Passo frio por causa dos arquitetos. Filhos da puta.
Os passos se desperdiçam naquele local, enquanto imagino o que terei para jantar. Ando por todo o piso e entro num restaurante de comida chinesa, tipo self-service. Sashimi de salmão, wasabi e shoyu. Yakisoba, carne com legumes, frango xadrez e camarão ao molho especial. Bolinho de camarão e dois rolinhos primavera regados com molho agridoce. Chope escuro.
Deixo os talheres ocidentais metálicos, manifestando minha preferência aos dois pauzinhos. Eles são malfeitos, têm farpas. Foda-se, não sou uma princesinha. Ingiro um naco de carne, que desliza suave pelo esôfago. O garçom me entrega a bebida. Pela janela transparente, vejo dois chineses preparando a comida. Transparência, em todos os sentidos. Sem sacanagens na cozinha. A mulher, que não sabe pronunciar os “erres” direito, pesa a quantidade de comida nos pratos. Comida por quilo. O primeiro gole do chope leva um quarto do conteúdo do copo. Fecho os olhos e sinto o líquido gelado e levemente amargo correr pelo tubo digestivo. A comida entra aos poucos, satisfazendo-me. Pago a conta e vou ao banheiro despejar alguns fluidos em excesso. O frio só é uma bosta por causa disso.
Araucaria angustilofolia é aquela moça bailando pelo salão barulhento.
É a imagem daquela menina que usa a solidão como armadilha.
Com a solidez de uma árvore pré-histórica e genuína, ampara minhas
Mãos e sorri forçosamente ao primeiro contato, numa tentativa de forjar
Um programa que pode não sair muito barato.
Rodas no asfalto úmido e gelado. Silêncio, o toca-fitas está desligado. Mãos no volante rumo ao estabelecimento indicado pelo rapaz do hotel. Não é difícil de encontrar. Estaciono. Ando pelo estacionamento e esbarro com um brutamontes na entrada. É o porteiro, que me dá um boleto de consumação. No puteiro de luxo, velhos e executivos com copos de uísque importado. Putas, com trajes bem recortados, fazem o tipo: “Sou garota universitária.” Quero outra mijada. Vou ao banheiro e dou de cara com a porta. Ocupado. Uma senhora, com pinta de proprietária da casa, fala:
- Aí sempre tem fila, não tem jeito. Tem um outro lá em cima.
Espero. Urino, levanto o zíper, lavo as mãos e as enxugo nas calças. Essa merda de banheiro não tem toalha. Saio. Quero algo mais autêntico, onde as coisas e as relações sejam mais explícitas. Pergunto ao porteiro. Tem um, sim. E é bem no centro, pertinho do hotel em que estou hospedado.
Pé no acelerador, que também castiga os pedais da embreagem e do freio. Numa cidade desconhecida, a possibilidade de se perder é óbvia, em todos os sentidos. Na esquina, um bando de taxistas em seus carros cor de laranja, cada qual com um número de telefone estampado na porta. - Onde fica a Metrô ? - É só pegar a terceira rua à direita e depois virar à primeira direita. Então, espera chegar a um outro ponto de taxi, entra à direita e o senhor vai enxergar os letreiros do lugar. - Obrigado.
Encontro uma vaga entre dois carros, como se estivesse à espera. Alguns passos na boate e sou recepcionado por um garçom que me guia uma mesa, postado à frente do palco quadrado, um jazigo no centro geométrico do estabelecimento, um tipo de jaula, sem grades, um pouco acima do nível do chão. A mesa é circular, de madeira carcomida e desgastada pela erosão dos toques sujos e mundanos dos que já passaram por ali. O relógio indica 22h30. Já passou a hora de criança dormir. Começam as atividades ocultas, longe da luz solar e da falsidade dos restaurantes grã-finos da metrópole.
O garçom, de volta com um cardápio na mão, pergunta-me o que desejo beber. Uísque. O preço é salgado. Opto pela tequila, mais barata e eficaz aos meus propósitos. Olho os corpos que desfilam no palco iluminado de chão negro e erodido pelos sapatos das mulheres que espalham seu perfume, tentando usar a arma biológica mais perfeita que existe para atrair um macho ignorante, como sempre. Postam-se à frente das mesas e exibem seus órgãos baixos, ainda que dentro das poucas roupas. Barangas.
A casa está com pouca freguesia. Uma ou outra mais ousada senta-se num banquinho ao lado do seu pretendente. Predominam os homens com mais de 25 anos, com situação financeira definida, conforme indicam os trajes e os rótulos das embalagens de bebidas em cima de suas mesas. À minha frente, rapagotes entre 18 e 20 anos derramam cerveja garganta abaixo e assistem, simultaneamente, o princípio do show. Passados 15 minutos, uma delas chega. Agacha-se e dá-me um abraço por trás. Puxa aquele simulacro de banquinho - um objeto cilíndrico, acolchoado nos locais que acomodam as costas e as nádegas - e se acondiciona logisticamente, sem desgrudar os braços no entorno do meu corpo, sem desperdícios. Sinto seus seios muchos nas minhas costas.
O toque é suave, porém mecânico. Seus dedos frios enrolam-se nos meus e as mãos ficam atadas, num laço tenso e receoso. Ela puxa conversa e conta que seu nome é Cátia, sem especificar se é com “cê” ou com “ká”. Veste uma calça jeans e um treco com alças brancas. Não sei o nome de roupas, muito menos das feminas. Está um pouco rouca. - É de tanto gritar e torcer pelo Brasil. - justifica. Pode até ser verdade. Não ligo e, na verdade, nem quero saber.
- Qual é o seu nome ?
- Roberto. - minto.
Olha minhas unhas. As da mão esquerda são compridas. E as da direita, curtas. Uma exploração táctil e uma declaração: - Que unhas, hein ? - Toco guitarra nas horas vagas. Cátia dá um sorrisinho, meio amarelo. Uma prostituta drogada, para variar.
- Fui casada com um japonês. Larguei dele, há um mês. Peguei-o na cama com outra. Nem sempre fiz isso, sabe. Estou nessa vida uns três meses. Meu marido me batia muito, mas dessa vez fui eu quem sentei o cacete nele. Desgraçado. - Gargalhadas.
- Por que você não deu queixa na polícia ?
- Pensei nisso. Não éramos casados no papel. Vivíamos juntos. Ele tinha vergonha de mim. A família dele não gostava de mim porque eu era da noite. Mas a família dele era complicada. Um irmão dele foi pego fazendo coisas com uma sobrinha. Ele se escondeu dentro do guarda-roupas.
Mentira, eu sei. Gente como ela tem costume de mentir ou inventar estórias, encenadas num mundo alternativo - um jeito de camuflar a realidade não quista, da qual nem sempre se consegue escapar. Acho que a sobrinha devia ser ela, que se deixou levar por um tio filho da puta. Seus dedos se movimentam na palma das minhas mãos, numa tentativa desesperada de arrebatar-me para o ninho de negócios. Sou homem e macho, mas não sinto coisa alguma. Coitada, está perdendo tempo.
Araucaria angustilofolia é ela quando eu a encanto com papo-furado,
Aquele mesmo com que muitas meninas - ditas como decentes - me acusam de otário. As palavras vêm com sinceridade e um pouco de ingenuidade.
Mas quem diria que aquelas sereias de sentimentos calejados ainda têm
Um pouco de sensibilidade?
Cátia me revela sua idade: 26 anos. Parece mais nova. Ela fica contente. Invento que tenho 24 anos. Diz que é de uma cidadezinha muito pequena, no litoral do Paraná, cujo nome não é guardado com exatidão. Se for Antonina, é verdade. Anápolis ? Erra feio. Esse município fica no interior de Goiás. Cátia diz que já esteve em São Paulo, na cidade de Bastos, durante algumas festinhas infantis para adultos.
- Nojentos, esses homens de meia-idade que saem com meninas de 12 ou 13 anos. - digo.
- Homens velhos gostam de meninas novas. Meninas novas gostam de homens mais velhos. Gosto de garotões, de 16 a 20 anos.
- Com menores de 18 anos você pode ser presa.
Cátia ri e me dá o primeiro beijo. Empatia ou esforço de levar-me para baixo dos lençóis. O toque de nossos lábios é seco. Não há carga emocional alguma.
- Você é quem tem que tomar cuidado para não ser preso.
- Não faço coisas desse tipo.
Ela me abraça. As apresentações continuam. Perco a conta do número de garotas que descascam suas vestes para a platéia. Cátia continua a me envolver. Não me surte efeito. Desgrudo uma das mãos, pego meu copo de bebida e levo-o aos meus lábios, acariciando o sal em sua borda. A bebida desce, seguida pelo sumo do limão que acabo de morder. O garçom vem à mesa e peço-lhe outra dose de tequila.
- Às vezes me faço de boba. Sei chegar e sei sair.
- Parabéns. E emprego, é fácil de arranjar por aqui?
- Se estivesse, eu não estaria aqui, né.
Silêncio. Fico sem graça e ela começa a colocar a língua no meu ouvido direito. Estou bem vestido. Acha que sou rico. Vaca.
- Seu corpo está quente. Vamos dar uma saída? - insinua.
- Não dá. Tenho que acordar cedo. Se atrasar, me fodo todo.
Cátia massageia meus ombros duros. Pensa que estou tenso. É o meu estado natural. Tiro a caneta do bolso da camisa, rasgo um pedaço de guardanapo e peço-lhe para anotar o seu telefone para que chamá-la na próxima vez em que estiver na cidade. Ela o faz. Em seguida, lembro-me do cartão do hotel, de material mais durável, e peço-lhe que escreva então nele. Obedece e ordena-me a rasgar o guardanapo com seu manuscrito. É a minha vez de obedecer.
Outra garota entra no palco para o show de strip-tease. É o quarto da noite. Conheço a música. Love Hurts, do grupo escocês Nazareth. Cátia conhece a canção e já fala o nome do conjunto. Ofereço-lhe uma bala por causa de sua garganta irritada. Ela aceita e me pergunta se está com mau-hálito. Não está. Cátia aceita e me diz obrigado. A moça que dança no palco tem pele negra. Desfila suas carnes magras em cima do palco. Performance demorada, sem tipo algum de ensaio. O fundo musical é apenas motivo de fundo para ficar inteiramente nua aos berros dos bêbados que se esquecem dos empecilhos da civilização e assumem seus instintos mais primais. Magrela, sem tetas e sem bunda. Não gosto. Parece uma tábua de passar roupas.
- Estão repetindo a música.
- É que ela não terminou de tirar a roupa. - esclarece-me Cátia, que reforça seu abraço em meu corpo.
- Você está quente.
- Nem tanto, impressão sua.
Ficamos juntos por mais alguns instantes. Ninguém vive de companhia. A moça sai em busca de um cliente e me abandona na mesa. Não sinto rejeição. Tais relações são meramente comerciais. Adeus, mocréia. Pausa nas apresentações de strip-tease. Tipos peculiares parecem ter sido escarrados nas mesas. Ao meu lado direito, um bando de garotos de periferia em seus jeans desbotados. Mais para frente, na lateral direta do palco, um casal de libertinos. A loira, excitada com as meninas, esquece de tirar o crachá de identificação da empresa em que trabalha. Seu marido fica quietinho na mesa, bebendo cerveja. Ela as acaricia e guarda algumas notas de R$ 10,00 nos trajes sumários delas. Só falta lambê-las. Em outras ocasiões, ficaria com muito tesão. Não estou com o humor necessário para isso. Pervertida.
- Garçom, outra tequila.
Pagode é o ritmo que marca os cortejos remunerados. Uma outra moça passa por detrás de minha banqueta e pede-me para tomar conta de sua cigarreira - um artefato de plástico envolto de metal. Sou abordado pela segunda vez. Mais outra que pensa que sou rico. Desgraçada.
Ela sobe no palco e dança. A discoteca é variada. Tem até a música do tricampeonato brasileiro. “80 milhões em ação, prá frente Brasil, do meu coração !” A desconhecida dança com uma colega. Rock ‘n’ roll clássico. Um gole largo para a música. Elvis Presley canta Rock Around The Clock. Um rapaz, mais novo que eu, sobe ao palco e a toma para dançar. Tequila. Dança muito bem e sabe o que faz. Veste um traje tipicamente country, adornado com um colete preto e um laço branco no pescoço. Muito bonita, podia ser disputada a tapas. Olhos claros, pele morena bem clara e cabelos castanhos encaracolados até os ombros, com corpo bem torneado e rígido dentro de suas vestimentas, não tão vulgares assim. São bregas.
A moça dispensa o moleque da dança e vem para minha mesa. Alguns passos. Nervosismo. Pede para se sentar. Levanto-me do banco à esquerda e sento-me no da direita. Senta-se onde eu estava.
- Muito prazer, meu nome é Malú. - e me dá um aperto de mão.
- Roberto. - insisto no pseudônimo de ocasião.
Malú pede permissão para pedir uma bebida. Como a maioria das meninas que circula pela casa, a escolha é um Keep Cooler. Pede o de cor vermelha, sabor pêssego. Deve ter um gosto de bosta. O garçom deixa o pedido na mesa. Com voz firme, ela me agradece. É a primeira vez na noite que alguém me agradece.
Araucaria angustilofolia são os nomes inventados, por uma questão estratégica de esconder uma outra privacidade, muito além dos afagos e do
Contato dos orifícios e dos órgãos baixos. Nome verdadeiro, elas não dizem não. Embora nomes próprios, são genéricos, com um toque misto de égua e tesão.
- Deu para perceber que você era um cara simpático.
- Simpático? Tenho cara de demônio.
- Nada disso.
- Gentileza sua.
- Por quê?
- Geralmente, sou muito grosso.
- Algumas vezes temos que ser. - confirma Malú.
Os improvisos de strip prosseguem e Malú continua tensa. O silêncio intercala os diálogos. Suas mãos finalizadas em unhas de esmalte vermelho metálico repousam em cima das minhas na tentativa de encontrar um pouco de segurança. Seu corpo está mais próximo ao meu. Suas mãos, suadas. O som está em alto volume. Encosto minha boca em seu ouvido direito, esbarrando meus lábios em seus cabelos, quase berrando para que me ouça. Ela gosta do meu jeito e da minha conversa, eu acho. Homem é uma besta. Pelo menos não segura nas minhas bolas pensando em dinheiro, por enquanto.
Mais garotas entram no palco, uma após a outra. O ápice das gritarias é quando duas delas, uma loira e outra morena, são anunciadas pelo locutor. Com roupas de cowboy, ao som caipira norte-americano, são recepcionadas aos gritos. A primeira, a de cabelos negros e compridos, aproveita todo o espaço destinado a sua performance e percorre as mesas, subindo nas cadeiras, permitindo os toques de mãos iradas e desconhecidas. Não fica inteiramente nua. A música pára e sua colega, a loira, entra. O espetáculo prossegue com a dupla das peladas. Numa mesa lateral esquerda, quatro homens entre 25 e 30 anos se divertem de maneira pouco usual. A morena chega perto de sua mesa e dobra as pernas. Eles despejam o líquido de uma garrafa de cerveja entre suas pernas. Apesar do frio, ela demonstra satisfação. Fingimento certo. Olho para o meu copo vazio. Ao meu gesto, o garçom me traz outra dose. Gritos e histeria.
A loira está quase nua. O casal de libertinos prega a atenção nela. A mulher chama-a ao lado e a segura pela cintura. As duas dançam animadamente naquele canto, sem perder o compasso da música. Seu companheiro apenas observa. A loira tem uma tatuagem na nádega esquerda, próxima ao orifício anal. Não consigo identificar com nitidez o formato por causa da escuridão do ambiente em contraste com as luzes pregadas no teto. Ambas continuam com os chapéus na cabeça. Os urros continuam. A morena chega perto de minha mesa e sobe numa cadeira. Inclina-se e movimenta suas nádegas bem na frente da minha cara. Sinto o cheiro de boceta melada.
Malú parece sedada. Suas vestes brancas e justas salientam os dotes de seu corpo. Seu rosto é perfeito e sua boca, carnuda. Procura algum tipo de proteção. Tem medo. Dá para notar pela expressão de suas faces.
Araucaria angustilofolia, elas ocultam seus nomes de batismo, porque no fundo mesmo, ninguém quer saber o nome de ninguém. Ir à zona é a
Chance que alguns peludos encontram de escarrar suas frustrações da
Vida cotidiana, inferiorizando um ser humano, com tratamento quase
Animal de uma figura sempre sagrada de mulher.
- Está toda de branco. É para simbolizar a paz?
- Gosto muito desta cor e das roupas tipo country.
- Seus olhos verdes são muito bonitos. É descendente de alemães?
- De alemães e poloneses. Quer dizer, de alemães e holandeses. São azuis-esverdeados.
- O quê? - Ela mente.
- Os meus olhos. Não são verdes. São azuis-esverdeados.
- Não enxergo direito com essa luz. Mas são muito bonitos.
- Para uma “moça de família” acho que está bom. - ironiza sua própria condição, numa risadinha fingida e triste.
Malú diz que morou cinco anos no Paraguai. Foi para Asunción, a capital, quando tinha 20 anos. Não conta muito o que fazia por lá, apenas que conseguiu o seu primeiro diploma por aquelas bandas. Fala de um namorado italiano. De tanto ouvi-lo conversar com seus amigos, acabou aprendendo sozinha o idioma. Quanto ao inglês, diz que está fazendo um curso básico. Mais abobrinha. Malú sorri pela primeira vez na noite. Nosso diálogo se abre um pouco e sai do automático. O assunto é música. Sua boca se move sempre que um novo som rola. Fico espantado com a quantidade de músicas que ela acompanha, de cor e salteado. Malú diz que é de tanto freqüentar o lugar.
Conta que seu pai foi músico. Tentou ensinar-lhe os primeiros acordes, mas não quis saber. Acabou a tequila. Seguro o copo e olho o fundo. Refração maldita da luz de cabaré na lente asquerosa de um copo profano. Chega de bebida por esta noite.
- Se ouvisse o que ele falava, não estaria aqui hoje. Já me convidaram para fazer segunda voz numa banda que hoje toca axé no Japão. Desisti. Não gosto muito de axé. Mas o que faço mesmo são dublagens. Tudo bem com você?
- Estou cansado.
- Tive te observando antes. Gostei de você. Quietinho... não chegou junto de ninguém.
- E você, tudo bem?
- Já disse que sim. É que eu estava ali no fundo, numa mesa. Um cara veio passando as mãos nos meus seios. Mandei parar. Não gostei daquilo. Tem coisas que a gente faz dentro do quarto mas não faz num bar, com todo mundo olhando. Assim como você veio aqui e não é obrigado a sair com ninguém, se não quiser...
- Certo.
Na mesma mesa dos babacas embriagados, uma loira de cabelos lisos e curtos é o objeto de delírio. Um balde de gelo, utilizado originalmente para acondicionar uma garrafa de champanhe, jaz em cima da mesa. Um deles pega uma pedra de água solidificada e a joga calça adentro da moça. Está muito frio, mas ela agüenta o fio gelado que escorre em seu órgão reprodutor, molhando suas calças marrom desbotadas. Pega outra pedra de gelo e a chupa, passando eventualmente nos seios. Senta de frente no colo de um rapaz. O outro chega por trás. Ao som de um samba, simulam uma dupla penetração na frente de todos. Mais um chega pela frente e faz com que ela abaixe sua cabeça até a sua genitália. Agora são três homens e uma moça, todos com roupas, sem vergonha de passar vergonha, num lugar esquecido pela lei inventada pelos burocratas e por Deus. Brinquedinho. Naquele local tudo é permitido. Patéticos.
Um bando de gringos altos, de olhos e cabelos claros, levemente grisalhos, entra na casa. Ela me abraça com mais força. Quase 1 hora. Dou-me conta do horário e do compromisso que tenho logo pela madrugada.
- Os franceses chegaram.
- Franceses, quem?
- Aqueles ali, bem em frente. Não gosto daquele de óculos.
O ódio resguardado de Malú pelos franceses brilha em seus olhos azulados e distantes. Não perdem por esperar, desgraçados. Sua vingança vem com a vitória da seleção canarinho na Copa do Mundo, contra os anfitriões franceses, interioriza. Vestir a alma de torcedora é, também, a única forma para ela ser cidadã. Garotas de programa não são reconhecidas, oficialmente, no estratagema moral da sociedade mundial. Pelo menos na massa da torcida, Malú está junto do resto do Brasil, sem distinção, com coração uno, sem pensar muito nos carnês vencidos, esquecendo-se dos clientes com desejos doentios - respeitáveis durante o dia, mas porcos e sádicos com desconhecidas com que ninguém se importa.
- Você é casado? Tem uma namorada?
- Sou solteiríssimo e não tenho namorada.
- Simpático desse jeito e bonitinho assim...
- Coisas da vida.
Tenho que ir embora. Despeço-me pela primeira vez. Curvo-me levemente e levanto sua mão esquerda para beijá-la. Fica tocada com o gesto e me dá um beijo no rosto. O garçom diz que vai trazer a conta até a mesa.
Ele volta e diz que tenho que me dirigir à portaria para acertar a conta. Levanto-me do banquinho. Malú me dá um olhar molhado e dirige seus lábios ao canto esquerdo do meu rosto. Seu beijo deixa uma marca de batom. Ela insiste em limpar o vestígio, pensa que sou casado ou alguma coisa do tipo, não sei o motivo.
- Quando você volta para cá?
- Quando puder. Talvez num feriado prolongado em que não esteja a serviço. Onde posso te encontrar? Aqui mesmo?
- É.
Malú se despede com o silêncio e se retira da mesa, logo depois de mim. Até que é decente para uma puta. O garçom pensa que vou dar o calote. Pago em dinheiro. Tenho vontade de esfregar as notas na bunda dele até arrancar sangue. Ele me entrega o “convite” da casa. Seu nome é Fon Fon, apelido esquisito para um homem. Deve ser uma bichola. A noite é polar. No meu quarto, tiro minhas roupas e deito na cama para sentir o contato da pele com o cobertor macio. Adormeço, pensando nas duas moças que conheci. Tudo gira. Efeito tequila. Pau no cu da crise do México.
São 3 horas. Aos pulos, vou para baixo do chuveiro. Não quero chegar atrasado. Água fria. Merda. Arrumo minha maleta e saio do quarto. Ainda é escuro quando dou baixa no hotel.
O executivo é pontual. Europeu típico, no físico e nos costumes, sua face é rígida. Os olhos claros são distantes assim como seus passos, que parecem esmagar o solo ao menor contato. Preparo-me para recebê-lo. Suor na testa. Lenço na pele. Não devia ter dormido tão tarde. É hora de sua corrida matinal, antes do início do expediente. Rotina. Ninguém dá mais bola. Espero que me receba.
Esteja sempre bem-vestido, recomenda o figurino. Meu terno preto se camufla com a aurora boreal que anuncia o despertar do dia. O silêncio só é interrompido pelos pássaros vira-latas que rondam os arredores da montadora, em meio a uma mata reflorestada com eucaliptos. Nosso encontro está próximo, numa fração de minutos.
A negociação deve sair perfeita, sem falhas, ou estou fodido. O brasileiro é
hospitaleiro por natureza. Ainda mais quando é subornado. Por isso, o industrial conseguiu terreno, financiamento, obras de infra-estrutura e isenção fiscal. Negociador hábil, tem deputados, senadores, vereadores e prefeitos em seu círculo de influência. Cabem todos em seu bolso, como marionetes. Caminha lentamente. Gosta de olhar tudo, antes mesmo de todo mundo chegar. Ele tem confiança demais em si mesmo. Cantarola algo em alemão. Coral da Cantata 147, de Johann Sebastian Bach, “Jesus, A alegria dos homens”, reconheço. Fico mais nervoso.
Ego acentuado e aparente invulnerabilidade. Você perdeu, desgraçado. Por trás, meus braços são fios de aço ao redor do pescoço da minha mercadoria. A música pára abruptamente, interrompida pela obstrução da passagem de ar pela traquéia. Tenta reagir. É obvio, como faria qualquer ser vivo. Seu conjunto de moleton cinza está empapado de suor. Sinto nojo da umidade e do calor que seu corpo emana. Seu grito de desespero é mudo e suas mãos tentam livrar-lhe do incômodo. 30 segundos. O filho da puta tem boa forma. Vai dar um pouco de trabalho. Já está ofegante e fraco pela falta de oxigenação. Tiro a seringa com sedativo do bolso e enterro em seu braço.
Deve ter doído para burro. Um golpe de palma da mão, seco, no queixo tira-lhe de vez a consciência. Amordaçado e drogado, está dentro do bagageiro. Carro com porta-malas grande. Fiz bem.
Dirijo até Castro, uma cidadezinha sede de uma companhia de origem holandesa. Matagais. Ainda é escuro e eu me aproveito dessa chance. Tiro o gringo do carro e o obrigo a ajoelhar-se em cima de um tapete que trouxe especialmente para a ocasião. Tenta gritar, mas não consegue. Os olhos traduzem o desespero que sua boca não enuncia. Ele mija nas calças. Porco, deve ser punido. Seguro meu saco, em gesto de indignação e aperto o gatilho. Um estampido quase surdo, acalmado por um silenciador. O projétil da pistola PT-380 atravessa-lhe o crânio e a torrente de sangue inunda o tapete. Sabia que isso ia ocorrer. Vou ao veículo e tiro a espada que estava embaixo do banco traseiro. Reflexo pós-morte. O corpo treme.
Visto luvas e uma touca ridícula. Não quero ser traído por digitais ou testes de DNA dos fios do meu cabelo. Lembro-me que estou no Brasil. Dou risada. O aço sai da bainha, com o sussurro de um atrito seco. As duas mãos se levantam e a espada corta o ar em sentido descendente. Fraco demais. Dou outro golpe e arranco a cabeça por completo. Seus olhos, de pupilas azuis, estão abertos. Envolvo o crânio em três sacos plásticos pretos e jogo-o numa caixa térmica recheada com gelo, num compartimento escondido no bagageiro. Sem sujeira. Picoto o resto do corpo em pedaços menores, em cima do tapete. Junto aos restos, espalhados nos buracos, jogo sementes de plantas nativas. “Araucaria angustilofolia”, remungo.
Tiro a roupa. Esfrego o álcool pelo corpo, acompanhado de um pedaço de pano, até que não haja mínimo sinal de sangue. Despejo o resto em cima do tapete junto com minhas vestes, luvas e touca. Jogo gasolina, do tambor extra do carro, naqueles objetos. Está frio. Peladão, por enquanto. Merda. Acendo um isqueiro metálico e o arremesso no meio do amontoado de porcarias. O fogo assobia forte. Sua fúria é minha cúmplice. Entro no carro e fecho as janelas para não permitir que meu corpo fique com cheiro de fumaça.
Araucaria angustilofolia eu digo quando ouço os gritos de prazer
Comprado, em dissonância com os gritos de amor fingido. É o sentimento de humilhação remoído dentro do coração de mulheres com o orgulho
partido. É o encontro desentrosado de dois desconhecidos.
Exagero no perfume e coloco outra roupa. Tento esquecer o que fiz. Para mim, é mais difícil matar um cachorro paralítico e sarnento. A humanidade não tem mais salvação. Está mergulhada na individualidade e cega para a razão. O imediatismo está incorporado em sua alma, encharcada de mediocridade e infâmia sem precedentes. Um bando de bostas são os humanos. Piso em cima e limpo o sapato na grama. Até uma lombriga é mais autêntica.
No caminho de volta para casa, vejo novamente os pinheiros de araucária. - Araucaria angustilofolia. - balbucio associando a imagem das duas garotas à árvore. Viagem tranqüila. Deixo a bagagem em casa e vou à videolocadora. Brigo com o dono, um imbecil movido à ignorância, por bobagem. Estragou o meu final de semana. Tenho quatro fitas para assistir. Não vou devolvê-las. Vou cagar em cima delas, tacar fogo e dançar ao redor delas, sentindo o cheiro de plástico queimado, num ritual selvagem. Louco é a mãe, filho da puta. É melhor que arrancar suas tripas e pendurar no poste.
Domingo. Final da Copa do Mundo. Sozinho, na sala da minha casa, estou embaixo de um cobertor, deitado lateralmente no sofá. Numa banqueta de madeira, deixo uma lata de cerveja. Entre os goles, a partida tem início. Algo não dá certo. Os deuses não estão do nosso lado. A bola escapule com as falhas dos peritos brasileiros e corre para os pés dos franceses. Nem de longe, assemelha-se àquele time que causava temor aos bárbaros além das fronteiras. A defesa se desencontra e Zidani, com sua carequinha de frei franciscano, mete a cabeça. Com duas escoradas, enterra em partes o sonho do pentacampeonato. O Brasil ataca, mas os franceses têm soldados bem treinados na defesa. Aponto minha PT-380 para a televisão, como se pudesse alvejar realmente o atleta, e, em seguida, encosto o cano na minha cabeça. Metal frio. Coloco a pistola em cima da mesinha. Prudência.
O técnico Mário Jorge Lobo Zagalo enfia dois atacantes. Denílson e, depois, Edmundo. Velho esclerosado. Nem com isso, um milagre reativa as pernas de Ronaldinho. Cagão. O ânimo vai se esmorecendo e os jogadores brasileiros, paulatinamente, entregam-se. Covardes e bundas moles. Logo no final, com todo mundo no ataque, os gauleses dão o tiro de misericórdia. Um chute de Petit. Não tem mais jeito, fodeu de vez. O que seria o penta brasileiro é o primeiro título dessa magnitude para os franceses. O novo herói de sua pátria, Zinadi, tem descendência argelina, denunciada pela pele morena e o nariz alongado. De cagada em cagada, o purgante surtiu efeito e o penta foi sumindo, devagarinho.
Levanto-me do sofá e, sem saber direito o motivo, pego a pistola. Esvazio a minha lata, num gole, e vou em direção a geladeira, em busca de mais bebida. Não dou muita importância para a perda do título. Nocauteio a mente. Penso em Curitiba, nas palavras de Malú e seu asco pelos franceses. Acabou a cerveja. A PT-380 fica esquecida ao lado do saco plástico com a cabeça do gringo, lá no refrigerador. Olhos azuis. Troféu. Muita gente sentiria nojo. Nem ligo. É menos nojento que comer merda direto do cu.
Vou ao armário e encontro uma garrafa de vinho branco. Abro a garrafa, despejo o líquido até a boca do copo e levanto-o para o nada, por alguns segundos. Um zumbido passa. Procuro a arma, mas não a encontro. Deve estar em algum canto, escondida num monte de jornais espalhados pela casa. Droga. Paro de procurar a semi-automática. Num solo interminável de pensamentos, quebro a apreciação ao silêncio e resmungo algo antes de derramar o vinho pela garganta, antes de cair num sono etílico: - Araucaria angustilofolia. Este é trago é para você, morena. Depois percebo como sou idiota. Não é Araucária angustilofolia, é Araucararia angustifolia. Bom, agora já foi. Deixa para lá.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Um Fantástico Mundo Novo
Nesta casa selvagem, de culto à dor, que não tem sentido algum, os seres são transformados em criaturas sem vontade própria ou desejo de agirem por si mesmos. De unidades orgânicas, individuais e autônomas, somos convertidos em máquinas de carne e aço inoxidável, com microchipes implantados - sem anestesia - em nossos sistemas nervosos, para que nos lembremos eternamente do sofrimento a que seríamos submetidos se desafiássemos a ordem deste fantástico novo mundo.
Agora, somos unidades teleológicas, com apenas um fim: servir e obedecer as regras deste mundo. O que ainda me resta de mim mesmo reza para que tudo isso não seja real, apenas o fruto de um pesadelo cruel. Minha mente foi isolada, silenciada e imbecilizada para fazer sentido somente em estado de massa. Neste emaranhado de sensações, para aderirmos à perfeição da coletividade, vendemos nossas almas, para suportarmos a idéia de tudo mais está perdido. Aqui, dragões são reis e as rainhas beiram à morte. E tudo isso é muito diferente daquilo que eu tinha planejado anteriormente. Onde está minha salvação, agora?
Nesta colônia tecnológica e perfeita, perdi minha vida e meus sonhos. Meus ossos foram arrancados da minha carne. O governantes, indiferentes com relação à violação dos nossos corpos e integridade moral, vangloriam-se com a edificação de um sistema perfeito, para ordenar este fantástico mundo que se inicia. O controle sobre as vontades é geral, portanto, as questões pessoais são suprimidas para dar vazão às determinações do Estado e da coletividade. Tipo bastardo de governo, esta tirania, que condena seus cidadãos, desde a concepção original, à maldição.
Consegui encontrar uma brecha no ordenamento social. Puramente pelo acaso, sofri uma descarga elétrica na cabeça, por um agente do órgão de repressão do Estado, por não estar devidamente na fila, quando fui prestar o depoimento semanal das minhas atividades aos assessores dos governantes. Foi durante a saída que um cassetete cromado, em trajetória descendente, me acertou e provocou faíscas ao contato com meu crânio. Caso ocorresse no início do processo, eu seria fatalmente reprogramado após o interrogatório. Uma falha do sistema bastou para recuperar meu eu, novamente. Desmaiei e acordei confuso. Senti-me senhor de mim mesmo, como antigamente.
Ainda meio alheio, dei um largo passeio por este fantástico mundo novo, observei tudo e me dei conta da violência que tinha sofrido. Os monitores logo descobriram minha falha de programação e passaram a me perseguir. Construí um esconderijo e procurei informações sobre o passado, me enfocando particularmente na música. No começo do século XXI, a música foi enquadrada pelos governantes como crime social, por acreditarem que possuía teor altamente subversivo, sendo assim altamente perigosa para a existência e manutenção da coletividade.
Depois de pesquisar muito, sempre escondido, me desloquei a um sítio arqueológico. No luar da madrugada, encontrei revistas de música e equipamentos. Coloquei o que pude na minha célula de transporte. Hoje, consigo decifrar o idioma arcaico das publicações e ensaio os primeiros acordes e solos naquilo que descobri ser uma guitarra. Uma banda de rock, Iron Maiden, já havia previsto o desastre que instituiu esta tirania coletivista que deturpa aos extremos os ideais de igualdade. Este é o começo da resistência, que colocará um fim neste fantástico novo mundo, e a música será sua maior e mais eficaz arma, para despertar os corações congelados pela apatia. Agora, só falta encontrar outras pessoas, recrutá-las e montar uma banda.
* Este conto foi baseado na música "Brave New World", do CD "Brave New World", do conjunto britânico Iron Maiden.

