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FOTO - Uma das praias da Província de Okinawa, no Japão.
Faz parte do imaginário popular dizer que japoneses (e seus descendentes) possuem ótimos desempenhos escolares, principalmente na área de matemática. O senso comum formula diversas explicações para tal performance, inclusive, por uma eventual superioridade racial no quesito do raciocínio matemático. "Japoneses são mais inteligentes, japoneses são mais aplicados, japoneses são mais concentrados", ouve-se dizer por aí.
Porém, não é bem por aí. A professora Cristina Canto, em dissertação de Mestrado apresentada na Faculdade de Educação (FE), da Universidade de São Paulo (USP), desvendou esse mito e explicou cientificamente que a boa performance dos japoneses e descendentes em matemática não se deve à genética, mas a todo um conjunto de fatores culturais e educacionais.
Não existem, portanto, raças ou etnias mais inteligentes que as outras. Tudo depende de esforço aplicado, ou seja, estudo, independentemente de conteúdo genético.
Como é célebre, o filósofo Aristóteles dizia que o homem é um animal político, que só se realiza e se torna propriamente humano na cidade-estado (pólis). Isso se dá somente porque o homem possui o dom da linguagem. “Os outros animais, escreve Aristóteles, possuem voz (phoné) e com ela exprimem dor e prazer, mas o homem possui a palavra (logos) e, com ela, exprime o bom e o mal, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em comum esses valores é o que torna possível a vida social e política, e, dela, somente os homens são capazes”, ensina Marilena Chauí (p. 147). Citando o filósofo franco-suíço, Jean-Jacques Rousseau, no livro “Ensaio sobre a origem das línguas”, Chauí (p. 148) diz que a palavra diferencia os homens dos animais e a linguagem, as nações entre si. Para o linguista Hjelmslev, cita Chauí (p. 148), a linguagem é inseparável do homem, sendo o instrumento que lhe modela o pensamento, sentimentos, emoções, esforços, vontade e atos. Trata-se a linguagem, portanto, de uma forma propriamente humana da comunicação, da relação com o mundo e com os outros, da vida social e política, do pensamento e das artes, define Chauí (p. 148). Relembrando Platão (Fedro), Chauí (p. 148) diz que a linguagem é um phármakon, uma poção com três significados: remédio, veneno e cosmético. É remédio para o conhecimento (pelo diálogo se descobre a ignorância e se aprende com os outros). É veneno se se faz aceitar opiniões fáceis, ligeiras e sem reflexão, sem que se busque a sua verdade. “Enfim, a linguagem pode ser cosmético, maquiagem ou máscara para dissimular ou ocultar a verdade sob as palavras”, explica Chauí (p. 148). A linguagem estruturada permite pensar e comunicar o pensamento pela fala ou pela escrita. A linguagem verbal (falada ou escrita) é a que nomeia objetos, forma conceitos e os articula coerentemente. Porém, não é o único tipo de linguagem. Define-se linguagem, segundo Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins (p. 30), como um sistema de signos (numa coisa que está em lugar de outra, sob algum aspecto). Signo seria algo que está no lugar do objeto que representa. Essa representação pode assumir variados aspectos, segundo uma relação de semelhança entre o signo e o objeto representado.
Três tipos de signo
Aí, se faz preciso discriminar três tipos de signos, dizem Aranha e Martins (p. 30-31): a-) relação de semelhança – signo do tipo ícone. Ex. fotografia, palavra onomatopaica (bem-te-vi); b-) relação de causa e efeito – uma relação que afeta a existência do objeto ou é por ela afetada, aí, o signo é do tipo índice. Ex. nuvens ou chão molhado indicam chuva, fumaça ou cheiro de queimado indicam fogo, sinais matemáticos ( +, -, x e /) ao lado de números indicam operações, febre indica uma doença; c-) relação arbitrária – signo estabelecido por convenções sociais, o símbolo. Ex. cor preta é luto no Ocidente, mas no Oriente é o branco. Só os seres humanos entendem símbolos. Os animais só são capazes de entender ícones e índices. “A linguagem é um sistema simbólico. O ser humano é o único animal capaz de criar símbolos, isto é, signos arbitrários em relação ao objeto que representam e, por isso mesmo, convencionais, ou seja, dependentes de aceitação social”, narram Aranha e Martins (p. 33). Além da linguagem verbal, há outros tipos de linguagem: linguagens matemáticas, linguagens de computador, línguas diversas, linguagens artísticas (arquitetônica, musical, pictórica, escultórica, teatral, cinematográfica, etc), linguagens gestuais, linguagens da moda, linguagens espaciais, comentam Aranha e Martins (p. 31). A linguagem é uma das principais ferramentas para se formar o mundo cultural, já que permite transcender a experiência. Ao se dar um nome a qualquer objeto da natureza, explicam Aranha e Martins (p. 33), esse ato o diferencia dos demais que o cercam. Passa a existir para a consciência e se as outras pessoas também aceitarem esse nome para o objeto, se estabelece um consenso que possibilita a comunicação.
Linguagem, mito e razão
É a linguagem produto da razão, já que só pode existir se houver racionalidade. “O nome tem a capacidade de tornar presente para a nossa consciência o objeto que está longe de nós. (...) Não precisamos mais da existência física das coisas. (...) Pela linguagem o ser humano deixa de reagir somente ao presente, ao imediato; passa a poder pensar o passado e o futuro e, com isso, a construir o seu projeto de vida. (...) Pelas palavras, podemos transmitir o conhecimento acumulado por uma pessoa ou sociedade. Podemos passar adiante esta construção da razão que se chama cultura”, explicam Aranha e Martins (p. 33). A linguagem pode conter a fantasia do mito (narrativa) ou a sobriedade da razão (logos). “Segundo Aristóteles, o ser humano é um animal racional, ou seja, um ser capaz de raciocínio. Mas o que quer dizer raciocinar? Raciocinar quer dizer dar razões, isto é, justificações coerentes e dotadas de sentido, numa palavra ‘argumentar’. A capacidade de raciocinar deve ser exercitada e treinada. Em todas as épocas da história o sono da razão tem gerado monstros”, afirma Carlo Penco (p. 58). A linguagem é deveras presente nos mitos e nas religiões. Mythos, em grego, é narrativa. Uma narrativa sobrenatural sobre como os seres humanos organizam a realidade e a interpretam, principalmente se as palavras são pronunciadas em momentos especiais (sagrados ou relação com o sagrado). Tem uma força realizadora e simbólica, mormente nos ritos religiosos. A linguagem, por “encanto”, une sagrado e profano, traz a divindade e as forças do além para o mundo, leva os humanos até o sagrado. E não raro profetas ou oráculos traduzem as comunicações entre deuses e homens. Algumas palavras também podem ser proibidas. Seu uso pode causar furor, ou mesmo mancomunar o pronunciante com alguma impureza. Alguns exemplos são os “tabus”. Comenta Chauí (p. 149): “(...) as palavras são núcleos, sínteses ou feixes de significações, símbolos e valores que determinam o modo como interpretamos as forças divinas, naturais, sociais e políticas e suas relações conosco”. Por outro lado, a linguagem enquanto logos sintetiza três idéias: fala/palavra, pensamento/idéia e realidade/ser. Exprime o pensamento que conhece o real. É a palavra-pensamento compartilhada (diálogo e lógica). “Se, como vimos, do lado do mythos desenvolve-se a palavra mágica e encantatória, do lado do logos desenvolve-se a linguagem como poder de conhecimento racional. Agora, as palavras são conceitos ou idéias, estando referidas ao pensamento, à razão e à verdade”, exemplifica Chauí (p. 149-150).
Origem natural ou convencional?
E de onde se origina a linguagem? É natural ou convencional? Chauí (p. 150) explica: “a linguagem como capacidade de expressão dos seres humanos é natural, isto é, os humanos nascem com uma aparelhagem física, anatômica e fisiológica que lhes permite expressarem pela palavra, mas as línguas são convencionais, isto é, surgem de condições históricas, geográficas, econômicas e políticas determinadas, ou, em outros termos, são fatos culturais”.
Leia mais:
ARANHA, M.L.A.; MARTINS, M.H.P. Filosofando. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2006. PENCO, C. Introdução à filosofia da linguagem. Petrópolis: Vozes, 2006.
Ao se falar em mito, muitas vezes se pensa em povos não tão civilizados quanto os que vivem nos ambientes urbanos, ou mesmo rurais, dotados de aparatos estatais como escolas, Estado e apetrechos tecnológicos, como televisão, computador e internet. Porém, há de se desprender dos preconceitos, para que não se classifique de modo prejudicial outros povos, ou pessoas, que vivem ou concebem o mundo de uma maneira diferente. Os povos tribais muitas vezes são vistos como inferiores, o que justificaria, de certo modo, a imposição cultural, econômica e ideológica de povos vistos como “superiores”, que teriam a missão de lhes levar progresso e a religião escolhida como a melhor. Durante séculos, os colonizadores – europeus, principalmente, durante as grandes descobertas levadas a cabo dos séculos XV ao XVI – tiveram essa visão a respeito dos povos “conquistados”. Num primeiro momento, o objeto das navegações de descoberta era a Índia. Ao se chegar às Américas, porém, pensavam estar na Índia. Daí, denominaram os aborígenes locais de índios.
Para evitar equívocos, alguns escolheram o termo “indígena” para denominar os povos nativos americanos. O antropólogo Claude Lévi-Strauss dizia que se deveria colocar “aspas” na palavra “primitivo”, para evitar que se entendam esses povos como inferiores. Não são inferiores, no seu entendimento, são diferentes. Há de se respeitar esses povos diferentes, com estágios de desenvolvimento tecnológico em descompasso com os das demais nações “civilizadas”, para que se evite o extermínio etnológico, cultural ou mesmo se justifiquem genocídios. Os “civilizados”, ao contrário dos “primitivos”, perderam muito das suas percepções sensoriais, ou seja, de sentidos como a visão e a audição que permitem identificar plantas e animais, ou mesmo situações que não são comuns no território urbano. Quem assistiu o filme “Avatar”, de James Cameron, pode perceber nitidamente os problemas que o personagem Jake Sully tem para se adaptar ao modo e vida dos humanóides Na’vi. Jake Sully é um fuzileiro naval que perdeu o movimento das pernas (paraplégico). É escolhido para substituir seu irmão gêmeo (falecido) num experimento colonizatório na lua Pandora do planeta Polifemo. A companhia mineradora deseja extrair a maior quantidade possível do metal “unobtanium” de Pandora. Porém, encontram resistência dos Na’vi, humanoides de pele de cor azul com feições de felinos e extremamente afeitos à natureza. Para tentar se aproximar dos Na’vi, cientistas da companhia criam os “avatares”. Tratam-se de seres híbridos entre humanos e Na’vi, que são “pilotados” pelas consciências de humanos. Jake Sully – ao incorporar seu avatar – entra em contato com os Na’vi e, após se entrosar, incorpora seus hábitos e modo de viver. Os Na’vi, semelhantemente aos “indígenas”, possuem explicações míticas para o mundo.
Mas, enfim, o que seria o mito? Ensina Marilena Chauí (Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2006, p. 34) que o mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa. É feita em público com base na autoridade e confiança que se deposita no autor (nem sempre conhecido, especialmente no caso de narrativas folclóricas). O estudo dos mitos é chamado de mitologia. Embora academicamente, a mitologia grega – fundadores da Filosofia – seja a mais conhecida. Não há de se ignorar como esses mitos gregos antigos, ou mesmo mitos de outras civilizações (romana, japonesa, chinesa, hindu, etc), são atuais e refletem na produção cultural de hoje. Na mitologia grega, a origem do mundo, segundo Chauí (p. 35), era explicada de três maneiras principais: a-) o encontro do pai e da mãe das coisas e dos seres, forças divinas que, por meio de relações sexuais, davam origem a outros deuses, titãs (mestiços de deuses e humanos), humanos, metais, plantas, animais e qualidades; b-) rivalidade ou aliança entre deuses, que originam algo no mundo dos homens (o lado claro e o lado claro da força, nos filmes da série Guerra nas Estrelas, por exemplo); c-) encontro de recompensas ou castigos dados pelas divindades em virtude da sua obediência ou desobediência (a missão de Frodo em “O senhor dos anéis”).
De acordo com Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins(Filosofando. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. p. 72), “os modelos de construção mítica do real são de natureza sobrenatural, isto é, recorre-se aos deuses para compreender a origem e a natureza dos fatos.” Muitas vezes, o mito é permeado de ritos que lhe permitem sua transmissão. Repetem-se os gestos exemplares dos deuses (ou de costumes folclóricos), para que se leve adiante a tradição. Interessantes são os ritos de passagem. Como, como por exemplo, o da infância para a vida adulta. No filme “Avatar”, Jake Sully era visto como um “bebê”, até que aprendeu os costumes dos Na’vi e conquistou seu “ikran” (réptil alado), o que simbolizou a conquista da vida adulta e seu lugar entre os nativos. Mas esses rituais também são patentes no cotidiano, por meio das comemorações de aniversário, casamento, ritos de namoro, festas de formatura, trotes de calouros, entre outros. Pode-se verificar que o mito pressupõe ingenuidade, sem problematização da realidade, com aceitação acrítica dos mitos e rituais. “A adesão ao mito é feita pela fé, pela crença. No universo cuja consciência é coletiva, a transgressão da norma ultrapassa quem a violou. Por isso a transgressão do tabu – proibição sempre envolta em clima de temor e sobrenaturalidade – estigmatiza a família, os amigos e, às vezes, toda a tribo. Daí os ‘ritos de purificação’ e os rituais do ‘bode expiatório’, nos quais o pecado é transferido para um animal.” Lembram-se do filme “Apocalypto”, de Mel Gibson, em que, não raro, eram feitos sacrifícios humanos, inclusive, para se aplacara a ira da divindade? E no seu cotidiano, como isso se aplica? Muitas vezes, se escolhe uma pessoa ou grupo de pessoas para justificar uma situação desfavorável. Adolf Hitler e o regime nazista escolheram os judeus, “sacrificando-os” (no evento hoje conhecido como Holocausto), em prol da glória do III Reich. Para refrescar a memória, sugere-se ver o filme “Bastardos Inglórios”, de Quentin Tarantino.
O mito e a religião estão também de certa maneira entrelaçados. No começo, explicam Aranha e Martins, existe uma multiplicidade de deuses momentâneos, com valor medido pela emoção subjetiva e, ainda, pelo medo. Posteriormente, se descobre os sentimentos da individualidade do divino, dos elementos pessoas do sagrado. Cada atividade ganha seu deus funcional. Um exemplo patente são os santos e santas padroeiras, cada qual protetor de alguma atividade ou profissão, com um significado – que não poderia deixar de ser – religioso, que pode induzir a “rituais mágicos”, como as tradicionais simpatias. Num terceiro momento, surge um deus pessoal, capaz de agir e sofrer como as pessoas, cuja proteção se amplia para o trabalho, para as atividades intelectuais e às artes. Nesse momento – dizem Aranha e Martins – substitui-se o mágico pelo ideal de justiça, assumindo um caráter mais racional que emocional.
Na antiguidade grega, a Filosofia, de acordo com Chauí, foi a primeira tentativa de explicar racionalmente a realidade, no Ocidente, rompendo radicalmente com os mitos. Hoje, se fala da Ciência como norte do conhecimento. Porém, há de se tomar cuidado, como alertam Aranha e Martins, para não se transformar a própria Ciência num mito. O positivismo de Augusto Comte (século XIX) afirmava que a maturidade do espírito humano dependia do abandono de todas as formas míticas e religiosas, tendo como a única forma de saber possível a Ciência. A Ciência desapegada da Ética e da Filosofia – e dos mitos e porquê não? – pode levar a atrocidades, como a criação de clones humanos – como gado – para a extração dos seus órgãos a serem transplantados em pessoas “originais”, como se vê no filme “A ilha”.
Há possibilidade de se viver racionalmente, porém, sem deixar de lado o mito e seus rituais. A dimensão humana não existe somente em função da ciência e do conhecimento racional. Daí, a necessidade da reflexão ético-filosófica e do cultivo dos mitos por meio das artes. Caso contrário, os humanos estarão cada vez mais “coisificados”, como partes ou peças de uma engrenagem de um sistema frio, mecânico e com raras possibilidades de discussões éticas ou estéticas. Aí, a vida fica muito sem graça, não?
No uchinaguchi (dialeto de Okinawa, sul do Japão), Mensoree significa "benvindo". Bem diferente de "Irashaimasee", do japonês padrão.
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Um ser que foi humano um dia, em busca do elixir das fantasias inóspitas escondidas nas imaginações fustigadas pela apatia generalizada.
Um espírito aprisionado pela carne e pelas necessidades que lhes são inerentes.
Descendente do futuro entardecer da aurora do pensamento.
Bacharel em Comunicação Social - Jornalismo, bacharel em Direito, Graduado pelo Programa Especial de Formação Pedagógica de Professores de Filosofia, Especialista (MBA) em Comércio Exterior, Especialista em Direito Penal e Direito Processual Penal, Mestre em Filosofia Ética. Estudante eterno da vida que se transmuta em milhares de fragmentos do real e da ilusão, em contraste com a finitude do pensamento energúmeno dos teatros sociais espalhados pela vastidão do globo.