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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Meu livro - Contos do Infinito





O autor Roger Moko Yabiku lançou o livro “Contos do Infinito”, pela Chiado Editora, de Portugal. A obra contém, em sua maioria, pequenas histórias com temática policial, existencialista e de crítica social. “Analiso o cotidiano sob o ponto de vista da introspecção, do sujeito que não desiste apesar de todas as dificuldades encontradas”, diz o autor. “Mas também há espaço para um amor mais sublime, quase platônico.”
No conto “Voltar de Buenos Aires”, Yabiku denuncia a manipulação das massas: “Na minha terra, da qual parti a contragosto, os tiranos se fazem muito mais despercebidos. Sob a sigla de movimentos, estatais, sindicatos, partidos, investigam todos os passos dos menos favorecidos. (...) No mundo dos reles mortais, só existem direitos para aqueles de berço bem-nascido, cujos traços econômicos estão rigidamente definidos, em contraposição aos coitados de dentes e sonhos partidos”.
Os alertas quanto aos riscos de um regime totalitarista dão o tom de “Quando ela veio”. Neste conto, são descritas cenas de tortura contra um indivíduo que ousa a desafiar a ordem vigente e que, ao final, recebe uma inusitada visita: “Ela continua ao meu lado e segura a minha mão. Com um fiapo de voz, sem crer muito no que presencio, pergunto-lhe finalmente o seu nome.”
Já em “Conto de Natal”, o autor destila uma amarga e irônica crítica à desigualdade social, cujas diferenças permitem que, numa ponta, haja prostituição infantil e pobreza extrema e, na outra, pequenos burgueses com mesas fartas para a ceia.
A pedofilia é tema dos textos “A fábrica de mortadelas” e “O retorno da vítima”. “O tom dos escritos é brutal e retrata cenas de vingança daqueles que, outrora em posição de hipossuficiência, foram abusados por aqueles que deveriam protegê-los”, explica Roger Yabiku.
O clamor por justiça social está presente em “Quase-discurso”: Esforços reunidos em torno de um acordo geral de vontades nos garantirão meios para que tenhamos uma estrutura básica, incluindo em seu bojo instituições justas, com igualdade de oportunidade para todos.”
Roger Yabiku é bacharel em Direito e Jornalismo, graduado pelo Programa Especial de Formação de Professores de Filosofia, MBA em Comércio Exterior, especialista em Direito Penal e Direito Processual Penal e mestre em Filosofia (Ética). Atualmente, atua como professor universitário e advogado, no seu escritório à Rua Manoel José da Fonseca, 35, Centro, Sorocaba (SP)..

“Contos do Infinito” custa R$ 40,00 e pode ser adquirido, no Brasil, com o próprio autor.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Pétalas

As pétalas de rosa se desmancham, suavemente, ao toque com a pele áspera dos meus dedos calejados pelo trabalho, pelo tempo e, principalmente, pela amargura da vida. Minhas mãos, minha alma e o meu ser nunca aprenderam o sentido de suavidade. A casca de pele grossa embota o tato. Para tentar sentir algo, encosto o que resta das pétalas no meu rosto. A pele facial, um pouco menos calejada, apreende uma minúscula, mas eficiente, carga de delicadeza.
O odor agradável e discreto das pétalas de rosa me promove uma sensação de leveza, diferente dos odores carregados de perfumes artificiais e desodorantes baratos. A natureza da vida tem seus encantos e as flores têm seus devaneios.
O embrutecimento do ser afasta os pequenos, mas significantes, prazeres do cotidiano, como o cheiro e a suavidade da pele de uma mulher. Tal como a sutileza das pétalas de rosa, o toque dos dedos causa arrepios na minha pele desnuda, eletrizando-a, para atrair magneticamente os meus e os seus lábios.
O contraste de sensações do toque dos seus dedos no meu rosto é evidente. A leveza da sua pele e a aspereza da minha parecem magnetizados um pelo outro. O odor de rosas que permeia o seu ser deixa o mundo mais bonito e, com isso, motiva a vontade de viver. Por isso, o meu mundo torna-se cada vez mais lindo quando eu estou perto de você.

Não tenho vícios, mas estou dependente pelo desejo cotidiano dos seus beijos. Seus lábios mornos transmitem milhares de pequenas ondas eletrizadas que rejuvenescem os meus lábios descascados, convertendo-os em matéria viva. E, novamente, respiro, pois o ar exalado dos seus pulmões é o mais puro perfume que me acalenta a vontade de existir.
Só com a sua presença, o desânimo desaparece. Os mais sinceros sentimentos reaparecem e têm um sentido: servir o que me cabe de você. Sei que as flores secam para dar espaço às sementes, mas para, mim, sempre será a flor das pétalas mais suaves, do mais penetrante perfume e da mais atraente pureza.
 Decifro as mensagens da sua linguagem corporal e noto a atração – e não, simplesmente, magnetismo animal. Da sua fronte, encanta-me tal como uma serpente e me orienta para um destino que parece ser fatal. Sinto-a tocando minha pele, apesar da longa distância. Sua presença, mesmo que por um milésimo de segundo de ilusão, foi o suficiente para que meu ser se transformasse em dependente do seu ser.



                Sua voz é música. Seu sorriso, estrelas. Seus olhos, diamantes lapidados. Sua alma é combustível da minha existência. Você se aproxima e se afasta propositalmente, para atiçar o meu desejo. Sabe, com exatidão, os pontos de pressão da minha alma a serem manipulados pelas agulhas impregnadas com o zelo da sua vontade.
            O que você é? Um anjo? Um ser de matéria sublime, além da densidade da matéria? Por isso, a procura incessante por alguém que não está neste plano, mas num patamar ideal, de perfeição e beleza celestial. De cara com a parede de concreto, um choque de realidade. Talvez, não seja nesta vida que lhe irei encontrar, mas persigo e conquisto, ainda mais, o desejo de lhe encontrar.
             Quem, ao menos uma vez, tivera a chance de conhecer a verdadeira essência do amor? Neste mar de imperfeição deste mundo sólido, permeado de mentiras e decepção, as coisas menos relevantes se tornam mais importantes, objetos da cobiça humana.
            A fortuna não me agraciou com a riqueza, ainda que eu a perseguisse. Porém, ao longo das minhas conquistas, houve um momento em que nada mais me aprazia. Acumulei riquezas, perdi riquezas. Conheci profundamente a popularidade e a solidão – cada qual com seus aspectos positivos e negativos.
            Mesmo diante da escassez de bens, meus anseios não eram por valores monetários. Mesmo que me pudessem oferecer todas as riquezas do mundo, tudo o que eu quero é você.




sábado, 22 de março de 2014

O retorno da vítima: adeus, pedófilo!


Visco das entranhas espalhava-se pelo chão, numa mistura com sangue, fezes e outras substâncias típicas do aparelho digestivo. Tal como uma cena grotesca de arte, enrolou-se um pedaço do intestino em redor do pescoço do cadáver, como se aquilo fosse uma gravata da mais recente moda. Era um espetáculo jamais visto antes. A parte inferior da boca descolou-se do crânio, abrindo a boca até a metade do pescoço, num sorriso macabro, sombrio e tenebroso.
            Um filete de voz ainda escapulia pela garganta do sujeito, demonstrando que, apesar de todo o aparato sofisticado de tortura, o desgraçado ainda estava vivo. Sem os dois globos oculares, que foram ocupados estrategicamente por bolinhas de gude, e sem a parte inferior do torso, cuja mutilação deixava escorrer o restante das vísceras pelo ambiente. E o odor se tornou fétido e imprestável.
            Aquela carcaça inútil ainda resistia, porém, não se sabia que poderia ter tamanha vontade de viver. Como isso poderia se dar, já que não teria condições reais de viver normalmente, sem nada que lhe impedisse de usufruir das delícias que outrora provou.
            Mesmo que nada mais lhe restasse, a mente praticamente moribunda do quase cadáver relampejava e insistia em manter e a enviar alguns sinais elétricos para as sinapses, apesar do prelúdio da morte certa e imediata.
            Um crime com status estético, tal como aquele em que se seu caráter artístico àqueles corpos de prisioneiros chineses embalsamados e fatiados, expostos como se fossem obras de arte.
            Jamais tinha visto algo parecido na minha parca existência. Tudo refletia o que mais de horrendo já havia percorrido a superfície terrestre. Um espetáculo além do macabro, que ficaria para sempre na minha memória.
            Nunca mais conseguiria dormir sem antes sorver alguns goles de bebida alcoólica para tentar apagar, da mente, aquela degradação que me invadia constantemente os domínios do real e do imaginário.
            Tinha que me livrar daquilo, pois me lembrava outra faceta do meu ser que nunca enfrentei antes. O lado obscuro da alma, que abraça a loucura e os demônios encalacrados, insurgia-se, de tempos em tempos, para dar vazão ao ódio acumulado ao longo dos tempos.
            Aquela obra de arte hedionda tinha um autor peculiar que custei a reconhecer. Mas ao reconhecê-lo, tive sobressaltos de decepção. O ser nauseabundo e fétido era da minha autoria. Eu, artista apocalíptico que esporrava a mais profunda raiva com talhadeiras, furadeiras, serras e outros instrumentos típicos de carpintaria em matéria orgânica que insistia em continuar viva.
            Dificilmente saberei dizer com todas as palavras os sentimentos que se apoderaram de mim quando selecionei a minha presa e a entalhei com requintes de sensibilidade barroca.


            Por muito tempo, aprendi a controlar as emoções, a ficar calado quando contrariado, numa frieza que daria inveja ao mais articulado dos espiões. Mas isso de nada serviu quando não consegui mais segurar a besta interior. Não tenho mais possibilidade de saber se terei habilidade para controlá-la, no intuito de se evitar outros massacres.
            A vida de seres como o que acabo por destruir é totalmente perecível e descartável, mesmo com relação a um suíno. Pedófilos não são pessoas, e sequer podem ser considerados humanos. Não há parâmetros para suportar animais desse porte que destroem de dentro para fora a infância que deveria ser sagrada a toda e qualquer criança.
            Em todos seus crimes, o sacerdote seviciava os pequeninos com um crucifixo preto de madeira, arrebentando-lhes as aberturas do ânus e da vagina das meninas e do ânus e do pênis dos meninos. Os poucos que sobreviviam depois de horas de brutalidade eram submetidos a cirurgias de reconstrução, porém, não teriam mais possibilidade de controle do despejo dos seus excrementos e outras secreções.
            Ele filmava todas as sessões de “catecismo”, narrando detalhadamente cada uma das atrocidades que cometia e ignorava, por completo, os clamores das vítimas pela piedade e pela intervenção divina. Penetrava-as por todos seus orifícios, lambuzando-os com seu sêmen. Gentilmente, após realizados os atos, banhava seus corpos em água benta, no intuito de purificar as almas dos ingênuos e perdidos pecadores.
            Consegui sobreviver, padre. Mesmo com meus órgãos baixos dilacerados e a dignidade corrompida, Deus me deixou vivo para que eu pudesse me dar conta da minha verdadeira missão nesta terra profana. Naquele dia, padre, o senhor e seu crucifixo me levaram ao inferno e não mais retornei. De acordo com a doutrina, mesmo sendo vítima, tornei-me um pecador.
            Sim, padre. Igual ao senhor, também sou um pecador. Porém, um pecador contra minha vontade. Lembra-se quando eu lhe ajudava nos preparativos da missa e todos meus amigos do orfanato sentiam orgulho? Poucos sabiam, padre, ou queriam não acreditar, que naquela minha dedicação, havia grilhões em minha alma que me aprisionavam diretamente ao senhor.
            Inúmeras vezes, padre, o senhor me seviciou com as garrafas do vinho com que celebrava a missa, mastigava as óstias e me cuspia dentro do intestino, como se eu fosse um peru sendo recheado para a ceia natalina. Não percebia meu choro calado e as lágrimas secas que encharcavam o ambiente.
            O senhor me tornou servo do demônio, padre. Num lugar onde esperava salvação, como outros garotos miseráveis do meu bairro, o senhor me destruiu no primeiro momento em que me forçou suas carícias. Em outra paróquia, foi o digno defensor da virtude e da castidade. Mas aquela era uma paróquia de ricos, senhor. Padre, o senhor violou justamente as crianças depauperadas de dinheiro e de afeto. Aquelas que mais queriam o seu puro amor.
            Não que haja diferenças morais por se nascer rico ou pobre. Juízos morais não se proferem com base em propriedade ou posse de bens materiais. Porém, éramos os que mais necessitavam da sua proteção, pois nas nossas casas, escolas e outros recintos sociais estávamos sujeitos a sermos violados. E não na casa do nosso Senhor.
            Na sua chácara de final de semana, padre, o senhor passou um pouco dos limites e estraçalhou as minhas carnes. Deixou-me junto ao córrego carregado de esgoto para, simplesmente, morrer, totalmente lambuzado com suas secreções. Não parecia que ia sobreviver, padre. Mas a cúpula da ordem já estava de olho no senhor, acompanhando os seus passos, coletando provas, para que o Sumo Pontífice firmasse sua convicção com certeza.
            Todos os membros da força tarefa da ordem que deveriam lhe capturar se compadeceram diante dos meus restos vivos e começaram me acudir, para me tentar reanimar, enquanto o senhor, padre, fugia como um anjo caído se apavora diante da luz do Sol.
Morri naquele dia por sua obra, padre. Renasci das cinzas junto à ordem, que não poupou esforços para reconstruir cirurgicamente meu corpo. Não deveria voltar a andar, falar, ler, ouvir ou escrever. Por isso, a ordem fez crer, assim como eu, padre, que minha sobrevida foi um milagre.
Fui rebatizado. Lembrei-me do senhor, padre, que me fez o primeiro batismo, a primeira comunhão e a crisma. Precisava, contudo, ver-me redefinido, junto com a fé que o senhor me ensinou, mas que o senhor mesmo traiu. Meu corpo é uma aberração, um misto de músculos, ossos e aparatos mecânicos, sem os quais não poderia sequer respirar. Seu estrago em meu corpo e meu espírito foram devastadores, padre. Isso me queima até hoje.
Porém, o fogo que o senhor ateou no meu espírito, padre, é mais incandescente e doloroso que toda fustigação a que me sujeitou. A remoção cirúrgica das minhas partes estraçalhadas, da minha masculinidade e de outras partes vitais, padre, me arde menos que a decepção que o senhor me causou e aos outros inocentes.
Os anos de recuperação e de fisioterapia, além do treinamento de soldado da fé, padre, em vez de me auxiliarem a recuperar a fé no Senhor, Nosso Deus, me alimentaram o ódio e o desejo de vingança contra a sua pessoa. Deram-me a extrema unção quando me encontraram no córrego de esgoto em que me deixou para morrer, padre. Mas algo brilhou no fundo do meu ser, algo que não me deixou esmorecer, de forma alguma. Aquela extrema unção tornou-se algo que me fez viver, sentir-me com um motivo de perseverar diante de toda aquela adversidade.
Sobrevivi e fui reconstruído pela ordem, padre. Porém, creio que ainda estou morto, tal como o senhor me havia quase deixado. As próteses metálicas, com funções também beligerantes, são tão frias quanto aquilo que um dia foi o coração de um menino cheio de expectativas com o futuro.
            Não vejo esperanças num mundo que mascara esse tipo de atividade insensata e insana, muito menos de fiéis que acobertam os crimes de um sacerdote, que usa da fé e da confiança para atraiçoar aqueles que deveria proteger. Rezar e idolatrar a divindade e se dizer pregador da sua palavra para milhares de pessoas ao longo dos anos, com atividades secretas com algumas delas, selecionadas especialmente para outros fins, assemelha-se a um pastor que sevicia as crias do rebanho, sem que haja possibilidade de reação.
            A decepção é insuportável. Nossa ordem sempre primou pela aplicação correta da palavra divina, sem que houvesse aberrações ou distorções contra os mais fracos, que não têm possibilidade de se defender. De um lado a cruz e, do outro, a espada para fazer valer os desígnios de Deus numa terra infestada pelas intenções e ações malévolas.
            Certamente, a espada pode ser substituída por qualquer outro tipo de armamento, até mesmo por aqueles que são improvisados, mas que são extremamente letais se empregados por profissionais experientes contra qualquer tipo de ser vivo.
            A arte de matar parece contradizer o mandamento cristão de preservar, a qualquer custo, a vida. No entanto, o mundo não é preto e branco, com fronteiras bem definidas. No discurso religioso, isso é possível, entretanto, no mundo real, tudo é pincelado em tons cinzentos, sem que haja distinção nítida entre o que é certo e o que é errado.
            Para combater os que violam o ordenamento social, não bastam somente boas intenções. Há necessidade de emprego de força, ou mesmo passar por cima dos princípios que, outrora, juramos defender. Ficamos encarregados de limpar a terra com nossos atos concretos, enquanto os sacerdotes e os fiéis se encarregam das orações.
            Oficialmente, não existimos. Oficialmente, seremos execrados se formos pegos. E, sem dúvida, abandonados por nossos superiores e por nossos comuns. Apesar de desempenharmos nossas funções com propriedade, o anonimato é essencial para a existência da ordem.
            Não há liberdade de expressão nesse âmbito, muito menos de solidariedade. Aprendemos a matar, um ofício solitário e sensível, com a trilha sonora das orações e dos cânticos sagrados. O assassinato justificado, por assim se dizer, de pessoas que se tornaram indesejáveis perante o mundo, mas que as autoridades religiosas, políticas e econômicas não têm coragem de se livrar delas.
            Somos nós que fazemos o trabalho sujo que mancha de sangue nossas almas para que as dos demais permaneçam imaculadas à espera da salvação prometida nos templos. Os cavaleiros devem ficar ocultos e exclusivos aos desígnios da ordem, tal como androides sem convicção, além de cumprir exemplarmente aquilo que lhes fora designado.
            Nascemos mortos e sabemos de antemão que seremos amaldiçoados por tudo aquilo que fizemos por nossa passagem terrena. Iremos direto para o inferno. Um paradoxo, já que lutamos para fazer valer os mandamentos de Deus, embora, na verdade, utilizemos o ferramental do demônio.
             O senhor, padre, pensa que seu suplício acabou? Bang, bang. Dois tiros de misericórdia bem no meio da sua testa, padre. A misericórdia que nunca teve com os outrora inocentes. No inferno, ao nos encontrarmos novamente, terá mais. Aguarde-me, padre. Ainda estou reencarnado do inferno. E um dia retornarei ao inferno junto ao senhor, no qual serei o inquisidor, o defensor, o magistrado e o executor da sentença. Minha alma já foi perdida por sua obra padre. Deus que, se puder, me perdoe, pois eu não mais consigo perdoar, muito menos amar. Tornei-me o pior dos assassinos, padre, para que o senhor não pudesse mais pecar da maneira como pecou comigo.

            - Bang. É o estampido seco do tiro bem no meio da sua testa. São os últimos sons que ouviu, padre. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Vampiro, de Charles Baudelaire









“Tu que, como uma punhalada,
Em meu coração penetraste,
Tu que, qual furiosa manada
De Demônios, ardente, ousaste,
De meu espírito humilhado,
Fazer teu leito e possessão
– Infame à qual estou atado
Como o galé ao seu grilhão,
Como ao baralho o jogador,
Como à carniça o parasita,
Como à garrafa o bebedor




– Maldita sejas tu, maldita!
Supliquei ao gládio veloz
Que a liberdade me alcançasse,
E ao veneno, pérfido algoz,
Que a covardia me amparasse.
Ai de mim! com mofa e desdém,
Ambos me disseram então:
'Digno não és de que ninguém
Jamais te arranque à escravidão',
Imbecil! – se de teu retiro
Te libertássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!”

"O Vampiro", do livro "Flores do Mal", de Charles Baudelaire.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Remédio de alguém


Desatento de tudo, a atenção é preciosa como um das coisas mais ricas do mundo.
Ei tu? Onde está o meu amor que me roubaste e vendeste para outrem?
Não tens vergonha, moça? Isso não se faz, nem para um padre, nem para um rapaz!
Sentas sempre ao meu lado e aí, vêm a formigar as pernas e os braços, os lábios mordiscam silenciosos um rabisco de um beijo, complementado por um abraço.
Porém, o sujeito ao meu lado diz asneiras que me deixam desconcertado.
Onde já se viu falar tanta baixaria perto da minha donzela?
Que coisa, que infâmia, que falta de senso na cabeça oca desta ariranha!
Não mais permitirei esta ofensa, pois minha dama, ao meu lado, não merece ouvir tanta desconsideração. Mundo moderno, costumes pervertidos!
O que me diriam, então, deste voyeur intrometido?
Sai daqui, seu sacripanta, vai logo, antes que meu amor me espanta!
E tu, que me apoderaste por completo, onde está a tua deixa?
Fazes isto tudo por esporte ou tenho chance de me dar bem, sem nenhuma queixa?
Teu olhar, vago e morno, como as noites de primavera em seu contorno, que pelo simples exalar do orvalho me deixariam de todo extasiado.



Queria apenas que me desses uma resposta, bem certeira, bem criteriosa.
Que tipo de coisa é essa que a gente sente, do interior para o exterior, que faz a gente dar risada por qualquer coisa ou, ainda, sofrer com indiferença?
Este é um tipo de doença da qual não gostaria nunca de ser salvo.
Pois se o meu olhar de peixe morto, meu queixo caído, o tremor repentino do meu corpo confirmam o que vem de dentro, o diagnóstico é simples, puro e fidedigno, não se trata de cólera, malária ou febre morbo. É paixão aguda, com amor crônico, então, está na hora de arranjar o remédio, mais que depressa, já que a vida prega peças.
Os doutores, diplomados com roupa branca e tudo, dizem um monte de coisas, mas sei que para me curar, preciso de coisas simples: um beijo, um abraço e um calor.
Estas três coisas se resumem numa outra ainda mais feliz, o teu amor.
Enquanto estiver longe de ti e da tua chama, ficarei doente, fadado a esmorecer, como um moribundo, cruzando as terras deste e do outro mundo.
Por isso, peço a ti tua presença, mais que tua bênção, para que possamos aplacar juntos esta doença, da qual, se eu for feliz, padeces dos mesmos sintomas.
E quando nos beijarmos a cura virá repentinamente, mas nossa saúde ficará viciada no puro e imaculado que é o nosso amor! Este é o nosso remédio de alguém, que cura, sem enjoar, graças a Deus, amém!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Anúncio classificado


Decidi tornar pública a minha procura, pois há de muito que sua falta me desalenta.
Antes, batia de porta em porta, estorvando o sono e a paciência dos outros:
“Ô, de casa, alguém aí tem uma musa para mim.”
Quase parei na cadeia, com passagem pelo hospício, embora não tenha feito nenhum
Malefício. Mas uma ou outra alma caridosa ainda me atendia: “Como é tal moça que o
Senhor procura.” Minha resposta era curta e absurda: “Não sei. Se soubesse como ela
É, não lhe estaria procurando.”
Cheio de bolha nos pés e com as orelhas vermelhas de tapões e xingamentos, tomei
Uma medida prática. Fui ao jornal e decidi fazer um anúncio classificado:
Procuro uma musa que possa colorir meus sonhos e fique ao meu lado nas noites
Mais frias de verão.
Procuro uma musa que me faça escrever letras de amor, contando a nossa odisséia
De vitória sobre esta corja de burros.
Procuro uma musa alegre, de olhar sincero a quem eu possa amar, como nunca fiz
Antes.
Na porta do jornal, o texto estava decorado na cabeça. Tinha que resumir um
Pouquinho porque o meu bolso não podia com tantas letrinhas de amor.
Então, assim ficou:
Procuro uma musa para sempre e eternamente, que me inspire a todo instante !
Ainda meio ressabiado, virei meia-volta e dei um giro pela praça.
Perguntei a uma moça o que ela achava sobre o que tinha escrito.
“Se você me pagar, posso fazer tudo isso.”
Agradeci, mas recusei. Afinal, amor pago é mal remunerado.
Pedi opinião ao menino sujo e extrovertido. Ele disse:
“O que é musa, moço ? É de comer.”
Dei-lhe umas moedas e fui procurar outra opinião.
Um sujeito com nariz em pé, com bloco de papel na mão e caneta no bolso da camisa,
Que se dizia jornalista, mesmo sem ter capacidade para isso, falou:
“Um texto jornalístico não deve terminar com sinal de exclamação !”
“Eu sei, bocó. Mas isto é um anúncio classificado.”



E continuei a perambular. Para esses tipos, José Saramago é um vinho tinto português,
Muito saboroso, por sinal. Oras bolas; minhas bolas, carambolas !
Parei de coletar palpites. Mesmo porque o “eu acho” dos outros nunca é bom para a
Gente, ainda mais quando proferido por incoerentes.
Passei pela catedral, falando em voz alta:
Procuro uma musa ! Procuro uma musa que me seduza !
O padre celebrava a missa. Empolgado por esse amor oculto, adentrei o recinto e
Gritei como se fosse soltar meus pulmões:
Ei, alguém aí dentro tem uma musa ! Procuro uma musa !
As carolas ficaram brancas de susto e silêncio e o padre liderou o coral: Blasfêmia.
Saí e corri, tropecei e caí. Não estava nem aí.
Mesmo sujo e com os joelhos ralados, entrei no jornal.
Procurei nos bolsos, mas só encontrei os buracos e as merrecas com que pagaria
Aquele anúncio classificado. Tinha perdido o papel de ode à musa.
Pasmado com um nó no coração, segurei os cabelos, como se fosse arrancá-los.
Recuperei a calma e entrei de novo no jornal, fui ao balcão embaixo da placa em que
Estava escrito “Classificados”. Tudo bonito, bem informatizado.
“Queria fazer um anúncio classificado.”
“Qual é a mensagem e qual seção em que vai ficar ?”
“Moça, você tem namorado ?”
“Não, por que o senhor pergunta ?”
“Por nada, moça. Por nada.”
O gordo que estava atrás de mim, na fila, estava impaciente e me deu um ultimato.
Contei que ainda não tinha feito o anúncio classificado.
“Vou pensar e já volto”, falei e voltei para o fim da fila, que estava grande.
Lá pelo meio da fila, surgiu outra idéia, que foi amadurecendo durante o desenrolar
Dos minutos. Com as roupas sujas e o fedor da procura, os meus sucessores da fila
Desistiram do que vieram fazer. Assim, eu era sempre o último da fila.
A moça do balcão percebeu e ficou diferente. Coitada, pensei. Deve estar brava
Comigo. Chegou a minha vez novamente, indaguei-lhe o nome.
“Musa”, respondeu-me. Naquele exato instante, encontrei o pedaço de papel com a
Mensagem. Rasguei-o e joguei-o disfarçadamente.
A musa estava ali e não havia mais motivo para fazer aquele anúncio classificado.
“O que você vai fazer hoje à noite, depois do expediente ?”

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morre José Saramago, o mecânico que virou premio Nobel de Literatura



Faleceu hoje (18 de junho de 2010) o premio Nobel de Literatura José Saramago, na sua residencia, nem Trias, Lanzarote, Espanha. O escritor nasceu em 1922 em Azinhaga, Portugal. Teve infancia pobre e não pôde cursar uma universidade. Formou-se mecânico num curso técnico. E frequentava com avidez a Biblioteca Central Palacios Galveias, em Lisboa.

Foi também jornalista e tradutor, mas os romances foram sua marca registrada. Livros como "Evangelho segundo Jesus Cristo" e "Ensaio sobre a Cegueira", por exemplo, mostram o seu dominio sobre o idioma português, além de um estilo inconfundivel, com parágrafos longos e de imaginação fertil.


Saramago abominava o simplismo que invadiu a vida contemporanea. Uma das suas frases, numa entrevista à Revista Expresso Portugal de 11 de outubro de 2008:


"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma."




Leia mais: www.josesaramago.org

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Conto de Natal


A mesa é farta, com peru, leitoa, maionese, frutas, panetone e outras iguarias inerentes ao feriado cristão. Também há refrigerantes, vodca, uísque e outras bebidas, as mais variadas possíveis. Mas nada disso mata a fome ou a sede. Sentado numa cadeira, num canto escuro, mesmo a presença das pessoas ao meu redor não sacia a solidão. Na penumbra, o pensamento voa, enquanto encho o meu copo com uísque e três pedras de gelo. É um copo daqueles usados para embalar requeijão, com uma estampa que faz apologias ao seriado “Malhação”, aquela coisa ridícula. Não ligo, luxo ou finesse não estão no meu repertório.
Faces serenas, levemente alcoolizadas, esboçam ares de felicidade. Noite feliz, noite de amor. Mas durante aquela noite calorenta e abafada pelos vapores de chuva de verão, nem todos estão felizes. Do interior de sua cela, o detento vê a lua dentre as grades da janela. Pensa nos filhos e na mulher, que estão em algum lugar da periferia abandonada, a dedo, pelo poder público. Afinal, o pessoal de fora só presta atenção no centro, todo enfeitado. Assim, a cidade parece um fruto com boa aparência, disfarçando o miolo podre.
Nas proximidades do pleito eleitoral é boa hora para começar a melhorar as coisas por aquelas bandas, dizem os políticos. Este é o método de reprodução do clientelismo: sacanagem em cima da falta de mobilização dos pobres.
O detento tem consciência de que é um cidadão de segunda classe por não poder pagar um bom advogado. Seu único crime era ser pobre e honesto. O início de sua perdição foi ter dito “não” ao defender seu direito de cidadão de não querer ser extorquido, por tubarões de costas quentes. E o pobre diabo suburbano até hoje apodrece em vida ao lado de 19 outros colegas, numa cela com espaço projetado para seis pessoas. Guarda em si o ódio e a vontade de destruir o sistema que acreditava ser justo. “No dia que sair daqui, vou botar para foder com todo mundo.”
Naquele mesmo momento, novos ricos entediados exibem seus pertences a amigos e parentes menos afortunados. Tudo é motivo de falatório seguido de exibicionismo, desde a bebida importada diretamente da Escócia ao carro importado, novinho em folha. Assim como suas vidas, seus diálogos são vazios, baseados nas aparências e na oportunidade de sentir-se melhor por meio da difamação e desgraça alheia.
Um homem negro, vestido em trapos, com uma garrafa de pinga na mão é avistado na esquina. Os anfitriões e seus convidados sentem seus estômagos, cheios de iguarias e hipocrisia, revirarem. Não suportam ver aquela figura miserável que desponta aos poucos e se arrasta pela frente da mansão. A anfitriã, indignada, desabafa aos berros: “Desgraçado, sem-vergonha! Vá vestir uma roupa decente! A Prefeitura deveria tomar uma providência a respeito disso. Coisas assim só servem para deixar a cidade mais feia!”
Nos bairros de classe média para cima, pais reproduzem em seus filhos a crença ilusória num velhinho bonachão que distribui presentes para todos que se comportaram bem ao longo do ano. As crianças aprendem a não questionar coisa alguma, na esperança de ter a visita do Papai Noel, que lhes deixará algo desejado. Desde pequenos aprendem a ser comprados, sem remorso ou reflexão. É tudo na base da recompensa.
Lá na periferia, o caçula de uma família de oito irmãos sente-se culpado por não ter recebido sequer um mísero presente. “Fui um mau menino este ano. No ano que vem vou ser um menino bom”, pensa na pequenez de seus sete anos. Ainda não sabe que com dinheiro todo mundo é bonzinho.



Não tem Papai Noel no mundo que não é de mentirinha. Uma prova é a praça central, na qual os menores aprendem a ser gente grande do jeito errado. Meninos e meninas esturricam-se de aguardente e tentam esquecer a fome, cheirando cola de sapateiro ou fumando um baseado e pedras de crack. Bem na sua frente está a Catedral. Naquela noite, o sacerdote celebra a missa dando graças a Deus por tudo que ele e os participantes receberam durante o ano. Do lado de fora, nas vielas entre o templo e um prédio, um protótipo de mulher, de 12 anos, seduz um cliente. Experiente nas artimanhas do amor pago, espera que pelo menos no Natal alguém lhe trate com carinho e lhe pague uma refeição quente. “Amém”, encerra o homem sagrado, enquanto ela segura a mão do homem com idade para ser o amigo mais velho do seu pai, com duas vezes o tamanho dela, e caminha na direção daquele pulgueiro, cujo letreiro insiste em ser classificado como hotel. Sei que verei estas cenas com mais freqüência do que imagino.
Mais uma dose de bebida destilada e surge na mente que tudo poderia ser diferente. Apago a prostituta mirim da mente e invoco os resquícios de outra uma fêmea, aquela que um dia considerei a mulher da minha vida. Se ela ao menos tivesse me dado uma oportunidade, poderia ter lhe mostrado que ainda podemos ter esperança e confiança em alguém. Queria uma chance, por menor que fosse, de provar-lhe que era diferente dos demais canalhas que a decepcionaram. Nem tudo ocorre como a gente planeja. Ainda lembro do seu toque em meus lábios e dos seus braços me envolvendo, numa volúpia ardente muito maior que a paixão.
Os cabelos lisos e cheirosos deslizavam pelas minhas mãos como fios de seda fina. Seus olhos de fêmea, com trejeitos de menina, me desarmaram. Bons momentos passei ao seu lado. Contudo, descartou-me como um pedaço de papel higiênico usado. Enfiou sua mão no meu peito e arrancou meu coração. No fundo sabia que ela era igual aos canalhas dos quais reclamava. Nosso desfecho já estava escrito, não era para ser. Ring, ring, tocou o telefone. “Meu namorado voltou ao Brasil. Não podemos mais nos ver”, deu-me a punhalada de misericórdia e sumiu como seu nunca tivéssemos existido, sem se dar conta da sangria provocada pelo seu golpe.
Esta noite era para ser especial. Planejei tudo, nos mínimos detalhes. Tanto esforço para nada, foi tudo em vão. Fui passar o Natal com a família novamente. Pego meu copo com uísque até a boca e me acomodo ainda mais em meu canto escuro. Imagino como seria se a escolha dela fosse contrária. Aos poucos vou liquidando a bebida. Volto e completo meu copo novamente. Quando o relógio anuncia a meia-noite, fogos de artifício despontam no céu. O barulho de rojões e o cheiro de pólvora empestam o ar. Recolho-me ao meu canto em sombras, mas antes trago a garrafa. Repito o ritual. Tomo um gole largo e descanso o copo no meu colo. Fecho os olhos, lentamente, e tento vislumbrar o dia em que todos seremos felizes.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O enigma de 'D'



Naquela rua de terra, o prédio tipo sobrado desponta com luzes neon e um bocado de carros estacionados na frente. Estacionamos ali mesmo, com cuidado para não tapar a saída de outros veículos e à vista o bastante para não sermos vítimas de algum tipo de emboscada. O corredor de entrada está vazio e a pintura é decadente.
– Qual o esquema da casa? – pergunta meu amigo.
– São R$ 15,00 de consumação fora o programa -, responde o leão de chácara que faz as vezes de porteiro.
Pegamos as comandas e entramos no local. Aquilo era uma discoteca. Hoje, um estabelecimento de entretenimento adulto de não tão alta qualidade. Da entrada, se caso se siga reto, há uma porta que dá para as acomodações das moças. Ao virar à direita, entra-se para o salão. Na entrada do salão, se virar à esquerda desponta uma escadaria que leva a um mezzannino com mesas, sofás e quartos. É o setor de swing, presumo, desativado, pois a escada está barrada com uma corrente.
No salão, bem ao meio uma passarela de concreto, com um cano no meio, onde elas desfilam, despem-se e se dependuram para o deleite dos olhares famintos por satisfação. Contíguo ao salão, está o bar. Não há bebidas caras. Em redor da passarela de concreto, há mesinhas e cadeiras com armações de ferro fincadas no chão. As tampas das mesas e das cadeiras são de madeira pintada e repintada de vermelho. Se não tivessem essas tampas, pareceriam “gaiolas”, brinquedos de parques para crianças.
Instintivamente, entramos no salão direto ao bar. Pegamos, cada um, uma lata de cerveja. A consumação dá direito a três. A presença alta, esquia e esbelta se aprochega ao meu lado e esboça uma conversação. De saltos altos, pernas longas e carnudas, camisa amarrada e uma discreta corrente com a letra “D” no pescoço, a loira de olhos azuis e presença espiritual me convida para sentar. Meu amigo fica recostado ao balcão.
Antes, já tinha feito a varredura visual do ambiente. Com certeza, ela é a moça mais atraente da casa. Aceito o convite. Ela me leva pela mão até um conjunto de mesa e cadeiras com tampa de madeira sobre as armações metálicas. Olho com receio para o apetrecho.
– Não tem perigo desse treco cair? - indago ironicamente.
– Se você cair, eu lhe seguro, meu anjo. – responde angelicalmente.
Parece que o timbre e o tom da voz dela são articulados minuciosamente, no intuito de causar encanto e ao mesmo tempo sedução. As aparências nesses lugares, como em outros, são tudo. O que importa é a primeira impressão, o que vem depois não tem mais importância, já queimou o filme.
Nesse joguete de ser e não ser, de ter e não ter, de parecer e não parecer, da vida, a inconstância é constante e tudo nada mais é que pura ilusão. É a ilusão do primeiro encontro que ela tenta simular para me abarcar diretamente para o ninho de negócios. Isso não tem a ver com amor, absolutamente. São transações comerciais, minuciosamente tratadas, com intuito de lucro, de um lado, e prazer, de outro. Não é dinheiro fácil, exige-se profissionalismo nos atos libidinosos e nas conjunções carnais. Cliente não satisfeito queima o filme do estabelecimento, não só da moça. As moças, nesse meio, são descartáveis, aliás, como tudo na vida. Mas aqui parece que se descartam as pessoas com maior facilidade, maior liquidez.
Elas falam de tudo, com naturalidade, com desenvoltura, como se acreditassem realmente em tudo o despejam em nossos ouvidos. Não estou acostumado a ouvir elogios. Quando os elogios me chegam fácil, desconfio profundamente. É a frieza que se enrijeceu implacavelmente na minha existência.
Fazemos os cumprimentos iniciais, em que cada um diz o seu nome. “D” sabe conduzir o ritmo da conversa. Não se aproxima com vulgaridades típicas de outras pessoas do ramo. É bem suave. Pergunta se sou casado, se tenho namorada, ou algo similar.
– Não. – respondo secamente.
– É que você é muito tímido. Costuma sair? – retoma.
– Não. – repito a ladainha.
- Desse jeito, como você pensa que vai se casar ou arranjar uma namorada? – repete incisivamente.
- Olha, realmente, nunca pensei nisso. Acho que nasci para ficar sozinho. E aqui, sinceramente, não é lugar para arranjar esposa ou namorada.
- Ai, como você é grosso!
Percebo a gafe e peço desculpas. Não há necessidade de se humilhar os outros, muito menos prostitutas. Dou uma passada no banheiro. Meu amigo pergunta se vou transar com a “cavala”. Digo que estou sem dinheiro. Ele disse que pagaria por mim, que o programa ficaria na faixa. Desconfio que há algo de muito errado nisso, que ele já conhece demais o esquema daquela casa, tendo como comparsas outras pessoas que já conheço. Mantenho a frieza. Retorno ao banco para conversar com a minha “amiga”.
- Você é bonito – diz “D”.
Perto do nível dos homens que estão no local, devo ser Brad Pitt mesmo. Imagino que ela deve estar acostumada com velhos carecas e gordos, ou pessoas com falta de higiene. Devem aturar muito desaforo. Algumas conhecidas, que faziam programa em tempo de vacas magras, ficavam revoltadas no dia seguinte, tratavam os homens com desprezo, como se tivessem nojo de tudo quanto é coisa que tivesse pinto. O idiota aqui sempre foi bode expiatório dessas moças. Talvez o motivo seja a minha incrível cara de imbecil, de songo, como freqüentemente me fala uma amiga.



- Nossa, acho que você deveria usar óculos, ein. Eu, bonito?
Ela dá uma gargalhada estrondosa, me mostra uma tatuagem no pescoço e me fala mais sobre sua vida particular.
- Fui caixa num hipermercado. Depois de uma semana fui promovida a atendente.
- Você tem boas qualificações, além de muito bonita é inteligente.
- Mas sempre me chamavam atenção porque eu ficava conversando com os clientes e a fila não andava – cutucou-me com uma indireta. Queria me levar para o nicho, daquele moquifo, o mais rápido possível e fazer alguma grana em cima de uma pessoa com cara de nerd, como eu.
- Cobro R$ 150,00. Faço tudo.
- Infelizmente, não vim com dinheiro para isso hoje. Saí para jantar com o meu amigo. E só isso.
- Espera um pouquinho aí, meu amor. Vou ao banheiro.
Termino de beber o restinho de cerveja. Aprecio as belas formas da mulher. Realmente, é a mais bonita da casa. Mas tem algo de muito estranho em tudo isso. Parece uma armação. Linda. Mas ela tem pequenos pneuzinhos ao longo do abdômen - sinal de que é mulher mesmo, só travestis ou mulheres com quilometragem de cirurgia plástica têm formas perfeitas. Nisso, estou fora. Não recomendo, nem aprecio. Mulher tem que ser mulher, no original.
- Meu amor, fui com o seu santo. Fizeram uma armação para você. No quarto tem uma câmera. Você é uma simpatia de pessoa, meio tímido, mas gente boa. Queriam nos filmar fazendo amor para colocar no Youtube, da internet – revela “D”, ao sair do banheiro. – Vou escrever, num pedaço de papel, o meu MSN Messenger e o meu nome completo para você me adicionar no Orkut.
- Obrigado pela sinceridade. Não me esquecerei disso.
- Gostei muito de você, mas eu preciso ir falar com outro cliente. Ou vão dizer que fiquei uma hora inteira com você para não ter resultado algum e não me deixam trabalhar de novo aqui.
- Vai lá, faça a sua parte. Outra hora nos falamos longe deste ambiente infecto e nauseabundo.
“D” se despede de mim com um selinho. A única coisa doce que meus lábios receberam nesses dias, para barrar o amargo da cerveja de quinta categoria que bebi durante a noite. Preciso pensar rapidamente no que fazer para me livrar dessa palhaçada toda. Cansei de ser idiota, a piada da cidade. Não devo, contudo, ser precipitado. Entretanto, o sangue está fervendo. E hoje o pau vai comer. Sabia que seria revistado. Então, a arma ficou na blusa, dentro do carro. Fazer escândalo dentro da boate é besteira. Só tenho que acertar as contas com esses energúmenos sem noção de vergonha na cara.
Estava desconfiando mesmo desse povinho. No trabalho, telefonemas com obscenidades. Prostitutas pagas para me telefonarem e falarem porcarias. Tenho jeito e voz de idiota. Prefiro assim. – Songo – diz uma amiga. Tenho boa-fé. É diferente de ser songo, ou bestão. Dou uma chance para as pessoas, sempre. Mas tenho pé atrás. Não dá para saber o que se passa na cabeça dos outros, principalmente hoje em dia. Eu e meu amigo pagamos a conta. Vamos em direção ao carro.
- Você devia ter comido aquela cavala – diz ele. Sabe que eu bancava tudo.
- Fica para a próxima. Não me senti bem no lugar. Estava muito vazio, parecia que se eu subisse as escadas para comer ela, logo depois que descesse, o povo ia ficar me olhando para aplaudir.
- Impressão sua, deixa de ser encanado – completa, assim que arranca com o carro. – O negócio lá era só fazer sexo e boas.
- Bom, você que pensa.
Minha arma está carregada. Vamos nos encontrar com uma galera. O local combinado é um bar de rock, com temática de motoqueiros. Chegamos ao local com uma faixa com os dizeres: “Finalmente, perdeu o cabaço.” E ainda por cima tinha o meu nome. Estouro de champanhe e muita gritaria. Espero estacionar o carro, para entrar no bar abraçado com o meu amigo, que está com um sorriso de orelha a orelha. Entro no clima. Dou uma de idiota, para variar. Ninguém me revistou, nem nada. A festividade é me fazer de imbecil, a piada local. Cambada de gentinha, lixo humano. Ainda abraçado com meu amigo, retiro a pistola e a posiciono contra a sua têmpora. Um só disparo e pedaços de crânio e massa encefálica se espalham pelo local, em cima dos convidados, inclusive.
Gritaria e correria recheadas de pânico dão colorido especial ao final de madrugada. Descarrego o pente de balas, recarrego a pistola e volto a atirar. O sangue está fervendo e não quero saber se alguém é inocente, ou não. Para mim, todos os presentes nessa porcaria são culpados, sem exceção. Melhor sair logo dessa bagunça, antes que me trancafiem na cadeia e joguem a chave fora. Não quero publicidade. Esse meu trabalho noturno é discreto. Ninguém precisa saber. Nem “D”, aliás. Vou para casa, tiro completamente as roupas. Enfio no saco de lixo. Amanhã penso num lugar para incinerá-las. Ligo o computador e crio uma identidade falsa no Orkut. Deixo um recado para “D”: - Quero lhe encontrar oportunamente, de maneira discreta. Está resolvido aquele probleminha. Ninguém mais vai espiar a gente.
Cabaço é o caralho. Mas melhor que pensem assim. Ninguém iria investigar um Zé Mané como eu pelas minhas atividades de matador.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O presente


Lembro-me quando comprei-te aquele presente. “É para alguém especial”, disse na Ocasião, com um brilho estranho na menina dos olhos.
Aquilo era teu, sabia desde o momento que entrei na loja.
Então, pedi que fosse embrulhado com carinho, como se meu coração estivesse lá, Bem juntinho. Foi a última vez que vi a face do presente, acorrentado a meus mais Nobres sentimentos. Tu eras o motivo da procura, nem me importava com o cansaço. Era forte e invencível.
Pensava em ti quando via o papel daquele singular pacote e na alegria que terias, ao Recebê-lo. E se foram duas semanas. O esconderijo do pequenino ser era meu guarda-Roupas. Ficava guardado, bem no fundinho, com vergonha de mostrar-se a outras Pessoas. Naquela época, via tudo com outros olhos, descansando um pouco minha Raiva do mundo. O presente tinha vida, com aquelas flores estampadas no papel do Embrulho. Chegavam a iluminar a solidão que reinava no fundo do armário.
Faltava apenas um dia para entregá-lo aos teus domínios. E me apunhalaste: “Não te Quero alimentar falsas esperanças. Sinto que estou te enganando.”
Supliquei por uma chance e me respondeste com uma simples negativa.



Desconfiava que algo não ia bem desde o primeiro dia, do nosso primeiro beijo.
Era muito bom para ser verdade e tudo não passou de um sonho, um truque de magia.
Não sei o motivo, mas ainda insisto em guardar meus nobres sentimentos naquele Embrulho. Pensei que tinha te esquecido. Mero engano. Toda vez que me vem a tua
Lembrança, bate forte aquele nostálgico momento. E ressurge aquela frase: “Embrulha, que é para presente.”
Ao mesmo tempo, tenho a certeza de que nossos caminhos nunca mais se cruzarão do Jeito que planejei. Meu maior medo realizou-se: tens saído com um de meus melhores Amigos. Não os culpo, que sejam muito felizes. Mas isso mata-me, como nunca antes.
Tenho verdadeira fobia de vê-los, de mãos dadas, na minha frente. Ficai-vos juntos, Mas não me comunicai, por favor ! Acho que podes atender o apelo deste ser Amaldiçoado ! Sei que nunca serás minha, embora não mais me desespere.
Mesmo depois de tempos, continua guardado, lá no fundinho do meu
Guarda-roupas, aquele embrulho que contém teu presente agrilhoado ao meu coração.
Sou um auto-penitente, pois ainda não criei coragem de abri-lo, rasgando seus papéis,
Pois ainda sou tolo de acreditar que poderei entregar-te o pacote, no dia que
Retornares. O papel já está amarelo. Sei que a espera é inútil, mas continuarei Esperando-te, com teu presente !

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A fábrica de mortadelas


- Sai da frente moleque desgraçado, que está atrapalhando o caminho!
- Calma aí, tio.
- Não sou seu tio, filho da puta, e vê se some rapidinho.
Juliano nem escutou direito as últimas palavras. Os dedos gordos do homem juntaram-se numa concavidade e ergueram-se numa trajetória lateral até a orelha esquerda do menino. - Plac. - foi o estampido do zumbido que ficou latejando por um bom tempo no tímpano dele. - Esse foi de graça, da próxima vez, sai mais caro.
Saiu rapidinho, por uma das vielas da Catedral, saindo da Praça Central para Rua Padre Luiz. De lá, ia dar uma passada na Concha Acústica. Já era noite e o calor insuportável de fim de dezembro engordurava sua pele morena e esquálida pela ação dos helmintos. O Centro estava vazio. As buzinas e os passos das pessoas pelas calçadas permaneceram mudos como um reflexo da ressaca do Natal. Juliano era miúdo. Apesar dos 14 anos, aparentava 11. Seus passos desanimados compensavam-se com o sonho de um dia ter uma vida normal. Nas costas, encobertas por uma camiseta de algodão bem justa e agarrada às formas do tórax, estava a cicatriz da navalhada, uma espécie de demonstração de afeto de sua primeira noite como prostituto mirim. Para disfarçar, tatuou um navio em cima do talho, em cima do pulmão direito. Seus olhos eram amarrados e distantes, como se quisessem partir desta dimensão para outra realidade mais acolhedora.

Ocorrência: 15 de novembro de 1998. Juliano Alves Pereira, data de nascimento: 7 de setembro de 1984. Idade: 9 anos. Escolaridade: 3ª série do 1º grau. Local de nascimento: Maringá, Paraná. Mãe: Matilde Alves Pereira. Pai: desconhecido. Estado civil da mãe: amasiada.

Juliano um pentelho vivo e inteligente fazia vida fácil na escola. Aprendia rápido um pouco de tudo e tirava boas notas. Não repetiu de ano nenhuma vez e por causa disso seus colegas eram mais velhos, maiores e mais fortes. Mas o bichinho sabia impor respeito. No pátio era o rei da conversa, um pouco assanhado e inocente, dizia: - Conhece a Sandrinha ? Ela é minha namorada, mas não fale nada porque ela não sabe ainda.
Naquele fim de tarde, saiu correndo da escola com o boletim na mão. Passou em tudo, com o calor úmido de fim de ano escorrendo em suor pela sua garganta. A mãe terminava de limpar o toalete, numa mansão do Jardim Santa Rosália. Toalete, explicou-lhe em certa ocasião, é o nome que os ricos dão ao banheiro. Assim como a privada recebe o nome quase científico de vaso sanitário. Tinha um tal de bidê, que Matilde nem sabia para que servia.
Trotando pelas ruas, coberto da terra vermelha que assola a região, Juliano tinha o documento nas mãos como se fosse um cavaleiro numa cruzada à Terra Santa. “Mãe, passei de ano ! Fui o primeiro da classe !” Em atrito com o asfalto de quinta categoria, seus tênis - imitação de um Nike de linha - produziam aquele ruído característico de quem arrasta os pés pelo chão. Avistou o casebre de dois cômodos, abriu a porta da cozinha-sala. Não encontrou Matilde. Porém, não desanimou. Mostrou, aos gritos, seus feitos ao padrasto, Zezo, que pendia cambaleante na poltrona semi-rasgada comprada num brechó no centro. A garrafa de aguardente já estava quebrada no canto do cômodo principal.
A euforia durou pouco. Juliano pensou por um décimo de segundo que seu padrasto ia ser bom para ele pelo menos naquela ocasião.
- Pensa que é mais esperto que eu, né ? Você ainda tem muito o que aprender... Muito mesmo. Essa porcaria de papel que você trouxe não quer dizer nada comparado ao que eu aprendi na vida. Entendeu ? Será que não aprende nunca, porra de moleque !
- Desculpa, não tive a intenção. - respondia Juliano num fiapo de voz.
- Cale a boca que agora não tem mais tempo de nada ! Vem cá, mulherzinha, que vou te ensinar a empinar pipa.
- Por favor, eu não sou mulherzinha. Sou homem. E homem não faz esses tipos de coisas que o senhor me obriga a fazer.
- Enquanto estiver morando aqui vai ser mulherzinha, porque eu mando, entendeu ?
- Agora, empine a pipa, viadinho !
- Não !
- Filho da puta, faça o que mando ! - gritava Zezo, já com a calça arriada e um ensaio de ereção, com os punhos cerrados sobre a vítima, entrelaçando os dedos das mãos na parte posterior da cabeça do menino, forçando-o a acomodar em sua boca seu falo fedido e ensebado dos não- adeptos do banho.
Juliano engasgava com o órgão em sua boca. Tentava gritar mas não conseguia.
- Desse jeito... Bem devagarzinho, do jeito que eu gosto. Isso, vai... Mexe com a língua bem naquele lugarzinho... Dá uma mordidinha...
As lágrimas corriam pelo rosto do menino e salgavam os pêlos do testículo do padastro, que ficava mais excitado.
- Agora bebe tudo, não deixe escapar nenhuma gotinha.
O menino obedecia. Já conhecia a seqüência de cor. Terminada a primeira fase, foi à geladeira e tirou o pacote de margarina. Esfregava nas bordas do ânus de Juliano, que ficava de quatro. O padastro vinha e o cobria, encostando a faca de cortar pão em seu pescoço. Ele não sabia o que era mais ameaçador, a ameaça de sua vida ou a brutalidade com que seu reto era violado.
- Agora eu te parto no meio ! - gritava o bêbado, que acelerava os movimentos copulatórios, num ímpeto animalesco.
Com os punhos serrados, Juliano ainda tinha o boletim, naquele momento todo amassado, entre os seus dedos. Aquela foi uma lição que não se aprende na escola. Com o corpo dolorido e um gosto terrível na boca, ele sentiu seu orgulho se partir. Matilde tinha o costume de chegar quase de noite. Banha-se, troca de roupa e vai ao culto. O garoto não tinha sequer coragem de mostrar o boletim. Aliás, nem tinha mais sentido. Sua mãe sabia de tudo, desde o começo, mas não fazia coisa alguma para defendê-lo. Então, naquela noite, enquanto o padrasto vislumbrava um sono etílico e sua mãe entoava os cânticos sagrados, Juliano preparou suas coisas e botou em duas sacolinhas plásticas de hipermercado. Não eram muitos pertences: um par de tênis, escova de dentes, três camisas, uma cueca e uma calça jeans. Do uniforme da escola, não ia mais precisar, assim como seus livros e cadernos.
Deixou um bilhete na cozinha, ao lado do pote de margarina, utilizado para fins profanos durante a tarde, para a mãe. Apenas dizia: “Vou embora, aqui não é meu lugar. A senhora é a mulher do Zezo e não eu. Cansei de ser mulherzinha. Eu sou homem.”


O índice de violência envolvendo menores já somava 70% das ocorrências policiais, motivo de sobrecarga às entidades estatais de cuidados à infância e juventude locais. Fruto de um sistema mal-planejado, as duas celas que serviam para acondicionar menores até o internamento numa instituição do governo estavam abarrotadas. No espaço projetado para quatro garotos, moravam 20. Todos misturados, sem levar em conta as diferenças de sexo.
O conceito de reeducação consistia na tortura do ócio, em que os prisioneiros juvenis matutavam a melhor maneira de passar o tempo e se divertir. Juliano sabe que não pode confiar nos seus companheiros. Aqui é cada um por si.
Depois de fumar crack naquela noite, na Concha Acústica, ele e mais dois amigos ficaram ligadões. Esperaram o horário de saída de uma escola particular ali perto, só de tocaia, para arranjarem um trouxa. Deram sorte, já era tarde e quase todo mundo tinha ido embora. Só ficou a loirinha, no estilo barbie girl, na frente do colégio, esperando o pai, obviamente atrasado.
Ela passava a escova nos cabelos e faz cara de tédio. Os três cercaram a garota e a tomaram de assalto. Pálida e assustada, não conseguia sequer gritar por socorro. Um deles pegou a bolsa dela e o outro passou a mão pelos seios. Mijou-se toda. Juliano, até então expectador, arrancou-lhe os sapatos brilhantes.
Os três postaram-se a correr. A viatura de Patrulhamento Tático Móvel (PTM) estava bem perto dali. Os policiais foram atrás. Sob efeito da droga, os moleques não tinham forças, nem coordenação, para correrem. Dançaram legal, com direito a umas bordoadas. Dos outros dois, em seguida aquela noite, Juliano nunca mais ouviu falar. Ele foi sozinho para a delegacia, é tudo o que lembra.
A vítima, já no plantão policial com o pai, reconheceu Juliano. E esboçou sua indignação de ter sido humilhada por pivetes tão magros e fedidos.
- Tem que matar gente desse tipo! – berrava na sala de espera. “Filho da puta, desgraçado, me fez andar descalça naquela rua imunda, igual a você.” – e perdeu a compostura angelical.
Lavrada a ocorrência, Juliano deu outro passeio de camburão e foi parar numa das duas celas especiais para menores infratores, em Votorantim. Na primeira noite, só quis dormir. Dormiu mesmo, atordoado pelas pancadas e pelo choque emocional de ser mais uma vez depreciado como um cachorro sem dono.
Dez pessoas no cubículo. Cheiro de peido, de mijo, de merda, de porra e de cigarro. É só ter uma graninha que eles dão um jeito de conseguir as coisas. É assim que roda o mundo, impulsionado a dinheiro ou favores. Ainda se sentindo anestesiado, Juliano notou seus companheiros. O maior já queria lhe tomar satisfações. Ele nem ligou mais. Nem dava mais bola para mais nada. Estar vivo já era uma recompensa, e ele nem sabia mais porque ainda vivia. Devia ser sorte, um plano divino ou uma piada de muito mau-gosto.
A comida, em marmitex, era uma porcaria, parecia já vir podre. De vez em quando, vinham umas fatias de mortadela, com um gosto especial, que ele nunca tinha provado antes. Ele gostou e esperava sempre por mais. Como uma sardinha, no seu cubículo, Juliano tinha vontade de comer mais uma vez aquela mortadela.
A mortadela Les enfants, apesar do nome francês, era fabricada em Sorocaba mesmo. Administrada por técnicas de gestão empresarial muito modernas, funcionava somente à noite, pois assim resolveriam outros assuntos durante o dia. A embalagem tinha a cara de um garoto moreno, de sorriso banguela e rosto magro. Sem estratégias chocantes de marketing, tomou o mercado local.
O município concedeu terreno, isenção fiscal por dez anos e ainda ajudou a empresa a obter o financiamento. Em troca, foram anunciadas 150 vagas de emprego. Na verdade, devido à automatização da produção e a necessidade de mão-de-obra especializada, empregava no máximo 40 pessoas da cidade. Recompensa chinfrim para tamanha badalação. A propaganda é a alma do negócio. E isso os políticos sabem fazer muito bem.
Les enfants. Juliano viu uma vez o rótulo da mortadela e desejou ser como o menino estampado nele: sempre alegre, sem preocupações com coisa alguma. Juliano ganhou um pacote da mortadela quando sua mãe veio visitá-lo. Guardou a embalagem. Bonito aquilo. Quando se entediava do nada, ficava olhando aquilo.
Mastigando um naco da mortadela, Juliano percebeu algo entre os dentes. Tirou da boca e viu algo que julgou ser uma unha. De gente mesmo, não de rato ou outros bichos. Limpou os resquícios de saliva e olhou melhor. Era de gente mesmo, de uma criança, pensou. Já tinha comido coisa muito pior. Continuou sua refeição.
Num gesto de extrema boa vontade, os menores custodiados na cadeia à espera de internação na Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem) foram convidados para visitar a Fábrica de Mortadela Les Enfants. Curiosamente, receberam autorização das autoridades para fazê-lo. Juliano ficou eufórico. Adorava aquele petisco e queria saber tudo sobre aquela marca. Quem sabe ganharia um pacote da mortadela? Pois, sim, claro que ia. Afinal, tinha sido bem comportado por toda sua estadia na cela, junto com os outros dez menores infratores.



Sob o olhar vigilante de dois policiais armados com escopetas, protegidos com coletes à prova de balas, os garotos entraram num veículo besta para o passeio. Nem todos animados, nem todos contentes, mas felizes de alguma forma por estarem saindo da rotina do cubículo. A atmosfera chuvosa e as ameaças de chuva, deixavam o ar úmido e quente, muito mais abafado ainda, dentro da besta.
Juliano nem prestava atenção nisso. Só queria saber das mortadelas. Em 30 minutos de trajeto, chegaram ao local. Situava-se no terreno da antiga Chácara Sônia Maria. A fábrica em si postava-se bem no centro do terreno, preservando as árvores – frutíferas, em sua maioria – ao redor, gerando um clima de curiosidade e suspense acerca do que se processava além daquela muralha verde.
Ultrapassados os requisitos de segurança, adentraram os portões e penetrando numa sala de azulejos brancos, do chão ao teto. Um gás penetrou na sala, para fins de esterilização de microrganismos. No compartimento seguinte, cheio de armários, tiraram suas roupas para tomarem um banho. Vestiram macacões brancos e entraram no setor de produção.
Não viam a matéria-prima chegar. Viam somente a carne, já moída e triturada, sendo temperada e preparada para ser embutida. Uma parte dela era temperada e imediatamente enlatada, antes de cozer, como parte de um método para evitar contaminação.
O cheiro, foi isso que prendeu a atenção de Juliano. Só isso. Para ele, aquilo era o máximo. Comida à vontade, para forrar seu bucho esquálido e vazio. O guia, acompanhado dos policiais armados, mostrava tudo aos garotos, com detalhes, chamando atenção para os procedimentos de qualidade total, que previam a segurança dos procedimentos de produção, a higienização do local e a qualidade do produto.
De todos, Juliano era o mais atento de todos. Uma hora mais tarde, depois de visitarem os escritórios da administração, sentaram-se às mesas do refeitório. Como não podia deixar de ser, receberam sanduíches de mortadela, não da comum, mas do tipo for export, como uma pequena cortesia da companhia.
Já numa saleta, parecida como uma classe de aula, um homem parecido com um psicólogo distribuiu papel e caneta para os menores. Um tipo de teste. Muitos nem sabiam ler direito. Juliano, porém, sabia. Era esperto e sabichão, nestes termos. As perguntas falavam basicamente sobre os sentimentos deles, suas perspectivas de futuro e desejos.
Eles não sabiam definir nem o dia de amanhã. Juliano foi o único que ficou na saleta até o final. O resto foi direcionado para uma outra sala, idêntica a da entrada. Receberam outro sanduíche de mortadela e um copo de refrigerante. “Não tenha pressa. Responda tudo”, disse o homem para Juliano.
O garoto obedeceu. Já estava ali mesmo e não custava nada ficar mais um pouco. Entregou o papel com o teste e foi para uma sala. Sozinho. Seus companheiros não estavam lá. Teve receio e desconfiança, tinham sacaneado ele, é o que sentia. Em posição fetal, colado num dos cantos da sala, viu o homem aproximar-se com um sorriso.
Pegou-o pela mão e o levou escadas acima, para conversar com o diretor de recursos humanos (RH). Um homem de terno azul-marinho, todo arrumado e gestos enérgicos, olhou Juliano de cabo a rabo.
- Sente-se. – ordenou o diretor.
- Estamos procurando jovens com alto potencial para se juntarem a nossa empresa. – explicou. Nossos métodos de recrutamento não são convencionais, porque nossos negócios não são convencionais.
Juliano assentiu com a cabeça e firmou a atenção.
- Você, meu rapaz, tem o desejo de sair daquela cela em que vive como um animal?
- Sim.
- Seria capaz de cortar todos os relacionamentos anteriores com seus amigos, pais, clientes?
- Essa é a parte mais fácil.
- Gostei da disposição. Quer um emprego?
- Com certeza. Tudo para sair daquele inferno.
- Uma vez aceita a tarefa, você não pode mais sair, porque só de pensar nisso, nós lhe matamos.
Diante da afirmação de morte, Juliano engoliu um seco e revirou os olhos. Que coisa é essa? E eu estou aguardando sentença judicial. Não posso nem arrumar trabalho. O que é isso, meu Deus? Esse cara é doido? Um minuto de silêncio e Juliano aceitou o novo emprego.
- Mas agora eu tenho que voltar para a cadeia.
- Não precisa mais.- comentou o diretor. – A partir de agora, Estado requisita os seus trabalhos com exclusividade para esta fábrica. Todo o seu passado foi perdoado, desde que continue conosco para até quando julgarmos necessário.
Juliano foi encaminhado para uma área no subsolo da fábrica. Lá, conheceu outros garotos como ele. Finalmente, tinha um quarto só para ele.
- As aulas começam às 7 horas.- advertiu um instrutor.
Ele se deitou na cama e fechou os olhos. Inspirou o ar com força e sentiu o frescor do ambiente. Relaxou e dormiu. Sonhou que estava esquartejando seu padrasto. Ao som de uma sirene, levantou-se feliz. Foi ao banheiro, no próprio quarto, tomou banho e escovou os dentes. Vestiu um uniforme de foi para o pátio central.
Uma forte luminária simulava os efeitos da luz solar. Era a ginástica matinal. Corrida. Polichinelo. Flexões de braço. Abdominais. Juliano quase não conseguia acompanhar. Alongamento. Suas pernas pareciam que iam se separar do seu corpo.
Uma hora de exercícios. Suado, com direito a um copo de água, para não acostumar à moleza, Juliano tentou puxar conversa com um companheiro. Foi surpreendido. Era proibido. Ficou quieto.
Depois de outro banho, foi para o café da manhã. Mortadela Les Enfants, salada, pão, queijo, salame, frutas, suco, manteiga, geléia e bolo. Delícia, muito bom, empanturrou-se Juliano, com cuidado para não parecer um morto de fome.
E assim se foram os dias. Juliano ganhou corpo e exercitou o cérebro. Estudava muito porque os professores eram exigentes. De nada mais parecia com aquele farrapinho que entrou na fábrica, seis meses atrás. Aprendia oratória e tudo o que fosse conveniente para convencer uma pessoa.
Tinha até aula de etiqueta com um cara meio esquisito, com sotaque estrangeiro. O garoto se sentia mais poderoso e dono de si mesmo. Sua auto-estima elevou-se e o seu objetivo ficou mais definido: vencer na vida, a qualquer custo.
Após um ano de treinamento básico, começou a aprender combate corporal e manejo de armas brancas. Vestido com uma farda semelhante a dos fuzileiros navais, encarava as manobras e exercícios simulados no subsolo da fábrica de mortadela.
Um instrutor oriental ensinava a técnica de matar em silêncio, sem deixar vestígios do delito. Juliano já era silencioso por natureza, aperfeiçoou seu dom de nascimento. Dos 20 cadetes, desde o início do programa, sobraram apenas cinco. Ele era o melhor deles, sem sombra de dúvida.
Não havia espaço para se enturmar ou fazer amizades. As atividades eram demasiadamente rigorosas e exigiam estudos e treinos exaustivos, que inibiam qualquer tentativa de se quebrar esta regra. Não questionava, apenas obedecia e fazia o que pediam. Juliano aprendeu a dar valor a si mesmo e ganhou uma auto-estima, que há de muito carecia.
- Sou um homem.- murmurava Juliano ao receber as pancadas, numa sessão de calejamento, no treinamento de artes marciais. E recebia pelo corpo as carícias de um pedaço roliço de madeira. Técnica chinesa, palma de ferro, controle da dor. Nem uma faca atravessava sua pele. Concentração, suor, comunhão com o todo. Sem dor, sem desespero, apenas a tarefa a ser cumprida.
Com uma facilidade surpreendente, Juliano aprendia línguas estrangeiras, hardware e software. Computadores eram sua predileção. Montava e desmontava uma máquina como se fosse um brinquedo. Sempre no subsolo, oculto do mundo exterior, Juliano tornou-se um homem. Já com 18 anos e patente de primeiro tenente, estava em fase de conclusão de treinamento.
Aos 16 anos, teve um microchip implantado em seu cérebro, para monitorar toda sua ação motora. Era um equipamento de comunicação ambulante, uma unidade portátil de transmissão de dados. O que via e ouvia era transmitido via satélite para a base. Tecnologia sofisticada, feita por gente graúda e importada por figurões.
O rapaz era uma máquina obediente. No último teste de aptidões intelectuais, após ser aprovado com louvor, Juliano foi promovido a capitão. Com 19 anos nas costas, foi chamado ao comando-geral, ainda no subsolo, para conversar com o diretor de RH, na verdade, o general responsável pela operação secreta.
Ele bateu continência e assim permaneceu até receber instruções.
- Descansar, capitão. – disse o general. – Você já sabe que esta operação, apesar de ter demorado quase cinco anos para se iniciar, ainda está na sua gênese. Temos orgulho, porém, do principal fruto dele, que é você, e esperamos que não nos desaponte na execução do plano.
- Pode ficar tranqüilo, general. Prefiro a minha morte ao fracasso ou desapontar a qualquer um dos meus comandantes e instrutores.
- É bom ouvir isso, capitão. Não temos mais controle sobre a selvageria que pode tomar conta do Estado e destruir a ordem como a conhecemos. Cabe a nós, defensores desta grandiosa Nação, defendermos tudo o que vemos hoje. Existem maçãs podres e nem todas podem ser recuperadas como você foi, capitão. Ao menor contato, elas contaminam o restante e a praga se disseminou por completo, sem termos a menor chance de reação. Devemos destruir quem nos corrói. Aqueles que não são agraciados pelo Estado não o são por sua própria impotência perante a sociedade. Por isso, devemos limpar a sociedade daqueles que a ameaçam. A Constituição nos proíbe de castrarmos aqueles que se reproduzem como coelhos assanhados. Somos assolados por uma multidão de crianças bastardas, que tomam conta dos hospitais e demais órgãos públicos, deixando um déficit incomensurável para o Estado.
- Sim, senhor.
- Então, capitão, esta fábrica de mortadelas é o instituto modelo para iniciarmos a limpeza deste País. Sabemos que existe o tabu sobre a ingestão de carne humana. Mas devemos fazer coisas para o bem geral do Estado, mesmo que signifique ir contra alguns costumes ultrapassados e a legislação torpe que ata as nossas mãos. A carne humana, como já provaram nossos cientistas, é altamente nutritiva. E nós temos excesso de gente e uma multidão de famintos. Para acabar com esse problema, o serviço de inteligência me deixou a cargo desta tarefa. Desenvolvemos uma fábrica que processa a carne de párias da sociedade para alimentarmos o nosso futuro. Esses pivetes sem futuro e os desajustados sociais são matéria-prima para nossas máquinas. Daqui, saem melhor do que entraram, pois vão estar fazendo realmente uma função social. As ruas desta cidade já estão vazias, por isso, concentramos nosso foco de ação nas cidades da região. Controlando a situação regional, podemos dar prosseguimento ao nosso projeto, trazendo matéria-prima da capital.
- Exatamente como diz, general. – respondeu. E bateu continência.
- Dispensado!




Juliano preparou-se para o primeiro contato com o mundo exterior depois de cinco anos no subsolo da fábrica. Estava ansioso, mas aprendeu a dissimular na manha. Agora era um mameluco, no jargão da operação, aquele que era capaz de fustigar um dos seus. A palavra tinha origem no Islã, quando da sua expansão, os muçulmanos realizavam capturas e convertiam os prisioneiros aos seus paradigmas sócio-culturais, para prosseguirem com a dominação sobre os povos conquistados e empreender novas guerras.
Sabia que de todos os seus colegas, que entraram na fábrica naquele dia, era o único sobrevivente. Os demais viraram matéria-prima. O contato com o Sol fez seus olhos tremerem um pouco, mas se acostumou e deu uma volta ao redor da fábrica. Algumas coisas tinham mudado. Parecia tudo mais limpo. Andou até o Centro, tudo mais limpo também. Sem indigentes, prostitutas ou menores abandonados nas praças e calçadas.
Entrou numa concessionária e comprou um carro, Honda, último modelo importado. Tinha dinheiro para isso. Pagou à vista. Acelerou e procurou um flat. Achou um de três cômodos. Perfeito. Mais dois dias, e o imóvel foi mobiliado. Tudo simples, mas funcional, para atender as expectativas do seu trabalho.
Em silêncio, viajava freqüentemente para realizar “serviços de limpeza”. Comandava um esquadrão que atraía menores das ruas de São Paulo para dentro de uma van. Às vezes, faziam-se de pervertidos para que fossem convidados para festinhas ornamentadas a sexo, realizadas pelos barões locais. Por vezes, fingiam-se bons samaritanos, de entidades filantrópicas, e captavam indigentes e demais abandonados.
Devido ao treinamento recebido, o trabalho era simples e quase não havia imprevistos. Juliano cumpria suas ordens automaticamente. Sedava a matéria-prima para que a carne se mantivesse ainda fresca e macia, até o momento do abate. Para sedá-los era fácil. Uma garrafa de uísque com drogas. Efeito rápido o bastante para a viagem completa.
Já na fábrica, a matéria-prima era despida e lavada com um detergente especial que, de tão forte, deixava as peles vermelhas e descoloriam o cabelo. Era enxaguada, em água destilada, e levada em esteiras para a realização de exames. Verificavam o tipo de sangue e o estado geral dos órgãos internos, exigências das entidades que encaminhavam este material para o sistema público de saúde.
Com tudo checado, passava pelas mesas cirúrgicas. Retirados os órgãos e drenado o sangue, partia – numa esteira novamente – para ser temperada, moída e compactada em forma de mortadela. Antes, é claro, havia o cuidado de se retirar as unhas e todos os vestígios de pêlos dos corpos. Nada mais desagradável para um consumidor que ver um pedaço de unha ou um pêlo naquilo que está comendo.
A quantidade de propagandas institucionais do governo aumentou consideravelmente nos meios de comunicação, depois houve a superação no déficit de órgãos para transplante, a queda no nível de desnutrição e o saneamento social das ruas. A sociedade parecia mais feliz com o que via. Os partidos de oposição, curiosamente, não tinham mais tanta força quanto anteriormente.
A mortadela, produto comum na mesa dos brasileiros, tinha – como ingrediente no tempero – uma substância narcotizante, que catalisava as atenções para as mensagens subliminares do governo. Por isso, tudo foi ficando mais homogêneo, das decisões do congresso às divergências entre os partidos políticos.
Juliano fazia parte do plano nacional de imbecilização das pessoas. Era apenas uma agente, mas estava no alicerce de todo o movimento. Um dia, ele vistoriou seu passado e veio a lembrança daquelas vezes em que era violentado pelo padrasto. Suas noites eram pesadelos e seus nervos, aturdidos, estavam no meio fio entre o ódio e o desejo de destruir.
Não era mais o garoto franzino e desprotegido de outrora. Foi moldado para uma finalidade do Estado e era um exemplo vivo da excelência do treinamento ao qual fora submetido. Sem família, sem remorso, o agente perfeito para a execução das tarefas mais ocultas na manutenção do poder.
Numa madrugada, o pesadelo veio com violência e Juliano teve que fazer algo para compensar sua dor. Levantou-se e vestiu sua indumentária de missão. Reconstruiu mentalmente o trajeto da casa onde vivera sua infância maltrapilha e para lá partiu, com um objetivo definido.
Luzes de vela e o cheiro de cachaça atravessavam as janelas do casebre. Ele estava lá sozinho, a mãe já saiu para trabalhar. O inútil, porco e imprestável. De um só assalto, Juliano invadiu o local, imobilizou o padrasto e sedou-o com um pano embebido em clorofórmio.
Jogou seu corpo no porta-malas do carro. Essa limpeza era pessoal, de caráter obrigatório. Foi até a fábrica. Num quarto semelhante a uma sala cirúrgica, Juliano adentrou com seu padrasto. Amarrou-o na mesa e tirou-lhe a mordaça.
O capitão não queria ouvir palavra alguma. Mandou-o calar-se. Com um bisturi cortou-lhe as roupas e deixou-o nu. Zezo, ainda entorpecido, tentava gritar. Juliano, enfurecido, cortou-lhe a língua com um bisturi e deu-lhe pontos para que não se afogasse com o próprio sangue.
Juliano dizia calmamente tudo o que sentia e tudo o que passou para o paspalho estendido na mesa. Contou-lhe em minúcias o processo produção das mortadelas e que ele era matéria-prima em potencial: um pária, sem função alguma, serviria de alimento para as pessoas de bem.
Zezo contorcia-se na mesa, inutilmente. Juliano levou-o para a lavagem, sem anestesiá-lo. Ainda vivo, o padrasto passou pelo banho químico e pelos exames. Novamente numa mesa cirúrgica, via seus órgãos serem retirados, seus músculos do pescoço se contorciam num grito que morria ao chegar à boca. Todos seus órgãos, exceto o coração, estavam corroídos pelo álcool. Com lágrimas nos olhos, o capitão murmurou: "Tudo o que eu queria era que você fosse um pai."
Os cirurgiões retiraram-lhe o coração e Zezo desfaleceu de vez. Com os olhos esbugalhados, semi-abertos, seguiu para ser triturado, temperado, compactado e enlatado. Lote 389.670. Este lote, porém, não saiu para a mesa do consumidor. O departamento de entregas e circulação teve ordens diretas para despejar a mercadoria no apartamento do capitão Juliano.
Após uma longa jornada de trabalho, Juliano sentou-se ao sofá e abriu um pacote de mortadela. Com uma faca, retirou um naco grosso e colocou-o num pão, recheando-o com maionese. Com um brilho nas pupilas, pegou uma lata de refrigerante e ligou no canal de sexo explícito.
Ao som das sacanagens e imagens de bacanal, desferiu a primeira mordida no sanduíche. Sua vingança contra todos, pelo menos no plano individual, estava completa. Saboreou com vontade o sanduíche e preparou mais outro, com a mesma manteiga que Zezo usava para seviciá-lo. Sentia-se saciado, em todos os sentidos. Mordiscou o último pedaço e falou:
- Agora sou eu quem te come, filho da puta.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O sono


O calor faz o suor sair lentamente da minha pele, não em gotas, mas como uma fina camada de sereno, que recobre o exterior e me faz sentir ensebado, sujo, indigno e exilado. Fecho as janelas e as vidraças para impedir a entrada do ar fresco da matina. Quero isolar-me do mundo exterior e recolher-me ao meu recanto seguro, sem luz, nem vozes, num vazio aconchegante, para tentar abafar o crescente desespero. Deito-me na cama e puxo o cobertor até metade da cabeça. O aumento da temperatura fustiga o corpo e os líquidos elevam suas temperaturas com maior avidez.

Peço pelo sono, mas ele não me vem anestesiar, nem carregar para fora as máculas deste mundo. Sinto o bafo do demônio logo nas minhas costas, regurgitado pelos sonidos incólumes e indescritíveis que alimentam ainda mais meu medo. Estou paralisado, sem ação alguma, nem vontade de reagir. Fui fustigado pelo desânimo que me levou a alma, deixando-me como um morto-vivo, sem motivo algum para continuar a viver.

O demônio ganha vulto e força pelas maquinações e desproporcionalidades da imaginação. Grito, mas as cordas vocais estão congeladas. Soco-lhe, porém, os braços permanecem imóveis. As pernas, inertes, são inválidas em qualquer esboço de qualquer coisa pensada. Deste holocausto, sou a oferenda, o objeto de sacrifício e a coisa a ser colocada em cima do altar.
Tentei viver e reconciliar-me com o mundo. Só atritos e desavenças pelos corredores da existência que me fizeram perder a crença em algum fim último que pudesse justificar a minha estada neste reles planeta. Como manda o manual, fui bom filho, bom estudante, bom cidadão, mas deu tudo errado, todos os planos, todas as expectativas. Tudo foi esmagado como um pedaço de merda embaixo de uma sola de sapato.

Minha vida não passou de um pouco de resto orgânico digerido, defecado e decalcado no pé de algum filho da puta que nem conheço, que, no entanto, sempre torceu para eu me foder legal. Que prazer imenso deve ter sentido ao me dar uma pisada bem em cima da minha personalidade, dando também aquela típica viradinha com o pé, como se estivesse falando: “Seu bosta, isto é para você aprender a ficar no seu canto.”

Diálogo de um só ou monólogo esquizofrênico? Falar comigo mesmo faz parte da dialética de argumentos ou é delírio de um louco prisioneiro em sua própria carcaça? Uma singular resposta não serve, daí, fomenta outras perguntas, que dão em outras respostas e mais milhares de perguntas.

Um turbilhão de pensamentos forma uma nuvem enegrecida que impede a comunicação entre os neurônios, levando-me à inércia generalizada. Não bebo álcool, nem consumo drogas. A droga sou eu mesmo.

Comunicar é tornar comum, fazer-se inteligível a outrem. Contudo, ninguém compreende o que falo ou escrevo. Sou esfaqueado com prazer sádico por quem menos espero. Amor não existe, nem respeito. É tudo fachada para não nos matarmos como animais que mutilam em caça predatória. Um observatório de hipócritas; canibais famintos pelo sangue alheio.

Bebericar e saborear a fina iguaria vermelha. Sentir apossar-se da força do outro. Vampirismo, porra nenhuma. Matar ou morrer, correr ou morrer, murmurar para morrer. Nada de nada, tudo de tudo, sem forma no formato do gosto do desgosto. Não tem mais nada que falar, esgotou-se o repertório, juntamente com o paladar da vida.

No meu leito, divido o espaço com meus livros. Mudos, eles me respondem as dúvidas em seu ritmo pausado e sonolento, sem extravagâncias. Somos cúmplices no nosso mútuo encarceramento, semelhante às relações entre os vermes e a carne morta. Num esforço quase sobre-humano, tiro minha camiseta. Fico quase desnudo embaixo do cobertor. Se morasse sozinho, ficaria pelado, numa boa. Mas não tenho assim tanta privacidade. Os fios da coberta me acariciam o torso, quase que fazendo cócegas.




Não queria brigar com ninguém, nem causar ódio em ninguém. Só queria fazer as coisas bem feitas, para ajudar as pessoas e, em dado momento, me sentir feliz e produtivo com alguns feitos. Se tenho amigos, ainda não se manifestaram, porque eu sinto seus golpes invisíveis e olhares de ferocidade, embora não lhes tenha feito coisa alguma. Paciência, estas porcarias ocorrem o tempo todo, sem que sequer houvesse manifestação mínima da minha personalidade.

Prefiro ficar no meu canto, como um repolho fedido, em conserva no ácido acético, um picles perfumado e quase podre, esquecido num recanto de prateleira de um boteco de péssima categoria.

As problemáticas nos envolvem como uma bola de neve, encurralando-nos como feras acuadas nas jaulas dos zoológicos maltrapilhos. Não vejo saída, por causa desta condição que não contempla, o mínimo que seja, de uma saída plausível para uma vida normal. Estas palavras, pseudo-inspiradas, saem como cálculos renais, pela uretra, queimando-lhe toda sua extensão devido ao atrito sem lubrificação.

Num estado de maior lucidez, sem as complicações perversas deste estado mental, tudo é mais fácil, inclusive a redação desta porcaria ridícula. Os ensaios bem-humorados são como portas abertas para a vida. Por meio da alegria, a vontade de viver e a esperança queimam a lenha que libera os espíritos, que mostra a verdadeira vida nos aspectos minúsculos do cotidiano.

Viver um grande amor, tal como sonhamos desde sempre é fechar os olhos para as oportunidades. Se nos fixamos muito nele, ele nos foge e nunca o encontraremos, bem debaixo do nosso nariz. O macro é composto de milhares de micros. Os micros compõem o macro. Então, o pequeno e o macro, se vistos da maneira certa, se tornam um só. Uma visão sistêmica, ampliada e sem obscuridades, que congregue o uno e o todo.

Como se vê o tudo, se vê o nada. A escuridão não existe para o cego que aproveita, no cotidiano, a esperança e o vigor da existência neste plano terreno. O alimento para o cérebro não é o mesmo que revigora o corpo e a alma. Mente sana e corpo são, tal como o emblema de conhecida sociedade desportiva.

Se eu amordaço minha dimensão física e me dedico somente ao espiritual, ocorre o desequilíbrio. Caso me dedique somente ao corpo, desligando-me da consciência superior, serei, com certeza, um animal, um morto-vivo. A inteligência, contudo, é tirana se não houver harmonia, com relação aos demais.

Às vezes, a mente comanda o espírito e o corpo. Por outras, o corpo guia a mente e o espírito. Nas demais, o espírito se sobreleva ao espírito e ao corpo. Uma dialética tríplice, cada ponto determinando as demais circunstâncias, em momentos oportunos. Caso um deles sobreponha-se aos demais, instala-se a desordem, e os maus fluídos carregam os poros, dos mais minúsculos aos mais visíveis.

Quando pensamos ser invisíveis somos monstros, cuja capacidade de destruição é indescritível e, no mínimo, abominável. Sentimo-nos assim quando estamos isolados de um mundo que não nos é ensinado e, portanto, esta disparidade entre o que se pensa e o que se vê é o que se chama de loucura.

Desatinos e aforismas brotam da mente desacostumada com o aflorar das realidades até então ocultas. Tudo o que acreditávamos era uma ilusão, porque, detrás desta ordem, existe algo diferente e dinâmico, sem igual, uma malha de comunicação jamais vista, outrora, pelo menos por mim.

Os números de telefone e as redes de internet são manipuláveis, como móveis levados de um lugar a outro, ou plumas de aves, sopradas pelo vento. Tudo, apesar do aparente caos, é completamente controlado, processado e posto em prática. Facções diferentes, discursos diferentes, apenas momentâneos e aparentes. O consenso vigora, debaixo das convenções.

Muitos estão envoltos nesta malha e sabem como articular-se nela. Entretanto, não me foi permitido o aprendizado destas sutilezas, vedando-me o contato com a sociedade. Fui escolhido para dar de cabeça na parede, tal como um bode estraçalha seu oponente, num ritual de pré-cópula selvagem.

Esta dislexia com o meio social é algo que me deixa pasmo e alheio ao que está em meu redor. Esta linguagem, este código esotérico restrito, que nunca me fora ensinado, nunca me fora apresentado, salta à minha realidade como um assassino que ronda sua vítima, dando-lhe somente espaço para perceber os seus últimos minutos de agonia diante do fim inevitável.

Talvez seja uma jornada imposta para testar o valor e as capacidades de adaptar-me a uma realidade, na qual tudo aparenta o mero acaso, apesar de estar tudo previamente planejado, pelo Deus superior, que é a humanidade.

Estas pedradas na alma e os flagelos incorpóreos mostram-me que toda minha educação foi calcada num ideal sem nexo com a vida em si. Aquilo que nomeamos, que falamos, que escrevemos contém uma mensagem oculta, que escondida no tão óbvio, é impossível de ser decifrada.




Desde o nascimento fui exilado deste mundo simples, mas complexo, cuja estrutura ainda não consigo compreender. É uma prisão sem grades, que eu pensava ter sido feita para eu perder. Estes espinhos eram e são, no entanto, sinais para despertar-me para a vida como ela é, sem os formalismos impostos pelo cientificismo. “Estude teologia”, dizem-me os próximos.

De que adianta dizer-me algo, num código que não consigo decifrar? Tudo o que eu acreditava foi destruído como um pedaço de areia que se desfaz com o choque provindo de uma onda furiosa do mar. Mais que um peixe fora da água, sou um molusco imerso em ácido sulfúrico.

As queimaduras são como goles deste mesmo líquido corrosivo adentrando goela abaixo, sem impedimento algum para afastá-lo das minhas entranhas. Meus inimigos eram fantasmas, criados pela minha própria falta de adequação. Era uma paranóia sem sentido, para os inclusos na sociedade, porém, algo totalmente diverso para mim.

A racionalidade técnica me foi colocada como suprema, daí, as negativas com relação às demais coisas. Um questão de ordem cartesiana e positivista fez-me crer mais nos livros que na própria humanidade. Meus livros foram meus amigos a todo momento, domesticando-me e amoldando minha mente, até que não pudesse ver mais nada à frente, afincando uma cerca de medo, com relação aos demais.

Tudo o que eu acreditava ser correto era apenas mera ilusão, coisas que não tinham princípios motores, nem sentido com relação a coisa alguma. Estou cercado de todos os lados e nem sei como pedir ajuda, como assimilar e adaptar-me a tudo. Há uma multidão de furiosos, uma turba revoltada com meus atos impensados.

Fui pego nesta armadilha e não sei como escapar, nem como viver diante de tantos olhares, risos e vocábulos estranhos. Tenho apenas dois meses de sobrevivência nesta selva. O erro não estava nos outros, estava em mim mesmo, e ninguém me alertou a este respeito. Todos tiranos consideram-se vítimas quando são arremessados para baixo do cadafalso do poder.

O ser humano, em si, considera-se correto, mesmo ao cometer atrocidades e incorrer de paixão avassaladora na defesa de uma fé cega, mesmo científica, que lhe veda acesso a altares mais sagrados e elementares da contemplação da vida.

Tenho pouco tempo para continuar e para sobreviver diante desta nova perspectiva que se abre diante do meu mundo. Já fui condenado e nem sei se me cabe recurso, com relação às cláusulas descumpridas por imperícia, negligência ou imprudência. Estou crucificado com o olhar de desprezo das pessoas que nem mesmo conheço e com o sentimento de pesar que causei àqueles que mais amo, por causa da minha beligerante e insensata ignorância.

Em cada ponto, as pessoas se mostram, vêm em fluxos contínuos, como multidões de anônimos que se agrupam à espera de sinais mais ou menos reconhecíveis. Sei, no entanto, que meu fracasso é geral e retumbante, um castelo de areia a ser devassado em época de tormenta, pela minha inadequação em encontrar meios para adequar-me a coisas novas.

Estranho batismo de fogo que corre pelas plantações e ceifa, sem pestanejar, as características que considerava, anteriormente, virtudes. O corpo, carbonizado pelas chamas, ainda insiste em manter-se com todas suas funções, as que não foram danificadas, em reles manutenção.

Conforme Platão, se fôssemos invisíveis, faríamos atrocidades porque nos consideraríamos imunes à ira da coletividade. Nunca estamos invisíveis, nem com falsos nomes, nem com a aparente inviolabilidade do nosso lar, nem com nada. Tudo está perfeitamente vigiado, num sistema de controle, que transcende minha reles inteligência. Não sou e nunca estive invisível, na massa, tal como acreditava.

Aqueles olhares e intenções que me penetravam eram reais mesmo, nada era fruto da imaginação. Loucura nenhum pouco válida, a não ser que fosse uma conspiração contra minha sanidade. Aliás, quem não ficaria louco diante de tanta coincidência?

Apesar de traçar os referenciais, não estou e nunca estive certo, mesmo quando a certeza se apresentava como evidente. Os referenciais são móveis, nunca estáveis, muito menos palatáveis. Eles simplesmente são e se mostram por si mesmos, uma cabal aparição travestida de acaso.
Nunca estive em ascensão. Sempre fui a queda lenta e vagarosa que faz o desejo da morte ser algo muito natural. Odeiem-me, vocês têm toda razão para isto. E quando se cansarem de me odiar, matem-me e vilipendiem-me o cadáver aos quatro ventos. O povo necessita de uma válvula de escape, eu sou o brinquedo, para esta empreitada, mais do que perfeito. Que se faça, então, o plano de execução. Uma vez expulso não há mais retorno, certo? Embora não tenha a qualidade necessária, sou o cordeiro deste sacrifício. Saciem sua fome de vingança. Estou pronto para o meu destino. Enfim, estarei livre, como um pássaro sem asas, que está frio como um cadáver já putrefeito.