terça-feira, 30 de novembro de 2010

Seminario "Processo de Constituição"

Como fazer um seminário? Como apresentar e organizar as idéias para a apresentação em público? Muitas vezes, não temos noção de como começar. Aqui vai um modelo de texto-roteiro de seminário. Não se trata de um padrão universal e único, mas com certeza dá uma boa ajuda.
Seminário: “Processo de Constituição”

TEXTO-ROTEIRO

TEXTO BÁSICO: JAPIASSU, Hilton
“Introdução às Ciências Humanas”
Análise de Epistemologia Histórica,
2ª ed. São Paulo, Letras & Letras, 1994, pp. 9-35


TEXTO DE APOIO: DUROZOI, Gerard e ROUSSEL, André
“Dicionário de Filosofia”
2ª ed. Campinas, Papirus, 1996, p. 80

I. OBJETIVO DO SEMINÁRIO
Mostrar a evolução do conceito de Ciências Humanas ao longo da história e a sua relação com as Ciências Naturais.

II. TEMA DO TEXTO BÁSICO
O autor diz que os modelos propostos, oriundos das Ciências Naturais, são inaquados às Ciências Humanas. Por isto, afirma que nenhuma ciência em particular pode impor um modelo explicativo, de forma absoluta, às Ciências Humanas, nem constituir-se lugar de verificação destas disciplinas.

III. VISÃO DE CONJUNTO DO TEXTO BÁSICO
Hilton Japiassu escreve sobre o processo de constituição do conceito de Ciências Humanas, que está vinculado com a nova imagem do homem (resultado dos acontecimentos sociais), desenrolada a partir do Renascimento. De início, parecem um espectro das Ciências Naturais, que lhes “empresta” modelos de explicação. No entanto, verifica-se que as Ciências Humanas têm um estatuto próprio, diferente até da filosofia, pois tentam inventar um mundo novo, de ação, embora não desvinculado da interpretação.

IV. ESQUEMA GERAL DO TEXTO BÁSICO
Prefácio
Sumário-problema
1. Introdução
2. A fisiologia social de Saint-Simon
3. O positivismo de Comte
4. O positivismo de Durkheim
5. O indivíduo e a sociedade
6. O primado do oculto
7. A recusa da filosofia

V. CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEXTO BÁSICO
Introdução: O Renascimento e a visão antropocêntrica de mundo. Necessidade de uma Ciência do Homem.
As Ciências Humanas, agrupadas principalmente em torno da filosofia, se desenvolvem ao longo do tempo e mostram que devem ter modelos próprios, diferenciados das Ciências Naturais.

1. Histórico das Ciências Humanas.
1.1. Novo conceito de homem; dinamismo interno da vida social; validade das instituições; validade de certos fatos sociais (positivismo)
1.2. Surgimento dos ramos das Ciências Humanas
1.3. Recusa à filosofia.

VI. CONCEITOS BÁSICOS
Nova antropologia do Renascimento:
libertária, ainda impregnada pelo dualismo corpo / espírito, abala antiga metafísica do homem. A filosofia toma como base o novo espírito do homem.
Leis: preceitos de ordem geral e impostos à observância de todos, referentes à constatação de fenômenos naturais ou sociais.
Positivismo: há condições de inteligibilidade próprias das Ciências Humanas, Dilthey então diz que é preciso descobrir sua contribuição positiva, para melhor compreensão dos homens e das coisas.
Ser de natureza: como ser vivo, homem é regido por leis biológicas.
Ser de cultura: como ser falante e edificador de uma civilização, introduz a cultura.
Antropologia: estudo das propriedades gerais e das leis da vida social e da cultura.
Descartes, Hegel e Kant: o ser da consciência sempre se manifesta como a norma e a verdade de ser.
Evolucionismo, marxismo e psicanálise: sujeito cognoscente é descentrado de si mesmo.
Fenômeno: atualidade dada à observação empírica efetiva, manifestando-se numa constatação.
Filosofia social: termo de Saint-Simon, criador da expressão “Ciência do Homem”. A unidade desta ciência é fornecida pelas energias de uma sociedade levada a se entender.
Sociologia: Comte converte a “física social” em “sociologia”, estudo dos fenômenos sociais como conjunto de efeitos naturais submetidos a leis, à maneira dos fenômenos físicos e biológicos.
Marcha para a unidade: Durkheim acredita que a humanidade ascende de idade em idade, rumo à unidade, basta criar uma moral da solidariedade.
Indivíduo e sociedade: foco no indivíduo, na sociedade, ou em ambos?
Inconsciente: natureza íntima tão desconhecida quanto a do mundo exterior; problema da mentira da consciência.
Eurocentrismo: Ciências Humanas surgiram no século XIX na Europa, que influenciou com seus modelos teóricos o resto do mundo.

VII. ROTEIRO DE LEITURA DO TEXTO BÁSICO
a-) Uma nova concepção de homem, no Renascimento, levanta um novo prisma sobre a problemática do conhecimento.
b-) Os modelos das Ciências Naturais ainda servem como paradigma para explicar os novos campos de conhecimento.
c-) Tentativa de superar a dependência dos modelos das Ciências Naturais.
d-) O positivismo e a retomada dos modelos das Ciências Naturais.
e-) Reconhecimento das Ciências Humanas e sua ramificação em decorrência das profundas transformações sociais, econômicas e políticas, da Europa do século XIX.
f-) As Ciências Humanas, calcadas na historicidade, distanciam-se da filosofia, por serem mais observadoras e “mais científicas” e tentarem criar um mundo novo: o mundo da ação.

VIII. ORIENTAÇÃO BIBLIOGRÁFICA
JAPIASSU, Hilton. Introdução às ciências humanas. Análise de epistemologia histórica. 2ª ed. São Paulo, Letras & Letras, 1994, pp. 9-28.
DUROZOI, Gerard e ROUSSEL, André. Dicionário de Filosofia. 2ª ed. Campinas, Papirus, 1996, p. 80.

sábado, 6 de novembro de 2010

Rocky (Remi Gaillard)

Vale a pena conferir esse vídeo do francês Remi Gaillard. Ao som de "Eye of the tiger", da banda Survivor, faz uma sátira muito engraçada aos treinos do boxeador Rocky Balboa, vivido em cinco filmes por Sylvester Stallone. As situações são inusitadas: no supermercado, no pedágio, nas praças públicas, nos restaurantes.



Creio que é uma das coisas mais hilariantes que já vi na minha vida. Mas dá até vontade de fazer um treinamento a la Remi Gaillard, só para dar umas boas risadas. No entanto, tome cuidado, ein. Você estará sujeito a sérias lesões corporais, no mínimo...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Das Beste - Silbermond


Sem querer ser piegas, ou coisa do tipo. "Das Beste", da banda alemã Silbermond (Lua de Prata), é uma das músicas mais legais que já ouvi na vida. A voz e a beleza da vocalista Stephie Kloβ são contagiantes. Trata-se de um pop sem ser enjoado. Pena que no Brasil estamos mais acostumados com músicas com idioma inglês. Deixamos de apreciar músicas maravilhosas de outros países, que muitas vezes são encaradas com preconceito, devido ao idioma ser outro que não o inglês. Mas isso pode mudar!

Confira o site da banda: http://www.silbermond.de/



Ich habe einen Schatz gefunden
und er trägt deinen Namen
so wunderschön und wertvoll,
von keinem Geld der Welt zu bezahlen


Du schläfst neben mir ein,
ich könnt' dich die ganze Nacht betrachten
Seh'n wie du schläfst, hör'n wie du atmest,
bis wir am morgen erwachen


Du hast es wieder einmal geschafft,
mir den Atem zu rauben
Wenn du neben mir liegst,
dann kann ich es kaum glauben,
dass jemand wie ich, sowas Schönes wie dich, verdient hat


Refrain:
Du bist das Beste was mir je passiert ist
es tut so gut wie du mich liebst
Vergess' den Rest der Welt,
wenn du bei mir bist


Du bist das Beste was mir je passiert ist
es tut so gut wie du mich liebst
ich sag's dir viel zu selten,
es ist schön, dass es dich gibt


Strophe:
Dein Lachen macht süchtig,
fast so als wär' es nicht von dieser Erde
auch wenn deine Nähe Gift wär',
ich würd bei dir sein,
solange bis ich sterbe


Dein Verlassen würde Welten zerstör'n,
doch daran will ich nicht denken
Viel zu schön ist es mit dir,
wenn wir uns gegenseitig Liebe schenken


Betank mich mit Kraft
Nimm mir Zweifel von den Augen
Erzähl' mir 1.000 Lügen, ich würd' sie dir alle glauben
Doch ein Zweifel bleibt,
dass ich, jemand wie dich, verdient hab'





Refrain:
Du bist das Beste was mir je passiert ist
es tut so gut wie du mich liebst
Vergess' den Rest der Welt,
wenn du bei mir bist


Du bist das Beste was mir je passiert ist
es tut so gut wie du mich liebst
ich sag's dir viel zu selten
es ist schön, dass es dich gibt'


Strophe:
Wenn sich mein Leben überschlägt,
bist du die Ruhe und die Zuflucht
Weil alles was du mir gibst,
einfach so unenendlich gut tut
Wenn ich rastlos bin, bist du die Reise ohne Ende
deshalb lege ich meine kleine, große Welt in deine schützenden Hände


Du bist das Beste was mir je passiert ist
es tut so gut wie du mich liebst
Vergess' den Rest der Welt,
wenn du bei mir bist


Du bist das Beste was mir je passiert ist
es tut so gut wie du mich liebst
Ich sag's dir viel zu selten,
es ist schön, dass es dich gibt'


Ich sag's dir viel zu selten, es ist schön, dass es dich gibt



Tradução
Encontrei um tesouro
E ele tem o seu nome
Tão bonito e mais valioso
Que todo o dinheiro do mundo
Você adormece ao meu lado
Posso ficar a noite toda te olhando
Te ver dormir, te ouvir respirar
Até que acordemos de manhã
Você conseguiu de novo tirar meu fôlego
Quando você se deita a meu lado
Eu mal posso acreditar
Que alguém como eu
Mereça alguém tão bonito como você





Refrão:
Você é a melhor coisa que já me aconteceu
Me faz tão bem a maneira com que você me ama
Eu esqueço o resto do mundo
Quando você está comigo
Você é a melhor coisa que já me aconteceu
Me faz tão bem a maneira com que você me ama
Eu te digo muito pouco
Que é maravilhoso você existir
Estrofe:
O seu sorriso vicia
Como se não fosse dessa Terra
Mesmo se ficar perto de você
Fosse um veneno
Eu ficaria ao seu lado até morrer
A sua partida destruiria mundos
Mas eu não quero pensar nisso
É lindo demais estar com você
Quando nos oferecemos o nosso amor
Me fortaleça
Tire as dúvidas de meus olhos
Conte-me mil mentiras, eu acreditaria em todas
Ainda assim permanece uma dúvida
A de que eu mereça uma pessoa como você
Refrão:
Você é a melhor coisa que já me aconteceu
Me faz tão bem a maneira com que você me ama
Eu esqueço o resto do mundo
Quando você está comigo
Você é a melhor coisa que já me aconteceu
Me faz tão bem a maneira com que você me ama
Eu te digo muito pouco
Que é maravilhoso você existir
Quando minha vida fica de pernas pro ar
Você é minha paz e refúgio
Porque tudo o que você me dá
Faz eu me sentir infinitamente bem
Quando estou inquieta
Você é a viagem sem fim e por isso
Eu ponho este meu pequeno grande mundo nas suas mãos protetoras





Você é a melhor coisa que já me aconteceu
Me faz tão bem a maneira com que você me ama
Eu esqueço o resto do mundo
Quando você está comigo
Você é a melhor coisa que já me aconteceu
Me faz tão bem a maneira com que você me ama
Eu te digo muito pouco
Que é maravilhoso você existir
Eu te digo muito pouco que é maravilhoso você existir

Remédio de alguém


Desatento de tudo, a atenção é preciosa como um das coisas mais ricas do mundo.
Ei tu? Onde está o meu amor que me roubaste e vendeste para outrem?
Não tens vergonha, moça? Isso não se faz, nem para um padre, nem para um rapaz!
Sentas sempre ao meu lado e aí, vêm a formigar as pernas e os braços, os lábios mordiscam silenciosos um rabisco de um beijo, complementado por um abraço.
Porém, o sujeito ao meu lado diz asneiras que me deixam desconcertado.
Onde já se viu falar tanta baixaria perto da minha donzela?
Que coisa, que infâmia, que falta de senso na cabeça oca desta ariranha!
Não mais permitirei esta ofensa, pois minha dama, ao meu lado, não merece ouvir tanta desconsideração. Mundo moderno, costumes pervertidos!
O que me diriam, então, deste voyeur intrometido?
Sai daqui, seu sacripanta, vai logo, antes que meu amor me espanta!
E tu, que me apoderaste por completo, onde está a tua deixa?
Fazes isto tudo por esporte ou tenho chance de me dar bem, sem nenhuma queixa?
Teu olhar, vago e morno, como as noites de primavera em seu contorno, que pelo simples exalar do orvalho me deixariam de todo extasiado.



Queria apenas que me desses uma resposta, bem certeira, bem criteriosa.
Que tipo de coisa é essa que a gente sente, do interior para o exterior, que faz a gente dar risada por qualquer coisa ou, ainda, sofrer com indiferença?
Este é um tipo de doença da qual não gostaria nunca de ser salvo.
Pois se o meu olhar de peixe morto, meu queixo caído, o tremor repentino do meu corpo confirmam o que vem de dentro, o diagnóstico é simples, puro e fidedigno, não se trata de cólera, malária ou febre morbo. É paixão aguda, com amor crônico, então, está na hora de arranjar o remédio, mais que depressa, já que a vida prega peças.
Os doutores, diplomados com roupa branca e tudo, dizem um monte de coisas, mas sei que para me curar, preciso de coisas simples: um beijo, um abraço e um calor.
Estas três coisas se resumem numa outra ainda mais feliz, o teu amor.
Enquanto estiver longe de ti e da tua chama, ficarei doente, fadado a esmorecer, como um moribundo, cruzando as terras deste e do outro mundo.
Por isso, peço a ti tua presença, mais que tua bênção, para que possamos aplacar juntos esta doença, da qual, se eu for feliz, padeces dos mesmos sintomas.
E quando nos beijarmos a cura virá repentinamente, mas nossa saúde ficará viciada no puro e imaculado que é o nosso amor! Este é o nosso remédio de alguém, que cura, sem enjoar, graças a Deus, amém!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Resenha do livro História sem fim





Quem se lembra do filme "A história sem fim"? Eu assisti quando era criança. Não sabia que tinha um livro que deu origem ao filme. É sobre esse livro que minha amiga Georgiana Calimeris escreveu uma resenha, publicada na Revista Eletrônica de Psicologia do Instituto de Ensino Superior de Brasília (IESB).






Confira o texto completo:
http://www.iesb.br/repiesb/filmes_e_livros/2010_2/fl1_v2_n4_out_2010.htm

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Anúncio classificado


Decidi tornar pública a minha procura, pois há de muito que sua falta me desalenta.
Antes, batia de porta em porta, estorvando o sono e a paciência dos outros:
“Ô, de casa, alguém aí tem uma musa para mim.”
Quase parei na cadeia, com passagem pelo hospício, embora não tenha feito nenhum
Malefício. Mas uma ou outra alma caridosa ainda me atendia: “Como é tal moça que o
Senhor procura.” Minha resposta era curta e absurda: “Não sei. Se soubesse como ela
É, não lhe estaria procurando.”
Cheio de bolha nos pés e com as orelhas vermelhas de tapões e xingamentos, tomei
Uma medida prática. Fui ao jornal e decidi fazer um anúncio classificado:
Procuro uma musa que possa colorir meus sonhos e fique ao meu lado nas noites
Mais frias de verão.
Procuro uma musa que me faça escrever letras de amor, contando a nossa odisséia
De vitória sobre esta corja de burros.
Procuro uma musa alegre, de olhar sincero a quem eu possa amar, como nunca fiz
Antes.
Na porta do jornal, o texto estava decorado na cabeça. Tinha que resumir um
Pouquinho porque o meu bolso não podia com tantas letrinhas de amor.
Então, assim ficou:
Procuro uma musa para sempre e eternamente, que me inspire a todo instante !
Ainda meio ressabiado, virei meia-volta e dei um giro pela praça.
Perguntei a uma moça o que ela achava sobre o que tinha escrito.
“Se você me pagar, posso fazer tudo isso.”
Agradeci, mas recusei. Afinal, amor pago é mal remunerado.
Pedi opinião ao menino sujo e extrovertido. Ele disse:
“O que é musa, moço ? É de comer.”
Dei-lhe umas moedas e fui procurar outra opinião.
Um sujeito com nariz em pé, com bloco de papel na mão e caneta no bolso da camisa,
Que se dizia jornalista, mesmo sem ter capacidade para isso, falou:
“Um texto jornalístico não deve terminar com sinal de exclamação !”
“Eu sei, bocó. Mas isto é um anúncio classificado.”



E continuei a perambular. Para esses tipos, José Saramago é um vinho tinto português,
Muito saboroso, por sinal. Oras bolas; minhas bolas, carambolas !
Parei de coletar palpites. Mesmo porque o “eu acho” dos outros nunca é bom para a
Gente, ainda mais quando proferido por incoerentes.
Passei pela catedral, falando em voz alta:
Procuro uma musa ! Procuro uma musa que me seduza !
O padre celebrava a missa. Empolgado por esse amor oculto, adentrei o recinto e
Gritei como se fosse soltar meus pulmões:
Ei, alguém aí dentro tem uma musa ! Procuro uma musa !
As carolas ficaram brancas de susto e silêncio e o padre liderou o coral: Blasfêmia.
Saí e corri, tropecei e caí. Não estava nem aí.
Mesmo sujo e com os joelhos ralados, entrei no jornal.
Procurei nos bolsos, mas só encontrei os buracos e as merrecas com que pagaria
Aquele anúncio classificado. Tinha perdido o papel de ode à musa.
Pasmado com um nó no coração, segurei os cabelos, como se fosse arrancá-los.
Recuperei a calma e entrei de novo no jornal, fui ao balcão embaixo da placa em que
Estava escrito “Classificados”. Tudo bonito, bem informatizado.
“Queria fazer um anúncio classificado.”
“Qual é a mensagem e qual seção em que vai ficar ?”
“Moça, você tem namorado ?”
“Não, por que o senhor pergunta ?”
“Por nada, moça. Por nada.”
O gordo que estava atrás de mim, na fila, estava impaciente e me deu um ultimato.
Contei que ainda não tinha feito o anúncio classificado.
“Vou pensar e já volto”, falei e voltei para o fim da fila, que estava grande.
Lá pelo meio da fila, surgiu outra idéia, que foi amadurecendo durante o desenrolar
Dos minutos. Com as roupas sujas e o fedor da procura, os meus sucessores da fila
Desistiram do que vieram fazer. Assim, eu era sempre o último da fila.
A moça do balcão percebeu e ficou diferente. Coitada, pensei. Deve estar brava
Comigo. Chegou a minha vez novamente, indaguei-lhe o nome.
“Musa”, respondeu-me. Naquele exato instante, encontrei o pedaço de papel com a
Mensagem. Rasguei-o e joguei-o disfarçadamente.
A musa estava ali e não havia mais motivo para fazer aquele anúncio classificado.
“O que você vai fazer hoje à noite, depois do expediente ?”

domingo, 10 de outubro de 2010

Direito Constitucional aplicado à profissão: direitos fundamentais como base da ordem normativa de condutas profissionais e dos códigos de ética


Este texto versa de maneira sucinta sobre a utilização do Direito Constitucional, principalmente no tocante aos Direitos Fundamentais, no contexto empresarial e a relação da ordem jurídica com a deontologia profissional. Não pretendemos versar profundamente sobre um assunto extremamente vasto e complexo, mas tão-somente apresentar os principais conceitos e tentar, de certa forma, associá-los ao cotidiano profissional empresarial. Em função de tal intento, não temos ímpetos de inovar doutrinariamente com relação ao tema proposto, apenas introduzir os temas e, porventura, despertar a curiosidade para uma leitura e pesquisa mais profundas a respeito. Para fins didáticos, este texto foi dividido em dois capítulos.



Em "I – Os Direitos Fundamentais e o Cotidiano Profissional", introduziremos o conceito de ordem jurídica e de norma fundamental, que deve ser seguida em todas as instâncias deontológicas, sejam a partir de atos legais ou infra-legais, resguardando e implementando os Direitos Fundamentais, também objeto deste capítulo.
Em "II – Deontologia Profissional e Códigos de Ética", tentaremos conectar os princípios constitucionais e os dispositivos legais como diretrizes para a elaboração de normas de conduta para as empresas, além de expor um arcabouço teórico sobre o assunto.


Leia o texto completo: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=6913


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Assédio moral nas organizações


Prof. Ms. Roger Moko Yabiku

Assédio moral é um assunto recente no Brasil. A legislação não trata especificamente a respeito do assunto. Muitas vezes, é identificado, inclusive, com danos morais. A Constituição da República Federativa do Brasil atenta para a preservação da integridade humana, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. Via de regra, a integridade física é preservada ou recompensada pelos adicionais de insalubridade e periculosidade, pelas indenizações por horas extras nos salários, ou ainda pelo gozo do final de semana remunerado e pelas férias. No entanto, quase que é comum se passar desapercebida a questão psicológica, o moral.
Pela falta de materialidade, ou por estar escondida na psique humana, a ofensa moral muitas vezes é jogada para “debaixo do tapete”, como se isso fosse algo a não ser mostrado. Porém, se sabe que o sofrimento e a ofensa moral causam cicatrizes internas que, diversas vezes, são difíceis de serem curadas.
Esse tipo de ataque à dignidade humana não é novo, é antigo, porém, ocorre, atualmente, uma banalização daqueles que não têm poder de fogo suficiente para se defender, principalmente, no ambiente corporativo.
Assédio moral, ensina Elisete Passos em “Ética nas organizações” (p. 127), é a conduta repetida ou sistematizada que atenta contra a dignidade ou integridade psíquica ou física da pessoa, colocando em risco seu emprego e desestabilizando o ambiente de trabalho.
Organizações preocupam-se mais como lucro econômico, em vez do crescimento e bem estar das pessoas. Nessa espiral, os empregados começam a acreditar que para manter seu emprego devem ser competentes tecnicamente, pontuais, polivalentes, produtivos e submissos, comenta Elisete Passos.
Para preservar seus empregos, as pessoas se submetem a humilhações, inferiorizações, ironias, medo e xingamentos. Há também perseguições individuais. Os perseguidos, muitas vezes, são deixados de lado pelos colegas, que também ficam com medo de serem perseguidos, ou se juntam para fazer mais perseguições.
As ofensas podem ser explícitas ou sutis, sempre no intuito de fazer com que o indivíduo perca a auto-estima, desequilibre-se e se destrua. É uma forma de quebrar o indivíduo e fazê-lo aceitar as normas do grupo. Trata-se de um processo demorado e sutil que gera sofrimento psicológico.
No entanto, há de se verificar que a deterioração das condições de trabalho e a carga de trabalho, por si mesmas, não constituem causas de assédio moral. Exceto quando são colocadas propositalmente no intuito de causar sofrimento psicológico e humilhar intencionalmente.

Tipos de assédio moral

Há dois tipos de assédio moral: a-) assédio moral horizontal; b-) assédio moral vertical. “Assédio vertical a princípio é mais prejudicial do que o horizontal, pois emana de alguém que possui autoridade, como um chefe, e suas considerações agridem mais profundamente e isolam mais, pois a pessoa agredida tem menos coragem para reagir. Os motivos que levam a esse tipo de agressão são, dentre outros, o autoritarismo, o abuso de poder, a insegurança e a necessidade de autovalorização do agressor; também ele pode ter como meta fazer a pessoa pedir dispensa do trabalho e assim a empresa livrar-se de pagar os direitos trabalhistas decorrentes de uma demissão provocada por ela. Em todas as situações, ele espalha o medo, a humilhação e o terror, exigindo obediência cega a suas ordens e perseguindo aqueles que não acataram suas determinações ou não atingiram as metas estabelecidas. Há uma forte relação entre assédio moral, o autoritarismo e o desrespeito aos direitos dos empregados. O assédio horizontal é aquele praticado por um colega sobre o outro; também é nocivo e destruidor do indivíduo. Normalmente, ocorre quando existe disputa de poder, como, por exemplo, de um cargo; também quando se quer subir no conceito do chefe ou do patrão. Em situações assim, é possível que um empregado sonegue informações sobre um procedimento de trabalho a outro empregado, para depois apontá-lo como lento, desatento e descomprometido com a empresa”, explica Elisete Passos (p. 130).
Ainda com relação ao assédio moral vertical, o mesmo pode ser de baixo para cima, ou seja, dos empregados sobre o chefe. O grupo não simpatizou com o novo chefe, então, realiza uma série de “agressões”, desde a não obediência até a má vontade em trabalhar, por exemplo. Outro caso semelhante é o do colega de trabalho que assumiu o cargo de chefia, fazendo com que os invejosos não aceitem essa posição.
Há também os assédios morais mistos, nos quais os assediadores são tanto os superiores quanto os colegas. Os superiores podem efetivamente participar do assédio, ou, ainda, podem ser coniventes com alguns tipos de condutas, e omissos não proteção ao assediado.

Métodos de assédio moral



O assédio moral encontra campo fértil diante da desumanidade administrativa. Quanto aos métodos de colocá-lo em prática: a-) deteriorização proposital das condições de trabalho, como a falta de infra-estrutura adequada ou de comunicação para que o empregado compreenda o que deve ser feito, de modo que este não consiga realizar a tarefa, ou ainda crie um outro jeito de realizá-la; b-) crítica destrutiva, geralmente em público, colocando em xeque a qualidade e a competência do empregado; c-) isolamento e falta de inclusão da pessoa nas conversas e decisões.
Elisete Passos (p. 132) diz que o assédio é ato discriminador que pode ter como origem o medo de ser agredido, de ser prejudicado, de não se aceitar o diferente e que, por isso, se agride primeiro: “O assédio moral tem, portanto, um motivo sutil: inveja, medo, intolerância, preconceito, insegurança; em todos, o pano de fundo é não conseguir aceitar as particularidades da pessoa. Assim, os principais motivos do assédio podem ser deduzidos a partir das pessoas que são as vítimas mais frequentes: mulheres, homossexuais, pessoas mais velhas, sindicalistas, pessoas combativas.”
O agressor é manipulador, com aparência de auto-suficiente, bem-sucedida e digna de ser invejada. Muitas vezes, induz outras pessoas a ficarem contra o assediado. O setor terciário, comenta Elisete Passos (p. 134), é o mais afeito ao assédio moral: “No que se refere aos locais de trabalho onde o assédio é mais propício, destacam-se os ambientes que não possuem critérios claros de avaliação da qualidade do trabalho; empresas onde não existe diálogo e cada um vê o outro como seu opositor, gerando um clima de instabilidade e de insegurança; empresas desorganizadas onde as tarefas não estão claramente distribuídas, facilitando o jogo de empurra e a culpabilização de um e de outro; empresas muito hierarquizadas, e locais onde se trabalha sob pressão; também empresas menores e desorganizadas são espaços mais apropriados do que as grandes e bem organizadas.”



Consequências do assédio moral

A prática do assédio moral de certa forma significa que houve uma certa tolerância quanto com relação à falta de respeito e de conduta moral adequada no trabalho. E pior com a desvalorização da pessoa humana. Isso causa problemas relacionados à saúde mental das pessoas, levando-as a esconder a dor, ficarem mais caladas, usar mais bebidas alcoólicas ou entorpecentes, uma tristeza profunda (depressão). E, no fim, podem até deixar o emprego. Devido à vergonha e à humilhação, muitos preferem não denunciar o problema e se mantêm calados.
Essa depressão não é pura frescura ou coisa de gente rica e desocupada, como muitos costumam falar por aí. “As consequências sociais são grandes, pois, como demonstrou pesquisa recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a depressão será um dos principais fatores de mortes nas próximas décadas. E sabe-se que o assédio pode começar tendo como consequência o estresse e o nervosismo e avançar para a depressão”, alerta Elisete Passos (p. 136).


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Máquina (tecnologia) versus humanismo


Prof. Ms. Roger Moko Yabiku

Com a revolução científica do século XVII, a filosofia começou a decair como conhecimento preponderante. Dela, começaram a se desvincular conhecimentos como a física, que tinha aplicações de ordem mais prática e econômica, que o filosofar. Essas ciências autônomas construíram estatutos próprios, muitas vezes, explicados pela linguagem lógico-matemática.
Esse modelo de conhecimento das ciências naturais, mais exato, mais preciso e mais afeito aos ímpetos econômicos da burguesia nascente predominou. O mundo passou a ser como um imenso mecanismo que poderia ser explicado, controlado e modificado pela ciência, guiada pela razão humana. Um extremo desse tipo de pensamento foi a doutrina positivista, inaugurada por Augusto Comte, que transpôs o modelo de constituição das ciências naturais para as ciências humanas.
Comte dizia que as ciências humanas careciam dos pressupostos científicos típicos das ciências naturais. Daí, delimitou o conhecimento, dizendo que só era válido aquilo que se podia conhecer, e não aquilo que só se podia conjecturar.
Houve, então, a transposição do modelo das ciências naturais para as ciências humanas, na tentativa de tornar estas mais afeitas a esse novo tipo de conhecimento.
Os números, talvez o elemento mais básico das ciências naturais, se tornaram os novos gurus das análises e condutas, justamente por terem essa pretensa exatidão. A ética e a filosofia eram demasiadamente teóricas para se encaixar no sistema de produção e de serviços.
O pensamento lógico-matemático ganhou primazia sobre o pensamento ético-filosófico. Com isso, vem o desencanto com o mundo. Obviamente, a razão lógico-matemática tornou o mundo mais rico, mais confortável e economicamente mais viável, pois visa produzir coisas, ou seja, tratar tudo como objeto a ser manipulado. Porém, essa mesma razão lógico-matemática trouxe competição econômica acirrada, desigualdade social e duas grandes guerras em escala global.



Pensa-se mais em termos de números, em vez de princípios e consequências ético-filosóficas. Decisões são baseadas muitas vezes em números, estatísticas, cálculos. E os números não mentem, jamais. Porém, uma coisa é analisar os números, estatísticas e cálculos dentro de um só ambiente, isolado de todo o contexto social.
O mundo construído pela razão lógico-matemática é frio, tecnológico, mecânico e automatizado. “Lidamos com a natureza de forma mecanicista, buscando dominá-la e não estabelecer com ela um diálogo e uma relação de respeito e cumplicidade. Com os pobres agimos de forma caritativa ou filantrópica, ao invés de investir em ações que possam reverter em qualidade de vida, justiça social e dignidade humana. A produção baseia-se em um sistema econômico que não tem levado em conta as pessoas e não se orienta por valores morais de respeito, dignidade e justiça social”, avalia Elisete Passos, no livro “Ética nas organizações”.
Se de um lado há progresso científico e tecnológico, de outro, houve baixo crescimento pessoal e interpessoal. Isso faz com que as pessoas fiquem cada vez mais longes umas das outras, impedindo o seu auto-conhecimento, de modo que a máquina e o próprio sistema escravizem o ser humano.
O discurso científico se diz neutro, porém, a tecnologia não é utilizada de modo neutro, está a serviço de interesses sociais e econômicos. E, ainda, dita o ritmo dos ambientes laborais.
Os seres humanos parecem cada vez mais submissos à indústria cultural, fomentada pela mídia, que cria necessidades artificiais, modismos e alienação.
Há, contudo, uma luz no fim do túnel. As empresas podem se humanizar, no sentido de se colocar o ser humano em primeiro plano, e não ser utilizado como meio. A emancipação humana é o mais importante. O ser humano precisa ser compreendido como ser material, que precisa, num primeiro momento, sobreviver (se alimentar, vestir, morar) e se construir (viver a cultura).
O ser humano, então, deve ser encarado como fim, como alguém que precisa se realizar, sendo livre de fato, no seu pensamento. E, sobretudo, que conquista a sua liberdade. E que com isso seja livre em sua plenitude, pois se converte num ser que aprende a aprender a todo momento.



O indivíduo que aprende a aprender em todos os momentos enfrenta as verdades pré-estabelecidas e também os preconceitos. “A consciência crítica é uma ferramenta poderosa contra a racionalização da irracionalidade efetuada pela sociedade industrial, capaz de apresentar o resíduo como necessidade e a destruição como construção. Ela faz o processo de alienação que faz as pessoas se reconhecerem como mercadorias, nos bens móveis e imóveis. Do mesmo modo, reduz a autonomia do trabalhador, fazendo com que ele siga um processo de trabalho até mesmo quando se sente ameaçado por ele. Também constrói ideologicamente uma idéia de progresso que não está voltada para uma melhor qualidade de vida, porque se priorizam as formas de produção e não o trabalho criativo e alegre, nem proporciona mais tempo para os seres humanos gastarem com a cultura, o lazer, o descanso e suas necessidades vitais”, salienta Elisete Passos (p. 92).
E pessoas que aprendem a aprender e se tornam autônomas, sabendo respeitar umas as outras, seja em termos de ambiente de trabalho ou, também, de cidadania não é algo que o sistema encara como, necessariamente, benvindo. Para progredir é preciso, contudo, coragem. Quem está disposto a pagar este preço?

domingo, 12 de setembro de 2010

As morais empresariais


PROF. MS. ROGER MOKO YABIKU


Para a doutrina liberal, os Estados nacionais devem interferir cada vez menos nas economias, deixando o mercado fluir, segundo os ditames de uma mão invisível, que tem sua lógica própria. No entanto, a liberdade econômica sem freios passa por cima de quem estiver em seu caminho, mesmo que isso signifique atropelar direitos das pessoas, principalmente as em menos condições sócio-econômicas. Engraçado dizer que um dos pais do liberalismo e um dos fundadores da economia moderna, Adam Smith, era professor de filosofia moral, ou seja, de ética, explica Amartya Sen, no livro “Sobre ética e economia”.
A economia moderna começou, então, como uma parte da filosofia moral. E, depois, com a assunção da ciência como conhecimento mais importante, em detrimento da filosofia, a economia alinhou-se mais à engenharia, aos cálculos, rumo à uma pretensa neutralidade, desvinculando-se da filosofia moral.
Assim, analisam-se os números, de maneira “racional e fria”, segundo a lógica e o modelo científico matemático, em vez de se levar em consideração as repercussões das decisões. O “filosofar” ético não é necessário. Aliás, é empecilho ao ímpeto capitalista.
Nesse mar de voracidade do capitalismo, se inserem como alguns dos principais agentes, as empresas. Não há como se falar em capitalismo contemporâneo, sem se falar em empresas. Mercados abertos e regimes liberais dão muita força a quem sabe se organizar. Grandes empresas sabem fazer isso, pois sabem do poder que têm com a acumulação e concentração de capital, formando cartéis, ou megacorporações por meio de fusões, incorporações e aquisições, alerta o sociólogo Robert S. Srour, em “Ética empresarial – a gestão da reputação”.
As novas tecnologias diminuem os custos e deveriam promover mais conforto e distribuição de renda. Mas parece que ocorre o efeito contrário. A competição é cada vez mais feroz e as empresas parecem fazer diferenciações entre os grupos de pessoas. Há grupos que devem ser agraciados, enquanto outros podem ser manipulados, pisados. Nesse cenário, Srour destaca a existência de duas morais empresariais: a moral da parcialidade e moral da parceria.

Dois tipos de tratamento



O grupo de pessoas que tem tratamento privilegiado, diz Srour, são os acionistas (por motivos óbvios), os clientes, os gestores e os trabalhadores qualificados. Já o grupo de pessoas que pode ser manipulado é composto de fornecedores, sindicatos, prestadores de serviços, comunidades locais, mídia, credores, sindicatos, governo e concorrentes.
O primeiro grupo de pessoas não convém manipular, pois pode colocar em risco os negócios. Com o segundo grupo é diferente. As diversas pessoas que compõem o segundo grupo podem ser jogadas umas contra as outras, conforme as conveniências da empresa.
Com o primeiro grupo, então, há um tratamento “decente”, idôneo, segundo algum código moral, mas também devido a uma estratégia ou cálculo de custo-benefício. No segundo grupo, se tira proveito da fraca articulação dessas pessoas, para se tirar o máximo de vantagens, salienta Srour. Aqui, o oportunismo, com contornos capitalistas e corporativistas, se converte na moral da parcialidade.


Moral da parcialidade




O tratamento desigual dos dois grupos de pessoas promove uma seleção de pessoas “convenientes” e “não convenientes”. Trata-se da moral da parcialidade, na qual se diz que um pouco de desonestidade ou cinismo é necessário para se vencer no capitalismo. A fórmula, ensina Srour, seria basicamente a do “rouba, mas faz”. Ou seja, justifica o mau caráter que consegue resultados ao mesmo tempo em que diz que todas autoridades de governo são decrépitas.
É um discurso sigiloso, que não se fala em público, mas se mantém aos círculos reservados, os de “confiança”. Valoriza demais os que “tem peito” ou “prática”, contra os que tem muitos “pudores” ou são muito “teóricos”. E espelha a famosa frase de Artur Bernardes, eternizada por Getúlio Vargas: “Aos amigos tudo, para os inimigos nada, para os indiferentes a lei.”
Para a moral da parcialidade, é preciso senso de oportunismo para avançar nas linhas inimigas e conseguir resultados. Não bastaria a capacidade empresarial, mas a “malandragem”. Alguns exemplos apontados por Srour (p. 280-281): “Tal empresário sonega sim, mas gera um bocado de empregos e já paga impostos em demasia – por que culpá-lo? Tal comprador recebeu bola de um fornecedor, mas seguiu a praxe do mercado e acabou adquirindo produtos a preços razoavelmente competitivos – para que abrir mão dele? Tal empregado usou o carro e o telefone da empresa em benefício próprio, mas já deu tantos lucros que as despesas podem ficar por conta da intermediação – por que não? Tal gerente não é competente e acaba fazendo configuração, mas é parente de um cliente estratégico ou foi indicado por um amigo que transita bem nos círculos políticos – será que não vale a pena ficar com ele? Tal fiscal é um cafajeste que não sai do pé enquanto não ‘receber o dele’ para regularizar a papelada – o que custa dar-lhe uma propina para ter sossego? Tal representante de vendas passa quase duas horas por dia cuidando de seus investimentos na Internet, mas é um dos mais produtivos do setor – para que importuná-lo?”
Um pouco de jeitinhos é justificável, por que o sistema é falho e, também, ajudam a corrigi-lo aos poucos. Essa é a justificativa da moral da parcialidade, comenta Srour. E o negócio dos negócios é fazer negócios, frase da qual se depreende duas leituras, ensina Srour (p. 283): “1. o mito da amoralidade dos negócios, que pressupõe sua neutralidade – os negócios nada teriam a ver com a vida comum e as regras que vigoram em ambos os contextos seriam diferentes por sua própria natureza; 2. O mito da imoralidade dos negócios, que os qualifica como ‘sujos’ e sentencia que para ganhar dinheiro é preciso sujar as mãos.”
Assim, de acordo com a assertiva da amoralidade, os negócios têm regras próprias. Na da imoralidade, dinheiro e negócios são sujos por natureza.


Moral da parceria

Segundo Srour, a partir da década de 1990, a mentalidade começou a mudar no Brasil, também no aspecto empresarial, com enaltecimento do mérito, do trabalho, do profissionalismo e da idoneidade. Esses traços, comenta Srour (p. 294), são compostos de: “1. Senso de responsabilidade; 2. Competência técnica para agregar valor; 3. Anseio por realização pessoal; 4. Autodisciplina, persistência e assertividade; 5. Transparência e impessoalidade; 6. Isenção, imparcialidade e objetividade; 7. Habilidades interpessoais ou a capacidade de trabalho em grupo; 8. Autocontrole dos impulsos.”
Delineia-se, neste momento, a moral da parceria, com padrões de conduta nos interesses de médio e longo prazo, criticando os imediatismos. Com isso, pretende-se cumprir os compromissos para manter os laços com as outras empresas e pessoas, para sempre ganhar bem. As parcerias são cultivadas e não são dadas, daí, as relações são de convergência e de confiança.
Não há divisão das pessoas em grupo a ser privilegiado e grupo a ser pisado. E as relações para durarem devem, segundo Srour (p. 298): “1. Observam-se garantias precisas e confiáveis de desempenho; 2. Exige-se transparência e rejeita-se qualquer fraude, logro ou manipulação; 3. Compartilham-se informações, algumas estratégicas, como projetos, programações, especificações técnicas, racionalização dos processos, experiências logísticas, técnicas de prestação de serviços; 4. Implementam-se ações conjuntas que, muitas vezes, resultam em apoio mútuo em situações de crise; 5. Realizam-se de forma partilhada inovações técnicas ou de gestão; 6. Encaram-se as negociações como jogos de soma positiva, visando a ganhos mútuos; 7. Aprende-se o negócio um do outro, a fim de economizar custos e aumentar a produtividade; 8. Convertem-se as empresas e pessoas, que foram eleitas como parceiras, como extensão do próprio negócio.”
Trata-se de uma moral em plena construção, para o desenvolvimento da cidadania empresarial calcada na responsabilidade social.