domingo, 14 de junho de 2009
O prisma das elites
A elite sócio-econômica é composta pelos mais abastados, aqueles com condições financeiras mais confortáveis diante dos demais membros da sociedade. Geralmente, seus componentes são tidos como os exemplos a serem seguidos, já que a noção de sucesso, na sociedade de consumo, está atrelada principalmente à capacidade de possuir mais que o outro. Devido a esta peculiaridade, a elite sócio-econômica está próxima da elite política, cujos membros são o sustentáculo da estrutura burocrata do Estado, entidade que detém o monopólio do uso da violência. Assim, a capacidade de aquisição econômica tem estreita conexão com o poder político, demonstrando algo mais que uma simples delimitação de áreas afins entre estas duas elites.
Por fim, a elite intelectual é a que mais se identifica com o exercício e a expressão do pensamento, com a construção e divulgação do saber e a crítica à realidade tal como ela é apresentada pelos grupos citados anteriormente. Para isto, entretanto, se faz necessário que a elite intelectual não seja composta por simples “onanistas mentais”, cuja produção não tem sentido algum, a não ser figurar nas teses e elocubrações que nunca terão utilidade alguma, nem na construção do conhecimento.
Dentre estas três elites, a intelectual é a que teria maior legitimação dos seus atos por estar conectada diretamente à produção cultural e à formação da erudição diante dos demais grupos sociais. A partir deste pressuposto, todos que atingem certa posição, nas elites sócio-econômica e política, também querem para si a alcunha de “intelectuais”. Deve-se isso à idéia de que a cultura seria um produto à venda, de fácil assimilação, que poderia ser incorporado num reles estalar de dedos. Esta a visão, que infelizmente prevalece, ocorre porque a produção intelectual e o incentivo à crítica são tidos no Brasil como bens acessórios, apetrechos egocêntricos dos mais afortunados.
Com isso, os membros das elites sócio-econômica e política consideram-se automaticamente intelectuais. Mancomunados com as estruturas do poder, julgam-se no direito de estarem certos ou de terem razão em todas as circunstâncias e, assim, estabelecerem os seus estatutos deontológicos (de “dever ser”) para toda a sociedade. As decisões, concentradas nestas duas elites, não se guiam necessariamente por um caráter racional com relevância na sociedade, mas por um sentimento de manutenção dos conceitos por elas estipulados como únicos e “verdadeiros”.
A desigualdade social está muito além daquilo que é tangível, está na maneira de se pensar. Os membros da elite são iguais dentro do círculo social que freqüentam. Mas, muitas vezes, não visualizam como iguais os que estão nas periferias dos seus grupos de convivência. Enxergam os outros com um prisma que lhes impede de ver a realidade com empatia: não sabem se colocar no lugar daqueles que são mais pobres, mais inteligentes, ou ambos. A desigualdade, então, é decorrência dos atos daqueles que não conseguem enxergar outra coisa além do próprio umbigo.
Pertencer a uma elite não quer dizer que um sujeito tem, automaticamente, dotes intelectuais. Significa apenas que é membro de uma minoria que, por ter influência ou acesso aos pontos estratégicos do poder, concentra a maior parte dos benefícios construídos inicialmente para o bem comum – incluindo a renda -, em detrimento de uma multidão de pessoas famintas, iletradas e, muitas vezes, sem esperança de ver dias melhores. Ser político ou rico não implica necessariamente ser um intelectual ou ter razão inexoravelmente. Indica simplesmente maior poder de persuasão. Para ser intelectual, é preciso estudar. Mas para ser sábio é necessário saber compreender os outros para, assim, ampliar sua visão de mundo.
sábado, 13 de junho de 2009
Hard Gay - Fuuu!!! (obs. eu sou heterossexual, este é apenas um artigo)
As cenas são simplesmente hilárias, semelhantes a quadros de programas nacionais como "Pânico" ou "CQC". Sumitani, que é heterossexual, encarna o "Hard Gay" em diversas missões pelo arquipélago japonês. Vestido com um shortinho e um colete de couro, óculos escuros e quepe, bem a la Village People, "Hard Gay" no melhor estilo sadomasoquista leva risos e mais risos para a galera nipônica.
Imagine a cena. Um cara de 1,85 metros, relativamente bem alto para os padrões japoneses, corre pelas ruas e até mesmo pelas florestas satirizando o cotidiano local. Nem mesmo as crianças são perdoadas. Elas participam ativamente dos programas do "Hard Gay".
Sua marca registrada é o movimento para frente e para trás dos quadris, num ritmo frenético e, com certeza, desconcertante. Seu grito de guerra é "Foooo". Numa das missões, "Hard Gay" tem que atrair clientes para um restaurante de "ramen" (miojo e suas variantes), na outra tem que caçar insetos nos bosques para vender para as crianças, chega até ao ponto de cozinhar para a criançadinha comidas que elas não gostam de um jeito que fique apetitoso.
Não tem nada de aberração sexual no programa. É puro humor. Numa dessas investidas, ele banca o cupido num clube de Kendo (arte marcial com espadas, oriunda das técnicas dos samurais), para ajudar os rapazes a "soltarem a franga". "Hard Gay" adentra o dojo com as roupinhas de couro e o Bogu (armadura). Não tem como não rir disso.
O cara expõe o tema de modo não grosseiro e não vulgar. É, repito, engraçado demais. Sumitani, o ator que encarna "Hard Gay", tem saído com belas mulheres depois da fama com o personagem. Escrevi este texto sem querer agredir quem quer que seja pela sua orientação sexual, "bloguei" só por curiosidade e para mostrar que existe um outro mundo além do mundo de Marlboro e da televisão que nos deixa bobos, muito bobos demais. Uhu.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
As aranhas

De casa em casa, vagava pedindo algum tipo de ajuda para a sua subsistência. As pessoas, enojadas, ofereciam qualquer coisa para que a grotesca figura fosse logo embora. Os pés descalços e calejados erravam sem destino, em um compasso lento, confuso e desesperado.
Andava. Não sabia para onde. Andava. Só havia aranhas na sua mente debilitada. Todos temiam-no, mas de um modo diferente. Causava medo pelo asco que emanava. Não pela sua onipotência.
O presente de Joãozinho

Também existe um outro João. Ninguém lhe dá comida, ele é magrinho e bem fraquinho. Apesar de ficar constantemente ao Sol, solto pelas ruas, sua aparência é pálida por causa da verminose, uma doença ridícula. Quando esboça um olhar de faminto, sempre surge alguém para chutar-lhe as ancas. De natal, ganhou de presente um tiro na cabeça só porque estava atrapalhando a missa. E ning
uém deu bola porque João era um menino de rua.Trailer do filme "Hotaru no Haka" (O túmulo dos vagalumes) - fala das crianças japonesas que morreram de fome durante a II Guerra Mundial. Mas a mensagem é universal, vale para todos. Trilha sonora: "Tears" (X-Japan)
Com ou sem você
Dos seus olhos irradia a minha vontade de existir, muito embora, nem sempre estejamos de acordo. As suas vontades e as minhas vontades têm um ponto em comum, apesar das nossas diferenças. Mas eu lhe vejo, ao lado dos arbustos rebuscados, me esqueço de tudo e lhe aguardo.
Jeitosamente e com ajuda das reviravoltas do destino, atraiçoa-me e me deixa esperar. A angústia da nossa distância, no espaço e no tempo, é como se estivesse deitado numa cama de pregos. Mesmo ao véu da sua doce tortura, espero por você. Tanto faz se vem ou não. Questiono-me: como fico, com ou sem você?
Naquele dia em que saímos do mar revolto, impiedoso por causa de uma tempestade, e alcançamos a praia. Com nossas peles temperadas e curtidas pelo litoral, você disse que me amava. Entregou-se totalmente, mas eu queria e quero muito mais. Estou esperando por você. Aguardo, sem você. Com ou sem você, para sempre, como quiser, até que não haja mais amanhecer.
A implosão que me joga contra o vazio da sua não presença implica numa súplica das suas carícias por toda a extensão da minha pele. Esses toques suaves penetram pelos poros e atravessam, gradativamente, a derme e a epiderme, contagiando os tecidos. A sua substância entra na corrente sangüínea que a distribui para todas as células do meu organismo. Você faz parte de mim, em definitivo, como uma essência que torna vermelho o meu sangue e lhe dá o gosto agridoce, que alimenta os vampiros de todas as espécies.
Você me transformou num usuário do lhe servir, viciando-me com fragmentos do seu próprio ser. Depois, sumiu repentinamente, sem dar maiores explicações, e me largou sozinho para apreciar, simplesmente, as partículas subatômicas do seu odor. Fiquei sem a fonte para suprir minha necessidade de você, pois geralmente sua voracidade se desfaz quando está saciada, o que lhe deixa indiferente aos aspectos exteriores a sua personalidade, rompendo o nexo de causalidade do nosso ciclo biológico.
Estou totalmente dependente e você sabe disso. Necessito sentir seus lábios contra os meus e envolver o seu corpo contra o meu, atando-os com meus braços, roçar os seus seios e sentir o seu amor, plenamente, sem nada para atrapalhar.
Sua língua vermelha toca meu lóbulo esquerdo e me arrepio só de pensar no que você pode fazer comigo. Tal submissão é a sua vantagem, e por ter certeza disso, me faz de gato e sapato, num jogo de contradições que você mesma cria para me manter o seu escravo. Neste emaranhado de ilusões, nos desligamos da razão e damos vazão somente aos nossos sentidos, num misto de posições que escapam ao nosso controle racional. Somos um uníssono, uma teia intrincada e perfeita, na qual nos tornamos prisioneiros de nós mesmos. Mas você é a artesã que tece os fios e me ata junto ao seu corpo.
Não tenho escapatória. Você se deleita com meu estado de fragilidade e me põe debaixo do salto do seu sapato: só um ponto de pressão e estou liquidado, sem retorno para amarrar-me ao seu corpo novamente. Num estalar de dedos, você some sem deixar vestígios, abandonando-me novamente no meu vício de lhe desejar, num contínuo querer. Sou um parasita dependente do seu ser e você um parasita que usa da minha vontade de lhe servir.
Minhas mãos estão presas e minha carcaça está esgotada. Não tenho mais nada a ganhar ou perder. Você sabe disso e se aproveita ainda mais. Estou acabado, devido a sua ação, e não posso continuar mais desse jeito, pois preciso de você ao meu lado para pôr fim a este sofrimento. Sentado aqui, na escadinha da frente da minha casa, sei que só serei curado quando você estiver em definitivo ao meu lado. Aqui mesmo, no terceiro degrau da escadinha de lajota vermelha, queria que nós dois estivéssemos sentados, de mãos dadas, tomando um sorvete, vendo as pessoas passarem, e jogando conversa fora.
Há sempre uma chance de se fazer uma escolha. Mesmo se tudo parece sem sentido e as saídas parecem ser túneis para o obscuro, existe uma escapatória, uma passarela para a luz. Deixo você decidir o que fazer quando chegar o momento. Dependo da sua essência para garantir a minha existência, por isso, estou perdido quer com sua presença quer com sua ausência. Por hora, eu lhe espero e você sabe: meu sofrimento - tal como agora estou - prevalece, com ou sem você. Dos males, eu escolho martirizar-me todos os dias, pois meu sofrimento só é mais ameno quando eu amo você.
* Conto baseado na música "With or Without You", do LP "The Joshua Tree", do grupo irlandês U2.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
MARQUÊS DE SADE: A CONVERSÃO DO VÍCIO EM VIRTUDE E A LIBERTAÇÃO DO INDIVÍDUO PELA INSTITUCIONALIZAÇÃO DA LUXÚRIA

"No moral, como no físico sempre tive a sensação de abismo, não somente do abismo do sono, mas da ação, do devaneio, da recordação do desejo, da saudade, do remorso, do belo, do ritmo, etc.
Cultivei minha histeria com alegria e terror. Agora sempre tenho vertigens, e hoje, 23 de janeiro de 1962, recebi singular advertência, senti passar por mim o vento da asa da imbecilidade.(Charles Baudelaire, Arabescos Filosóficos, p. 21)
1-) INTRODUÇÃO
Sempre associamos a ética com nobreza, virtude, caráter distintivo. E se tudo fosse ao contrário? E se a dignidade do ser humano (cada um ser visto como um fim em si mesmo) fosse ignorada e todos fossem usados como meios para a satisfação dos seus prazeres? Tentamos explorar esta proposta. Toda forma possível de prazer carnal, sem limites, nem orientações tal como se conhece no mundo influenciado pela tradição judaico-cristã. Sem delimitações entre o prazer e a dor, nada como fronteira, nem leis - no sentido usual - ou advertências morais, aliás, ambas rejeitadas por oferecerem certa subserviência à real natureza humana, que seria totalmente livre em sua concepção original. Com base na obra Filosofia na alcova, do Marquês de Sade, este texto se limita a discutir, sob o prisma também de alguns filósofos, os ingredientes que constituem aquilo que os religiosos - católicos, sobretudo - taxam como sendo um dos sete pecados capitais: a luxúria.
Geralmente, ao se falar em luxúria vêm à mente atos libidinosos dos mais variados gêneros e espécies, que alimentam as imaginações nos cantos mais escondidos da mente, longe do intimidante olhar dos outros. Sade abomina a moralidade cristã e justifica sua luxúria como um complemento da República, um reforço contra a Monarquia, que ajudou a combater. Enseja a revolução da dentro da revolução; só a mudança da forma de governo não é o bastante, há de se mudar também os pormenores sutis da sociedade.
Para ele, nesta nova forma de governo, a República, há ainda necessidade de se remodelar a "superestrutura" da sociedade, desligando-a completamente dos vestígios dominiais da monarquia, esta sustentada pela ideologia da Igreja. Sade abraça a luxúria e põe em xeque a validade da moral, algo que impediria a liberdade plena do homem, no plano físico. Se há uma dimensão terrena e outra metafísica, Sade prefere nitidamente a primeira. Afirma que é necessário viver com toda voracidade nesta vida e no presente, em vez de esperar por algo incerto. Sua idéia é, então, calcada no eroticamente possível, e não metafísico[i], num embate aos princípios da moralidade cristã, que acredita serem inócuos e, portanto, vazios. Por isso, diz:
"Sentiu-se que este deus quimérico, prudentemente inventado pelos primeiros legisladores, não passava em suas mãos de um meio a mais para nos acorrentar, e que, reservando-se o direito de só fazer falar este fantasma, saberiam fazê-lo dizer apenas o que serviria de apoio às leis ridículas por meio das quais pretendiam nos escravizar."[ii]
Reiterando explicitamente o despotismo da luxúria como o único aceitável, o marquês esclarece a ligação que havia entre Monarquia e religião na dominação - constitucional e ideológica, respectivamente - do povo. De acordo com Sade, a conexão entre a religiosidade e os déspotas está em vigência desde há séculos, portanto, deve-se destruir uma das partes para que a outra caia (SADE, 1999, p.135), sendo, ademais, muitas vezes necessário lutar para que houvesse realmente a queda da segunda, apagando totalmente os vestígios dominiais anteriores. O Estado Republicano deve impor oficialmente a luxúria como o seu valor mais elevado, estando os interesses a ela subordinados "juridicamente protegidos"[iii], exatamente por contrariarem todos os estratagemas ideológicos que agraciavam a Monarquia. Portanto, Sade compreende que é preciso educar, preparar e inserir os cidadãos numa nova sociedade que erige suas normas em conformidade com a real natureza humana, com liberdade total para que possam perseguir seus interesses sem barreiras coercitivas intrínsecas (o temor a Deus, ou a seus agentes) ou extrínsecas (olhares e recriminações) e se satisfazerem conforme acordarem mais conveniente.
2-) DA PHILIA E DA INICIAÇÃO LUXURIENTAS
"As nações só têm grandes homens contra a vontade delas, - como as famílias. Elas fazem todos os esforços para não os ter. Por isso, o grande homem precisa, para sobreviver, possuir uma força combativa maior que a força de resistência desenvolvida por milhões de indivíduos." (Charles Baudelaire, Arabescos filosóficos, pp. 10-11)
A iniciação luxurienta, em Filosofia na alcova, se dá na figura de Èugenie, uma virgem aristocrata, filha de um nobre libertino e de uma mãe católica fervorosa. A corruptora é a Madame de Saint-Ange e o mentor intelectual, o senhor Dolmancé. O livro todo é permeado de passagens libertinas, com o intuito de prender a atenção do leitor, entretanto, o que realmente vale no pensamento de Sade está no meio da obra[iv], num capítulo intitulado "Franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos".
A luxúria, na obra de Sade, não é para qualquer um. Deve ser praticada num "contexto social", uma confraria de luxurientos, cujos membros concordariam que a moral não leva os homens à verdadeira felicidade.[v] Na philia epicurista, os vínculos não são políticos ou religiosos, constituem "condição para construção - se não há salvação coletiva - da subjetividade livre, desalienada, incólume ao despotismo dos desejos irracionais, das falsas opiniões e dos temores infundados, inatingível pelas tiranias do mundo".[vi]
A philia sadiana tem em comum com o hedonismo epicurista esta visão de confraria, em prol da libertação plena do sujeito, mediante uma aglutinação, das imposições de qualquer grandeza. Em Sade, porém, sua manifestação não está nos valores metafísicos, da alma, ou qualquer outra instância superior; está naquilo que pode ser feito neste plano de existência, que se encontra amarrado pela moral sustentada pela religião, suporte, por sua vez, da tirania.
Os cidadãos ao clamarem a liberdade para si, destronando o monarca - monopolizador das vontades -, não podem esquecer-se de implantar, junto com a República, uma nova ideologia que os libertará das amarras da anterior. Nesta espécie de contrato social, a norma hipotética fundamental é a luxúria, deliberada em estado de total liberdade, e imposta à observância de todos, como o arcabouço da constituição de um Estado, cujo conteúdo sociológico, a Nação, estaria fortalecida porque as pessoas (o povo, elemento político) estariam ligadas por laços muito fortes de fraternidade carnal, acima da família e das classes sociais.
3-) LUXÚRIA COMO LIBERTAÇÃO

"Sentimento de solidão desde minha infância. Até entre a família, - e no meio dos camaradas, sobretudo -, sentimento de destino eternamente solitário. Entretanto, amor muito acentuado à vida e ao prazer." (Charles Baudelaire, Arabescos filosóficos, p. 30)
Em Filosofia na alcova, Sade discorre sobre o mal como a antítese do bem, aquilo que vai proporcionar algo novo. Resgata a antigüidade greco-romana, moldada conforme sua visão, para legitimar seu pensamento libertino. William Blake, poeta e artista plástico inglês, pensa de maneira semelhante, tanto que diz que não há progresso sem contrários, num jogo de palavras antônimas, que coloca como complementares.[vii] Ao escrever que "Energia é o Deleite Eterno"[viii], Blake entende, como Sade[ix], que aquele que não dá vazão ao seu desejo assim o faz porque o seu desejo é demasiadamente fraco, portanto, a razão toma-lhe o comando, tornando-lhe passivo, até que não lhe reste mais coisa alguma do desejo.
Sade diz, em sua obra, que é mais importante a liberdade própria mesmo que viole a individualidade alheia. Supervaloriza a dimensão individual face ao público, a busca do prazer e a quebra dos dogmas, pois a tirania da sociedade não pode, através de mecanismos coercitivos como a moral, cercear a vontade do homem. A luxúria é a manifestação da sua libertação, mesmo que implique na violação do direito do outro.
Daí, Sade não considera a missiva kantiana de que a única coisa que pode ser considerada incondicionalmente boa é a disposição, ou a boa vontade, de agir por puro respeito à lei moral. (KAN, apud ARAÚJO L. B. L., em http://ifcs.ufrj.rj.br/cefm/textos/LBARAUJ1.DOC) A consideração pelo "outro" também é presente em Umberto Eco, o qual enseja que a "dimensão ética começa quando entra em cena o ´outro´"[x], justamente porque "toda lei, moral ou jurídica, regula relações interpessoais, inclusive aquelas com o ´outro´ que a impõe"[xi].
Pode-se usar os "outros" como meios para atingir o fim máximo do prazer, já que ao fazê-lo consente-se automaticamente em ser usado como meio para o fim de outrem, salienta Sade. Em contraponto, Eco comenta que algumas culturas aprovam a humilhação do corpo do "outro" porque restringem o conceito de "outro" somente aos que pertencem à comunidade - os da tribo são os "outros", os de fora deste círculo são "bárbaros", seres não humanos. (ECO, 2001, p. 84) Nota-se que ambos autores falam do grupo social, no qual cada sujeito tem noção do "outro".
Mas, se em Eco, o "outro" (membro da comunidade) é limite da vontade individual, o que justifica a violência contra os "bárbaros", Sade prega que se pode violar a autonomia do "outro", desde que este esteja dentro do círculo de iniciados, ou seja, pertença à philia dos luxurientos. O "outro" e o "bárbaro" são objetos de prazer para o exercício da luxúria, em Sade. Ademais, para pertencer à comunidade, o "outro" aceita tácita ou explicitamente a violação da sua autonomia, enquanto o "bárbaro" declara a sua não humanidade ao não aceitar ser utilizado como objeto para o prazer de um ou vários indivíduos. O "outro" é, simultaneamente, sujeito e objeto de direito, um meio para alcançar a liberdade resguardada pelo Estado Republicano sadiano.
Ser humano, para Sade, implica necessariamente em agir contrariamente a qualquer tipo de consideração pelo "outro", desde que haja consentimento para que o "outro" aja da mesma forma consigo. Todos, no círculo dos luxurientos, têm que dar vazão às suas energias, por meio da exaltação e concretização dos seus desejos, para se definirem como integrantes de uma sociedade totalmente livre de preconceitos de ordem moral ou religiosa.
4-) O PRAZER E A DOR
"A tortura é, como arte de descobrir a verdade, uma tolice bárbara; é a aplicação de um meio material a um fim espiritual." (Charles Baudelaire, Arabescos filosóficos, p. 32)
A otimização do prazer e a renúncia à dor são a tônica do utilitarismo. Os positivistas ingleses, como também são conhecidos, apregoam o prazer máximo, contraposto ao mínimo de sofrimento, como aquilo que justificaria todo seu sistema ético, em todas suas variáveis. Como ficaria, então, esta perspectiva diante de Sade, que demole as fronteiras entre o prazer a dor? Segundo Peluso, "o sadismo seria uma hipótese moralmente impossível, pois, não há forma de se obter prazer da dor própria ou alheia."[xii] Quer dizer, para ser humano, se deve ser racional. Para ser moral, se deve ser racional e, portanto, humano. Seguindo esta argumentação, um adepto do sadismo, cultuador dos "prazeres baixos", seria um irracional, conforme Peluso.
Entretanto, há de se levar em conta aquilo que se considera moralmente certo ou errado na filosofia utilitarista, tal como o cálculo daquilo que vai levar mais prazer ao maior número possível de pessoas, em detração à menor quantia possível de sofrimento ao menor número possível de pessoas. Sobre isso, Lawrence e Charlotte Becker falam:
"Utilitarian sexual ethics can, in any event, be restrictive or permissive, depending on the truth of empirical assertions about the consequences of sexual behaviour (or about the consequences of trying to prevent sexual behaviours). In addition to depending on contestable notions if well-being, the empirical claims underlying utilitarian judgments are difficult to verify. Neverthless, a case can be made that a prima facie right to engage in sex do exist: the value of pleasure per se and its role in the good life, and the contribution shared pleasure makes to the value of personal relationships. Private, consensual sexual activity creates much good and, if harm to third parties, is avoided, no bad, and on this score would be blessed by utilitarianism."[xiii]
Assim, é difícil verificar quais seriam os julgamentos válidos por um utilitarista devido à variabilidade de noções de bem-estar[xiv] e, mesmo, daquilo que se concebe como prazer. O valor do sexo, por si mesmo, é bom e faz parte do bem-viver, conforme Lawrence e Charlotte Becker, portanto, estes prazeres, se compartilhados, têm um papel fundamental nas relações interpessoais, indiferentemente aos tipos de comportamentos sexuais "aceitáveis". No entanto, em total desatino com as convenções sádicas da philia luxurienta, argumentam que tais práticas sexuais, mesmo as "socialmente recriminadas", devem ser privadas e consensuais, não devendo, com seus atos libidinosos, prejudicar as pessoas não envolvidas no jogo erótico.
5-) CONCLUSÃO
"O homem, isto é, todos os homens são tão naturalmente depravados que sofrem menos pelo abaixamento universal que pelo estabelecimento duma hierarquia razoável." (Charles Baudelaire, Arabescos filosóficos, pp. 22-21)
Ao declarar o Estado como gerente da luxúria, Sade eleva-a ao status de dever, ou seja, transforma-a no fundamento de uma norma imposta objetivamente à observância de todos que, ao invocarem-na para si, reclamam "tutela jurisdicional" para a libertação de toda tradição judaico-cristã e a obtenção do prazer máximo. Se houver um conflito de interesses, será "juridicamente protegido" aquele que estiver sob o império da luxúria, pois, em vez da virtude baseada na natureza, em Deus, na razão, Sade salienta o plano físico e se apega na glorificação do vício, que deve exaltar a vontade individual, outrora amordaçada pela imposição de sentimentos de moralidade que possibilitaram a concentração do poder nas mãos do monarca.
Em Sade, o vício é a virtude e a negação de juízos morais, a chave para o bem-viver, sem remorsos ou amarras da consciência. A conclusão, para o libertino, é construir um outro sistema de valores que não negue a real essência humana - que se guia por prazeres, de todos os tipos, sendo, o prazer carnal ou material o mais importante - para que, finalmente, o homem possa ser livre em sua plenitude, como nunca fora antes. Desta forma, segundo Sade, ser feliz é viver em desacordo com a lei moral (na conceituação tradicional), acalentado por outras leis, que trarão outra ordem, mantida pela "jurisdição da luxúria".
BIBLIOGRAFIA
ARAÚJO, Luiz Bernardo Leite. http://www.ifcs.ufrj.br/cefm/textos/LBARAUJ1.DOC. 1 maio 2001.
BECKER, Lawrence and Charlotte. Sexuality and sexual ethics. The encyclopedia of ethics. 2nd Edition. New York (USA): Garland Publishing Co., 1998. http://www.uno.edu/~phil/BECKER.htm .
BLAKE, William. O matrimônio do céu e do inferno /O livro de Thel. Edição bilíngüe traduzida por José Antônio Arantes. São Paulo (SP): Iluminuras, 1987. Traduzido de The marriage of heaven and hell / The book of Thel.
ECO, Umberto; MARTINI, Carlo Maria. Em que crêem os que não crêem. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro (RJ): Record, 2001. Traduzido de In cosa crede chi no crede?
NOVAES, Adauto (org). Ética. 1. ed. 3. reimpressão. São Paulo (SP): Companhia das Letras, 1994.
PELUSO, Luis Alberto (org.) Ética & utilitarismo. Campinas (SP): Editora Alínea, 1988.
SADE, Marques de. Filosofia na alcova. Tradução, prefácio e notas por Augusto Contador Borges. São Paulo (SP): Iluminuras, 1999. Traduzido de La philosophie dans le bodoir" (Les instituteurs imoraux).
[i] Parafraseando John RAWLS, em A teoria da justiça como eqüidade: uma teoria política, e não metafísica, no livro Justiça e democracia, pp. 199-242.
[ii] SADE, Marquês de. Filosofia na alcova, p. 129.
[iii] Utiliza-se o termo "juridicamente protegido" pela falta de outro melhor que caracterize a institucionalização da luxúria, que lhe concede características de princípio gerador de uma norma.
[iv] Idem, ibidem, pp. 125-171.
[v] A moral como fator ineficiente para atingir a felicidade é descrita por Antônio Contador BORGES, tradutor de Filosofia na alcova, p. 227.
[vi] PESSANHA, José Américo. As delícias do jardim. In: NOVAES, Adauto. Ética, p. 79.
[vii] BLAKE, Willian. O casamento do céu e do inferno / O livro de Thel, p.12. "Não há progresso sem Contrários. Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio são necessários à existência humana.
Desses contrários emana o que o religioso denomina Bem & Mal. Bem é o passivo que obedece à Razão. Mal, o ativo emanando da energia.
Bem é Céu. Mal é inferno."
[viii] Idem, ibidem, p. 13-14.
[ix] Para Sade, porém, o que torna o homem subserviente não é a razão, mas sim a moral e a religiosidade.
[x] ECO, Umberto. Quando o outro entra em cena. In: Em que crêem os que não crêem?, p. 83
[xi] Idem, ibidem.
[xii] PELUSO, Luis Alberto. Utilitarismo e ação social. In: Ética & utilitarismo, p. 19.
[xiii] BECKER, Lawrence and Charlotte. Sexuality and sexual ethics. In: The encyclopedia of ethics, http://www.uno.edu/~phil/BECKER.htm.
[xiv] Refere-se aqui bem-estar como well-being, levando em conta o indivíduo, e não como wellfare, de caráter economicista.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
A irmandade

Existiu um Messias, concebido por uma humana e vindo por questão divina. Mas, nesta sociedade secreta, há outros escolhidos, por suas virtudes terrenas que muitas vezes podem, ou não, coincidir com os desígnios de Deus.
terça-feira, 9 de junho de 2009
Densha Otoko e os amigos da internet



segunda-feira, 8 de junho de 2009
Da função das penas: do suplício do corpo ao suplício da imagem

Durante muito tempo, os conceitos de crime e pecado eram praticamente unos, por influência do Direito Canônico. As figuras do acusador e a do defensor público foram inovações trazidas pelo Tribunal do Santo Ofício, que, não raro, invadiam a competência dos Estados. Sua competência originária era apurar e julgar a heresia. Mas o que se pode definir como heresia? Quase tudo o que bem entendesse o inquisidor.
sábado, 6 de junho de 2009
Música da vida inteira

Foto: Meu avô e eu, quando eu ainda era um ser humano. Depois a gente cresce e vira essa coisa que escreve esses bagulhos estranhos nesse blog. rs rs rs.
“Good bye my friends, I´m leaving you today. My quest is high and I must to find my way.” (Música Farewell, da banda Gamma Ray. Tradução: “Adeus meus amigos, estou lhes deixando hoje. Minha missão é grande e eu devo procurar meu destino.”)
As pessoas têm características únicas, indelegáveis e personalíssimas. Cada uma tem uma história, uma mensagem, uma missão nesta vida. Individualmente, carregam consigo uma melodia que lhes permite identificar seu temperamento, caráter ou demais qualidades. Tal como um ruído extravagante, às vezes, alguns nos causam arrepios e nos espantam, por assim dizer. Entretanto, podemos afirmar que se encontramos seres humanos que, somente pela sua presença, transmitem uma energia, uma sabedoria, como uma onda celestial, vibrando através de tudo, podemos dizer que, de certa maneira, fomos abençoados com uma graça muito superior a qualquer coisa que conhecemos. Esta música, que cada um tem em si, vaza pela matéria e permanece na memória dos que ficam, através de flashbacks e outros assuntos inesquecíveis. Algo assim ocorreu na minha vida. E esta é uma música de uma vida inteira que vou guardar comigo até o fim dos meus dias.
Ao som das ondas batendo contra os rochedos e da brisa varrendo as areias da praia, Schincho Ishigaki lê atônito um documento. Sua irmã lhe enviara uma carta, comunicando-lhe que ficara viúva, com dois filhos menores para cuidar. Num país recém-castigado pela guerra contra a Rússia, o jovem com seus 20 anos tomou uma decisão que iria mudar os destinos de muitos. Franzino e calado, mas muito decidido, despediu-se lentamente da sua terra natal, uma ilha homônima (ver Ishigaki Shima, no mapa abaixo) ao seu sobrenome, para adentrar na mais maravilhosa das aventuras que imaginara. Atitude, no mínimo, admirável.

Ao zarpar do navio, o belicoso Hino Nacional Japonês era entoado pela multidão que partia para a terra prometida, o Brasil. “Kimi ga yo wa...” Uma viagem longa, de quase um ano, atravessando o Oceano Pacífico, certamente não era para qualquer um. Mas estes intrépidos personagens reais enfrentaram isto e muito mais ao longo das suas existências. Canções folclóricas serviam para enfrentar os enjôos e a insalubridade dos navios. O shamisen (tipo de um banjo japonês) era freqüente nas rodas de amigos que se formavam durante a viagem.
Músicas peculiares a cada província dos aventureiros mostravam a diversidade cultural de um povo aparentemente homogêneo. Em semelhança aos navios negreiros, muitos não resistiam à viagem e tinham seus corpos jogados ao mar. A embarcação dava uma volta em redor do corpo e seguia novamente a viagem.
Yanawaraba - banda de Ishigaki Shima (Okinawa, Japão), formada por Ishigaki Yuu (sanshin e vocal) e Ayzato Riyo (violão e vocal)
No Porto de Santos, depois do apito do navio, escutavam o Hino Nacional Brasileiro, numa recepção que era um misto de alegria, mistério, desejo e receio, tudo ao mesmo tempo. Depois disto, partiam para o interior da Terra Brasilis. A saudade da terra natal e a esperança de para lá retornarem ricos eram presenciadas nas canções e cantigas, entoadas pelos grupos, nas roças, arados e outros serviços rurais.
O dinheiro nunca era o suficiente. Mas a vontade de ser alguém era enorme e o espírito guerreiro, também. O jovem Schincho encontrou a irmã, mais os filhos dela. Apesar da pouca diferença de idade com seus sobrinhos, fez as vezes de pai, tio e avô ao mesmo tempo. Com tudo encaminhado, encantou-se com a irmã de um amigo, chamado Takahide Daijó. A moça de gênio temperamental era Yoshiko Oshiro. O início da relação fora tempestuoso. Mas deixadas de lado as diferenças, suas músicas se encontraram em perfeita harmonia, originando um ser quase que uno, na imensidão de sons que amealhava-lhes a resistência.
Desta união, surgiram novos costumes e outros sonidos, um misto da bagagem oriental com o aprendizado adquirido no solo brasileiro: os filhos (Mário, Júlia, Marisa e Jorge). Mas até atingir a harmonia, existe o eterno conflito, o jogo de forças antagônicas e complementares. A melodia nipônica e a brasileira chocavam-se com estrondo, causando guerras internas – nos filhos – e no próprio casal, na condução da sinfonia das suas vidas.
Mas a mensagem das suas músicas era muito poderosa e envolvente. Mas precisava de gingado. Na fuga das plantações e no contato com os clientes, no comércio de produtos agrícolas, o casal adicionava ritmo à sua harmonia. Schincho, quieto e detalhista, comprava as mercadorias e administrava os negócios. Sua cônjuge, elétrica e falante, tinha o perfil de uma vendedora nata, de dar inveja uma ponta aos executivos mais afinados com as técnicas de venda.
E assim, conduziram a melodia das suas existências até chegarem ao adágio da aposentadoria. Forçados pelos filhos, venderam a banca no mercado municipal. Birrentos, como a maioria dos idosos nipônicos, cederam sem querer dar o braço a torcer. Mas perceberam que era hora de tocar em frente outra parte da sua sinfonia, os seus netos. Um deles, aliás, carrega seu nome (Francisco Schincho Moshin, o Chico, o baixista da banda Blackberry), numa homenagem que lhe levou aos prantos – uma das raras vezes na sua vida.
Um derrame cerebral dificultou as peripécias de Schincho, mas auxiliado pela filha Marisa, retomou a batuta e reconduziu sua vida. Sua companheira de vida, contudo, ainda não se adaptava ao novo andamento da música conjunta. Por isso, ouvia-se, às vezes, as interjeições do patriarca, fazendo com que sua esposa se encaixasse novamente no tempo.
Mas toda música tem um fim e um novo derrame lhe fez perder a condução da sua orquestra. Foram quase 20 dias de silêncio, no hospital, que lhe deram a condição de ouvinte da sinfonia que ajudara a criar. Esposa (Yoshiko), filhos (Mário, Júlia, Marisa, Jorge), genros (Moko e Jorge), noras (Marilene e Reiko) e netos (Roger, Lilian, Chico, Tato e Juliana) – no limite do permitido – entravam na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e sopravam-lhe mensagens de esperança no ouvido. Mesmo com toda a expectativa, às 13h15 de 27 de julho de 2001, o maestro passou a titularidade da orquestra para sua companheira e impôs a si mesmo um nível mais alto de composição, junto aos seus pais e ancestrais, num grau de abstração ininteligível para nossa finitude e pequenez.
Uma música tão bem elaborada e executada assim nunca será esquecida, até porque se incorpora como elemento fundamental das outras composições, ao longo das suas vidas. Este maestro, caros leitores, eu tive a honra de chamar de avô. Se escrevo estas linhas hoje, devo muito a ele, que sempre incentivou meus estudos, embora atentando-me sempre para não me desviar do caminho das virtudes e, principalmente, da humildade. Não sei se sou digno dos seus ensinamentos e se conseguirei mantê-los intactos. Espero que esteja regendo esta música, lá de cima, guiando-me nos meus passos à excelência. E quando este dia chegar, sei que estaremos juntos novamente.
