sexta-feira, 12 de junho de 2009

As aranhas


Aranhas. O velho só via aranhas. A causa de todo o mal do mundo eram os aracnídeos. Na boca, apenas os dentes molares, os outros já estavam perdidos pelo mundo. Cabelos brancos, olhos cansados, quase fechando, mas que tinham o brilho daqueles que estão sob domínio da loucura.


De casa em casa, vagava pedindo algum tipo de ajuda para a sua subsistência. As pessoas, enojadas, ofereciam qualquer coisa para que a grotesca figura fosse logo embora. Os pés descalços e calejados erravam sem destino, em um compasso lento, confuso e desesperado.

Volta e meia, algum ou outro cidadão dava um pouco mais de atenção ao velho. O ancião, já desprovido de razão, narrava as façanhas das aranhas, como elas se apoderavam do mundo lenta e constantemente. Quase ninguém tinha paciência de agüentar os delírios do idoso. A maior parte o enxotava como a um animal.

Dormia ao relento. Não tinha família. Os filhos o abandonaram quando perdeu a fortuna. Foras rico outrora. Muito poderoso, guiava os destinos de grande parte das pessoas de um país. Perdeu tudo. O descontrole de suas empresas, ocasionadas pela negligência de um rico vaidoso, marcou o início do fim de um império.

Quis aproveitar a vida. Deixou os seus bens para os dois filhos. Vivia cercado das mulheres mais desejadas pelos mortais. Tudo o que queria no momento era o ócio. Já tinha trabalhado demais na vida. Os filhos que fizessem o resto.




Intrigas, lutas pelo poder. Ganância e vaidade corroeram os dois irmãos. Cada qual exigia mais posses, nada bastava. Quanto mais se tinha, mais se queria. O velho não gostava de ver os seus filhos brigando. Decidiu dar um basta. Queria ter o controle de tudo novamente.

Os dois filhos, muito astutos, não queriam renunciar ao poder que lhes fora conferido. Uniram-se contra o pai. Contrataram pessoas para enlouquecerem o pobre homem. Mordomos, mulheres, médicos e amigos conspiravam 24 horas por dia contra a sanidade do velho.

O velho, cada vez mais cabisbaixo e ignorado, criou um mundo isolado. Não sabia mais o que era real e o que era fantasia. O mundo tornou-se hostil. Deixavam-no trancado no porão, junto aos insetos, ratos e animais das sombras. Para todos, ele tinha desaparecido misteriosamente em uma excursão ao Pantanal. Provavelmente, tinha sido mais uma vítima de alguma fera selvagem ou de piranhas.

Queriam humilhar o velho por tudo o que tinha feito antes: manipular pessoas, como bonecos de um mórbido teatro particular, no qual todos saíam perdendo. Parou de dialogar com os seres humanos. Era rodeado de aranhas. Quem o bajulava antigamente eram as aranhas disfarçadas de homens. Seus filhos nunca foram seus filhos. Foram, desde o nascimento, aranhas destinadas a fazer-lhe o mal.

Quando o velho estava irreconhecível, jogaram-no ao mundo. Não era mais altivo e saudável, com músculos salientes, apesar da idade. Via-se somente mais um maltrapilho, daqueles que vagueiam pelas ruas. O rosto imbecilizado, um leve sorriso desiludido. Não tinha passado ou vida. Já fora dado como morto pelos entes conhecidos. Era mais um louco, um joão-ningúem.

Andava. Não sabia para onde. Andava. Só havia aranhas na sua mente debilitada. Todos temiam-no, mas de um modo diferente. Causava medo pelo asco que emanava. Não pela sua onipotência.

Ficou conhecido no folclore da cidade como o “Velho das Aranhas”. A qualquer lugar que ia, era imediatamente reconhecido. Um dia, deitou-se e nunca mais se levantou. Ficou estirado no meio da calçada de um bairro nobre da cidade.

Olhos esbugalhados, transmitindo pavor e abandono. A boca aberta alagada de sangue tísico e anêmico. Um ruído exalava de sua boca. Era a última vez em que seus pulmões trabalhavam. Seu corpo começava a ficar frio, diante do calor do verão e da multidão. Todos os carros e pedestres envolta do velho. Ninguém parava. Para eles era tudo normal. Era só mais um mendigo que deixava de incomodar o visual da cidade.

Todos passavam. Mas ninguém via. Na mão do velho, um pequeno artrópode ainda estava vivo. Na palma direita daquele que um dia foi um ser humano, havia uma aranha caminhando para a liberdade.

O presente de Joãozinho



João, um cachorrinho preto, tem 1 ano e, periodicamente, vai ao médico veterinário. Tratado com todo conforto, passa por todos os exames aos quais tem direito. Assim, tem sua saúde preservada. De natal, ganhou uma bola só pelo fato de existir e proporcionar alegria aos seus donos. De tão importante, Joãozinho fez um check-up completo, só por segurança.


Também existe um outro João. Ninguém lhe dá comida, ele é magrinho e bem fraquinho. Apesar de ficar constantemente ao Sol, solto pelas ruas, sua aparência é pálida por causa da verminose, uma doença ridícula. Quando esboça um olhar de faminto, sempre surge alguém para chutar-lhe as ancas. De natal, ganhou de presente um tiro na cabeça só porque estava atrapalhando a missa. E ninguém deu bola porque João era um menino de rua.






Trailer do filme "Hotaru no Haka" (O túmulo dos vagalumes) - fala das crianças japonesas que morreram de fome durante a II Guerra Mundial. Mas a mensagem é universal, vale para todos. Trilha sonora: "Tears" (X-Japan)

Com ou sem você


Aqui postado contra o Sol, tenho um ângulo privilegiado, que me permite ver seu rosto refletindo a luz da manhã. Suas pupilas escuras, em contraste com as íris castanhas, parecem pedrinhas cujo brilho se acentua devido a ação dos raios solares. São jóias bem no meio dos seus olhos, infinitamente mais preciosas para mim que para qualquer outro. Qual a consistência do valor dessas coisas para os que não fazem parte deste relacionamento? Não me interessa, nem um pouquinho. Rasgo as cédulas e as jogo no rio, porque o que vale é o que está discriminado nas cláusulas do nosso contrato leonino; você fica com tudo e eu, com nada.
Dos seus olhos irradia a minha vontade de existir, muito embora, nem sempre estejamos de acordo. As suas vontades e as minhas vontades têm um ponto em comum, apesar das nossas diferenças. Mas eu lhe vejo, ao lado dos arbustos rebuscados, me esqueço de tudo e lhe aguardo.


Jeitosamente e com ajuda das reviravoltas do destino, atraiçoa-me e me deixa esperar. A angústia da nossa distância, no espaço e no tempo, é como se estivesse deitado numa cama de pregos. Mesmo ao véu da sua doce tortura, espero por você. Tanto faz se vem ou não. Questiono-me: como fico, com ou sem você?

Naquele dia em que saímos do mar revolto, impiedoso por causa de uma tempestade, e alcançamos a praia. Com nossas peles temperadas e curtidas pelo litoral, você disse que me amava. Entregou-se totalmente, mas eu queria e quero muito mais. Estou esperando por você. Aguardo, sem você. Com ou sem você, para sempre, como quiser, até que não haja mais amanhecer.

A implosão que me joga contra o vazio da sua não presença implica numa súplica das suas carícias por toda a extensão da minha pele. Esses toques suaves penetram pelos poros e atravessam, gradativamente, a derme e a epiderme, contagiando os tecidos. A sua substância entra na corrente sangüínea que a distribui para todas as células do meu organismo. Você faz parte de mim, em definitivo, como uma essência que torna vermelho o meu sangue e lhe dá o gosto agridoce, que alimenta os vampiros de todas as espécies.

Você me transformou num usuário do lhe servir, viciando-me com fragmentos do seu próprio ser. Depois, sumiu repentinamente, sem dar maiores explicações, e me largou sozinho para apreciar, simplesmente, as partículas subatômicas do seu odor. Fiquei sem a fonte para suprir minha necessidade de você, pois geralmente sua voracidade se desfaz quando está saciada, o que lhe deixa indiferente aos aspectos exteriores a sua personalidade, rompendo o nexo de causalidade do nosso ciclo biológico.

Estou totalmente dependente e você sabe disso. Necessito sentir seus lábios contra os meus e envolver o seu corpo contra o meu, atando-os com meus braços, roçar os seus seios e sentir o seu amor, plenamente, sem nada para atrapalhar.





Sua língua vermelha toca meu lóbulo esquerdo e me arrepio só de pensar no que você pode fazer comigo. Tal submissão é a sua vantagem, e por ter certeza disso, me faz de gato e sapato, num jogo de contradições que você mesma cria para me manter o seu escravo. Neste emaranhado de ilusões, nos desligamos da razão e damos vazão somente aos nossos sentidos, num misto de posições que escapam ao nosso controle racional. Somos um uníssono, uma teia intrincada e perfeita, na qual nos tornamos prisioneiros de nós mesmos. Mas você é a artesã que tece os fios e me ata junto ao seu corpo.

Não tenho escapatória. Você se deleita com meu estado de fragilidade e me põe debaixo do salto do seu sapato: só um ponto de pressão e estou liquidado, sem retorno para amarrar-me ao seu corpo novamente. Num estalar de dedos, você some sem deixar vestígios, abandonando-me novamente no meu vício de lhe desejar, num contínuo querer. Sou um parasita dependente do seu ser e você um parasita que usa da minha vontade de lhe servir.

Minhas mãos estão presas e minha carcaça está esgotada. Não tenho mais nada a ganhar ou perder. Você sabe disso e se aproveita ainda mais. Estou acabado, devido a sua ação, e não posso continuar mais desse jeito, pois preciso de você ao meu lado para pôr fim a este sofrimento. Sentado aqui, na escadinha da frente da minha casa, sei que só serei curado quando você estiver em definitivo ao meu lado. Aqui mesmo, no terceiro degrau da escadinha de lajota vermelha, queria que nós dois estivéssemos sentados, de mãos dadas, tomando um sorvete, vendo as pessoas passarem, e jogando conversa fora.



Há sempre uma chance de se fazer uma escolha. Mesmo se tudo parece sem sentido e as saídas parecem ser túneis para o obscuro, existe uma escapatória, uma passarela para a luz. Deixo você decidir o que fazer quando chegar o momento. Dependo da sua essência para garantir a minha existência, por isso, estou perdido quer com sua presença quer com sua ausência. Por hora, eu lhe espero e você sabe: meu sofrimento - tal como agora estou - prevalece, com ou sem você. Dos males, eu escolho martirizar-me todos os dias, pois meu sofrimento só é mais ameno quando eu amo você.



* Conto baseado na música "With or Without You", do LP "The Joshua Tree", do grupo irlandês U2.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

MARQUÊS DE SADE: A CONVERSÃO DO VÍCIO EM VIRTUDE E A LIBERTAÇÃO DO INDIVÍDUO PELA INSTITUCIONALIZAÇÃO DA LUXÚRIA








"No moral, como no físico sempre tive a sensação de abismo, não somente do abismo do sono, mas da ação, do devaneio, da recordação do desejo, da saudade, do remorso, do belo, do ritmo, etc.
Cultivei minha histeria com alegria e terror. Agora sempre tenho vertigens, e hoje, 23 de janeiro de 1962, recebi singular advertência, senti passar por mim o vento da asa da imbecilidade.(Charles Baudelaire, Arabescos Filosóficos, p. 21)





1-) INTRODUÇÃO




Sempre associamos a ética com nobreza, virtude, caráter distintivo. E se tudo fosse ao contrário? E se a dignidade do ser humano (cada um ser visto como um fim em si mesmo) fosse ignorada e todos fossem usados como meios para a satisfação dos seus prazeres? Tentamos explorar esta proposta. Toda forma possível de prazer carnal, sem limites, nem orientações tal como se conhece no mundo influenciado pela tradição judaico-cristã. Sem delimitações entre o prazer e a dor, nada como fronteira, nem leis - no sentido usual - ou advertências morais, aliás, ambas rejeitadas por oferecerem certa subserviência à real natureza humana, que seria totalmente livre em sua concepção original. Com base na obra Filosofia na alcova, do Marquês de Sade, este texto se limita a discutir, sob o prisma também de alguns filósofos, os ingredientes que constituem aquilo que os religiosos - católicos, sobretudo - taxam como sendo um dos sete pecados capitais: a luxúria.

Geralmente, ao se falar em luxúria vêm à mente atos libidinosos dos mais variados gêneros e espécies, que alimentam as imaginações nos cantos mais escondidos da mente, longe do intimidante olhar dos outros. Sade abomina a moralidade cristã e justifica sua luxúria como um complemento da República, um reforço contra a Monarquia, que ajudou a combater. Enseja a revolução da dentro da revolução; só a mudança da forma de governo não é o bastante, há de se mudar também os pormenores sutis da sociedade.

Para ele, nesta nova forma de governo, a República, há ainda necessidade de se remodelar a "superestrutura" da sociedade, desligando-a completamente dos vestígios dominiais da monarquia, esta sustentada pela ideologia da Igreja. Sade abraça a luxúria e põe em xeque a validade da moral, algo que impediria a liberdade plena do homem, no plano físico. Se há uma dimensão terrena e outra metafísica, Sade prefere nitidamente a primeira. Afirma que é necessário viver com toda voracidade nesta vida e no presente, em vez de esperar por algo incerto. Sua idéia é, então, calcada no eroticamente possível, e não metafísico
[i], num embate aos princípios da moralidade cristã, que acredita serem inócuos e, portanto, vazios. Por isso, diz:

"Sentiu-se que este deus quimérico, prudentemente inventado pelos primeiros legisladores, não passava em suas mãos de um meio a mais para nos acorrentar, e que, reservando-se o direito de só fazer falar este fantasma, saberiam fazê-lo dizer apenas o que serviria de apoio às leis ridículas por meio das quais pretendiam nos escravizar."
[ii]

Reiterando explicitamente o despotismo da luxúria como o único aceitável, o marquês esclarece a ligação que havia entre Monarquia e religião na dominação - constitucional e ideológica, respectivamente - do povo. De acordo com Sade, a conexão entre a religiosidade e os déspotas está em vigência desde há séculos, portanto, deve-se destruir uma das partes para que a outra caia (SADE, 1999, p.135), sendo, ademais, muitas vezes necessário lutar para que houvesse realmente a queda da segunda, apagando totalmente os vestígios dominiais anteriores. O Estado Republicano deve impor oficialmente a luxúria como o seu valor mais elevado, estando os interesses a ela subordinados "juridicamente protegidos"
[iii], exatamente por contrariarem todos os estratagemas ideológicos que agraciavam a Monarquia. Portanto, Sade compreende que é preciso educar, preparar e inserir os cidadãos numa nova sociedade que erige suas normas em conformidade com a real natureza humana, com liberdade total para que possam perseguir seus interesses sem barreiras coercitivas intrínsecas (o temor a Deus, ou a seus agentes) ou extrínsecas (olhares e recriminações) e se satisfazerem conforme acordarem mais conveniente.


2-) DA PHILIA E DA INICIAÇÃO LUXURIENTAS


"As nações só têm grandes homens contra a vontade delas, - como as famílias. Elas fazem todos os esforços para não os ter. Por isso, o grande homem precisa, para sobreviver, possuir uma força combativa maior que a força de resistência desenvolvida por milhões de indivíduos." (Charles Baudelaire, Arabescos filosóficos, pp. 10-11)


A iniciação luxurienta, em Filosofia na alcova, se dá na figura de Èugenie, uma virgem aristocrata, filha de um nobre libertino e de uma mãe católica fervorosa. A corruptora é a Madame de Saint-Ange e o mentor intelectual, o senhor Dolmancé. O livro todo é permeado de passagens libertinas, com o intuito de prender a atenção do leitor, entretanto, o que realmente vale no pensamento de Sade está no meio da obra[iv], num capítulo intitulado "Franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos".

A luxúria, na obra de Sade, não é para qualquer um. Deve ser praticada num "contexto social", uma confraria de luxurientos, cujos membros concordariam que a moral não leva os homens à verdadeira felicidade.
[v] Na philia epicurista, os vínculos não são políticos ou religiosos, constituem "condição para construção - se não há salvação coletiva - da subjetividade livre, desalienada, incólume ao despotismo dos desejos irracionais, das falsas opiniões e dos temores infundados, inatingível pelas tiranias do mundo".[vi]

A philia sadiana tem em comum com o hedonismo epicurista esta visão de confraria, em prol da libertação plena do sujeito, mediante uma aglutinação, das imposições de qualquer grandeza. Em Sade, porém, sua manifestação não está nos valores metafísicos, da alma, ou qualquer outra instância superior; está naquilo que pode ser feito neste plano de existência, que se encontra amarrado pela moral sustentada pela religião, suporte, por sua vez, da tirania.

Os cidadãos ao clamarem a liberdade para si, destronando o monarca - monopolizador das vontades -, não podem esquecer-se de implantar, junto com a República, uma nova ideologia que os libertará das amarras da anterior. Nesta espécie de contrato social, a norma hipotética fundamental é a luxúria, deliberada em estado de total liberdade, e imposta à observância de todos, como o arcabouço da constituição de um Estado, cujo conteúdo sociológico, a Nação, estaria fortalecida porque as pessoas (o povo, elemento político) estariam ligadas por laços muito fortes de fraternidade carnal, acima da família e das classes sociais.


3-) LUXÚRIA COMO LIBERTAÇÃO



"Sentimento de solidão desde minha infância. Até entre a família, - e no meio dos camaradas, sobretudo -, sentimento de destino eternamente solitário. Entretanto, amor muito acentuado à vida e ao prazer." (Charles Baudelaire, Arabescos filosóficos, p. 30)


Em Filosofia na alcova, Sade discorre sobre o mal como a antítese do bem, aquilo que vai proporcionar algo novo. Resgata a antigüidade greco-romana, moldada conforme sua visão, para legitimar seu pensamento libertino. William Blake, poeta e artista plástico inglês, pensa de maneira semelhante, tanto que diz que não há progresso sem contrários, num jogo de palavras antônimas, que coloca como complementares.
[vii] Ao escrever que "Energia é o Deleite Eterno"[viii], Blake entende, como Sade[ix], que aquele que não dá vazão ao seu desejo assim o faz porque o seu desejo é demasiadamente fraco, portanto, a razão toma-lhe o comando, tornando-lhe passivo, até que não lhe reste mais coisa alguma do desejo.

Sade diz, em sua obra, que é mais importante a liberdade própria mesmo que viole a individualidade alheia. Supervaloriza a dimensão individual face ao público, a busca do prazer e a quebra dos dogmas, pois a tirania da sociedade não pode, através de mecanismos coercitivos como a moral, cercear a vontade do homem. A luxúria é a manifestação da sua libertação, mesmo que implique na violação do direito do outro.

Daí, Sade não considera a missiva kantiana de que a única coisa que pode ser considerada incondicionalmente boa é a disposição, ou a boa vontade, de agir por puro respeito à lei moral. (KAN, apud ARAÚJO L. B. L., em http://ifcs.ufrj.rj.br/cefm/textos/LBARAUJ1.DOC) A consideração pelo "outro" também é presente em Umberto Eco, o qual enseja que a "dimensão ética começa quando entra em cena o ´outro´"
[x], justamente porque "toda lei, moral ou jurídica, regula relações interpessoais, inclusive aquelas com o ´outro´ que a impõe"[xi].

Pode-se usar os "outros" como meios para atingir o fim máximo do prazer, já que ao fazê-lo consente-se automaticamente em ser usado como meio para o fim de outrem, salienta Sade. Em contraponto, Eco comenta que algumas culturas aprovam a humilhação do corpo do "outro" porque restringem o conceito de "outro" somente aos que pertencem à comunidade - os da tribo são os "outros", os de fora deste círculo são "bárbaros", seres não humanos. (ECO, 2001, p. 84) Nota-se que ambos autores falam do grupo social, no qual cada sujeito tem noção do "outro".

Mas, se em Eco, o "outro" (membro da comunidade) é limite da vontade individual, o que justifica a violência contra os "bárbaros", Sade prega que se pode violar a autonomia do "outro", desde que este esteja dentro do círculo de iniciados, ou seja, pertença à philia dos luxurientos. O "outro" e o "bárbaro" são objetos de prazer para o exercício da luxúria, em Sade. Ademais, para pertencer à comunidade, o "outro" aceita tácita ou explicitamente a violação da sua autonomia, enquanto o "bárbaro" declara a sua não humanidade ao não aceitar ser utilizado como objeto para o prazer de um ou vários indivíduos. O "outro" é, simultaneamente, sujeito e objeto de direito, um meio para alcançar a liberdade resguardada pelo Estado Republicano sadiano.

Ser humano, para Sade, implica necessariamente em agir contrariamente a qualquer tipo de consideração pelo "outro", desde que haja consentimento para que o "outro" aja da mesma forma consigo. Todos, no círculo dos luxurientos, têm que dar vazão às suas energias, por meio da exaltação e concretização dos seus desejos, para se definirem como integrantes de uma sociedade totalmente livre de preconceitos de ordem moral ou religiosa.


4-) O PRAZER E A DOR


"A tortura é, como arte de descobrir a verdade, uma tolice bárbara; é a aplicação de um meio material a um fim espiritual." (Charles Baudelaire, Arabescos filosóficos, p. 32)



A otimização do prazer e a renúncia à dor são a tônica do utilitarismo. Os positivistas ingleses, como também são conhecidos, apregoam o prazer máximo, contraposto ao mínimo de sofrimento, como aquilo que justificaria todo seu sistema ético, em todas suas variáveis. Como ficaria, então, esta perspectiva diante de Sade, que demole as fronteiras entre o prazer a dor? Segundo Peluso, "o sadismo seria uma hipótese moralmente impossível, pois, não há forma de se obter prazer da dor própria ou alheia."
[xii] Quer dizer, para ser humano, se deve ser racional. Para ser moral, se deve ser racional e, portanto, humano. Seguindo esta argumentação, um adepto do sadismo, cultuador dos "prazeres baixos", seria um irracional, conforme Peluso.

Entretanto, há de se levar em conta aquilo que se considera moralmente certo ou errado na filosofia utilitarista, tal como o cálculo daquilo que vai levar mais prazer ao maior número possível de pessoas, em detração à menor quantia possível de sofrimento ao menor número possível de pessoas. Sobre isso, Lawrence e Charlotte Becker falam:

"Utilitarian sexual ethics can, in any event, be restrictive or permissive, depending on the truth of empirical assertions about the consequences of sexual behaviour (or about the consequences of trying to prevent sexual behaviours). In addition to depending on contestable notions if well-being, the empirical claims underlying utilitarian judgments are difficult to verify. Neverthless, a case can be made that a prima facie right to engage in sex do exist: the value of pleasure per se and its role in the good life, and the contribution shared pleasure makes to the value of personal relationships. Private, consensual sexual activity creates much good and, if harm to third parties, is avoided, no bad, and on this score would be blessed by utilitarianism."
[xiii]

Assim, é difícil verificar quais seriam os julgamentos válidos por um utilitarista devido à variabilidade de noções de bem-estar
[xiv] e, mesmo, daquilo que se concebe como prazer. O valor do sexo, por si mesmo, é bom e faz parte do bem-viver, conforme Lawrence e Charlotte Becker, portanto, estes prazeres, se compartilhados, têm um papel fundamental nas relações interpessoais, indiferentemente aos tipos de comportamentos sexuais "aceitáveis". No entanto, em total desatino com as convenções sádicas da philia luxurienta, argumentam que tais práticas sexuais, mesmo as "socialmente recriminadas", devem ser privadas e consensuais, não devendo, com seus atos libidinosos, prejudicar as pessoas não envolvidas no jogo erótico.


5-) CONCLUSÃO


"O homem, isto é, todos os homens são tão naturalmente depravados que sofrem menos pelo abaixamento universal que pelo estabelecimento duma hierarquia razoável." (Charles Baudelaire, Arabescos filosóficos, pp. 22-21)


Ao declarar o Estado como gerente da luxúria, Sade eleva-a ao status de dever, ou seja, transforma-a no fundamento de uma norma imposta objetivamente à observância de todos que, ao invocarem-na para si, reclamam "tutela jurisdicional" para a libertação de toda tradição judaico-cristã e a obtenção do prazer máximo. Se houver um conflito de interesses, será "juridicamente protegido" aquele que estiver sob o império da luxúria, pois, em vez da virtude baseada na natureza, em Deus, na razão, Sade salienta o plano físico e se apega na glorificação do vício, que deve exaltar a vontade individual, outrora amordaçada pela imposição de sentimentos de moralidade que possibilitaram a concentração do poder nas mãos do monarca.

Em Sade, o vício é a virtude e a negação de juízos morais, a chave para o bem-viver, sem remorsos ou amarras da consciência. A conclusão, para o libertino, é construir um outro sistema de valores que não negue a real essência humana - que se guia por prazeres, de todos os tipos, sendo, o prazer carnal ou material o mais importante - para que, finalmente, o homem possa ser livre em sua plenitude, como nunca fora antes. Desta forma, segundo Sade, ser feliz é viver em desacordo com a lei moral (na conceituação tradicional), acalentado por outras leis, que trarão outra ordem, mantida pela "jurisdição da luxúria".


BIBLIOGRAFIA

ARAÚJO, Luiz Bernardo Leite. http://www.ifcs.ufrj.br/cefm/textos/LBARAUJ1.DOC. 1 maio 2001.
BECKER, Lawrence and Charlotte. Sexuality and sexual ethics. The encyclopedia of ethics. 2nd Edition. New York (USA): Garland Publishing Co., 1998.
http://www.uno.edu/~phil/BECKER.htm .
BLAKE, William. O matrimônio do céu e do inferno /O livro de Thel. Edição bilíngüe traduzida por José Antônio Arantes. São Paulo (SP): Iluminuras, 1987. Traduzido de The marriage of heaven and hell / The book of Thel.
ECO, Umberto; MARTINI, Carlo Maria. Em que crêem os que não crêem. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro (RJ): Record, 2001. Traduzido de In cosa crede chi no crede?
NOVAES, Adauto (org). Ética. 1. ed. 3. reimpressão. São Paulo (SP): Companhia das Letras, 1994.
PELUSO, Luis Alberto (org.) Ética & utilitarismo. Campinas (SP): Editora Alínea, 1988.
SADE, Marques de. Filosofia na alcova. Tradução, prefácio e notas por Augusto Contador Borges. São Paulo (SP): Iluminuras, 1999. Traduzido de La philosophie dans le bodoir" (Les instituteurs imoraux).
[i] Parafraseando John RAWLS, em A teoria da justiça como eqüidade: uma teoria política, e não metafísica, no livro Justiça e democracia, pp. 199-242.
[ii] SADE, Marquês de. Filosofia na alcova, p. 129.
[iii] Utiliza-se o termo "juridicamente protegido" pela falta de outro melhor que caracterize a institucionalização da luxúria, que lhe concede características de princípio gerador de uma norma.
[iv] Idem, ibidem, pp. 125-171.
[v] A moral como fator ineficiente para atingir a felicidade é descrita por Antônio Contador BORGES, tradutor de Filosofia na alcova, p. 227.
[vi] PESSANHA, José Américo. As delícias do jardim. In: NOVAES, Adauto. Ética, p. 79.
[vii] BLAKE, Willian. O casamento do céu e do inferno / O livro de Thel, p.12. "Não há progresso sem Contrários. Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio são necessários à existência humana.
Desses contrários emana o que o religioso denomina Bem & Mal. Bem é o passivo que obedece à Razão. Mal, o ativo emanando da energia.
Bem é Céu. Mal é inferno."
[viii] Idem, ibidem, p. 13-14.
[ix] Para Sade, porém, o que torna o homem subserviente não é a razão, mas sim a moral e a religiosidade.
[x] ECO, Umberto. Quando o outro entra em cena. In: Em que crêem os que não crêem?, p. 83
[xi] Idem, ibidem.
[xii] PELUSO, Luis Alberto. Utilitarismo e ação social. In: Ética & utilitarismo, p. 19.
[xiii] BECKER, Lawrence and Charlotte. Sexuality and sexual ethics. In: The encyclopedia of ethics, http://www.uno.edu/~phil/BECKER.htm.
[xiv] Refere-se aqui bem-estar como well-being, levando em conta o indivíduo, e não como wellfare, de caráter economicista.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A irmandade


E se tudo já estivesse planejado, não por Deus, mas por uma entidade extra-oficial? O governo, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados seriam fantoches, apenas ilusões apostadas defronte as massas, para dar uma sensação de liberdade, personificada na democracia. Existe algo por detrás de tudo isso, calcado na imaginação que se torna mais real que a própria realidade. Aliás, realidade é aquilo que nós convencionamos, acordamos, elegemos e concretizamos como verdade.


Existiu um Messias, concebido por uma humana e vindo por questão divina. Mas, nesta sociedade secreta, há outros escolhidos, por suas virtudes terrenas que muitas vezes podem, ou não, coincidir com os desígnios de Deus.

Já sentiu, alguma vez, que tudo se movimenta em seu redor, como se as cartas estivessem dadas, anteriormente, não por uma superioridade metafísica, mas por um conselho superior? E daí, surgem outras perguntas adjacentes à principal: “Que diabos é isto que está ocorrendo?”

Neste entremeio de ruídos e mensagens, há contra-comunicações contra os desígnios desta entidade. São oriundas de organismos rebeldes ou mesmo de organismos do sistema que se querem rebelar contra a ordem estabelecida.

Estamos alheios a esta conspiração planetária, que inclui nossos pais, avôs, tios e irmãos. Neste conluio generalizado, os patifes são exaltados ou apáticos. Todos somos como uma enorme colônia de formigas, cada qual com sua função nesta enorme colônia que é a sociedade.

As instituições e as religiões são um disfarce para que a soberania da “Irmandade” prevaleça oculta e de lá consigne seus domínios por todos os continentes. Ninguém está a salvo, ninguém foi esquecido.

Os escolhidos pela “Irmandade” são treinados desde nascidos, ou desde uma idade mais avançada, para ocuparem seus postos no ordenamento social. Somos prisioneiros, o livre-arbítrio é uma farsa, pois só existe dentro das regras que nós mesmos desconhecemos.

Esquizofrênicos. Mania de perseguição, paranóia e sensação de fracasso total. Os que recusam seu destino, na “Irmandade”, são os exilados para os estabelecimentos psiquiátricos ou para a incapacidade legal.

Aos poucos, recebemos os sinais de recepção à irmandade. São signos e símbolos aparentemente desconexos, mas que saem dos nossos escritos e das nossas bocas e que são usados como códigos por aqueles que nos iniciarão.

Se não soubermos decodificar estas informações, pensaremos que estamos loucos, com todos nos perseguindo, como se uma aliança estivesse formada para que nós perdêssemos sempre.

Porém, os suberfúgios das organizações paralelas podem se aproveitar dessas codificações para interferir nos planos da “Irmandade” e, como ela, passarem impunes, como se nada tivesse ocorrido.

Instrumentos bélicos, canhões, metralhadoras, bombas nucleares, vírus e bactérias não são tão temerosos quanto a mais cruel de todas, o mais humano dos produtos: a comunicação.

Os discursos são facções que abrem caminho diante da selvageria plural das vozes que se erguem na nossa frente. Mais que tornar comum, os discursos são armas, mecanismos de persuasão e imposição de poder.

O convencimento e a simpatia, mais que um revólver na cabeça, são mais do que mortais, quando o objetivo é único, vencer.

Religiões e instituições são máscaras maiores que as máscaras sociais que usamos para nos adaptar a esta realidade solitária e fugaz, que consiste em contar consigo mesmo e ninguém mais.

Fanatismos são justificativas de massacres e imposições de fins últimos, porque, cada qual, em seu “telos”, se julga mais humano e, portanto, no direito de poder mais que os outros.

Aprendemos, pior que mentir, a simularmos quando na presença dos outros. Queremos destruir a finalidade alheia e sabotar-lhes as esperanças. E, na maioria das vezes, preservamos o aparato institucional.

Percebo que numa roda de conversas, ou debates, sempre decidimos - tácita ou explicitamente – quem será o nosso Judas, o nosso “bode expiatório”, o receptáculo das nossas neuroses e outras frustrações adquiridas pela vida em coletividade.

Criticamos os romanos que jogavam cristãos aos leões e outras bestas, mas fazemos isto todos os dias, quando oferecemos o escárnio àqueles que decidimos que sejam seres inferiores, tal como formigas que devem ser esmagadas para nos livrarmos da nossa raiva de impotência perante as contradições deste mundo.

As expectativas só serão conforme o que nos for permitido e nada mais. A ética é manter a aparência e decidir as conveniências, sem nada mais, nem nada menos.


terça-feira, 9 de junho de 2009

Densha Otoko e os amigos da internet



"Densha Otoko" (Homem do Trem) é uma minissérie japonesa de muito sucesso, veiculada pela TV Fuji em 2005. O personagem principal é Yamada Tsuyoshi (vivido por Ito Atsushi), de 23 anos, um "nerd", no Japão, chamado de "otaku". O "otaku" (pessoa extremamente aficcionada por um tema, que pode ser ficção científica, desenhos animados - os animes -, esportes, entre outros), num trem em Tóquio, impede que um bêbado continue a importunar uma moça muito bonita, Aoyama Saori (personificada pela atriz e modelo Ito Misaki), de 25 anos.

A moça pede o endereço do rapaz para mandar-lhe um presente. O rapaz, inexperiente com mulheres, posta suas experiências num fórum da internet. Aos poucos, os colegas internautas - sem sequer o conhecerem fisicamente - acabam por lhe aconselhar, trocando idéias, angústias, esperanças e alegrias. Formam-se laços de amizades muito fortes, de pessoas que jamais se conheceriam numa situação normal cotidiana.


Um dos internautas apelida o protagonista de "Densha Otoko" (Homem do Trem). A moça salva lhe envia um presente, um par de xícaras da marca "Hermes". Ela passa a ser conhecida no forum como "Hermes-san". O grupo do fórum da internet cria uma identidade grupal. Pessoas estranhas que tentam "sabotar", impersonificando por vezes o "Densha Otoko", são imediatamente postas de lado pelos internautas do fórum.


A minissérie é interessante. Porém, também é importante notar os comportamentos dos internautas. Pessoas que jamais se viram presencialmente mas que, porém, criam amizades verdadeiras, de afinidades, de idéias. Até que ponto é válido se abrir para pessoas desconhecidas num fórum da internet?


O mundo predatório de hoje torna as pessoas cada vez mais distantes. Muitos dos relacionamentos atuais são para fins de conveniência. Aparenta-se estar no meio de um grupo, porém, na realidade se está só. Essa conveniências são temporárias e não satisfazem o anseio de se sentir querido. Pois é. De todas essas pessoas com quem se convive quase que diariamente, quais delas estarão de verdade à sua disposição quando você precisar?

Talvez o universo inodoro da internet e o anonimato estejam mais presentes e mais seguros para as pessoas que optam pela rede mundial de computadores como uma maneira de se relacionar. Talvez nem seja a timidez, mas a falta de segurança no mundo real, das falsidades e dos relacionamentos fúteis, que faz com que se procure amizade verdadeira na internet.

Numa sociedade em que os valores monetários possuem mais peso que a dignidade de uma pessoa, é praticamente impossível se imaginar viver sem lastro no dinheiro e nos interesses. Quando se deseja estar junto de uma pessoa? Quando ela proporciona uma vantagem para você.

E se essa pessoa não lhe proporcionar vantagem alguma, ela não serve e será descartada, assim como uma embalagem de fast food. Parece que, atualmente, os seres humanos perderam sua alma. Devido a essa dor de estar semi-morto, procura-se algo que relembre como era estar vido e conectado com intensidade às outras pessoas. Pode ser que os fóruns e as ferramentas virtuais de comunicação sejam uma resposta para tudo isso.

Esse é o enigma do "Densha Otoko".

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Da função das penas: do suplício do corpo ao suplício da imagem


No decorrer da história, o uso do poder sempre foi legitimado, seja por razões de ordem religiosa ou simplesmente pelas convenções dos homens. Em ambos os casos, havia a legitimação jurídica do poder de punir diante da violação de uma norma imposta às pessoas, diferentemente consideradas. O poder de punir e os interesses de quem estava no comando do Estado eram praticamente a mesma coisa. No passado, a pena recaía no próprio corpo do condenado exibido e humilhado perante o público. Hoje, porém, a pena – aplicada pelo Estado – apenas lhe restringe a liberdade. O suplício não recai mais sobre o corpo – que, em tese, deve ser resguardado pelo próprio Estado que pune o infrator –, mas sobre a sua imagem. A função de expiar o “crime” não é mais exclusiva da autoridade, que mediava a participação popular na execução das penas; é compartilhada com a mídia, que formula sua própria tipificação para as condutas, consideradas benéficas ou maléficas, conforme melhor lhe aprouver.

Os Estados contemporâneos são caracterizados pelo monopólio do uso da força. Ou melhor, como diz o libertariano (neoliberal) Robert Nozick, detêm o monopólio de dizer quem fará uso da força. As cenas de violência que permeiam o cotidiano fazem as pessoas questionarem, freqüentemente, se não seria mais adequado tomarem – por elas mesmas – os critérios de decisão de conflitos nas suas próprias mãos e, assim, executarem as penas, saciando um primitivo instinto de vingança.

Assim eram as primeiras formas de reação penal na Antigüidade: uma vingança privada, ilimitada e desproporcional, marcada pela irracionalidade. Ainda no mesmo período histórico, a vingança passou a ser pública. Esboçava-se uma certa racionalização das penas, que eram, de certa forma, uma maneira de os homens retribuírem às divindades o mal feito pelo infrator.
Durante muito tempo, os conceitos de crime e pecado eram praticamente unos, por influência do Direito Canônico. As figuras do acusador e a do defensor público foram inovações trazidas pelo Tribunal do Santo Ofício, que, não raro, invadiam a competência dos Estados. Sua competência originária era apurar e julgar a heresia. Mas o que se pode definir como heresia? Quase tudo o que bem entendesse o inquisidor.

O processo penal era secreto, tendo somente a execução da pena o caráter público. A pena incidia diretamente no corpo do condenado – que era, ao mesmo tempo, o objeto em que se personificava o processo penal, que até dado momento permanecera sigiloso – numa execução pública.

Posteriormente, com a mescla de conceitos do Direito Romano, do Direito Germânico, do Direito Canônico e dos Direitos Penais dos locais onde se formavam os Estados Absolutista., a pena era uma afirmação do poder do soberano, que encontrava sustentáculo nas obras, principalmente, de pensadores como o inglês Thomas Hobbes. Aliás, no contrato social hobbesiano, pelo medo da guerra de todos contra todos, os homens se desfaziam da liberdade natural pela servidão civil ao Leviathan, o corpo soberano (uma assembléia ou um monarca), em troca da segurança que este lhes proveria.

O monarca, segundo Hobbes, tinha a tarefa de assegurar a co-existência entre os seus súditos e o próprio Estado, pela punição exemplar daqueles que colocassem em risco essa relação. Assim, cometer qualquer ofensa, por menor que fosse, era um crime direto ao soberano, detentor do poder de punir, que era delegado aos carrascos.

O filósofo francês Michel Foucault, no livro “Vigiar e Punir”, dissertou com detalhes a execução dos condenados. O mal do delito cometido pelo condenado deveria ser reproduzido em seu corpo, como uma forma de afirmação do poder do soberano.A tortura e o suplício do corpo do condenado tornavam pública a aplicação da pena – mais um espetáculo para as massas e reafirmação do poder real que utilidade social de prevenção e repressão à delinqüência.

A noção de princípio da dignidade humana surgiu apenas posteriormente, com Samuel Puffendorf. Essa noção, aliada aos ideais iluministas, veio combater o princípio da autoridade, fosse da Igreja Católica ou do monarca absolutista. Houve a cisão histórica entre crime e pecado, afirmando o indivíduo: um grito contra a arbitrariedade que violava direitos intrínsecos a cada ser humano, que, de acordo com Jean-Jacques Rousseau, era corrompido pela sociedade civil. Voltaire, por exemplo, criticava o rigor excessivo das penas, a arbitrariedade daqueles encarregados da instrução e execução criminal e os erros judiciais.

O barão de Montesquieu, por sua vez, tinha na Lei Positiva uma segurança contra o abuso do poder. Haveria de se ter formalidades procedimentais e ampla defesa para, só assim, o juiz chegar a uma decisão justa. A Lei seria um freio ao bel prazer das autoridades.

Os iluministas e a elite econômica – a burguesia que ansiava o poder político –, cada qual por seus motivos, pregavam uma reforma nas estruturas do Estado. Para Rousseau, o homem, que era bom por natureza, foi ludibriado a celebrar um contrato social, saindo de um estado de natureza no qual era livre para ser servo explorado na sociedade civil, que favorecia apenas alguns. Era necessário um novo contrato social que desse um basta nisso, tirando-o da sociedade civil degenerada para entrar num Estado Moral, a República.

O contratualismo rousseauniano influenciou toda uma época, surtindo efeitos, inclusive, num intelectual que despontava na Toscana: Cesare Bonesana, o Marquês de Beccaria. Na sua principal obra “Dos delitos e das penas”, Beccaria tece críticas severas e contundentes ao sistema penal vigente, completando o ciclo de laicização do Direito Penal. O contrato social celebrado entre os homens era o fundamento do Estado e do direito de punir, devidamente regulado por Lei (princípio da reserva legal), elaborada por legisladores eleitos. Assim, só as Leis poderiam prescrever delitos e penas, tal como a proporcionalidade entre ambos.

A repressão pungente “às pequenas ações”, em vez de crimes, no seu entender, estimulava ainda mais a prática criminosa. Beccaria também repudiou a pena de morte, pois na sua concepção, não servia para prevenir ou reprimir crimes, sendo apenas mais uma causa de comoção popular.

Por outro lado, o contrato social de Rousseau foi subvertido para justificar teorias reacionárias como a do “Direito Penal do Inimigo”, de Günther Jakobs. Rousseau considerava que os criminosos estavam à margem do contrato social. Este argumento de defesa do corpo social e legitimação do poder punitivo, foi utilizado por Jakobs para defender que há outros tipos de criminosos que devem ser combatidos de forma diferente, mesmo que implicasse na violação de certos direitos.

Contemporaneamente, o corpo humano é protegido contra os suplícios patrocinados pelo Estado. No Brasil, inclusive, há a Lei n.º 9.445/97, que define os crimes de tortura, que antes era instrumento legítimo de instrução processual penal. As penas não visam mais o suplício dos condenados, além da privação da sua liberdade, que teria a função de reeducá-los, para devolvê-los à sociedade, devidamente “emendados”.

A matéria-prima dos suplícios de outrora, o corpo, deve ser preservada. O suplício – primordial para oferecer outro espetáculo para as massas no intuito de legitimar a ação dos aparelhos repressivos do Estado – se transfere do corpo para a imagem dos condenados.

O Leviathan contemporâneo é o povo que exerce seus poderes por meio de representantes eleitos pelos seus cidadãos. A função de repressão e de prevenção é realizada pelas autoridades administrativas e judiciais, por meio do processo penal público, salvo se decretado segredo de Justiça, de modo a não mais necessitar do suplício do corpo para lhe dar publicidade.

Além da publicidade formal, inerente ao processo penal, para satisfazer o titular do Leviathan contemporâneo, o povo, há de se propiciar uma publicidade que ultrapasse os meandros técnico-jurídicos para lhe aplacar o apetite por vingança.

O suplício da imagem não é feito pelo aparato estatal, via processo penal. É conduzido pelo processo jornalístico, que tem nos seus agentes os novos inquisidores. Nesse novo tipo de processo inquisitorial, não se respeitam os princípios do Direito Penal historicamente consolidados, como o da legalidade, o da reserva legal, o do contraditório e da ampla defesa e o do devido processo legal, entre outros.

No fórum da opinião pública, os novos inquisidores bradam por moralidade, legalidade e respeito à coisa pública; mas para os outros. Em sua persecução noticiosa, não se atentam sequer a um formalismo procedimental que lhes aproxime, sequer, das garantias proporcionadas pelo processo judicial. Daí, ofendem a moralidade, a legalidade e o respeito à coisa pública que, para o público, dizem proteger.

Os novos inquisidores assumem a truculência dos aparelhos repressivos do Estado para o suplício da imagem e criam tipos, a parte dos definidos juridicamente, que lhes justifiquem as atividades persecutórias. Além de vigiar e punir pela dilaceração moral perante o público, são ideólogos do novo contrato social baseado na fragmentação e na superficialidade dos debates. Ao mesmo tempo, são inquisidores, juízes e carrascos do Leviathan contemporâneo. A defesa é meramente formal, já que o contraditório e a ampla defesa se resumem a meramente ouvir a outra parte, sem que se lhe dê oportunidade de defender-se de modo proporcional ao que lhe é imputado. Tudo deve ser simplista para ser facilmente digerido pelas massas e facilmente aplicado pelos algozes.

O processo de edição do noticiário, ou mesmo o de apuração das informações, já se encarrega de direcionar os juízos da opinião pública para a condenação, mesmo que nem haja, antes, um processo jurídico. Para os novos inquisidores, a condenação judicial não é o bastante, é preciso expurgar os males pela expiação da imagem do condenado na imprensa.

Não importa que perante as autoridades judiciárias o acusado seja inocente. Diante do tribunal da opinião pública, já foi condenado antes mesmo de lhe ser oferecida oportunidade de defesa, numa amostra de aplicação da Teoria do Direito Penal do Inimigo à sociedade da comunicação de massas.

O inimigo pode ser qualquer um. Qualquer um corre o risco de ser tratado como um “inimigo especial”, pois os “tipos criminais” criados pelos novos inquisidores são tipos abertos, que podem ser ampliados conforme suas conveniências políticas e ideológicas. Aliás, não sabem, nem concebem, a individualização da responsabilidade penal. Imputam ofensas cometidas por uma pessoa a todo um grupo, sem distinguir nitidamente quem fez o quê.

Nesse processo cerceado de dúvidas, não se usa o "in dubio pro reo", muito menos o "in dubio pro societatem". Os novos inquisidores falaciosamente discursam "in dubio pro societatem" na persecução e execução da imagem dos previamente condenados. O discurso do interesse público é utilizado como subterfúgio para mobilizar a massa a determinados fins, aparentemente públicos, mas que, com certeza, legitimariam o suplício da imagem dos condenados. Nesse espectro, qualquer um já está condenado. É só escolher alguém para a execução da pena em público.

É a liberdade de imprensa que, em caso de abuso, atenta contra a liberdade de acesso à informação e à dignidade humana, perfazendo um verdadeiro tribunal de exceção. Quis o constituinte que o indivíduo tivesse tutelado seu direito à informação correta, diga-se de passagem. E não o contrário. Com o fim de se instalar um Estado Moral, parece que quaisquer meios são justificáveis para a caça às bruxas.

Vigiar os comuns e punir a imagem dos escolhidos como condenados. O importante é oferecer uma ilusão de justiça à massa, uma ilusão de mudança. Uma mudança para uma aparente segurança. Mas nestes termos, segurança não existe. Segurança é uma ilusão. Cuidado, caro leitor, você já foi condenado. Está somente à espera da execução da sua pena, o suplício da sua imagem.

sábado, 6 de junho de 2009

Música da vida inteira


Foto: Meu avô e eu, quando eu ainda era um ser humano. Depois a gente cresce e vira essa coisa que escreve esses bagulhos estranhos nesse blog. rs rs rs.

“Good bye my friends, I´m leaving you today. My quest is high and I must to find my way.” (Música Farewell, da banda Gamma Ray. Tradução: “Adeus meus amigos, estou lhes deixando hoje. Minha missão é grande e eu devo procurar meu destino.”)



As pessoas têm características únicas, indelegáveis e personalíssimas. Cada uma tem uma história, uma mensagem, uma missão nesta vida. Individualmente, carregam consigo uma melodia que lhes permite identificar seu temperamento, caráter ou demais qualidades. Tal como um ruído extravagante, às vezes, alguns nos causam arrepios e nos espantam, por assim dizer. Entretanto, podemos afirmar que se encontramos seres humanos que, somente pela sua presença, transmitem uma energia, uma sabedoria, como uma onda celestial, vibrando através de tudo, podemos dizer que, de certa maneira, fomos abençoados com uma graça muito superior a qualquer coisa que conhecemos. Esta música, que cada um tem em si, vaza pela matéria e permanece na memória dos que ficam, através de flashbacks e outros assuntos inesquecíveis. Algo assim ocorreu na minha vida. E esta é uma música de uma vida inteira que vou guardar comigo até o fim dos meus dias.

Ao som das ondas batendo contra os rochedos e da brisa varrendo as areias da praia, Schincho Ishigaki lê atônito um documento. Sua irmã lhe enviara uma carta, comunicando-lhe que ficara viúva, com dois filhos menores para cuidar. Num país recém-castigado pela guerra contra a Rússia, o jovem com seus 20 anos tomou uma decisão que iria mudar os destinos de muitos. Franzino e calado, mas muito decidido, despediu-se lentamente da sua terra natal, uma ilha homônima (ver Ishigaki Shima, no mapa abaixo) ao seu sobrenome, para adentrar na mais maravilhosa das aventuras que imaginara. Atitude, no mínimo, admirável.





Ao zarpar do navio, o belicoso Hino Nacional Japonês era entoado pela multidão que partia para a terra prometida, o Brasil. “Kimi ga yo wa...” Uma viagem longa, de quase um ano, atravessando o Oceano Pacífico, certamente não era para qualquer um. Mas estes intrépidos personagens reais enfrentaram isto e muito mais ao longo das suas existências. Canções folclóricas serviam para enfrentar os enjôos e a insalubridade dos navios. O shamisen (tipo de um banjo japonês) era freqüente nas rodas de amigos que se formavam durante a viagem.

Músicas peculiares a cada província dos aventureiros mostravam a diversidade cultural de um povo aparentemente homogêneo. Em semelhança aos navios negreiros, muitos não resistiam à viagem e tinham seus corpos jogados ao mar. A embarcação dava uma volta em redor do corpo e seguia novamente a viagem.



Yanawaraba - banda de Ishigaki Shima (Okinawa, Japão), formada por Ishigaki Yuu (sanshin e vocal) e Ayzato Riyo (violão e vocal)


No Porto de Santos, depois do apito do navio, escutavam o Hino Nacional Brasileiro, numa recepção que era um misto de alegria, mistério, desejo e receio, tudo ao mesmo tempo. Depois disto, partiam para o interior da Terra Brasilis. A saudade da terra natal e a esperança de para lá retornarem ricos eram presenciadas nas canções e cantigas, entoadas pelos grupos, nas roças, arados e outros serviços rurais.

O dinheiro nunca era o suficiente. Mas a vontade de ser alguém era enorme e o espírito guerreiro, também. O jovem Schincho encontrou a irmã, mais os filhos dela. Apesar da pouca diferença de idade com seus sobrinhos, fez as vezes de pai, tio e avô ao mesmo tempo. Com tudo encaminhado, encantou-se com a irmã de um amigo, chamado Takahide Daijó. A moça de gênio temperamental era Yoshiko Oshiro. O início da relação fora tempestuoso. Mas deixadas de lado as diferenças, suas músicas se encontraram em perfeita harmonia, originando um ser quase que uno, na imensidão de sons que amealhava-lhes a resistência.


Desta união, surgiram novos costumes e outros sonidos, um misto da bagagem oriental com o aprendizado adquirido no solo brasileiro: os filhos (Mário, Júlia, Marisa e Jorge). Mas até atingir a harmonia, existe o eterno conflito, o jogo de forças antagônicas e complementares. A melodia nipônica e a brasileira chocavam-se com estrondo, causando guerras internas – nos filhos – e no próprio casal, na condução da sinfonia das suas vidas.

Mas a mensagem das suas músicas era muito poderosa e envolvente. Mas precisava de gingado. Na fuga das plantações e no contato com os clientes, no comércio de produtos agrícolas, o casal adicionava ritmo à sua harmonia. Schincho, quieto e detalhista, comprava as mercadorias e administrava os negócios. Sua cônjuge, elétrica e falante, tinha o perfil de uma vendedora nata, de dar inveja uma ponta aos executivos mais afinados com as técnicas de venda.


E assim, conduziram a melodia das suas existências até chegarem ao adágio da aposentadoria. Forçados pelos filhos, venderam a banca no mercado municipal. Birrentos, como a maioria dos idosos nipônicos, cederam sem querer dar o braço a torcer. Mas perceberam que era hora de tocar em frente outra parte da sua sinfonia, os seus netos. Um deles, aliás, carrega seu nome (Francisco Schincho Moshin, o Chico, o baixista da banda Blackberry), numa homenagem que lhe levou aos prantos – uma das raras vezes na sua vida.

Um derrame cerebral dificultou as peripécias de Schincho, mas auxiliado pela filha Marisa, retomou a batuta e reconduziu sua vida. Sua companheira de vida, contudo, ainda não se adaptava ao novo andamento da música conjunta. Por isso, ouvia-se, às vezes, as interjeições do patriarca, fazendo com que sua esposa se encaixasse novamente no tempo.


Mas toda música tem um fim e um novo derrame lhe fez perder a condução da sua orquestra. Foram quase 20 dias de silêncio, no hospital, que lhe deram a condição de ouvinte da sinfonia que ajudara a criar. Esposa (Yoshiko), filhos (Mário, Júlia, Marisa, Jorge), genros (Moko e Jorge), noras (Marilene e Reiko) e netos (Roger, Lilian, Chico, Tato e Juliana) – no limite do permitido – entravam na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e sopravam-lhe mensagens de esperança no ouvido. Mesmo com toda a expectativa, às 13h15 de 27 de julho de 2001, o maestro passou a titularidade da orquestra para sua companheira e impôs a si mesmo um nível mais alto de composição, junto aos seus pais e ancestrais, num grau de abstração ininteligível para nossa finitude e pequenez.

Uma música tão bem elaborada e executada assim nunca será esquecida, até porque se incorpora como elemento fundamental das outras composições, ao longo das suas vidas. Este maestro, caros leitores, eu tive a honra de chamar de avô. Se escrevo estas linhas hoje, devo muito a ele, que sempre incentivou meus estudos, embora atentando-me sempre para não me desviar do caminho das virtudes e, principalmente, da humildade. Não sei se sou digno dos seus ensinamentos e se conseguirei mantê-los intactos. Espero que esteja regendo esta música, lá de cima, guiando-me nos meus passos à excelência. E quando este dia chegar, sei que estaremos juntos novamente.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O olhar da insanidade

Foto: O reverso da fotossíntese


Fazia muito tempo que não tirava fotografias. Voltei a fazer isso. Mas precisava me reciclar. Fiz um curso com um fotógrafo muito bom daqui, Matheus Mazzini Ramos, que recentemente expôs sua arte na biblioteca da Universidade de Sorocaba (Uniso). "Show de bola", como se diz na gíria. Controle perfeito da técnica, com toques de sensibilidade notáveis.
Lembro-me das aulas de fotojornalismo com Nelson Chinalia, na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), lá pelos idos de 1995. Eu me divertia muito. A gente tirava umas fotos comprometedoras e usava para tirar sarro da galera. Era tudo preto e branco, esquema analógico. Nada automático, era tudo manual. Na raça!
E qual o motivo de querer fotografar? Bom, deixe-me elocubrar. Viajar na maionese, em português bem claro. Quando somos adolescentes o sonho é ser fotógrafo da Playboy ou outra publicação erótico-pornográfica. Ou melhor ainda, ser o ajudante do fotógrafo que ajeita os biquinis e esfrega óleo nas modelos.
Erotismos à parte, a arte de fotografar não é tão simples assim. Tipo dar um clique e boas. Se for para tirar foto assim é o mesmo que ser um fotógrafo a la Organizações Tabajara. Senão, um fotógrafo das Organizações Capivara, do Sêo Creysson. "Eu agarantio." Aí, rolam aquelas poses quadradérrimas, típicas de santinhos de defunto. Melhor não, né.
Para tirar boas fotos há todo um procedimento. Toda uma "frescura", no bom sentido. Tem que saber lance de cores, velocidade e abertura de diafragma para controle de entrada de luz no buraquinho da câmera. Buraquinho da câmera, seu sem noção. Não pense pornografias!
Isso é muito legal. Precisava de um hobby, não um hobby azul, igual da Carla Perez. Porém, algo que me satisfizesse na alma. Algo que não acharia nos shopping centers ou no Mercado Livre.
"Something to believe in", como a música do Poison. Precisava vasculhar o meu cotidiano para dar vazão à insanidade contida. Afinal, ninguém é de ferro.
Coloquei uns breguetes, uns "birinaites", no meu Orkut, sob o título "O olhar da insanidade". Se quiser ver, acesse o link:
http://www.orkut.com.br/Main#Album.aspx?uid=3698008354050941463&aid=1219863384 .

Por enquanto ainda não recebi convites para realizar fotos de nudez, sejam artísticas, ou não. Mas se você pensar em me fazer esse convite profissional, aviso logo de cara que só faço fotos de nudez de mulheres. E mulheres do sexo feminino (com dois cromossomos XX). E ponto final.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Vozes da infância


Quando somos crianças, nossos sonhos são ilimitados. Podemos ser o que quisermos, além das fronteiras do racional, se é que isso importa. Durante a infância, definimos grande parte da nossa personalidade, o que com certeza terá reflexos a posteriori por toda a vida. Chama-se de “aculturação” o processo de aprendizado cultural, que perdura por toda a vida, seja por meio das escolas, das pessoas com quem convivemos ou pelos meios de comunicação.
É incrível verificar que as pessoas de uma mesma faixa etária têm memórias quase que comuns sobre um determinado período. Quem tem mais ou menos a minha idade, por exemplo, lembra-se certamente de alguns ídolos da cultura de massa: Ultraman; Ultraseven, Spectroman; Jambo & Ruivão; Patrulha Estelar; Savamu, o Demolidor; A Princesa e o Cavaleiro; Pinóquio; Chaves; e muitos outros mais.
Suas trilhas sonoras também eram motivo de admiração da gurizada. Quem nunca cantarolou, no caminho da escola, aquelas musiquinhas ou melodias até mesmo inocentes, com letras que seriam consideradas ridículas pelas crianças de hoje? Se o fizéssemos, atualmente, seríamos tarimbados de “nerds”, logo de cara.
Outra faceta da nossa infância, da minha geração, pelo menos, foi a dos programas infantis. Enfocava-se a infância em si e não o culto ao consumo que presenciamos. É claro que havia uma colher de merchandising, porém, nada tão exorbitante e gritante ao que as crianças são submetidas nestes dias. Aprende-se que é preciso “ter” para “ser” alguém.
Por mais brega que fosse, Bozo era um passatempo memorável junto com seu inesquecível elenco, composto pelo garoto Juca, Vovó Mafalda e Papai Papudo. Lembram-se que ficamos decepcionados quando descobrimos que a Vovó Mafalda era interpretada por um homem? Isso desencadeou conflitos internos nos faziam pensar um pouco mais sobre a natureza humana, sobre nosso papel no mundo. Não se jogava conceitos pré-fabricados nossas goelas abaixo.





Naquele tempo, crianças faziam programas para criança. O saudoso Balão Mágico, por exemplo, cativava a molecada na frente da televisão, durante as manhãs, antes de ir para escola. E a gente pulava, cantava e se esperneava a cada disco por eles lançado. Pegávamos aquela bolachona de vinil e colocávamos naquela vitrola portátil, que virava uma maletinha. A criançada de hoje desconhece o que é isso. Pulou direto para os CDs. Reflexo da revolução das tecnologias da informação.
Atenhamo-nos, porém, ao Balão Mágico. Quantas vezes tomei bronca da minha mãe porque imitava seu sorteio de cartas, jogando para o alto os baralhos de casa? Um ato no mínimo hilariante, reconheço. Mas aquele entusiasmo puro e inocente falava direto às nossas almas, era nosso mundo perfeito, sem intromissão dos adultos. A música, elaborada por adultos, porém, cantada por guris soava mais verdadeira e menos “comercial”. Permitia-se que a criança fosse criança e não uma versão miniatura do adulto.
O que se faz atualmente com as crianças? Embutem-se idéias de adultos antes do tempo, sem que tenham tempo para desfrutarem desta fase áurea de pureza e descoberta. Estimuladas pelas musas eletrônicas que rebolam quase peladas em todos os veículos de comunicação, na categoria de semi-deusas do supérfluo, descobre-se o sexo mais cedo, da maneira mais errada. Criam-se onanistas precoces.
Em vez da transição paulatina, ocorre um corte abrupto que joga as crianças diretamente nos valores adultos, sem que tenham maturidade para tal. Aflora-se a sensualidade infanto-juvenil conforme as regras do mercado que, à medida em que elevam suas musas do consumo ao Olimpo, influem no imaginário em formação.
Nas músicas infantis daquela época, não se falava em bundinha, agachadinha, nem as coreografias eram erotizadas. Não se defende, neste texto, um pensamento puritanista e conservador, apenas é uma crítica ao que é imposto verticalmente àqueles que deveriam ser os mais protegidos pelas instituições e pela sociedade.
Nada contra a sexualidade humana nem à indústria fonográfica. Contudo, tudo deve ter suas limitações, em defesa de um bem maior: a civilidade em detrimento à barbárie. Estas palavras podem ter até algum sentido, ou serem meros devaneios. Traduzem, entretanto, aquela música: “Depende de nós, que já foi ou ainda tem esperança, que acredita num mundo melhor.”
Quem canta isso hoje? Ninguém. As garotas, com roupas minúsculas, rebolam sem ainda nem terem brotados seus seios. Os garotos, para dar uma bad boy e garanhões antes da idade, entram de cabeça em atividades ilícitas. Resultado: aumento da criminalidade e de gravidez entre menores de idade.

Cabe um pouco de pensamento em cima destas questões, que incitam-me, inclusive, um revival nostálgico. Vou procurar na Internet algumas daquelas músicas de criança. Pode me chamar de besta. Eu não ligo.