quarta-feira, 20 de maio de 2009

ETAPAS DE APRENDIZADO MORAL

ETAPAS DE APRENDIZADO MORAL[i]




PROF. MS. ROGER MOKO YABIKU
[ii]




Em 1963, John Rawls escreveu “The sense of justice”[iii], dando os contornos teóricos preliminares de um dos poderes morais do cidadão em sua concepção política de pessoa, que seria reestruturado e incluso como o capítulo VIII, “Senso de justiça”[iv], em sua obra principal. Em termos gerais, Rawls alega que devemos observar o dever da justiça com aqueles que são capazes de ter um senso de justiça. Os homens incapazes de adquirir os quesitos mínimos especificados por uma concepção pública de justiça não são por ela limitados, nem seriam protegidos por seus princípios ou agraciados pelos seus benefícios. Não são capazes de sentirem ressentimento e indignação pelos seus atos quando transgridem a autoridade ou as regras dos grupos que participa, o que pode significar falta ou dificuldade de assimilar laços de amizade ou de confiança mútua. Pessoas assim, segundo Rawls, parecem carecer de alguns elementos essenciais de humanidade. O senso de justiça, aspecto fundamental da personalidade moral, é algo que as pessoas simplesmente têm, como resultado de um certo desenvolvimento natural, diz Rawls.
No texto de 1963, a construção psicológica do senso de justiça, em Rawls, é composta de três partes que representam três estágios de sentimentos (feelings)
[v] de culpa: (a) culpa com relação à autoridade (authority guilt), (b) culpa com relação à associação (association guilt) e (c) culpa com relação a princípios (principle guilt). Em TJ, estes três estágios de sentimento (feelings) de culpa foram repensados e substituídos, respectivamente, por etapas de aprendizado moral: (a) moralidade de autoridade, (b) moralidade de grupo e (c) moralidade de princípios. Semelhante colocação é feita por Lawrence Kohlberg, em seus “estágios do desenvolvimento moral”. Para ele, cada estrutura moral tem uma estrutura lógica correspondente. Cada estágio – formalmente considerado – é uma estrutura de desenvolvimento lógico e moral que tem um equilíbrio melhor que o antecessor. O estágio posterior constitui uma nova estrutura que abrange elementos da anterior, mas transforma-os de modo que sejam mais estáveis e disponham de maior equilíbrio. Ressaltemos que ambos procuram seguir uma tradição racionalista de aprendizagem moral que remonta ao pedagogo Jean Piaget, para quem a aprendizagem moral seria um aspecto do livre desenvolvimento das capacidades intelectuais e emocionais, de acordo com a natureza de cada um:

“Quando as capacidades de entendimento amadurecem e as pessoas vêm a reconhecer o seu lugar na sociedade, sendo capazes de adotar o ponto de vista dos outros, elas apreciam os benefícios mútuos do estabelecimento de termos eqüitativos de cooperação social. Temos uma simpatia natural com as outras pessoas, e uma suscetibilidade inata para prazeres proporcionados pelo sentimento de companheirismo e pelo autodomínio, que fornecem uma base afetiva para os ‘sentimentos morais’, uma vez que sejamos capazes de ter um entendimento claro de nossas relações com nossos consócios, de uma perspectiva adequadamente geral. Assim, essa tradição considera os ‘sentimentos morais’ como uma conseqüência natural de uma plena valorização de nossa natureza social.” (TJ, VIII, § 69, p. 510)



Para Piaget, há uma paralelismo entre o desenvolvimento lógico e o desenvolvimento moral da criança. Quer dizer, ambos estão em sincronismo. Para ele os estágios do desenvolvimento mental são quatro: a-) estágio sensório-motor (0 a 2 anos); b-) estágio intuitivo ou simbólico (2 a 7 anos); c-) estágio das operações concretas (7 a 12 anos); d-) estágio das operações formais (13 anos em diante).
No estágio sensório-motor, o bebê conhece o mundo por meio do desenvolvimento das suas percepções sensoriais e dos seus movimentos. Não se pode dizer que a criança, nessa idade, pensa propriamente dizendo. Sua inteligência evolui conforme coordena as sensações e movimentos. A criança não se separa do mundo de modo nítido, por isso, fala-se em indiferenciação nesta fase, já que não consegue se distinguir como sujeito individual.
No estágio seguinte, o intuitivo (ou simbólico), a lógica infantil descobre o símbolo. Como ainda não tem experiência de vida, a inteligência da criança é intuitiva. Mesmo que ela saiba ir à escola, por exemplo, ela não consegue fazer um mapa do percurso. As suas lembranças ainda são motoras. Nessa etapa, surge o egocentrismo infantil. A criança é o seu próprio ponto de referência, já que pensa, sente e age tendo como ponto de partida si mesma. Não raro, se percebem grupos de crianças que conversam sozinhas, em grupo. Ela vive num mundo “amoral” (sem moral), no qual não há leis, por isso, muitas vezes, não está pronta para jogos com regras. Entre os 3 e 4 anos, torna-se capaz de aceitar normas exteriores (heteronomia), que vem dos pais, dos grupos e da sociedade.
Já no estágio das operações concretas, a criança passa a interiorizar a ação. Ela começa a ter mais aptidão para a matemática. E consegue já a ter uma representação mental das suas ações. Quer dizer, consegue ir sozinha para a escola e representar, em forma de desenho, o trajeto. No entanto, essas opraçõe são concretas, por dependerem da experiência vivida, das percepções intuitivas. O discurso lógico da criança se aprimora, é mais objetivo. Começa a frequentar grupos, nos quais expressa companheirismo e unidade com os demais. São as “panelinhas” com líderes. A heteronomia, de aceitação das normas dos pais e da sociedade, são reforçadas nessa fase. Há maior facilidade e gosto por jogos e brincadeiras com regras rígidas.
No último estágio, o das operações-formais, ocorre na adolescência, na qual surgem características que lhe marcarão para o resto da vida. O pensamento lógico agora é formal, ou abstrato. O adolescente é capaz de se distanciar da experiência e pensar por hipótese, sendo época propícia para o aprendizado de ciências, matemática e filosofia. Tem na cooperação e na reciprocidades suas características. Antes, se nos grupos, havia um líder a quem todos obedeciam, neste estágio, há idéia de discussão e consenso entre os membros. O adolescente atinge e autonomia, decide, por si mesmo, se obedece, ou não, uma norma.
Kohlberg, por sua vez, rejeita a teoria, de Piaget, do paralelismo entre a psicogênese do pensamento lógico e psicogênese da moralidade. Para Kohlberg, o desenvolvimento lógico e o desenvolvimento moral não seguem, necessariamente, a mesma velocidade.
De acordo com Rawls, para que o sujeito tenha um entendimento satisfatório das concepções morais, deve estar realmente capaz de compreender o seu lugar na sociedade, acatando finalmente os dois princípios da justiça. Quer dizer, deve estar amadurecido o suficiente para conseguir controlar seus impulsos e reconhecer as injunções morais alheias como anseios legítimos dos outros, que, longe de prejudicá-lo, são restrições consideradas como compatíveis com o seu bem. Os membros mais jovens da sociedade paulatinamente formam em si o senso de justiça, à medida que crescem e se interagem com os demais.





O primeiro estágio de desenvolvimento moral é denominado, por Rawls, de moralidade de autoridade, que se desenvolve no seio da instituição familiar. A criança, principalmente em tenra idade, é incapaz de fazer uma avaliação mais ou menos coerente sobre preceitos e restrições impostas pelos seus pais, as autoridades mais próximas e influentes do seu convívio. Pela inexperiência, incapacidade de juízo e conhecimento adequado, não sabe que os atos, numa sociedade bem ordenada, devem ter uma certa justificativa, aliás, nem teria competência para tal. Portanto, não tem fundamentos para desafiar aquilo que seus pais fazem ou lhe orientam. Se a racionalidade, por parte da criança, não pode explicar a submissão à autoridade dos pais, Rawls diz que o elemento em questão é o amor que a criança vem a ter por eles, desde que antes os mesmos manifestem seu amor por ela.
Ora, o amor entre os pais e a criança é uma via de mão-dupla. Ao amarem a criança, os pais confirmam seus sentimentos pessoais, que dão origem ao amor da criança por eles. Nesta relação de afeição e encorajamento dos pais, a criança passa a confiar neles e nos meios em que vive, ela começa a explorar pelos arredores e testar as capacidades que desenvolvem consigo progressivamente. Mas por ora, a criança não tem capacidade individual ou padronizada de crítica, não pode descartar o que lhe é oferecido (preceitos, injunções, ou mesmo bens) racionalmente. Suponhamos que a criança ama e confia nos seus pais, sua tendência é aceitar os padrões por eles impostos, espelhando-se nas suas condutas para ser como são, desde que sejam cidadãos dignos e aceitáveis nestes termos para a criança e que, para efeito do nosso estudo, ajam segundo a concepção política de justiça. Aos poucos, a criança começa a desenvolver um senso de valor próprio e o anseio de ser um tipo de pessoa como aquelas que o amam em primeiro lugar.
Devemos considerar que os pais elaboram e impõem regras inteligíveis para o entendimento da criança de modo a mostrar – com o decorrer do tempo e a evolução intelectual dela – os princípios norteadores destes tipos de comportamento. Se a criança transgride uma dessas regras, se ela realmente ama e confia nos seus pais, tende a confessar e resgatar a relação de amor e confiança com eles, manifestando culpa com relação à autoridade. Estaríamos com um problema se estes sentimentos não viessem à tona, pois significaria falta de amor e confiança.
Traçando um paralelo com Lawrence Kohlberg, a moralidade de autoridade de Rawls corresponderia ao estágio moral pré-convencional, no qual a criança assimila regras embutidas na cultura e seus chavões dualistas como bom e mau, certo e errado, para classificar alguns tipos de comportamento, através de sensações físicas ou pelas conseqüências hedonistas dos seus atos, como a punição, a recompensa ou a troca de favores, ou ainda pelo poder físico daqueles que elaboram (ou enunciam) as regras e chavões. Kohlberg dividiu esta etapa em dois estágios:

“Estágio 1: Orientação punição e obediência. As conseqüências físicas da ação determinam-na como boa ou má, apesar do significado humano do valor dessas conseqüências. Evitar a punição e a deferência inquestionável ao poder são valoradas em seus próprios termos de certo (right), não em termos de respeito por uma ordem moral subjacente baseada na punição e na autoridade.
Estágio 2: Orientação instrumental-relativista. A ação correta consiste naquilo que satisfaz instrumentalmente as próprias necessidades do indivíduo e, ocasionalmente, as necessidades dos outros. As relações humanas são vistas tais como relações num supermercado. Elementos de eqüidade, reciprocidade e igual compartilhamento estão presentes, mas eles são sempre interpretados de modos físicos e pragmáticos. Reciprocidade seria algo do tipo ‘você coça minhas costas e eu coço as suas costas’, e não algo baseado em lealdade, gratidão e justiça.”[vi]

A etapa pré-convencional de Kohlberg demonstra uma visão um pouco que “hobbesiana” de autoridade, como alguém que submete os outros à sua arbitrariedade (soberania, somente no sentido de soberania do Estado, obviamente), sob a pena de sanções físicas ou mesmo de constrangimento impostas exteriormente ao indivíduo que violou as definições de quem detém o poder, cujos valores pessoais refletem imediatamente a regra a ser aplicada. No estágio 1, a autoridade é confundida com o próprio direito e aquilo que “deveria” é aquilo que “deve ser feito” por causa de imposições externas ao seu ser. Já no estágio 2, há uma certa liberdade para controlar a si mesmo e suas posses, e se pode ignorar as reivindicações de bem-estar dos outros, desde que sua recusa não interfira diretamente na sua liberdade ou lhe cause danos. Ele segue as escolhas que levam ao fim de um só, apesar de encontrar o “deveria” como uma alternativa, não sendo mais subordinado àquilo que “deve ser feito”. Na etapa pré-convencional, podemos ver uma concepção de direitos e deveres (obrigações) num certo sentido egoísta
[vii], se compararmos com as colocações de Rawls, e primitiva se compararmos com os dias de hoje:

“Estágio 1. Ter um direito: Significa ter o poder de autoridade ou de controlar algo ou alguém. Ter um direito confunde-se com estar agindo certo (de acordo com a autoridade).
Obrigação: O ‘deveria’ é o que ‘tem que ser’ devido às exigências das autoridades exteriores, regras, ou situações exteriores.
Estágio 2. Ter um direito: Implica em liberdade para o ‘autoconceito’ escolher e controlar o ‘autoconceito’ e suas posses. Um tem o direito de ignorar os clamores positivos de bem-estar do outro, desde que o primeiro não viole diretamente sua liberdade, ou lhe cause dano. (Ter um direito é diferente de estar certo, de ser agraciado pelo poder, devido ao status que carrega)
Obrigação. A obrigação ou ‘deveria’ é um imperativo hipotético contingente na escolha dos termos para um fim. Neste sentido, obrigações são limitadas a um indivíduo e seus fins. (O ‘deveria’ ou a obrigação é diferente do ‘tem que fazer’, oriundo do exterior ou da compulsão da autoridade.)”
[viii]

Rawls, por sua vez, vê a autoridade como o tutor que vai inserir a criança – ou uma pessoa no início do seu desenvolvimento moral –, aos poucos, na sociedade, criando vínculos que vão marcar profundamente sua personalidade moral, como alguém que aprendeu a amar porque foi amado e que, apesar de não dispor por enquanto de capacidade intelectual para estabelecer raciocínios e críticas com relação ao que lhe é imposto, assimila padrões de comportamento e valores daqueles que estão em posição de superioridade, pois os admira e lhes quer bem. Nestas constatações, podemos já enunciar a primeira lei psicológica de Rawls:

“Primeira lei: dado que as instituições familiares são justas, e que os pais amam a criança e expressam manifestamente esse amor preocupando-se com seu bem, então a criança reconhecendo o amor evidente que sentem por ela, aprende a amá-los.” (TJ, VIII, § 75, p. 544)



Passaremos agora ao segundo estágio do desenvolvimento moral, a moralidade de grupo. Nesta etapa, pressupomos que o indivíduo já internalizou determinados quesitos e padrões de comportamento que eram característicos da primeira lei psicológica, configurando um sujeito que foi amado pelos pais e que aprendeu a amá-los e a devotar-lhes confiança. Naquele momento, o conteúdo da moralidade da autoridade podia ser resumido num apanhado de regras. Aqui, levamos em conta os padrões morais mais adequados para que o cidadão possa desempenhar seu papel como membro das associações que ingressou, ou mesmo de uma nação. Rawls afirma que, nesta etapa, os padrões morais abrangem “as regras de moralidade ditadas pelo senso comum, juntamente com os ajustes necessários para adequá-las à posição particular de um indivíduo; e são impressos nele pela aprovação ou pela desaprovação daqueles que detêm a autoridade ou pelos outros membros do grupo”

[ix].
Nesta etapa do desenvolvimento, a família é vista como uma associação, com ordem hierárquica e atribuição de direitos e deveres, cujos padrões são assimilados e servem de base para os relacionamentos em outros grupos sociais, como os relacionamentos na escola ou naqueles travados entre os vizinhos. A cooperação social, de curto prazo, é aprendida nas brincadeiras e nos jogos partilhados com os outros. Adquire as virtudes de um bom aluno e colega de classe e os ideais de um bom parceiro e companheiro, que se estenderão a padrões morais que forem adotados posteriormente e nas várias funções e ocupações da sua vida adulta, seja na família ou membro da sociedade.
[x] A moralidade de grupo contém um número de ideais maiores que o da moralidade de autoridade, pois define padrões para cada função ou papel que o cidadão desempenha em meio às associações e na sociedade como um todo. Progressivamente, os juízos intelectuais e as discriminações morais tomam posições mais apuradas, denotando maior teor do entendimento moral, que é adquirido ao longo do convívio e dos papéis que o cidadão passa a ocupar.
A pessoa passa a compreender que um sistema de cooperação permeia o grupo e os indivíduos que fazem parte dele, assim como os objetivos em comum. Pela vivência, nota que cada um tem uma atribuição de direitos e deveres condizentes com o papel que desempenha no grupo, daí, o cidadão percebe que precisa aprender e aprende a se colocar no lugar dos outros e a ver a realidade pelo prisma deles. Na moralidade de grupo, é importante lembrar que o cidadão adquire uma posição intelectual hábil para olhar um determinado objeto com vários pontos de vista, pensados como um conjunto. O cidadão percebe os outros como pessoas que podem ter idéias, necessidades, objetivos, planos e motivações diferentes das suas. Ele aprende a não rechaçar a diferença, mas a avalizar sua conduta em compatibilidade com a conduta dos outros. Essa possibilidade de se colocar no lugar do outro modifica a sensibilidade moral de uma pessoa, o que é vital para entendermos o complexo de feixes de relacionamentos da cooperação social.
Todos do grupo devem reconhecer que as instituições que fazem parte e suas práticas são justas e segundo os princípios da justiça e que os laços de amizade e companheirismo foram gerados pela sua participação no grupo. Ao aceitarem as regras das instituições em que se associaram como justas, eqüitativas, haverá motivos suficientes para que, entre eles, floresçam laços de amizade e confiança mútua, fortalecendo o sistema de cooperação. Caso um dos membros tenha certas habilidades ou um jeito de realizar as tarefas que exerçam algum tipo de atrativo, poderá ser visto como um modelo a ser seguido pelos seus consócios.
Kohlberg analisou as relações entre o indivíduo e o grupo no nível convencional das suas etapas de desenvolvimento moral. Neste nível, algumas expectativas do indivíduo - quanto a instituições como a família, o grupo ou a nação - são vistas como válidas e coerentes com relação àquilo que ele considera ser o seu conjunto de direitos. Seu comportamento passa a ser o de conformação das suas expectativas pessoais com a ordem estabelecida, além de sentir lealdade a ela, por meio de atividades que possibilitem mantê-la, defendê-la ou justificá-la, cujos laços são reforçados quando ele também se identifica com as pessoas ou grupos envolvidos neste processo. Esta etapa contém dois estágios:

“Estágio 3: Orientação de concordância interpessoal ou orientação ‘bom garoto... boa garota’. Bom comportamento é aquele que consiste em satisfazer ou ajudar os outros, sendo por estes aprovado. Aqui há muita conformidade com imagens estereotípicas do que é a maioria ou comportamento ‘natural’. O comportamento é freqüentemente julgado pela intenção – ‘ele teve boa intenção’ torna-se importante pela primeira vez. O indivíduo ganha aprovação por ‘ser bom’.
Estágio 4. Orientação Lei e ordem. Há uma orientação em conformidade com a autoridade, regras são fixadas e se mantém a ordem social. O comportamento correto consiste em cada um cumprir o seu dever, mostrando respeito à autoridade e mantendo ordem social dada, pelo seu próprio bem.”
[xi]

Dentro deste sistema, na etapa de moralidade de grupo, cada um deve cumprir sua parte. Mas, em caso de falta ou de inadimplência, o faltoso é acometido de um sentimento de culpa com relação aos consócios, cujos efeitos previstos por Rawls podem implicar em (a) reparação do dano para restituir dos males o estado original, ou (b) admitir sua falta e pedir perdão ao grupo, (c) ou concordância com as penas e censuras, ou (d) pela amortização, ou dificuldade, de se sentir furioso ou indignado com a falta de outrem. Trata-se de cultivar e preservar a ordem estabelecida e de reforçar a identificação entre os membros da associação, como demonstra Kohlberg. A ordem é firmada na regra ou nas expectativas dos demais consócios desde que haja uma aceitação e incorporação de certos valores que permeiam aquele meio social, no qual cada um possui um papel diferente segundo as funções que desempenha nas associações em que é membro. A cada direito “merecido” acompanha uma responsabilidade por fazer parte das associações, ou mesmo da sociedade, e a cada empreitada voluntária, igualmente, lhes são imputadas certas responsabilidades. Kohlberg ilustrou como seriam encarados os direitos e deveres (obrigações) nestes estágios:

“Estágio 3. Ter um direito: Implica numa expectativa de controle e liberdade em que um ‘bem’ ou uma pessoa natural poderia reivindicar. Um direito é baseado tanto na regra quanto na expectativa legítima com relação aos outros, como por exemplo: você tem o direito de ter sua propriedade respeitada desde que tenha trabalhado duro para adquiri-la. Os direitos são merecidos. (Ter um direito é diferente da liberdade para controlar e escolher)
Obrigação: O ‘deveria’ ou ‘dever’ equivale a uma obrigação atribuída a um papel (role-obligation), ou seja, um indivíduo de uma determinada posição social é incumbido de fazer para seus parceiros (role-partners) o que foi definido pelas regras, pela expectativa dos seus parceiros, ou aquilo que o ‘bom’ sujeito desempenhando um papel (role-ocupant) – um bom marido, um bom médico – poderia desempenhar. (A obrigação é diferente de ser um meio para um fim desejado)
Estágio 4. Ter um direito: Direitos são: (a) liberdades gerais categóricas e expectativas que todos os membros da sociedade têm, e (b) os direitos são atribuídos para cada papel particular na sociedade. Direitos gerais usualmente têm primazia sobre os direitos relacionados a papéis. (Ter um direito é diferente de uma expectativa particular legítima).
Obrigação: Obrigações são responsabilidades, i. e., e o estado de bem-estar dos outros ou da sociedade para o indivíduo deve ser levado em conta. Estas responsabilidades surgem das seguintes formas: (a) o indivíduo é um membro da sociedade; e (b) adquire voluntariamente papéis que exigem as respectivas responsabilidades. (A obrigação ou dever como compromisso e responsabilidade é diferente daquilo que tipicamente se espera de um sujeito desempenhando um papel (role-ocupant).)”
[xii]






Kohlberg centrou suas atenções, neste nível, nas funções dos indivíduos (papéis que desempenham nas associações), nos compromissos e nas responsabilidades como fontes elas mesmas de deveres (obrigações), mas não considerou, diferentemente de Rawls, o âmbito interno do sujeito, das suas reações, quando comete as faltas e, ao mesmo tempo, não se quer desvincular das associações que escolheu ou aceitou ser membro. Este indivíduo não é “oco”, um ser mecânico, desprovido, entre outras qualidades, de sentimentos. Aliás, de acordo com Rawls, estaríamos com sérios problemas se uma pessoa faltosa em suas responsabilidades não manifestasse algum tipo de sentimento de culpa, ou remorso, com relação ao grupo. “Uma pessoa sem esses sentimentos de culpa não tem escrúpulos a respeito dos problemas que atingem os outros, nem se incomoda com a quebra de confiança pela qual são enganados. Mas quando existem as relações de amizade e de confiança, essas inibições e reações tendem a ser estimuladas se alguém não consegue cumprir seus deveres e obrigações.”[xiii] Se o sentimento de culpa acomete o faltoso, é claro que a associação teria algum tipo de reação contraposta, manifestada pelos demais membros do grupo (parcial ou totalmente) – caso estejam em conformidade com as regras e práticas da instituição, que seguem os princípios da justiça -, os quais seriam acometidos por ressentimento e a indignação. Neste estágio, Rawls enuncia sua segunda lei psicológica:

“Segunda lei: dado que a capacidade de uma pessoa para o sentimento de companheirismo tornou-se uma realidade quando ela adquiriu vínculos de acordo com a primeira lei, e dado que uma organização social é justa e esse fato é publicamente reconhecido por todos, então essa pessoa desenvolve laços de amizade e confiança, com relação aos outros na associação, à medida que estes, com evidente intenção, cumprem seus deveres e obrigações, e correspondem aos ideais de sua situação” (TJ, VIII, § 75, p. 544)

Abrimos um tópico, em destaque das demais etapas, para que possamos, finalmente, analisar a terceira etapa do desenvolvimento moral, a moralidade de princípios, e introduzir preliminarmente alguns aspectos da teoria da justiça de John Rawls que, como ele próprio salienta, poderiam dar margens para ser entendida como uma teoria dos “sentimentos morais”. Como já vimos, na fase da moralidade de grupo, de uma sociedade sob influência dos dois princípios da justiça, seu conteúdo é composto prioritariamente por virtudes que estimulam e dão maiores forças para a cooperação social, como a justiça, a eqüidade, a fidelidade, a confiança, a integridade e a imparcialidade, enumera Rawls. No pólo contrário, os vícios típicos seriam a avidez, a ausência de eqüidade, a desonestidade, a falsidade, o preconceito e a parcialidade, que causariam sentimento de culpa num sujeito normal, caso incorresse nestas faltas, e de indignação e ressentimento nos outros membros da associação.
[xiv] Pois bem, pressupomos que desde a moralidade de autoridade, as normas comportamentais estão estruturadas segundo a concepção política de justiça e seus dois princípios, cujo entendimento foi ampliado na etapa da moralidade de grupo.
Ele faz parte de diversas associações, nas quais manifesta seu apoio e apego a determinadas pessoas e, mais fortemente, a alguns grupos, dispondo-se, para tal, a seguir certos padrões morais, nos diversos papéis desempenhados em sua vida social, para obter aprovação em sua conduta e seus objetivos. Na moralidade de grupo, as convicções formadas em respeito aos dois princípios da justiça estão mais desenvolvidas que na moralidade de autoridade. O cidadão que, na associação, conseguiu ampliar e assimilar com maior desenvoltura algumas das qualidades prezadas na moralidade de grupo, com certeza, tem uma compreensão dos princípios da justiça. As relações de amizade e companheirismo não são o motivo permanente de obediência à justiça, pois, depois de algum tempo, em vez de somente apreciar o outro e os benefícios das associações que participa, o cidadão pretende ser uma pessoa justa.
Na condução da coisa pública de uma sociedade bem ordenada, os cidadãos travam maiores conhecimentos das atividades políticas, participam dos processos eleitorais e se envolvem com questões legislativas, judiciais e administrativas que exigem certa interpretação do que é justo, de modo que possam aplicar as medidas mais adequadas a cada caso. Isso se dá por meio de processos, definidos pelos princípios da justiça, nos quais os cidadãos devem ter um ponto de vista que inclua ter a perspectiva, inclusive, de uma assembléia constituinte ou legislativa, pois, agora, o assunto é a estrutura básica de uma sociedade como um todo, não mais somente associações e famílias consideradas isoladamente. Compreendemos – por um longo aprendizado – que os princípios da justiça garantem valores e benefícios para todos os cidadãos que aceitam as regras e participam do sistema eqüitativo de cooperação social.
[xv] Ao longo desta jornada, surge-nos o senso de justiça, ou seja, “um desejo de aplicar os princípios da justiça e de agir em conformidade com eles no momento em que percebemos como as organizações sociais que os representantes promoveram o nosso bem e o bem daqueles com os quais nos associamos”.[xvi]
Duas são as maneiras de se manifestar o senso de justiça. Uma delas, obviamente, é a aceitação das instituições justas que regulam as nossas relações e dos demais consócios, causando benefícios para todos. A outra é o sentimento de culpa por não cumprirmos com nossos deveres e obrigações, em vez de sentir culpa com relação aos demais. Rawls entende que devido ao grande número de pessoas é praticamente impossível que o cidadão conheça a todos, o que dificultaria o florescimento de laços de amizade e companheirismo entre todos. Aqui, os cidadãos, como um corpo político, tomam vulto quando aceitam e promovem os princípios da justiça, seja no sentido de resolver divergências de maneira unificada ou de disporem-se a trabalhar favoravelmente ou a construírem instituições justas, reformando-as, quando preciso.[xvii]
Nesta parte, podemos estabelecer comparações com o nível pós-convencional de desenvolvimento moral, proposto por Kohlberg. Em Rawls, os cidadãos atingem a moralidade de princípios ao se darem conta que as atitudes morais não dizem respeito somente à aceitação dos grupos ou das pessoas a quem se afeiçoa, mas sim, de uma concepção de justo, que seja relativamente independente disso. É praticamente a mesma constatação do nível pós-convencional de Kohlberg, no qual as pessoas têm a preocupação e o trabalho de definir valores e princípios válidos e aplicáveis em separado da autoridade, ou dos grupos de pessoas, ou da identificação individual com o grupo. Os dois estágios deste nível são:

“Estágio 5: Orientação legalista tipo contrato social, geralmente com tonalidades utilitaristas. A ação certa (right action) tende a ser definida em termos de direitos individuais gerais, e padrões que foram criticamente examinados e acordados pelo papel da sociedade. Há uma clara ciência do relativismo de valores pessoais e opiniões, com uma ênfase correspondente a regras procedimentais para alcançar o consenso. Ao lado do que é constitucional e democraticamente acordado, o direito é uma questão de ‘valores’ pessoais e ‘opinião’. O resultado é a ênfase sobre o ‘ponto de vista legal’, no entanto, com a ênfase sobre possibilidade de se mudar a Lei em termos de considerações racionais de utilidade social (em vez de paralisar nos termos do estágio 4 ‘Lei e ordem’). Fora do reino legal, o argumento livre e o contrato são as forças vinculantes da obrigação. Esta é a moralidade oficial do Governo americano e da sua Constituição.
Estágio 6: Orientação de princípio ético-universal. Os direitos são definidos pela decisão da consciência segundo princípios éticos escolhidos ao se apelar para a compreensão lógica, a universalidade e a consistência. Estes princípios são abstratos e éticos (a regra de ouro, o imperativo categórico); eles não são regras morais concretas como os Dez Mandamentos. Em essência, são princípios universais de justiça, reciprocidade e igualdade de direitos humanos, e o respeito pela dignidade dos seres humanos como pessoas individuais.”
[xviii]

Segundo Kohlberg, o estágio 5 é aquele em que os homens julgam as Leis a partir de doutrinas como a do contrato social, do utilitarismo de regra e uma certa noção de direitos universais ou naturais. Embora as teorias de Kant e de Rawls sejam vinculadas à doutrina do contrato social, Kohlberg classificou-as no estágio 6. A teoria de Rawls, particularmente, não é apenas uma generalização ou abstração do contratualismo, mas é, nas palavras de Kohlberg, uma nova maneira de pensar, com um novo sistema de assunções, cujo resultado é um novo processo de tomada de decisões. Para dar melhor clareza à exposição, também recorremos à atribuição de direitos e deveres, no nível pós-convencional:

“Estágio 5. Ter um direito: Tem uma preocupação com direitos humanos ou naturais ou liberdades que são prioritários para a sociedade e que, portanto, a sociedade deve proteger. Usualmente se concebe que, no estágio 5, as liberdades devem ser limitadas pela sociedade; pela Lei somente quando são incompatíveis com as liberdades correspondentes (like freedoms) dos outros. (Direitos naturais são diferentes de direitos resguardados socialmente)
Obrigação: Obrigações são aquilo que o indivíduo contraiu para preencher no intuito de ter seus direitos respeitados e protegidos. Essas obrigações são definidas nos termos de uma preocupação racional com relação ao bem-estar dos outros. (As obrigações são requeridas como preocupações racionais com relação ao bem-estar, diferente de responsabilidades fixadas)
Estágio 5. Ter um direito: Há direitos universais para o tratamento justo que vão além das liberdades e representam reivindicações universalizáveis de um para com os demais.
Obrigação: Qualquer direito ou reivindicação justa de um indivíduo habilita um dever correspondente em consideração a outro indivíduo.”
[xix]

Podemos perceber que, no estágio 5, a sociedade tem o dever de proteger cada um dos direitos. Entretanto, não há uma especificação de deveres para aqueles indivíduos que não fizeram parte ou não aceitaram um acordo particular ou mesmo um contrato social; aqui, as obrigações são devidas à Lei e ao bem-estar dos outros, num esquema utilitarista. Os direitos e deveres não são diretamente correlativos, pois o reconhecimento de direitos individuais não gera, necessariamente, deveres individuais. Para que isto ocorra, o cidadão deve tomar o ponto de vista de um “agente moral racional”, que não precisa ser um santo, pois se o fosse, os deveres que invocou para si mesmo não lhe confeririam direitos correspondentes. Deve ser, contudo, justo, aceitando como dever somente aquilo que conceber racionalmente como o que os outros iriam requerer igualmente como dever.
Neste ponto, já podemos falar sobre o senso de justiça, da teoria de Rawls. De acordo com o autor, a moralidade de princípios se desenrola de duas formas, levando em conta as diferenças entre os atos justos e os atos superrogatórios. Existe o senso de justo e de justiça, propriamente dizendo, e o amor pela humanidade e o autodomínio. Para Rawls, uma pessoa compreende e adota o contratualismo ao entender que o “sentimento de justiça não difere do desejo de agir segundo os princípios que os indivíduos racionais aceitariam numa situação inicial que concede a todos uma representação igual como pessoas morais”
[xx], pois: “Nem é diferente de querer agir de acordo com os princípios que expressam a natureza dos homens como seres racionais livres e iguais. Os princípios da justiça correspondem a essas descrições e esse fato nos permite dar uma interpretação razoável do senso de justiça. À luz da teoria da justiça, entendemos como os ‘sentimentos morais’ podem ter uma função reguladora em nossa vida, e têm o papel que lhes é atribuído pelas condições formais impostas aos princípios morais”.[xxi]
Já a moralidade de supererrogação também é separada por dois aspectos. Temos, então, o amor pela humanidade, no qual o cidadão vai além dos seus deveres e obrigações na sua tarefa de promover o bem comum. Não exige contrapartida neste desempenho com relação aos outros e, segundo Rawls, não é para qualquer um, porque demanda benevolência superior, assim como maior nível de sensibilidade no que diz respeito às necessidades e sentimentos alheios, demonstrando, individualmente, um desprendimento de si mesmo. Na segunda versão da moralidade de supererrogação, a moralidade de autodomínio, a caracterização é mais simples, basta que o cidadão aceite, sem obstáculos, agir em conformidade com aquilo que foi conceituado como justo e com a justiça. Aqui, já temos elementos suficientes para que possamos enunciar a terceira lei psicológica de Rawls:

“Terceira lei: dado que a capacidade de uma pessoa para o sentimento de companheirismo foi realizada quando ela realizou vínculos de acordo com as duas primeiras leis, e dado que as instituições de uma sociedade são justas e esse fato é publicamente reconhecido por todos, então essa pessoa adquire o senso de justiça correspondente à medida que reconhece que ela e aqueles por quem se interessa se beneficiam dessas organizações.” (TJ, VIII, § 75, p. 544-545)

Vemos, portanto, que a moralidade de supererrogação – analisada à luz da terceira lei psicológica de Rawls – não se choca com as normas definidas do justo e da justiça, há apenas uma certa ampliação da esfera de atuação do cidadão rumo a objetivos que não lhes são exigidas contrapartidas. Segue os preceitos da justiça, mas alcança um plano em que não precisa ser compelido a fazer, deixar de fazer ou dar algo, em destaque com relação aos demais cidadãos porque o eu (do cidadão no estágio de moralidade supererrogatória) adotou voluntariamente estas prerrogativas. O santo sempre é justo. O justo nem sempre é santo. Mas ambos contribuem, certamente, para a promoção do sistema eqüitativo de cooperação social, em nome da justiça como eqüidade e seus princípios.





LISTA DE ABREVIAÇÕES



RH
RAWLS, John. Resposta a Habermas. Educação & Sociedade, n. 57, pp. 621-673, 1996. Edição especial.
TJ
RAWLS, John. Uma teoria da justiça. Tradução por Almiro Pisetta e Lenita M. R. Esteves; revisão técnica por Gildo Rios. 1. ed. 2. reimpressão. São Paulo (SP): Martins Fontes, 1997. Tradução de A theory of justice, 1971.
CP
RAWLS. Collected papers. Cambridge, Massachussetts e Londres, Inglaterra: Harvard University Press, 1999.
JD
RAWLS, John. Justiça e democracia. Seleção, apresentação e glossário por Catherine Audard; traduzido por Irene A. Paternost. 1. ed. São Paulo (SP): Martins Fontes, 2000a. Tradução de Justice et démocratie.
LP
RAWLS, John. O liberalismo político. Traduzido por Dinha de Abreu Azevedo; revisão da tradução por Álvaro de Vita. 2. ed. São Paulo (SP): Editora Ática, 2000b. Tradução de Political liberalism, 1993.
HMP
Lectures on the history of moral philosophy. Cambridge, Massachusetts e Londres, Inglaterra: Harvard University Press, 2000c.
JFR
RAWLS, John. Justice as fairness: a restatement. Cambridge, Massachussetts e Londres, Inglaterra: Harvard University Press, 2001a.


BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR



ARANHA, M. L. de A.; MARTINS, M. H. Filosofando. 3. ed. rev. São Paulo: Moderna, 2003.
KOHLBERG, Lawrence. The claim to moral adequacy of a highest stage of moral judgement. Journal of philosophy, v. 70, 1970. p. 630-646.



[i] Apostila da disciplina “Ética I” elaborada para o curso de Tecnologia em Comércio Exterior do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (Ceunsp), baseada na dissertação de mestrado “A justiça além do discurso jurídico: ensaio sobre o neocontratualismo de John Rawls”, de Roger Moko Yabiku. Este texto não possui maiores pretensões acadêmias, muito menos está acabado para fins de publicação. Trata-se apenas de um recurso pedagógico.
[ii] Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo, Bacharel em Direito, Graduado pelo Programa Especial de Formação Pedagógica de Professores de Filosofia, Especialista em Comércio Exterior, Especialista em Direito Penal e Direito Processual Penal e Mestre em Filosofia Ética.
[iii] CP, p. 96-116.
[iv] TJ, VIII, p. 503-569.
[v] Em TJ, Rawls, em vez de “feelings”, usa a palavra “sentiments” quando faz referência aos “sentimentos morais” dominantes e permanentes. A palavra “feelings” foi utilizada, em TJ, para especificar os tipos de sentimentos morais que surgem ocasionalmente.
[vi] “Stage 1: The punishment-and-obedience orientation. The physical consequences of action determine its goodness or badness regardless of the human meaning or value of these consequences. Avoidance of punishment and unquestioning deference to power are valued in their own right, not in terms of respect for an underlying moral order supported by punishment and authority.
Stage 2: The instrumental-relativist orientation. Right action consists of that which instrumentally satisfies one’s own needs and occasionally the needs of others. Human relations are viewed in terms like those of the market place. Elements of fairness, of reciprocity, and of equal sharing are present, but they are always interpreted in a physical pragmatic ways. Reciprocity is a matter of ‘you scratch my back and I’ll scratch yours’, not of loyalty, gratitude, or justice.” (Kohlberg, 1973, p. 631)
[vii] Talvez seja a representação de um individualismo possessivo, que foi alavancado com a modernização do capitalismo, na visão de Jürgen HABERMAS, Aclaraciones a la ética del discurso, p. 47.
[viii] “Stage 1. Having a right: Means having the power or authority to control something or someone, or it is confused with being right (in accordance with the authority).
Obligation: Or ‘should’ is what one ‘has to do’ because of the demands of external authorities, rules, or the external situation.
Stage 2. Having a right: Implies freedom of the self to choose and to control the self and its possessions. One has a right to ignore the positive claims or welfare of another as long as one does not directly violate his freedom, or injure him. (Having a right differentiated from being right, and from being given the power to, by a status one holds)
Obligation: Obligation or “should” is a hypothetical imperative contingent on choice in terms of an end. In this sense, obligations are limited to oneself and one’s ends. (‘Should’ or obligation differentiated from ‘has to’ from external or authority compulsion)” (Kohlberg, 1973, p. 636)
[ix] TJ, VIII, § 71, p. 518.
[x] Ibid.
[xi] “Stage 3: The interpersonal concordance or ‘good boy... nice girl’ orientation. Good behaviour is that which pleases or helps others and is approved by them. There is much conformity to stereotypical images of what is majority or ‘natural’ behaviour. Behaviour is frequently judged by intention – ‘he means well’ becomes important for the first time. One earns approval for ‘being nice’.
Stage 4: The ‘law and order’ orientation. There is an orientation toward authority, fixed rules, and the maintenance of the social order. Right behaviour consists of doing one’s duty, showing respect for authority, and maintaining the given social order for its own sake.” (Kohlberg, 1973, p. 631)
[xii] “Stage 3. Having a Right: Implies an expectation of control and freedom which a ‘good’ or natural person would claim. A right is based either on a rule or a legitimate expectation toward others, e. g., you have a right to have your property respected since you worked hard to acquire the property. Rights are earned. (Having a right differentiated from the freedom to control and choose)
Obligation: ‘Should’ or ‘duty’ equals a role-obligation, what it is incumbent on a member of a social position to do for his role-partners as defined by rules, by the expectation of the role-partner, or by what a good role-ocupant (a good husband, a good doctor) would do. (Obligation differentiated from being a means to a desired end)
Stage 4. Having a Right: Rights are: (a) categorical general freedoms and expectations which all members of society have, and (b) rights awarded to particular roles by society. General rights usually take primacy over role-rights. (Having a right differentiated from a particular legitimate expectation.)
Obligation: Obligations are responsibilities, i. e., welfare states of others or of society for which one is accountable. These responsibilities arise trough: (a) being a member of society; and (b) voluntarily entering into roles which entail these responsibilities. (Obligation or duty as commitment and responsibility differentiated from what is typically expected of a role-occupant.)” (Kohlberg, 1973, p. 636-637)
[xiii] TJ, VIII, § 71, p. 522.
[xiv] Ibid., p. 524.
[xv] Os termos eqüitativos de cooperação social são estabelecidos, de acordo com Rawls, por um acordo entre as pessoas, que têm em vista o que consideram seu benefício mútuo. (LP, III, § 1, p. 142)
[xvi] TJ, VIII, § 72, p. 525.
[xvii] Ibid., p. 525-527.
[xviii] “Stage 5: The social-contract legalistic orientation, generally with utilitarian overtones. Right action tends to be defined in terms of general individual rights, and standards which have been critically examined and agreed upon by the hole of society. There is a clear awareness of the relativism of personal values and opinions and a corresponding emphasis upon procedural rules for reaching consensus. Aside from what is constitutionally and democratically agreed upon, the right is a matter of personal ‘values’ and ‘opinion’. The result is an emphasis upon the ‘legal point of view’, but with an emphasis upon the possibility of changing law in terms of rational considerations of social utility (rather than freezing it in terms of stage 4 ‘law and order’). Outside the legal realm, free agreement and contract is the binding element of obligation. This is the ‘official’ morality of the American government and constitution.
Stage 6: The universal-ethical-principle orientation. Right is defined by the decision of conscience in accord with self-chosen ethical principles appealing to logical comprehensiveness, universality, and consistency. These principles are abstract and ethical (the Golden Rule, the categorical imperative); they are not concrete moral rules like the Ten Commandments. At heart, these are universal principles of justice, reciprocity and equality of human rights, and of respect for the dignity of human beings as individual persons.” (Kohlberg, 1973, p. 632)
[xix] “Stage 5. Having a Right: Has an awareness of human or natural rights or liberties which are prior to society and which society is to protect. It is usually thought by the stage 5 that freedoms should be limited by society and law only when they are incompatible with the like freedoms of others. (Natural rights differentiated from socially awarded rights)
Obligation: Obligations are what one has contracted to fulfill in order to have one’s own rights respected and protected. These obligations are defined in terms of a rational concern for the welfare of others. (Obligations as required rational concern for welfare differentiated from fixed responsibilities)
Stage 6. Having a Right: There are universal rights of just treatment which go beyond liberties and which represent universalizable claims of one individual upon another.
Obligation: Any right or just claim by an individual gives use to a corresponding duty to another individual.” (Kohlberg, 1973, p. 637)
[xx] TJ, VIII, § 72, p. 530
[xxi] Ibid.

FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA

FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA[i]


PROF. MS. ROGER MOKO YABIKU
[ii]


INTRODUÇÃO


Este pequeno texto visa facilitar e sistematizar o estudo da disciplina de Filosofia, sob o enfoque da modernidade e da contemporaneidade, numa tentativa de se trazer o conteúdo mais próximo do cotidiano, associando-o com questões relativas ao modo de pensar ocidental, extremamente influenciado pelas diversas correntes filosóficas. Não há maiores pretensões acadêmicas ou para fins de publicação com este trabalho, portanto, não há o rigor exigido em termos de metodologia científica. Trata-se apenas de um mero recurso auxiliar às aulas proferidas em sala. O curso foi dividido em quatro unidades: I - teoria do conhecimento, II - ciência e método, III - trabalho e alienação e IV - cultura e mass media. Ressalta-se que para o melhor aproveitamento dos estudos universitários – em qualquer disciplina – a primeira opção é a leitura dos livros e os estudos realizados intra e extra-classe.


I. TEORIA DO CONHECIMENTO


A parte da Filosofia que investiga as condições do conhecimento verdadeiro chama-se teoria do conhecimento. Como disciplina autônoma, surgiu na Idade Moderna, com autores como René Descartes, John Locke e David Hume, que estavam preocupados em explicar de maneira explícita e sistemática a origem, a essência e a certeza do conhecimento humano. (ARANHA & MARTINS, 2003, p. 118) Por isso, discorrer-se-á sobre a jornada da separação entre fé e razão, a partir do Renascimento, passando pelos prismas do racionalismo, do empirismo, do iluminismo (Immanuel Kant), do positivismo, do hegelianismo, do marxismo e da Escola de Frankfurt, de modo suscinto, sem maiores aprofundamentos.
Durante o Renascimento (século XIV ao XVI), foram descobertas algumas obras de Platão, desconhecidas durante a Idade Média, e de novas obras de Aristóteles. Essas obras eram lidas, segundo Marilena Chauí (2006, p. 48), em grego, recebendo, posteriormente, traduções em latim, a língua culta da época, como o inglês o é hoje. Nessa época, houve um distanciamento entre fé e razão. Na Idade Média, predominava a fé sobre a razão, pois predominava o domínio cultural da Igreja Católica, que era muito poderosa, chegando mesmo a coroar reis, fundar universidades e organizar Cruzadas à Terra Santa.
Na Idade Média, a visão do mundo era teocêntrica, ou seja, Deus era o centro de todas as coisas. E tudo deveria ser compreendido pela razão. O Renascimento representou uma mudança de visão de mundo. Do teocentrismo, passou-se ao antropocentrismo (o homem como centro das coisas). Retomaram-se os padrões gregos e romanos, seja na filosofia, literatura quanto na arte. O humanismo é a característica, portanto, do Renascimento.
Além da efervescência intelectual, durante o Renascimento ocorreram as grandes navegações, que levaram à descoberta de novas terras, novos povos, permitindo que os europeus pudessem dar um outro olhar para suas próprias vidas. Isso levou a algumas crises, contra a própria Igreja Católica, inclusive, que culminou na Reforma Protestante. A Igreja Católica, por sua vez, contra-acatou a reforma, dando maiores poderes à Inquisição.
Na Idade Moderna (século XVII ao começo do XVIII), procurou-se vencer o pessimismo teórico. Para tal, a filosofia moderna (também conhecida como Grande Racionalismo) propôs algumas mudanças. Em vez de se tentar compreender a natureza e os seus objetos, a Filosofia deveria se preocupar com a reflexão, ou seja com o sujeito do conhecimento. Há também a noção de que a natureza, a sociedade e a política podem ser inteiramente conhecidas pelo sujeito do conhecimento. E, por fim, a realidade seria racional, um sistema ordenado de causalidades físico-matemáticas perfeitas e plenamente conhecíveis pela razão humana. (CHAUÍ, p. 48-49)
A razão, para os filósofos modernos, pode ser utilizada pelo sujeito do conhecimento para não só conhecer a realidade, mas também alterá-la. O homem poderia controlar a natureza, por meio de máquinas, para a satisfação das suas necessidades. Na Filosofia Moderna, destacam-se duas correntes filosóficas: o racionalismo e o empirismo.


1.1 Racionalismo


René Descartes (1596-1650), francês, é considerado por muitos o pai da filosofia moderna. Suas principais obras foram Discurso do Método e Meditações Metafísicas. Descartes constatou que tudo era passível de dúvida, por isso converteu a dúvida em método, passando a questionar o senso comum, os discursos das autoridades, das sensações, dos sentidos, entre outros. Vejam o raciocínio de Descartes: se duvido, penso; se penso, existo. Daí, sua célebre frase “Cogito ergo sum” (Penso, logo existo), que fundamentou toda sua filosofia.
A partir dessa intuição primeira, do ser que pensa, Descartes difirencia outros tipos de idéias, já que algumas são duvidosas, confusas e outras são mais claras. Daí, classificou as idéias em três tipos: a-) idéias adventícias – originam-se das sensações, percepções e lembranças, ou seja idéias de qualidades sensoriais (cor, sabor, odor, som, textura, tamanho, lugar, etc) ou de idéias percebidas por meio dessas qualidades. Geralmente, essas idéias são falsas; b-) idéias fictícias – criadas pela fantasia e pela imaginação. Nunca são verdadeiras; c-) idéias inatas – não derivam da experiência sensorial, nem da fantasia, pois são inteiramente racionais e os seres humanos já nascem com elas. (CHAUÍ, p. 70)
As idéias inatas não são sujeitas a erro, pois são independentes das idéias que vêm de fora, aquelas formadas pela ação dos sentidos, e pela imaginação. Portanto, para o racionalismo cartesiano, a razão e o conhecimento surgem de dentro do indivíduo, e não de fora. Há uma separação entre o material e o “espiritual”. Aquilo que deve ser confiável é somente o que pode ser captado pelo espírito, as idéias inatas.
Qual a importância do racionalismo cartesiano? Ele acentuou o caráter absoluto e universal da razão, que descobre todas as verdades possíveis. A partir do século XVII, buscou-se um ideal matemático, uma matemática universal, uma maneira de se tentar compreender o mundo, as idéias, as coisas totalmente pela inteligência, com ordem e medida. A matemática, então, para o racionalismo, é o modelo perfeito de conhecimento verdadeiro.
A resposta dos britânicos ao racionalismo cartesiano, foi o empirismo, representado principalmente por Francis Bacon, John Locke e David Hume.


1.2 Empirismo


Enquanto o racionalismo rejeita as experiências sensíveis, o empirismo valoriza o experimento no processo do conhecimento. Para os empiristas, a experiência sensível é responsável existência de idéias na razão, controlando o seu próprio trabalho (da razão), pios o valor e o sentido da atividade racional dependem do que é determinado pela experiência sensível. “Para os empiristas, o modelo de conhecimento verdadeiro é dado pelas ciências naturais ou ciências experimentais, como a física e a química.” (CHAUÍ, p. 130)
Para os empiristas, a razão e o conhecimento se formam de fora para dentro do ser humano, por meio da experiência sensível, cujas formas principais são a sensação e a percepção.
A sensação fornece ao ser humano as qualidades exteriores e interiores dos objetos e as qualidades que exercem sobre as pessoas. “Na sensação vemos, tocamos, sentimos, ouvimos qualidades puras e diretas das coisas: cores, odores, sabores, texturas, sons, temperaturas. Sentimos o quente e o frio, o doce e o amargo, o liso e o rugoso, o vermelho e o verde, etc. Sentimos também qualidades internas, isto é, que passam em nosso corpo ou em nossa mente pelo contato com as coisas sensíveis: prazer, desprazer, dor, agrado, desagrado. (...) A percepção seria, pois, uma síntese de sensações simultâneas.” (CHAUÍ, p. 132-133)
Entre os empiristas, vale destacar Francis Bacon (1561-1626), John Locke (1632-1704) e David Hume (1711-1776). Bacon tinha como lema “saber é poder” e sua principal obra foi “Novum Organum”, na qual denuncia os preconceitos e noções falsas, que dificultam a compreensão da realidade. Ele denomina esses preconceitos e noções falsas de “ídolos”, que podem ser de quatro tipos: a-) ídolos da tribo – são da própria espécie humana, quando as percepções fazem analogia com a mente humana e não com o universo; b-) ídolos da caverna – oriundos dos homens como indivíduos, cada um tem uma maneira particular de entender as coisas, o que pode corromper a verdade; c-) ídolos do foro – das relações comerciais e sociais, nas quais os homens se deixam levar mais pela conversa que pelo intelecto; d-) ídolos do teatro – chegam ao homem por meio de doutrinas filosóficas e regras viciosas.” (ARANHA & MARTINS, p. 132-133)
John Locke, em “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, preferiu o caminho psicológico para investigar a origem das idéias, que tem como fontes a sensação e a reflexão. “Sensação é o resultado da modificação feita na mente por meio dos sentidos. A reflexão é a percepção que a alma tem daquilo que nela ocorre. Portanto, a reflexão se reduz apenas à experiência interna do resultado da experiência externa produzida pela sensação.” (ARANHA & MARTINS, p. 133)
Para Locke, a produção de uma idéia simples na mente depende da qualidade do objeto, que provoca algumas percepções sensíveis. Essas qualidades podem ser primárias – que possuem caráter objetivo por existirem realmente nas coisas (solidez, extensão, configuração, movimento, repouso, número) - ou secundárias – que variam sujeito para sujeito (cor, som, odor, sabor). Já as idéias complexas são atadas e desatadas das idéias simples. As idéias complexas são formadas pelo intelecto, assim não tem validade objetiva. São mais como nomes para denominar e ordenar as coisas. “Locke critica a doutrina das idéias inatas de Descartes, afirmando que a alma é como uma tábula rasa (tábua sem inscrições), como uma cera em que não há qualquer impressão, e o conhecimento só começa após a experiência sensível.” (ARANHA & MARTINS, p. 133)
Segundo o escocês David Hume, só se pode observar os fenômenos, pois o mecanismo íntimo do real não é passível de experiência. “O que observamos é a sucessão dos fatos ou a sequência de eventos e não o nexo causal entre esses mesmos fatos ou eventos. É o hábito criado pela observação de casos semelhantes que nos faz ultrapassar o dado e afirmar mais do que a experiência pode alcançar. (ARANHA & MARTINS, p. 134)


1.3 Iluminismo


Na onda do movimento iluminista, o filósofo alemão Immanuel Kant tentou superar a dicotomia entre o racionalismo e o empirismo. Antes, cabe falar do iluminismo em si, um movimento surgido no século XVIII, também conhecido como século das luzes, ou ilustração. O nome é alusivo à capacidade das luzes da razão reorganizarem o mundo, libertando-o da obscuridadade. A revolução científica de Galileu, que também deu substrato ao Renascimento, influenciou a filosofia do iluminismo. “O método experimental recém-descoberto tem a técnica como aliada, fazendo surgir novas ciências, as quais, por sua vez, aperfeiçoam ainda mais a tecnologia. Com o seu poder aumentando, o ser humano não mais se contenta em contemplar a harmonia da natureza: quer conhecer para dominá-la. Por fim, a natureza passa a ser vista de forma dessacralizada, isto é, desvinculada da religião. Tornando-se livre de qualquer tutela, sabendo-se capaz de procurar soluções com base em princípios racionais, o ser humano estende o uso da razão a todos os domínios: político, econômico, moral e religioso.” (ARANHA & MARTINS, p. 134)
Para Kant, essa segurança do poder humano decorre da afirmação da burguesia como classe social dominante. Nesse momento, consolidou-se o sistema capitalista, expresso principalmente pela Revolução Industrial, pelo surgimento da máquina a vapor, que auxiliou a mecanização das indústrias. O iluminismo se alastrou e influenciou toda a Europa, principalmente Inglaterra, França e Alemanha.
Apesar de haver inúmeros filósofos que marcam esse período da história, para fins deste estudo, escrever-se-á brevemente sobre Kant. Em sua obra “Crítica da Razão Pura”, Kant questiona se é possível existir uma razão pura, independente da experiência. Seu método ficou conhecido como criticismo. Para ele, o conhecimento é formado por matéria e forma. “A matéria dos nossos conhecimentos são as próprias coisas, e a forma somos nós mesmos. (...) Para conhecer as coisas, temos de organizá-las a partir da forma a priori do tempo e do espaço. Segundo Kant, o tempo e o espaço não existem como realidade externa, são antes formas que o sujeito põe nas coisas. (...)” (ARANHA & MARTINS, p. 136) De acordo com Kant, não há como se conhecer a coisa-em-si (noumenon), mas somente as suas manifestações, os fenômenos.


1.4 Positivismo


O iluminismo e as obras de Kant influenciaram tremendamente a filosofia da Idade Contemporânea, que se iniciou no século XIX. Numa ponta, surgiram os filósofos materialistas, como alemão Ludwig Fuerbach, e os positivistas, capitaneados pelo francês Augusto Comte. Na outra, os idealistas, como Georg Wilhelm Hegel. Por ora, falar-se-á de Augusto Comte (1798-1857) e o positivismo. No século XVIII, a Revolução Industrial demonstrou que a nova classe social no poder era a burguesia. Ciência e técnica, frutos da razão humana para compreender e transformar a natureza, provocaram também mudanças nos ambientes humanos. Antes da máquina à vapor, por exemplo, o trabalho era predominantemente braçal, ou por tração animal ou eólica. Esse poder-saber – do cientificismo – destacou a ciência como “único método da natureza válido, devendo, portanto, ser estendido a todos os campos da indagação e atividade humanas.” (ARANHA & MARTINS, p. 140)
Diante do cenário cientificista, surgiu o positivismo, cujo principal espoente foi Comte. Para o francês o espírito humano passou por três estados diferentes e consecutivos (lei dos três estados): a-) estado teológico – as explicações para tudo são sobrenaturais, derivam, por exemplo, dos deuses; b-) estado metafísico – forças abstratas, noções absolutas explicam a origem e o destino do universo; c-) estado positivo – devido às ciências, as “ilusões são superadas pelo conhecimento das relações invariáveis dos fatos, por meio de observações do raciocínio que visam alcançar as leis efetivas.” (ARANHA & MARTINS, p. 140)
O estado positivo, portanto, representaria a maturidade do espírito humano. O positivo – aquilo que é posto – mostra aquilo que é real, dá uma certeza, não encontrada jamais, principalmente nas explicações teológicas e metafísicas de mundo. O positivismo tem como modelo a fisica e suas leis invariáveis, que são transpostas dos fenômenos físicos para as relações humanas. Na física, não há liberdade. Por exemplo, todos os corpos são atraídos para o centro da Terra por causa da lei da gravidade. E ninguém está livre disso. Essas leis invariáveis junto aos fenômenos humanos introduz no positivismo o determinismo, quer dizer, o reino da necessidade, no qual se perde a liberdade, sendo o homem determinado pelo meio, pela raça e pela época, como desenvolveria posteriormente Taine, um seguidor de Comte.
[iii]
Comte classifica as ciências pela ordem de importância e também cronológica: astronomia, física, química, biologia e física social (sociologia). Ele é tido como o pai da sociologia. No seu entendimento, a sociologia é dominante com relação aos outros saberes científicos. A sociologia de Comte aproveita os modelos da biologia para explicar a sociedade como um imenso corpo. Porém, só algumas pessoas – uma elite como a parte frontal do cérebro mais desenvolvida, capaz de ter maior inteligência e sentimentos morais – dirigiria o restante da sociedade – que deveria ser dominada por não saber controlar sua afetividade, o que causaria desordem. Essa ordem, para Comte, de uma elite dominar os demais era essencial para a efetivação do progresso da humanidade.
O positivismo exerceu grande influência no Brasil, principalmente por meio de Luís Pereira Barreto e do militar Benjamin Constant (um dos articuladores da proclamação da república). Não é à toa que o lema da bandeira brasileira é “ordem e progresso”.


1.5 Hegelianismo


O alemão Georg Wilhelm Hegel (1770-1831) diz que a razão é histórica. Há todo um devir, um vir a ser, um movimento, pois nada seria estático. Usa o princípio da contradição para desenvolver a sua dialética. “Hegel desenvolve novo conceito de história, também dialético: o presente é engendrado por longo e dramático processo; a história não é simples acumulação e justaposição de fatos acontecidos no tempo, mas resulta de um processo cujo motor interno é a contradição dialética.” (ARANHA & MARTINS, p. 143) Cada época, segundo Hegel, era regida por um “Espírito do Tempo” (Zeitgeist). Quer dizer, cada época tinha uma característica peculiar, que a diferenciava das demais.
Partiu do pressuposto de que todo ser já contém em si a semente da sua própria destruição. Há três etapas na dialética: 1 – tese (afirmação), 2 – antítese (negação) e 3 – síntese (negação da negação). O mundo, para Hegel, seria a manifestação da própria Idéia, sendo a história universal a manifestação da razão. O ponto de partida é a Idéia pura (tese). Mas para que a Idéia possa se desenvolver, necessita criar algo que lhe é oposto, a Natureza (antítese) – matéria alienada, ou seja, privada de consciência. Desse conflito, entre a Idéia (tese) e a Natureza (antítese), nasce o Espírito, que é, ao mesmo tempo, pensamento e matéria. A Idéia, então, toma consciência de si por meio da Natureza. Esse movimento dialético se desenrola sucessivamente até atingir o Espírito Absoluto, a síntese final, cuja maior representação estaria na Filosofia.


1.6 Marxismo

Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) utilizaram-se da filosofia hegeliana para formularem sua própria teoria. Para eles, Hegel não conseguiu explicar, com o seu “Espírito”, a vida social da época (século XIX). Houve avanços com o maior controle da técnica e com o maior domínio da natureza e o maior enriquecimento, no entanto, houve escravização maior da classe operária, cada vez mais empobrecida. Marx e Hegel inverteram a dialética de Hegel. E criaram o materialismo dialético. Segundo eles, em vez da Idéia, o movimento é a propriedade fundamental da matéria e existe independentemente da consciência. De acordo com o materialismo dialético a infraestrutura (política e economia) determina a superestrutura (cultura, religião, moral, etc). Quer dizer, as condições materiais cotidianas (relações econômicas) são fundamentais para que se formulem como as relações sociais se desenrolam numa certa sociedade. Assim, quando se mudava a infraestrutura da sociedade, automaticamente o mesmo ocorria com a superestrutura.
Ao se aplicar o materialismo dialético à história, se tem o materialismo histórico, uma explicação histórica por meio dos fatores materiais (economia e política). Na dialética marxista, não se fala da Idéia, mas de fatos materias. Em vez de heróis, está a luta de classes. “Na sociedade contemporânea, baseada no modo de produção capitalista, com emergência da industrialização em grande escala, surge a necessidade do consumo dar vazão aos produtos fabricados: mais ainda, o consumismo resulta do desejo artificialmente produzido de ter muitas coisas para se sentir humano e aceito pelos outros. Portanto, segundo Marx, para estudar a sociedade não se deve partir do que os indivíduos dizem, imaginam ou pensam, mas da forma como produzem os bens materiais necessários a sua vida. Analisando o contato que estabelecem com a natureza para transformá-la por meio do trabalho e as relações criadas entre eles, é que se descobre como produzem sua vida e suas idéias. (ARANHA & MARTINS, p. 145) Marx começa a criticar os rumos tomados pelo iluminismo, prenunciando a crise da razão.


1.7 Escola de Frankfurt

Profundamente influencidos pelos estudos de Marx, Sigmund Freud, Martin Heidegger e Friedrich Nietzsche, pensadores como Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse e Walter Benjamin ampliaram a crítica à razão. Alinharam-se em torno do Instituto para Pesquisa Social, conhecido como Escola de Frankfurt.[iv] Para os frankfurtianos, a crença na ciência e na técnica, de um lado ajudou o ser humano a transformar a natureza com maior facilidade, dominando-a, no entanto, de outro lado, o preço foi muito caro: a liberdade humana. A razão que deveria libertar o homem da obscuridade deixou-o cada vez mais dependente e cego pela indústria cultural e da sociedade de massa. Criticam a racionalidade instrumental. “Trata-se do exercício da racionalidade científica, típica do positivismo, que visa a dominação da natureza para fins lucrativos e coloca a ciência e a técnica a serviço do capital.” (ARANHA & MARTINS, p. 150)
A era da racionalidade inagurada por Descartes sofisticou-se até chegar a Marx (que teve sua versão de “iluminismo”), crendo na força da razão para controle da natureza, e evitar a obscuridão na moral e na política. O ser humano ao ser tratado como parte da massa, em parte devido à separação da racionalidade entre sujeito e objeto, entre corpo e alma, entre eu e mundo, entre natureza e cultura, perdeu a sua individualidade. A emancipação só poderá ocorrer se o indivíduo autônomo, consciente dos seus fins, recupere sua consciência, tornando-se cada vez mais crítico com relação ao mundo e as relações de força que o cercam. O principal representante da Escola de Frankfurt, atualmente, é Jürgen Habermas, autor da “teoria da ação comunicativa”.


II - CIÊNCIA E MÉTODO


2.1 Senso comum x ciência


Num ambiente acadêmico, principalmente, há preocução especial com o conhecimento. Não se aceita qualquer tipo de conhecimento, há primazia do conhecimento científico. A mera opinião, desvinculada de teorias ou embasamento mais rigorosos, é duvidosa, portanto, quase sempre é rejeitada. A opinião pura e simples, via de regra, é associada com o senso comum. O conhecimento mais embasado com o conhecimento científico.
Muitas vezes, o senso comum é adquirido pela vivência, pela tradição oral. É relacionado ao cotidiano, numa tentativa de compreendê-lo, para que se possa atuar no mesmo. O senso comum é constituído de crenças, pois é espontâneo e não crítico.
Não raro, a ciência confronta o senso comum, no intuito de desmistificar preconceitos. Antes da revolução científica do século XVII, o senso comum ajudou a sistematizar o conhecimento. Porém, isso não era o suficiente. Havia uma necessidade de maior certeza que só poderia ser trazida pela ciência.
A ciência é um corpo de conhecimentos organizados e que permite fazer classificações. Necessita de investigações sistemáticas, bem fundamentadas. Geralmente, as explicações científicas baseiam-se em enunciados gerais, os princípios, que explicam diversos fenômenos. Já o senso comum resulta de conhecimento particular, de uma amostra da realidade, que é generalizado, às pressas, gerando imprecisão. A seleção dos dados, nesse caso, não é rigorosa.
O conhecimento científico é geral, pois suas conclusões não valem só para determinados casos observados, mas para todos os que são semelhantes. Já no senso comum, o conhecimento é fragmentário, pois explica somente o caso observado, sem se preocupar com enunciados gerais.
O senso comum é subjetivo, já a ciência é objetiva. Por exemplo, pela pela se pode sentir calor ou frio, cujas sensações variam de pessoa para pessoa. Com um termômetro mede-se objetivamente a temperatura. Assim sendo, as conclusões da ciência, dotadas de objetividade, podem ser verificadas por outros membros da comunidade científica, porque, na medida do possível, há impessoalidade.
A linguagem científica é rigorosa, seus termos são claramente definidos para evitar problemas de interpretação. Quanto mais se utiliza da matemática para transformar qualidades em quantidades, mais precisa é a linguagem.


2.2. Método científico


Galileu Galilei revolucionou a física no século XVII, ao afirmar que a terra girava em torno do Sol e não o contrário. A ciência, tal como se conhece hoje, é algo recente, que tem em torno de 400 anos. Moderna e contemporaneamente, a ciência determina seu método de investigação e cria um método confiável para fazer o controle desse conhecimento. Com isso, se atinge um conhecimento sistemático, com precisão e objetividade, que possa permitir a elaboração de enunciados gerais acerca dos fenômenos.
Como se sabe, há várias ciências. “Cada ciência se torna então uma ciência particular, no sentido de delimitar um campo de pesquisa e procedimentos específicos. As ciências são particulares na medida em que cada uma privilegia setores distintos da realidade: a física trata do movimento dos corpos; a biologia, do ser vivo etc. Recentemente, a partir do século XX, surgem as ciências híbridas, tais como a bioquímica, a biofísica, a mecatrônica, a fim de melhor resolver problemas que exigem, ao mesmo tempo, concurso de mais de uma delas.” (ARANHA & MARTINS, p. 158)
A ciência pretende conhecer as causas do mundo, a sua estrutura causal. Tende à imparcialidade, à autonomia e à neutralidade. Por imparcialidade, entende-se que não se toma partido, pois os dados concluídos foram obtidos por meio de padrões rigorosos de avaliação, por meio de um método preciso e objetivo. Com relação à neutralidade, pode-se dizer que, na ciência, não há valoração moral ou social. Seria neutro por não atender a algum valor em particular, sem servir a interesse específico algum. A autonomia, por sua vez, se refere ao fato de que as instituições científicas deveriam estar isentas de qualquer tipo de influência externa, seja do mercado ou do governo, para produzirem teorias imparciais e neutras.


2.3 Responsabilidade social do cientista


A ciência deveria ser neutra, imparcial e autônoma. Porém, para se produzir ciência são necessários grandes investimentos, principalmente se as pesquisas são desenvolvidas no âmbito empresarial. Essas práticas de controle da natureza, via conhecimento científico, estão nas mãos dos empresários capitalistas. Então, as pesquisas e descobertas científicas servem mais ao individualismo e à propriedade particular que à solidariedade e aos bens sociais. O mercado parece também, com sua mão invisível, manipular a ciência, tornando os homens cada vez mais desiguais.
A neutralidade da ciência então se coloca em cheque-mate diante de tal cenário. O cientista se encontra envolvido numa teia social, política e econômica, na qual dificilmente não será influenciado. “Essas observações nos levam a refletir sobre a formação do cientista, que não deveria se restringir apenas aos conteúdos desse conhecimento, às suas metodologias e práticas de pesquisa. Mais do que isso, é preciso que o futuro cientista tenha condições de examinar os pressupostos desse conhecimento e de sua atividade, de se perceber como pertencendo a uma comunidade e identificar os valores subjacentes à sua prática.” (ARANHA & MARTINS, p. 161)


2.4 Razão instrumental


Como já escrito no tópico relacionado à Escola de Frankfurt, o cientificismo típico do positivismo causou uma intrusão das ciências modernas na vida humana, globalizando e priorizando a razão instrumental, com justificativa de roupagem “técnico-científica”. A dominação da “teoria da ciência” e o seu império determinam a exclusão do ético, já que a “validação intersubjetiva de argumentos limita-se ao campo das ciências formais, lógico-matemáticas, e ao campo das ciências factuais, as empírico-analíticas, da realidade”. Declarado este monopólio do campo do saber objetivo, com validade intersubjetiva, as normas morais estão fora de qualquer consideração. As únicas com pretensão de validade, neste aspecto, são aquelas deduzidas de fatos observáveis. O homem tem de desejar submeter a seu domínio a natureza, por meio de metidos geralmente calcados nas ciências experimentais e na tecnologia, numa relação de controle, previsão e recriação artificial.
Por sua vez, o interesse prático consiste naquele organizar os relacionamentos entre os humanos, implicando numa repressão à sua natureza interna, com normas para regular seus processos de vida em sociedade. “E qual é o papel da filosofia com relação à ciência e suas aplicações? Lembremos dos filósofos da Escola de Frankfurt, que criticaram os mitos da ciência, ao mostrarem que o Iluminismo nos acenou com as luzes da razão e co o progresso delas derivado, nos deixou também as sombras dessas promessas. A ciência e a tecnologia, mesmo que sejam expressões da racionalidade, podem produzir contraditoriamente efeitos irracionais, perversos, já que a razão pode ser posta a serviço da destruição da natureza, da alienação humana, da dominação ou do desprezo pelo sofrimento de grande parte da população.” (ARANHA & MARTINS, p. 161)


III – TRABALHO E ALIENAÇÃO


3.1 Revolução Industrial


A palavra trabalho vem do latim tripalium, um antigo instrumento de tortura. Daí, a associação do trabalho com sofrimento. Trabalho era para os escravos, aos senhores cabia o ócio digno, ou seja, tempo para melhorar o corpo e o espírito. O mesmo se deu em Roma, tanto que a palavra negócio significa negação do ócio.
O ditado popular “todos os trabalhos são dignos” remonta a São Tomás de Aquino. Contudo, como sua doutrina se baseava no greco-macedônico Aristóteles, o doutor angélico valorizou mais o trabalho intelectual que o trabalho braçal.
Com a ascenção dos burgueses, na Idade Moderna, a situação começou a mudar. Muitos dos burgueses foram servos dos senhores feudais. Eram acostumados com o trabalho braçal. Com isso conseguiam acumular certas quantias que lhes permitiam comprar sua liberdade para que, depois, se tornassem comerciantes.
As fábricas surgiram no começo da Idade Moderna, fazendo surgir uma nova classe, o proletariado. As antigas corporações de ofício, nas quais os mestres artesões ensinavam uma profissão aos seus discípulos, sucumbiram ante à nova organização burguesa do mundo, não conseguindo competir com os então novos produtos industrializados.
Muitos desses mestres e seus discípulos, assim como grande parte dos camponeses e demais classes sociais – incluindo nobres empobrecidos, passaram a ser mão-de-obra barata das fábricas. Os proletários (funcionários) vendiam sua força de trabalho em troca de salário. O fruto do trabalho não era mais dos trabalhadores, mas do empresário (o capitalista), que comprava a força de trabalho, vendia a produção e ficava com os lucros.
A revolução industrial acelerou muito a exploração do trabalhador. No século XVIII, com a máquina a vapor, a indústria têxtil, tendo como maior expoente a Inglaterra, aumentou a produção. Fato semelhante ocorreu no campo, que também deixou de ser extremamente rude e artesanal, sendo abarcado igual e paulatinamente pela mecanização.
O homem, no Iluminismo, tinha na razão a salvação contra a obscuridade seja no conhecimento considerado como culto, na política e na moral. Mas o trabalho que deveria ser para transformar a natureza, subjugando-a, no intuito, de favorecer a humanidade, teve consequências nefastas. Essa situação de domínio também serviu para que as pessoas passassem a controlar outras pessoas, sofisticando o sistema de servidão anterior.
No século XIX, houve progresso econômico, científico e tecnológico, causando certa abundância e crença num futuro melhor. Por outro lado, não houve melhorias nas condições de vida, já que a exploração dos trabalhadores pela burguesia foi levada quase que ao extremo, já que naquela época, por exemplo, não existiam direitos trabalhistas. Com resposta a esta situação, surgiram os movimentos socialistas e anarquistas.


3.2. Taylorismo e Fordismo


Antes da supremacia da fábricas, o trabalhador conhecia todas as etapas da produção, sendo senhor por completo desse processo. Com o advento da industrialização em massa, isso se modificou. A divisão do trabalho era cada vez mais complexa. Uma pequena parte do pessoal inventava o produto e o seu processo de produção, outra parte gerenciava a produção. E a maioria dividida em grupos produzia. Ou seja, cada grupo produzia uma parte, assim, dificilmente uma pessoa saberia dizer como funcionaria cada etapa da produção.
O norte-americano Frederick Taylor (1856-1915), com seu livro “Princípios de administração científica”, estabeleceu parâmetros científicos para racionalizar a produção. Esse método, o “taylorismo”, pregava a maior produtividade no menor tempo possível, subtraindo os gastos desnecessários do processo produtivo, maximizando a utilização da máquina e dos movimentos humanos.
Com base na linha de montagem de automóveis que criou, Henry Ford (1863-1947) dividiu ainda mais o trabalho, inaugurando o “fordismo”. O sistema teve sucesso no século XX nos Estados Unidos e não se restringiu ao ambiente industrial. Esse jeito de pensar e conceber o mundo – como uma imensa linha de montagem – se expandiu e abarcou empresas, os esportes, a medicina, as escolas e até mesmo a seara doméstica. Por exemplo, os eletrodomésticos são feitos para economizar o tempo e maximizar o trabalho da dona-de-casa.
Para Taylor, o trabalhador era “preguiçoso” por natureza. Assim, fazia movimentos inadequados no trabalho e se “desligava” facilmente. Analisou como trabalhavam, modificou seus movimentos de modo a otimizar a produção. Observou que se dividisse e parcelasse o processo produtivo, haveria maior rapidez no trabalho. Os novos chefes, os gerentes, substituíam os feitores das fazendas de escravos e os capatazes do sistema de servidão. Os gerentes eram encarregados de treinar os trabalhadores e vigiá-los. Os bons funcionários eram recompensados. Os indolentes, punidos. Ao se ver a expressão “funcionário do mês”, ou algo do tipo, há de se fazer conexões com o pensamento de Taylor: usar o sistema de recompensa e punição, respectivamente, para quem otimiza a produção e para quem a prejudica.


3.3 Alienação


Marx escreveu que, com a divisão do trabalho e a acentuação da propriedade privada dos meios de produção, o produto do trabalho deixou de pertencer a quem o produziu. Há alienação, pois o trabalhador transfere para outrem (o empresário) aquilo que é seu. Nesse ínterim, o trabalhador perde o centro de si mesmo, sendo controlado em todo o processo produtivo.
Ocorre, segundo Marx, o fetichismo da mercadoria e a reificação do trabalhador. Fetichismo da mercadoria ocorre ao se dar demasiado valor ao produto. O valor da mercadoria (valor de troca) no mercado se torna maior que os valores de uso (o que vale pela sua utilidade), influenciando sobremaneira as relações humanas.
A mercadoria passa a valer mais que as pessoas. Vale o que a pessoa tem e não o que a pessoa é. A mercadoria é “humanizada” e a pessoa é “desumanizada”. A pessoa vira mercadoria e a mercadoria adquire o status de pessoa.
[v]
Na alienação na produção, a intensa burocratização das organizações dá a todo o processo e ao sistema uma imagem de neutralidade e de eficácia, como se estivessem fundamentados num saber objetivo, neutro, desinteressado. Mas, na verdade, é uma técnica de controle social. O homem é formatado, coisificado, como se fosse mais uma peça da imensa engrenagem da fábrica.
O taylorismo, em vez de usar a violência física, utiliza formas de domesticação sofisticadas, deixando o trabalhador dócil e submisso. “É um sistema que impessoaliza a ordem, que não aparece mais com a face de um chefe que oprime, diluindo-a nas ordens de serviço vindas do setor de planejamento. Retira toda a iniciativa do operário, que cumpre ordens, modela seu corpo segundo critérios exteriores, científicos, e cria a possibilidade da interiorização da norma, cuja figura exemplar é a do operário-padrão, até um certo tempo atrás objeto de prêmios e modelo a ser seguido por todos. Ainda hoje o recurso a gratificações e promoções para se obter índices cada vez maiores de produção gera a caça aos postos mais elevados na empresa e estimula a competição em vez da solidariedade. A fragmentação dos grupos e do próprio operário facilita ao dono da empresa o controle do produto final.” (ARANHA & MARTINS, p. 46)
A alienação na produção se deu tanto no capitalismo quanto no socialismo real. Na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), Vladimir Ilitch Ulianov, o Lênin, também racionalizou a produção, sob a o pretexto de que os frutos da produção não iriam para o capitalista, mas para o Estado, já que a propriedade privada foi eliminada em 1917, com a Revolução Russa. O resultado foi a burocratização do próprio Estado e, tal como no capitalismo, houve a “coisificação” do trabalhador.
Mesmo sob o manto da objetividade científica, entre aspas, a racionalização do trabalho tinha em si uma irracionalidade, pois deixou o homem vazio, relegando a segundo plano seus sentimentos, emoções e desejos. “As pessoas que aparecem nas fichas do setor pessoal são vistas de modo impessoal, sem amor nem ódio. O burocrata-diretor torna-se um profissional que as manipula como se fossem cifras ou coisas.” (ARANHA & MARTINS, p. 47)
Com a ampliação do setor de serviços, aumentou-se a chamada classe média. Novas profissões surgiram, abrigando mais executivos e burocratas. Acentuou-se o individualismo e a competição predatória, deixando o ser humano mais fechado em sua dimensão privada, já que não se importava mais com as questões públicas, pois estas não estariam afeitas ao seu trabalho. Os indivíduos buscavam cada vez mais a satisfação imediata, personificada no hedonismo, ou seja uma cultura focada no prazer e no lazer, já que no trabalho essa alegria seria impossível. Agora, a alienação se dá no nível do consumo.
Na alienação no consumo, os trabalhadores ao conseguirem algum progresso material partilham o espírito capitalista. O consumo é uma atividade humana natural para a satisfação das suas necessidades. Porém, no capitalismo, por diversas vezes, o ser humano é induzido a comprar coisas ou serviços que nem sempre compraria se estivesse mais consciente. “A produção em massa tem por corolário o consumo de massa. O problema da sociedade de consumo é que as necessidades são artificialmente estimuladas, sobretudo pelos meios de comunicação de massa, levando os indivíduos a consumirem de maneira alienada. (...) O consumo se torna alienado quando passa a ser um fim em si e não um meio, criando dessa forma desejos nunca satisfeitos, um sempre querer mais, um poço sem fundo. A ânsia do consumo perde toda relação com as necessidades reais, o que faz com que as pessoas gastem sempre mais o que tem.” (ARANHA & MARTINS, p. 47-48)
O que ocorre com a população de menor poder aquisitivo? Como ela não se revolta porque não consegue comprar aquilo que vê na televisão e outros meios de comunicação? O capitalismo proporciona ilusões de mobilidade social, pelo trabalho e pelo estudo. Caso isso não ocorra, foi por falta de sorte, incompetência ou algo do tipo. As telenovelas participam de modo marcante nesse tipo de alienação. Outra fantasia comum é a de ganhar na loteria. Outro meio de se tentar suprir a ânsia de consumo por produtos caros é a manufatura de produtos de menor preço e qualidade, semelhantes ao utilizado pela “madame” ou artista de telenovela, que possam ser comprados pela camada menos favorecida. O ser humano fica preso na dimensão do consumo, de que o consumo lhe trará a felicidade. E se perde a liberdade.
Se a produção e o consumo são alienados, também é o lazer. As pessoas vivem estressadas, pois seus trabalhos são mecânicos e repetivivos. Suas mentes estão tão “pesada”, que buscam tipos de diversões estimulantes ou mesmo violentas, para tentarem “sentir” alguma coisa, já que, em vida, parecem quase mortos, zumbis das linhas de produção ou das cadeias de prestação de serviço. Na alienação do lazer, a publicidade é decisiva na direção das escolhas, modismos e programas.
Quem tem mais dinheiro, gasta com boliche, patinação, danceterias, restaurantes, barzinhos específicos, conforme o modismo da época. Mas e quem não dispõe desses recursos financeiros? “Resta lembrar, ainda, que as cidades não oferecem infra-estrutura que garanta aos mais pobres a ocupação do seu escasso tempo livre em atividades gratuitas: lugares onde ouvir música, praças para passeios, várzeas para o joguinho de futebol, clubes populares, locais de integração social espontânea. Essa restrição torna muito reduzida a possibilidade do lazer ativo, não-alienado, ainda mais se lembrarmos que as pessoas se encontram submetidas a várias formas de massificação pelos meios de comunicação.” (ARANHA & MARTINS, p. 49)
Se a pessoa não tem possibilidade econômica de escolher o seu lazer, não há como se participar ativamente na construção do seu lazer. Não há reformulação da experiência, nada se acrescenta, pois se reforçam comportamentos mecanizados.


3.4 Sociedade pós-industrial


No século XX, surgiu a sociedade pós-industrial, caracterizada pela ampliação do setor de serviços (terciário). Muda-se o enfoque da produção para a informação e para o consumo. Muita gente trabalha no escritórios, em vez das fábricas, ou dos campos. Há necessidade de um tipo de comunicação mais veloz e mais eficiente, como os telefones celulares e a internet, por exemplo. Com isso, se permite que algumas pessoas possam trabalhar em casa (teletrabalho). Esses trabalhadores dispõem de maior flexiblidade de horárioe maior autonomia, não precisam bater cartão ou ficarem em locais fixos. Podem fazer seu serviço na própria residência.
Algumas empresas passam a se preocupar com formas mais saudáveis de relacionamento, visando ética, compromisso e qualidade de vida. Mas essas preocupações estão alinhadas com o capitalismo, com intuito sempre de lucro. Ampliam-se também a quantidade de organizações não governamentais (ONGs), que não são nem do governo, nem empresas privadas, mas uma forma de uma entidade privada atuar com funções públicas. As ONGs sobrevivem de doações e, geralmente, abraçam causas públicas e coletivas.


IV – CULTURA E MASS MEDIA


Com o Romantismo, a partir do século XVIII, houve uma onda de nacionalismo nos países para reforçar o sentimento de unidade dos países. Falava-se em em tradições populares, em cultura de um povo, ou como diria Georg W. Hegel, em “volksgeist” (espírito do povo). Daí, a idéia de um folclore, uma cultura e uma arte popular, decorrentes das tradições de um povo. Na época, muitos Estados Nacionais começaram a se firmar, principalmente, pela unidade territórial e política e de idioma. O nacionalismo servia para expressar essa “febre do momento”, porém, esse movimento também trouxe em si a fragmentação das classes sociais típicas do capitalismo.


4.1 Cultura popular x cultura de massa


Na época do Romantismo, houve a ascenção da burguesia como classe social predominante, constituída de pequenos e grandes proprietários, funcionários públicos e intelectuais, tendo como massa o proletariado (trabalhadores das indústrias e do campo). Essa divisão em duas principais grandes classes sociais trouxe algumas características importantes, segundo Marilena Chauí (2006, p. 289): “1. a cultura e as artes foram distinguidas em dois tipos principais: a erudita (ou de elite), própria dos intelectuais e artistas da classe dominante da sociedade, e a popular (ou ingênua), própria dos trabalhadores urbanos e rurais; 2. quando pensadas como produções ou criações coletivas vindas do passado nacional, formando a tradição nacional, a cultura e arte populares receberam o nome de folclore, constituído de mitos, lendas e ritos populares, danças regionais populares, artesanatos, etc; 3. a arte erudita ou de elite passou a ser o conjunto das belas artes produzidas ou criadas no presente por artistas individuais, que se dirigiam a um público majoritariamente burguês, isto é, escolarizado, instruído e endinheirado, consumidor de obras de arte.”
Embora houvesse uma nítida divisão de classes sócio-econômicas para distinguir cultura popular e cultura erudita, a distinção levou em conta o processo de elaboração de cada uma delas, assim como a sua qualidade. Dizia-se que a arte popular era mais simples e menos complexa que a arte erudita, mais sofisticada quanto à forma e conteúdo. A popular era mais repetitiva e tradicional, já a erudita, de vanguarda e futurista. Quanto ao público, a autoria geralmente é desconhecida e artista e audiência são praticamente os mesmos, com relação à erudita, há sempre distinção entre o artista (criador) e a audiência (consumidores). O artista popular busca inspiração no seu ambiente, na sua vida, que é o mesmo do seu público, o que facilita a compreensão da sua obra. Na erudita, o artista não tem sua obra compreendida de imediato porque só entendidos no assunto a entendem, pois é carregada de novos meios de expressão.
Com o desenvolvimento da sociedade industrial, cada vez mais os trabalhadores saíram do campo para se fixarem nas cidades. Começaram a morar nas periferias, deixando para trás sua cultura e arte, originais das suas terras de origem. Mas nos seus bairros e locais de trabalho, junto aos familiares, novos vizinhos e colegas de serviço, construíram uma cultura própria, também conhecida como cultura popular. Mas também viraram consumidores de produtos industriais produzidos em larga escala, réplicas de qualidade e preço inferior das criações da cultura e da arte de alite, a cultura e a arte de massa.
Hoje, as artes podem ser classificadas em: “folclore (as tradições coletivas nacionais populares), popular (as criações dos artistas que pertencem à classe trabalhadora, erudita ou de elite (as criações complexas e de vanguarda de artistas individuais que se dirigem a um público restrito) e de massa (financiada por empresas que fazem tanto as reproduções simplificadas das obras da arte erudita como também compram para produção em escala industrial as obras de artistas individuais e as destinam ao mercado de consumo em larga escala).” (CHAUÍ, p. 289)


4.2 Indústria cultural e cultura de massa


A sociedade industrial permitiu a reprodução em larga escala de diversos itens da cultura e arte. De um lado, segundo o filósofo frankfurtiano Walter Benjamin, isso permitiria que mais pessoas tivessem acesso aos bens culturais e artísticos. Isso seria uma democratização cultural e artística, pelo potencial de divulgação, principalmente, dos livros, artes gráficas, fotografia, rádio e cinema. Um dos exemplos do potencial libertador da cultura foi a impressão da Bíblia traduzida para o alemão por Martinho Lutero, impressa por Gutenberg, que inspirou outras impressões do livro sagrado para diversos idiomas. Democratizou-se a leitura da Bíblia, com isso, os camponeses alemães e holandeses passaram a questionar seus governantes, pois verificavam, por si mesmos, que estes não seguiam fielmente o que estava nas escrituras.
No entanto, outro grupo de pensadores da Escola de Frankfurt, especialmente Max Horkheimer e Walter Benjamin, examinaram uma questão até então ignorada. Com a inauguração da sociedade pós-industrial, as artes e a cultura se libertaram da religião, mas eram profundamente influenciadas pelo mercado capitalista e pela ideologia da indústria cultural. “A expressão indústria cultural significa que as obras de arte são mercadorias, como tudo o que existe no capitalismo. (...) Sob o poderio das empresas capitalistas, as obras de arte verdadeiramente criadoras, críticas e radicais foram esvaziadas para se tornarem entretenimento; e outras obras passaram a ser produzidas para celebrar o existente, em lugar de compreendê-lo, criticá-lo e propor um outro futuro para a humanidade. A força de conhecimento, crítica e invenção das artes ficou reduzida a algumas produções da arte erudita, enquanto o restante da produção artística foi destinado a um consumo rápido, transformando-se em sinal de status social e prestígio político para artistas e seus consumidores e em meio de controle cultural por parte dos empresários e proprietários dos meios de comunicação de massa.” (CHAUÍ, p. 290-291)
A ação da indústria cultural é devastadora e opera silenciosamente nas consciências. Ela vulgariza as informações, fazendo com que as pessoas percam a perspectiva crítica. Há uma diferença muito grande entre democratização da cultura e a massificação cultural. Na democratização cultural, a cultura e a arte são direito de todos e não privilégios de alguns. Na massificação da indústria cultural, separa-se os bens em obras caras e obras baratas. Os bens caros são os acessíveis à elite. Os baratos, os dirigidos à massa dos trabalhadores. Divide-se a população entre a que tem maior poder aquisitivo, elite culta, e a de menor poder aquisitivo, a massa inculta. Há uma ilusão de que todos os bens culturais estão disponíveis para todas as classes sociais, tal como num supermercado. Ora, sabe-se que os bens num supermercado estão à venda para todos, mas nem todos podem comprá-los. “A indústria cultural vende cultura. Para vendê-la, deve seduzir e agradar o consumidor. Para seduzi-lo e agradá-lo, não pode chocá-lo, provocá-lo, fazê-lo pensar, fazê-lo ter informações novas que o perturbem, mas deve devolver-lhe, com nova aparência, o que ele já sabe, já viu, já fez. A ‘média’ é o senso comum cristalizado que a indústria cultural devolve com cara de coisa nova.” (CHAUÍ, p. 292)


4.3 Os mass media e a informática


Os meios de comunicação de massa (mass media) como o rádio, a televisão, os jornais, as revistas e, hoje, a internet exercem função primordial na difusão de informações. Se de um lado favorecem a divulgação cultural, de outro suas potencialidades são utilizadas pela indústria cultural. Há invasões culturais, nas quais a cultura de um País pode sobrepujar a dos demais, num exemplo gritante de imperialismo cultural. A publicidade (alguns dizem propaganda comercial) dirigida ao público consumidor fornece explicações simplificadas e elogios exagerados sobre os produtos, com mensagens curtas e facilmente recordáveis (slogans), garantindo que o comprador terá igualdade com os demais pares se cmoprar o produto e, ao mesmo tempo, se diferenciará dos demais.
A publicidade reforça os valores de uma comunidade e ainda desperta desejos do consumidor. Com o maior desenvolvimento científico e tecnológico, os produtos, assim como as pessoas, passaram a ser cada vez mais descartáveis. Portanto, criam-se novos produtos e novos serviços, divulgados pela publicidade nos meios de comunicação, como superiores aos seus modelos anteriores e aos dos seus concorrentes. Com a concorrência acirrada, a publicidade atingiu novos patamares, de maior requinte, vendendo, além dos produtos, as ilusões de sucesso, prosperidade, segurança, beleza, juventude, sex appeal e felicidade.
Além disso, apresenta produtos ou serviços como maneira de o consumidor realizar desejos que não pode realizar na vida cotidiana, como uma viagem ao exterior, experiências sexuais com mulheres exóticas, liberação feminina, etc. “De fato, como todos os indivíduos são mercadorias que consomem mercadorias, a propaganda passa a estimular imagens de indivíduos vencedores na competição instituída pelo mercado de trabalho: roupas, calçados, bolsas e pastas de grife, sabonetes, perfumes e desodorantes que sugerem requinte e glamour, cosméticos de marcas famosas, etc., passam a constituir o próprio corpo do indivíduo, formam sua imagem como uma espécie de segunda natureza ou de máscara colada em sua pele.” (CHAUÍ, p. 295-296)
Os meios de comunicação que mais se destacam, na indústria cultural, são o rádio e a televisão, pois vendem entretenimento e lazer em forma de informação. Com estudos mercadológicos, a programação é divida em públicos A, B, C e D, segundo o poder de consumo, e as ocupações (dona-de-casa, operário, executivos, etc), para que os anunciantes possam escolher os melhores horários para veicularem suas mensagens publicitárias, de acordo com públicos-alvo específicos. Essa regra, porém, não é absoluta. Empresas podem anunciar produtos em programas não relacionados num primeiro momento com seu público-alvo, na intenção de captar uma clientela de modo indireto. No entanto, percebe-se que pode haver influência do anunciante no conteúdo dos programas, como nos jornalísticos. O poder do anunciante pode também ser verificado nas telenovelas e programas de auditório, em geral.
Os programas jornalísticos oferecem uma avalanche de informações como se fossem todas reais, verdadeiras e legítimas. As informações são ligeiras e acabam, em vez de informar, por desinformar o público. A simplificação demasiada proporciona a dispersão da atenção e a infantilização das pessoas. Atividades que exigem maior atenção não são mais atrativas, pois o público já se acostumou com a formatação proporcionada pelas telenovelas e demais programas de televisão. Uma aula, por exemplo, que exige maior atenção não chama tanto atenção quanto um espetáculo. E os intervalos das aulas são como se fossem os intervalos comerciais, tornados tão necessários para que as pessoas voltem a recobrar a capacidade de atenção.
A informática proporcionou maior aproveitamento das capacidades intelectuais do ser humano, economizando-lhe tempo e demais tipos de esforço. Na primeira revolução industrial, o trabalho do corpo era otimizado por meio das máquinas. Hoje, com a informática, é o trabalho intelectual que é otimizado. Essa facilidade comunicativa aumentou a velocidade das transformações e das transações econômicas. O ditado “tempo é dinheiro” nunca foi tão verdadeiro quanto agora. Quem se imagina sem internet ou e-mail hoje?
Há, ademais, alguns comentários acerca do potencial difusor de informações proporcionados pelos computadores e pela internet. Ao mesmo tempo que ela inclui as pessoas e as torna mais próximas, ela distancia as que não tem conhecimento de informática, por mínimo que seja, deixando-as mais alienadas e longe do mercado de trabalho e de outros relacionamentos mais qualificados. Verifica-se, atualmente, o fenômeno do analfabetismo digital. Ou seja, daqueles que não sabem se comunicar ou utilizar computadores ou aparelhos mais sofisticados. São esses alguns dos paradoxos da tecnologia.

V – BIBLIOGRAFIA


ARANHA, M. L. de A.; MARTINS, M. H. Filosofando. 3. ed. rev. São Paulo: Moderna, 2003.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2006.

[i] Material elaborado para a disciplina de Filosofia.
[ii] Bacharel em Comunicação Social - Jornalismo, bacharel em Direito, formado pelo Programa Especial de Formação Pedagógica de Professores de Filosofia, especialista (MBA) em Comércio Exterior, especialista em Direito Penal e Direito Processual Penal e mestre em Filosofia Ética.
[iii] Alguns autores, inclusive, utilizaram o determinismo para justificar teorias racistas que influciaram sobremaneira o modo de pensar ocidental, dando-lhe ares de cientificismo. No Brasil, por exemplo, pregou-se o estímulo da imigração européia nos séculos XVIII e XIX para se “branquear” a população brasileira, evitando-se a sua degeneração. À época, a população era em sua maioria de mestiços. O modelo ideal de raça superior era a européia. Um dos principais artífices dessa ideologia foi o baiano Raimundo Nina Rodrigues, profundamente influenciado pelas teorias do Conde de Gobineau.
[iv] As teorias dos frankfurtianos eram avançadas para a época, tanto que muitos dos autores (também de origem judaica) foram perseguidos pelo regime nazista de Adolf Hitler. Durante algum tempo, os autores se refugiaram em outros países. Por um período a Escola de Frankfurt teve de se alojar nos Estados Unidos. Atualmente, sua sede retornou a Frankfurt, na Alemanha.